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    11/27/2009

    Cinco anos deste space (e um pouco de história de vida)

    No dia 2 de Dezembro, daqui a dias, este space comemora cinco anos de vida.

    Quando chegarmos lá, serão, ao todo, sessenta meses, mais de mil e oitocentos dias…

    Dos sessenta meses, só em dois (Abril de 2005 e Outubro de 2006) não escrevi nada no blog.

    Em compensação, em dois meses (Agosto de 2007 e Agosto de 2008) escrevi vinte artigos no mês. Na verdade, Agosto parece ser o meu mês mais prolífico: a média de artigos nos cinco meses de Agosto foi de 15.73.

    Ao todo foram 480 artigos (481 com este) no blog, o que dá uma média mensal de oito artigos. Isso não contando os spaces filhotes, dos quais há varios…

    Também criei, nesse período, nada menos do que quarenta albuns de fotografia… E criei listas de filmes favoritos, com um pequeno resumo, o meu “credo liberal”, e outras coisas mais… E cada um tem seus albuns de fotografias.

    O começo deste space foi modesto, em 2 de Dezembro de 2004. Criei-o por sugestão da Márcia Teixeira, amiga querida e, naquela época, Gerente de Educação da Microsoft no Brasil. (Hoje a Márcia trabalha na sede latinoamericana da Microsoft em Fort Lauderdale, FL, EUA).

    Nessa ocasião eu estava na região de Seattle, WA, nos Estados Unidos, com a Ana Teresa Ralston, que trabalhava com a Márcia Teixeira no Grupo de Educação da Microsoft Brasil. Estávamos fazendo um treinamento, conduzido por Lester Joseph Foltos, na Puget Sound Center for Teaching, Learning and Technology, perto da sede da Microsoft, na grande Seattle (a sede da Microsoft é numa cidadezinha chamada Redmond, perto de uma cidade um pouco maior, chamada Bellevue, que fica perto de Seattle…).

    Passamos uma semana lá – semana que foi cheia de frutos, um dos quais foi trazer “Peer Coaching” (batizado como “Aprender em Parceria”) para apliçação, a partir de 2005 no Brasil, depois de sofrer várias modificações que o “tupiniquizaram” um pouco…

    Um outro fruto dessa semana foi o início de um romance bonito entre a Ana Tereza e o Les. Sou amigo dos dois, gosto muito deles, e sinto que circunstâncias complicadas envolvendo filhos, trabalho e uma distância de mais de 10.000 km. não tenham permitido que esse amor tivesse a continuidade natural que romances bonitos como esse normalmente têm… Estivemos, a Paloma e eu, com o Les, no início deste mês, em Salvador, e com a Ana Tereza, no final do mês (ante-ontem), em uma reunião da Comunidade Praxis, realizada no Colégio Dante Allighieri, em São Paulo. Abaixo, uma foto da Paloma com a Ana e o Les (e um figurante -- sorry, Alexandre…), tirada em 8 de Junho de 2005 – as circunstâncias são explicadas adiante:

    Alexandre, Ana, Eu e Les

    Les Foltos veio ao Brasil pelo menos duas vezes em 2005, para ministrar formação para educadores brasileiros. A primeira vez foi em Fevereiro (de 14 a 18), a outra em Junho (de 7 a 10). Em ambas as ocasiões veio acompanhado por Shelly, A formação foi ministrada em duas fases de uma semana cada (cinco dias úteis). Ambas as fases foram ministradas no Information Technology Academy Center (ITAC) da Microsoft, nas dependências do Bradesco Information Technology (BIT) da Fundação Bradesco (FB) em Campinas. (O BIT foi fundado nas dependências da antiga Fazenda Sete Quedas, de Amador Aguiar, que já abrigava a Escola da Fundação Bradesco em Campinas. O BIT fica no km 3,5 da Rodovia SP-73, antiga Estrada Campinas-Indaiatuba).

    Entre a primeira e a segunda fase da formação ministrada por Les Foltos começamos a multiplicar, por nós mesmos, a formação da primeira fase…

    De 10 a 12 de Maio (2005) fizemos um primeiro ensaio no SENAC da Lapa (Rua Tito, 54). Ali oferecemos a primeira parte da formação para um grupo seleto de educadores que já possuíam algum envolvimento com a Microsoft. Ana Tereza Ralston e eu (que vinha adaptando o material para as condições brasileiras)coordenamos uma equipe constituída por Mônica Gardelli Franco e Luciana Allan. Elas ministraram essa primeira experiência, que contou com uma fala da Ana e outra minha.

    Eis algumas das pessoas que participaram, como “vítimas”, dessa experiência do Aprender em Parceria brasileiro:

    Paloma Epprecht e Machado
    Mary Grace Martins
    Rose Benedita da Silva
    Cláudia Stippe
    Cláudio André
    Rubem Paulo Saldanha
    Sonia Bertocchi
    Nelly Mengalli
    Carla Massaretto
    Érika Neves Oliveira
    José Carlos (JC) Antonio
    Gilda Piorino

    De 31 de Maio a 3 de Junho (ainda 2005) essa formação ministrada no SENAC da Lapa foi repetida, desta vez no ITAC, da Fundação Bradesco, para professores da Fundação Bradesco. A equipe responsável foi novamente constituída por Mônica Gardelli Franco e Luciana Allan, mas agora com o apoio de Mary Grace Martins, Paloma Epprecht e Machado, Nelly Mengalli e Erika Neves Oliveira. As “vítimas”, neste caso, como já dito, foram professores da Fundação Bradesco (que, é bom que se diga, continuam replicando o programa internamente até hoje).

    De 7 a 10 de Junho (ainda 2005) o Les Foltos ofereceu, no ITAC, a segunda parte de sua formação, para quem havia feito a primeira fase, ou com ele, em Fevereiro, ou na experiência interna do SENAC da Lapa.

    Essas três ocasiões – 10 a 12 de Maio, no SENAC da Lapa, 31 de Maio a 3 de Junho, e 7 a 10 de Junho, ambas no ITAC – vieram a ser muito importantes para mim. Nelas passei momentos importantes com a Paloma. Na realidade, foram nossos primeiros momentos juntos. (A gente já havia se encontrado, entre 25 e 27 de Agosto de 2004, no TechEduc@tion, em São Paulo, onde dei uma palestra. A Mary Grace nos apresentou. Mas esse encontro foi rápido demais para me deixar uma impressão. Depois disso, só nos encontramos no SENAC da Lapa, onde ela chegou com a motocicleta dela. Chamou-me a atenção, primeiro, o fato de que uma moça tão linda e tão doce pudesse ser motoqueira…).

    No dia 11 de Maio de 2005 a Paloma e eu saímos juntos numa foto, pela primeira vez, almoçando na calçada de um restaurante em frente ao SENAC da Lapa (com um monte de outras pessoas).

    Na formação ministrada no ITAC, a Paloma tirou algumas fotos de mim (e de várias pessoas). Gosto, em especial, de uma em que estou na frente de um painel lindo da Microsoft (em que meninos brincando numa árvore imaginam que estão pilotando um avião a jato…).

    Eu mal imaginava, naquela ocasião, que ali, em Maio e Junho de 2005, estava nascendo um grande amor – que só iria desabrochar cerca de três anos depois, quando trabalhávamos juntos no Instituto Lumiar… Mas foi a impressão daqueles encontros de 2005 que me fez lembrar dela quando, em Julho de 2007, precisei escolher alguém para trabalhar comigo no Instituto Lumiar…

    O restaurante em que almoçamos no dia 11 de Maio na Lapa era chamado Cacilda, e ficava na mesma rua do SENAC, a Rua Tito, no número 237. O nome do restaurante se justifica porque o Teatro Cacilda Becker fica na mesma rua, no número 295.

    Eis a foto do nosso almoço, com a Paloma sentadinha do meu lado, tirada não sei por quem, com a câmera da Paloma, e três fotos do restaurante, em si, essas retiradas do site do restaurante, que pode ser visitado em http://www.cacildabarerestaurante.com.br.

    EC e PC SENAC Lapa 20050511

    Cacilda Bar e Restaurante

    Cacilda Bar e Restaurante 02

    Cacilda Bar e Restaurante 03

    Esta é a foto que a Paloma tirou de mim em Junho no ITAC em 2 de Junho, na frente do painel do “avião”:

    EC ITAC 20050602

    Como se pode ver, estou com barba… E estava mais magro…

    O painel era uma versão gigantesca desta foto:

    Microsoft 04

    Nessa mesma data, a Paloma tirou algumas fotos de mim dando uma entrevista. Eis uma delas:

    EC entrevista ITAC 20050602 - 1

    Na semana seguinte, foi a vez de a Paloma ser fotografada na frente de um dos painéis – este um painel de crianças pretendendo estar tocando numa “orquestra”:

    PC ITAC 20060609

    Desse sorriso, nunca mais me esqueci…

    É esta a foto que virou o painel que está atrás da Paloma:

    Microsoft 01

    Eis aqui, finalmente, nessa seqüência, uma foto da  Paloma com a Mary e a Rose (as duas melhores amigas dela, que também eram minhas amigas e viraram nossas “madrinhas”), tirada na segunda fase da formação do Les, em Campinas, no Meliá Comfort, em 31 de Maio de 2005:

    Uma linda amizade!

    [PS 1 - Escrevi a maior parte deste post no dia 26 de Novembro de 2009, Dia de Ação de Graças… Escrevi, nesse dia, o seguinte no FaceBook: “Thanksgiving Day... Dia de Ação de Graças. Feriado, nos Estados Unidos. Aqui, não. Que cada um procure, em introspecção, as grandes e pequenas coisas pelas quais deve ser grato, e que manifeste essa gratidão de alguma forma”.  Eu sou muito grato por essa história de amor semi-relatada aqui, no bojo da história do blog… E por muito mais.]

    [PS 2 – Ouço, agora, com a Paloma, na madrugada de 27 de Novembro de 2009, no Programa do Jô, uma cantora portuguesa fabulosa: Mariza. É fadista, mas cantou uma música brasileira com perfeição e com uma emoção altamente contagiante… Ver http://www.mariza.com/]

    Em São Paulo, na madrugada de 27 de Novembro de 2009

    11/25/2009

    A mágica da leitura

    Confúcio Aires Moura, que, se não me engano, é prefeito de Ariquemes, RO, colocou no FaceBook:

    “Não é fácil fazer o povo ler. Melhor a TV. O Ratinho. Média de l livro por ano por brasilieiro adulto. Aqui lancei o programa Cuia do Livro. Desenhamos uma biblioteca em duas rodas, empurrada por uma pessoa, que fica em cada rua, com 150 titulos e além de lieratura infantil. São cinco cuias. Só pra começar. Vamos ver no que dá.”

    Respondi:

    “Ninguém consegue ‘fazer o povo ler’, Confúcio, se o povo não quer ler, se acha que tem algo mais importante, interessante ou urgente para fazer. O desafio é ajudar o povo a descobrir as coisas importantes e interessantes que o povo pode aprender lendo... Quando alguém descobre isso, a leitura se torna uma necessidade urgente. Mas essa descoberta precisa começar quando a gente é pequeno, antes de a gente aprender a ler, quando alguém lê para a gente... Para que descubramos a mágica da leitura, não basta que alguém nos conte histórias: é necessário que alguém nos leia histórias.”

    Quem quiser participar dessa importantíssima discussão (Como conseguir que o povo leia, goste de ler, leia com e por prazer?), por favor, comente, aqui no blog (ec.spaces.live.com) ou na transcrição desta mensagem no próprio FaceBook.

    Em São Paulo, 25 de Novembro de 2009

    11/24/2009

    Wal-Mart vs Amazon

    Abaixo, matéria retirada de The New York Times de hoje. 

    É incrível.

    Há no momento uma guerra de preços entre o todo-poderoso Wal-Mart, o maior varejista do mundo, e… a Amazon – que, de uma livraria on-line passou a ser um shopping center online.

    Fantástico. Quem diria?

    A guerra de um modelo tradicional de negócios com um modelo de negócios inovador, baseado na tecnologia, orientado para o futuro.

    O Wal-Mart tem vendas anuais de 405 bilhões de dólares. A Amazon, de 20 bilhões. Mas o Wal-Mart sabe que está lutando pela sua sobrevivência… Não hoje – mas no futuro… A Amazon está lutando para ganhar mercado… O Wal-Mart, para não perder mercado…

    É fabuloso poder observar essa guerra. O consumidor será o maior beneficiado.

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    The New York Times

    November 24, 2009

    Price War Brews Between Amazon and Wal-Mart

    By BRAD STONE and STEPHANIE ROSENBLOOM

    Ali had Frazier. Coke has Pepsi. The Yankees have the Red Sox.

    Now Wal-Mart, the mightiest retail giant in history, may have met its own worthy adversary: Amazon.com.

    In what is emerging as one of the main story lines of the 2009 post-recession shopping season, the two heavyweight retailers are waging an online price war that is spreading through product areas like books, movies, toys and electronics.

    The tussle began last month as a relatively trivial but highly public back-and-forth over which company had the lowest prices on the most anticipated new books and DVDs this fall. By last week, it had spread to select video game consoles, mobile phones, even to the humble Easy-Bake Oven, a 45-year-old toy from Hasbro that usually heats up small cakes, not tensions between billion-dollar corporations.

    Last Wednesday, Wal-Mart dropped the price of the oven to $17, from $28, as part of its “Black Friday” deals. Later the same day, Amazon cut its price, which had also been $28, to $18.

    “It’s not about the prices of books and movies anymore. There is a bigger battle being fought,” said Fiona Dias, executive vice president at GSI Commerce, which manages the Web sites of large retailers. “The price-sniping by Wal-Mart is part of a greater strategic plan. They are just not going to cede their business to Amazon.”

    Retailers are already fighting for every dollar consumers spend this holiday season. Sales are not expected to drop as much as they did last season, but the National Retail Federation, an industry group, predicts that they will decline 1 percent, to $437.6 billion.

    Of course, Wal-Mart and Amazon are fundamentally different companies, and for now, at least, Amazon poses little immediate threat to the behemoth from Bentonville, Ark.

    Wal-Mart, with $405 billion in sales last year, dominates by offering affordable prices to Middle America in its 4,000 stores. Amazon is a relative schooner to Wal-Mart’s ocean liner, with $20 billion in sales, mostly from affluent urbanites who would rather click with their mouse than push around a cart.

    This fight, then, is all about the future. Rapid expansion by each company, as well as profound shifts in the high-tech landscape, now make direct confrontation inevitable. Though online shopping accounts for only around 4 percent of retail sales, that percentage is growing quickly. E-commerce did not suffer as deeply as regular retailing during the economic malaise, and it is recovering faster than in-store shopping. People are also shopping on smartphones and from their HDTVs.

    Amazon, based in Seattle, has harnessed all of these trends, and is also behaving more like a traditional retailer. This fall it expanded its white-labeling program, slapping the Amazon brand onto audio and video cables and other products, and introduced same-day shipping in seven cities, trying to replicate the instant gratification of offline shopping.

    For rivals both real and putative, Amazon is expanding its slice of the retail pie at what must be an alarming rate. In the third quarter of this year, regular retail sales dipped by about 4 percent and e-commerce over all was flat. But Amazon sales shot up 24 percent, sending its shares soaring.

    More important for Wal-Mart, sales in Amazon’s electronics and general merchandise business — which competes directly with much of the selection in Wal-Mart stores — were up 44 percent. Wal-Mart does not break out Web sales, but it has been reported that its online business produces revenue of several billion dollars.

    “If you are Wal-Mart, you want to have your proportional piece of this change in consumer behavior,” said Scot Wingo, chief executive of ChannelAdvisor, which helps retailers sell online. “You can even paint a scenario where e-commerce one day is 15 percent of all shopping, and that could really start to erode Wal-Mart’s offline business.”

    That is why many analysts are unsurprised that Wal-Mart executives have placed Amazon squarely in their sights, with public throw-downs in interviews and pointed discounting.

    It began last month with what appeared to be a public-relations-oriented competition on book prices, with both companies (along with Target, based in Minneapolis) dropping prices on books like “Under the Dome,” by Stephen King, to below $9.

    The companies then began jousting over the prices of DVDs. Less visibly, there were isolated skirmishes, some of which also lowered prices in Wal-Mart’s stores. Wal-Mart offered a $15 gift card with a purchase of the new video game Call of Duty: Modern Warfare 2 — and Amazon matched soon after.

    Wal-Mart and Amazon then both offered the Xbox 360 gaming console for $199 — with a $100 gift card thrown in. Last week, they both began offering the new Palm Pixi phone for around $30 — nearly $175 off the suggested retail price.

    Of course, online retailers have always competed on price, monitoring rivals’ sites for changes and adjusting accordingly.

    “We’ve grown up in a supercompetitive environment where customers can check prices with one click, and we like it that way,” said Craig Berman, an Amazon spokesman.

    But rhetoric from Wal-Mart itself has stoked the flames of rivalry. In an interview last week, Raul Vazquez, the president and chief executive of Walmart.com, asserted that the site was growing faster than Amazon’s; suggested that Amazon Prime, a two-day-shipping service that costs $80 a year, was too expensive; and said that it was “only a matter of time” before Wal-Mart dominated Web shopping.

    “Our company is based on low prices,” Mr. Vazquez said, laying down a challenge. “Even in books, we kept going until we were the low-price leader. And we will do that in every category if we need to.”

    Friction between the two companies is not entirely new. In the late 1990s, Amazon assembled at least some of its knowledge of retail supply chains by hiring away Wal-Mart employees. Wal-Mart sued, and the two companies settled privately.

    In a battle over prices, Wal-Mart is on more familiar turf. With its unmatched size, Wal-Mart has more leverage than anyone to negotiate better terms with suppliers. Offering the lowest price “is in our DNA,” Mr. Vazquez said.

    Among Amazon’s advantages are a sophisticated distribution network built specifically for Web shopping, the thousands of outside sellers who offer products on Amazon.com, and a recognizable online brand. Amazon’s customers also do not pay sales tax in most states, a crucial advantage that companies like Wal-Mart, and their lobbyists, are trying to eliminate.

    Jeffrey P. Bezos, Amazon’s chief executive, is fond of saying that retailing is a big market with room for many winners. But for Ms. Dias, from GSI Commerce, Wal-Mart’s campaign against Amazon is overdue. As an executive at the now-defunct Circuit City chain, and as an adviser to traditional retailers today, she says she has watched many companies overlook the long-term threat posed by Amazon.

    “We have to put our foot down and refuse to let them grow more powerful,” she said. “I applaud Wal-Mart. It’s about time multichannel retailers stood up and refused to let their business go away.”

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    Em São Paulo, 24 de Novembro de 2009

    Os meandros da visão jurídica do Ministério da Saúde

    Embora eu seja um defensor ferrenho da liberdade de cada um se meter em qualquer coisa que seja de seu interesse, independentemente de suas atribuições formais, devo reconhecer que estranhas coisas acontecem quando um ministério se mete a discutir assuntos fora de suas atribuições. Vejam a notícia adiante, publicada na Folha de S. Paulo de hoje.

    Para o Ministério da Saúde, transmitir o virus da AIDS não é crime – ainda que o transmissor saiba que é portador do virus e conscientemente mantenha relações sexuais com alguém que não é portador(a) do virus.

    Para o ministério, para que a transmissão do HIV seja considerada crime é necessário comprovar que o contaminador teve a intenção de passar o vírus para o(a) parceiro(a) – algo que, aqui entre nós, é virtualmente impossível de comprovar, sem confissão. Em outras palavras, se o contaminador nega que teve a intenção de contaminar, deverá ser considerado inocente, mesmo que:

    • O portador saiba que é portador do virus;
    • Mesmo assim, o portador mantém relações sexuais não protegidas com um(a) parceiro(a) não contaminado(a);
    • O(a) parceiro(a) morre em decorrência da transmissão do virus e a conseqüente contaminação.

    Imaginemos uma analogia.

    • Eu encho a cara de bebida num bar e fico para lá de Badgad de bêbado;
    • Eu resolvo ir para casa dirigindo o meu carro e, no caminho, eu saio da calçada e atropelo uma pessoa que esperava o ônibus;
    • A pessoa atropelada morre em decorrência do atropelamento;
    • Eu afirmo que não tive a intenção de matar a pessoa que esperava o ônibus.

    Segundo o Ministério da Saúde, eu também deveria ser considerado inocente dessa morte. Absurdo.

    Concordo totalmente com a posição de Damásio de Jesus, descrita na matéria abaixo. É uma vergonha a posição do Ministério da Saúde. É uma vergonha também a posição do Coordenador da tal ONG Grupo pela Vida. Ela só pensa na vida dos aidéticos – não da vida daqueles que sofrem as conseqüências de aidéticos que se comportam irresponsavelmente.

    Eis a matéria da Folha,

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    Folha de S. Paulo
    24 de Novembro de 2009

    Para ministério, transmitir Aids não é crime

    Pasta da Saúde recomendará ao Judiciário não criminalizar quem saiba ser soropositivo e tenha tido relações sexuais sem proteção

    Ministério sustenta que, para que a transmissão do HIV seja considerada crime, é necessário comprovar a intenção de passar o vírus

    ANGELA PINHO
    JOHANNA NUBLAT
    DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

    A transmissão do HIV (vírus da Aids), mesmo que por uma pessoa que saiba ser portadora do vírus e tenha mantido relações sexuais sem proteção, não deve ser criminalizada por si só. Essa é a posição defendida pelo Ministério da Saúde, que prepara uma nota pública sobre o tema endereçada a profissionais da Justiça.
    Recentemente, em São Paulo, um homem foi condenado por homicídio doloso (em que há intenção de matar) por ter supostamente transmitido o vírus HIV à sua amante.

    Ele disse que não contou a ela ser portador do vírus porque estava apaixonado e tinha medo de perdê-la, mas acabou sendo condenado a dois anos e meio de reclusão. Casos como esse vêm se repetindo no Judiciário, e ao menos um já chegou ao Supremo Tribunal Federal, onde aguarda julgamento.

    Para Eduardo Barbosa, diretor-adjunto do Departamento de DST, Aids e Hepatite do Ministério da Saúde, para que a transmissão seja considerada crime é preciso comprovar que o soropositivo teve a intenção de passar o vírus.

    "Num contexto cotidiano, das relações sexuais afetivas, é muito difícil você estabelecer uma culpa. É possível analisar particularmente dentro de uma perspectiva de intencionalidade. Na medida em que tiver essa intencionalidade de ferir e transmitir, é diferente."

    Ele diz também que é preciso considerar a existência de "fatores psicossociais", o estágio de tratamento da doença e a corresponsabilidade do parceiro de também se proteger.

    A nota vai contra uma tendência mundial de criminalizar quem transmite a doença, afirma Barbosa. "Alguns países acabam adotando essas medidas como se fosse possível, isolando e culpabilizando, controlar a epidemia."

    Dolo eventual

    O professor de direito penal Damásio de Jesus discorda dessa tese. Na sua opinião, se ficar provado que o soropositivo sabia que tinha o vírus e ainda assim não se protegeu nas relações, deveria ser acusado de tentativa de homicídio ou, caso a vítima tenha morrido, de homicídio.

    Sua tese se aplica mesmo aos casos em que o portador do HIV não tinha a intenção de transmitir o vírus, mas não contou o fato ao parceiro ou à parceira por vergonha ou medo de se expor. Nesse caso, para ele, seria aplicada a tese de dolo eventual, em que o acusado não tem intenção de cometer o crime, mas assume o risco de ele ocorrer.

    Mário Scheffer, coordenador da ONG Grupo Pela Vida, apoia a iniciativa do ministério e defende que a eventual responsabilização do soropositivo só pode ser feita após a comprovação dos seguintes pontos: que a pessoa sabia que era portadora do vírus e que podia transmiti-lo, que teve relações sexuais desprotegidas, que o parceiro ou parceira está infectado, que os dois tiveram relações sexuais desprotegidas, que ele não tinha HIV antes do relacionamento e que ambos têm variedades de HIV compatíveis.

    "Se for comprovada a intencionalidade, aí cabe à Justiça avaliar o caso", diz Scheffer.

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    Em São Paulo, 24 de Novembro de 2009

    Mudança NA e DA Educação

    Transcrevo, adiante, excelente artigo do Rubem Alves sobre o vestibular.

    Faço-o, não porque o tema especialmente me entusiasme.

    A razão da transcrição está no fato de que, ao discutir o vestibular, o Rubem Alves traça considerações importantes sobre uma questão mais ampla, que, esta sim, me entusiasma: a questão das mudanças NA e DA educação.

    Aproveito o “gancho” do Rubem para abordar essa questão.

    A educação brasileira está em estado calamitoso. Todo mundo sabe disso. Ninguém ousa discordar. Já está assim há algum tempo.

    E, pessoalmente, não acho que seja apenas o sistema público de educação que esteja a requerer mudanças. A educação das escolas (e redes de escolas) privadas também é muito ruim – com honrosas exceções.

    Dê-se crédito ao então Ministro da Educação, Paulo Renato Costa Souza, que, em sua longa gestão de oito anos frente ao Ministério da Educação, durante o governo FHC, tentou promover a melhoria da educação brasileira de uma maneira sistêmica, abordando a questão do ângulo (que me parece correto) da mudança da educação como um todo – não de mudanças parciais, pequenas, graduais, superficiais, incrementais, aqui e ali (hoje se muda uma porta, amanhã uma janela…).

    As mudanças parciais, pequenas, graduais, superficiais, incrementais, aqui e ali, são o que o Rubem Alves chama (biblicamente) de remendos: elas tentam colocar tecido novo para tapar buraco de tecido velho, já podre…  Não adianta, no buraco “Acesso ao Ensino Superior”, colocar um remendo de tecido novo. O problema não é aquele buraco, especificamente: o problema está em todo o tecido que forma a educação brasileira, que está literalmente podre.

    Cito o Rubem Alves citando outro autor (a passagem inteira está adiante):

    “O problema não é o buraco; é a podridão do tecido. Nas palavras de Jay W. Forrester, cientista, professor de administração do MIT (Massachusetts Institute of Technology): "Em situações complicadas, esforços para melhorar as coisas frequentemente tendem a torná-las piores, algumas vezes muito piores e – ocasionalmente - calamitosas".

    David Hargreaves, em um pequenino livro chamado Education Epidemic, disponível na Internet, me ajudou a ver essa questão da forma que hoje a vejo – que é basicamente idêntica à forma em que o Rubem Alves a vê.

    Hargreaves me ajudou a ver que há dois tipos de mudanças:

    • Umas acontecem dentro de um paradigma e, portanto, são parciais, pequenas, lentas, graduais, superficiais, incrementais, reformando, mas não transformando o paradigma
    • Outras são sistêmicas, maiores, rápidas, súbitas, profundas, abrangendo o todo, mexendo em tudo, e subvertem o paradigma, levando não à sua reforma, mas à sua transformação e substituição

    O que faz com que passemos de um tipo de mudança para o outro é a dinâmica de inovação. O seguinte quadro ilustra o que quero dizer:

    image

    No caso da educação brasileira, portanto, vemo-nos diante da seguinte alternativa:

    • Realizar mudanças dentro do atual paradigma da escola, ficando próximos da prática atual, reformando aspectos não-fundamentais da escola, e, portanto, promovendo mudança NA educação
    • Mudar o paradigma, transformando, pela inovação, a própria educação (e a instituição escolar – reinventando a escola), de modo a alcançar, assim, a mudança DA educação

    Não há mais dúvida de que as mudanças que ocorreram no mundo, inclusive no Brasil, nos últimos sessenta e cinco anos (desde o fim da Segunda Guerra Mundial, mais ou menos) são tantas, de tamanho alcance e profundidade, que estão a justificar a escolha da segunda alternativa. Só na área das tecnologias de informação e comunicação, temos, nesse período, a popularização do rádio e do telefone, a invenção da televisão, a invenção do computador digital, a miniaturização dos componentes eletrônicos que permitiu o aparecimento de toda sorte de equipamento eletrônico-digital, como o próprio microcomputador e o telefone celular, a expansão das telecomunicações via satélite, a criação de redes de computadores de alcance global, como a Internet, a invenção do e-mail, da Web, das mensagens de texto/áudio/vídeo instantâneas, as mídias sociais...

    Todas essas mudanças alteraram profundamente a informação disponível, a forma em que acedemos a ela, as maneiras com que nos comunicamos uns com os outros, trabalhamos e nos divertimos – enfim, a forma em que vivemos. É difícil entender como alguns podem imaginar que essas mudanças não nos obrigam a rever as formas em que aprendemos e, por conseguinte, a reinventar a educação (e, dentro dela, a escola). Não será possível nos safar com pequenos ajustes aqui e ali na instituição escolar, como por exemplo, a introdução da tecnologia, a inserção de alfabetização digital ou da fluência tecnológica no currículo, a formação de professores para dominar o manejo técnico da tecnologia, etc. NÃO: as mudanças que a nova realidade vai obrigar a escola a realizar são mais amplas, profundas, e radicais do que essas. Elas envolvem uma mudança de paradigma.

    Jay Allard, um dos vice-presidentes da Microsoft, disse, em uma entrevista à revista Business Week de 4 de Dezembro de 2006, o seguinte (p.64):

    “Para mudar o mundo, precisamos imaginá-lo diferente do que é hoje. Se usarmos, nessa visão, muito do conhecimento e da experiência que nos trouxeram até aqui, terminaremos exatamente onde começamos. ... Para ter um resultado diferente, temos de olhar às coisas de uma perspectiva radicalmente diferente”

    Concordo plenamente com essa afirmação. Temos de reconhecer que as mudanças por que o mundo tem passado nos últimos tempos nos obrigam a ter um olhar diferente para as coisas da educação – caso contrário, continuaremos a ter uma instituição escolar anacrônica.

    O meu trabalho nos últimos 30 anos tem se concentrado, em grande medida, no seguinte:

    • Demonstrar a necessidade de mudança de paradigma na educação, à vista das mudanças radicais, amplas e profundas, que aconteceram no mundo nos últimos 65 anos, alavancadas, em grande parte pela tecnologia, e que justificam a alegação de que ultrapassamos a Sociedade Industrial e vivemos em uma nova era, a Sociedade da Informação ou a Economia do Conhecimento;
    • Definir os elementos essenciais de um novo paradigma para a educação que leve em conta plenamente as mudanças, nos últimos 65 anos, do contexto em que a educação acontece, e que contemple uma nova visão da educação e uma nova forma de entender como aprendemos, que leve a um reconhecimento cabal do papel da tecnologia na vida, no trabalho, no lazer e, naturalmente, na aprendizagem;
    • Detalhar as mudanças necessárias dos ambientes de aprendizagem (vale dizer, da escola, entre eles) para que eles se reinventem, de forma realmente inovadora, tornando-se coerentes com a nova visão e estratégia da educação e com nosso atual entendimento de como aprendemos, especialmente em contextos ricos em tecnologias de informação e comunicação.

    O seguinte diagrama ilustra essa proposta:

    image

    Em seu artigo, o Rubem Alves diz, evocando a famosa controvérsia Kühn-Popper na área da epistemologia da ciência:

    "Por séculos os astrônomos tentaram remendar os buracos que havia na teoria que punha a Terra no centro do universo. Mas não adiantava. Os buracos ficavam cada vez maiores. Tudo se resolveu quando apareceu um novo alfaiate que jogou fora a roupa velha podre e costurou uma roupa nova."

    Hoje em dia, dada a complexidade da vida, que nos exige especializações, o problema está bem mais complicado... Não basta apenas um alfaiate para costurar a roupa nova. Precisamos de toda uma fábrica de confeções em que roupas, de diversos tipos, são produzidas por máquinas sofisticadas (os verdadeiros alfaiates de hoje) que agem segundo as especificações dos designers (estes, sim, em demanda e prestígio cada vez maiores). Eu, confesso com humildade, me vejo muito mais como aprendiz de designer educacional do que como alfaiate, propriamente dito. E, depois, são necessários marketeiros e vendedores para convencer o povo a comprar as novas roupas; alfaiates (agora, sim) e costureiros para fazer os ajustes nas roupas que permitam que elas sejam usadas com conforto;  profissionais que nos treinem na postura e no andar para que as roupas se mostrem atraentes e elegantes mesmo em corpos fora da curva de normalidade; e fomadores de opinião que enfatizem a necessidade de andarmos bem vestidos, na moda, em sua necessária variedade, e de, portanto, usarmos bem as roupas novas e estilosas que compramos... Esse o preço que nos cobra a modernidade (ou será a pós-modernidade?).

    Onde ficam os educadores aí? Li, um dia desses, que dentro de algum tempo os educadores de hoje precisarão ser substituídos por nove ou dez profissionais mais especializados...

    Abaixo, o artigo do Rubem Alves. (Rubão: güenta firme aí). 

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    Folha de S. Paulo
    24 de Novembro de 2009

    RUBEM ALVES

    "...Quero é fome..."


    Em nome de uma suposta excelência intelectual, o vestibular faz estragos nas cabeças dos jovens


    EM primeiro lugar, preciso dizer que sou teimoso. Quando estou convencido de uma ideia, não desisto fácil. Já faz 25 anos que luto contra um dragão. Inutilmente. Até hoje a besta não deu sinais de fraqueza, muito embora concorde em trocar suas escamas.

    O fato é que, em nome de uma suposta excelência intelectual, o dragão faz estragos nas cabeças dos jovens. Minha primeira proposta para acabar com essa besta chamada "vestibular" data de 1984 num livrinho pobre, estórias de quem gosta de ensinar.

    Em segundo lugar, preciso dizer que não acredito em melhorias e reformas. Adoto é a sabedoria evangélica enunciada há quase 2.000 anos: "Não se costura remendo de tecido novo em roupa podre. Porque o remendo de tecido novo rasga o tecido podre e o buraco fica maior do que antes".

    O problema não é o buraco; é a podridão do tecido. Nas palavras de Jay W. Forrester, cientista, professor de administração do MIT (Massachusetts Institute of Technology): "Em situações complicadas, esforços para melhorar as coisas frequentemente tendem a torná-las piores, algumas vezes muito piores e -ocasionalmente- calamitosas".

    É preciso jogar fora a roupa podre e costurar uma roupa nova. Não é isso que é a muito falada "construção do conhecimento"? Na história da ciência é assim que acontece.

    Por séculos os astrônomos tentaram remendar os buracos que havia na teoria que punha a Terra no centro do universo. Mas não adiantava. Os buracos ficavam cada vez maiores. Tudo se resolveu quando apareceu um novo alfaiate que jogou fora a roupa velha podre e costurou uma roupa nova.

    Quando se anunciou -meses atrás- que os vestibulares estavam com os dias contados, fiquei muito feliz. E até escrevi um artigo dando minhas felicitações ao senhor ministro da Educação.

    "Agora os vestibulares tiveram o seu fim decretado. Fico feliz porque há mais de 20 anos eu tenho estado lutando por isso. (...) Mas tenho um receio. Imaginem um restaurante que servia uma comida de gosto ruim, indigesta e que provocava vômitos e diarreia. O dono do restaurante -diante das queixas dos seus clientes- resolve fazer uma reforma na forma como a comida era servida: trocou as panelas velhas por panelas novas e a louça branca antiga por uma louça azul. Mas a comida continuou a mesma... Será que é possível que isso aconteça?"

    Acho que é isso que está acontecendo. Confesso que não percebi a mudança na comida. Percebi, sim, que a mesma comida será servida de maneira diferente. Trocou-se o varejo pelo atacado. E foi por causa disso que aconteceu aquela confusão que terminou com a anulação das provas.

    A importância dos vestibulares, como os vejo, não se encontra no fato de serem eles portas de entrada para as universidades.

    Sua importância (des)educacional se encontra no fato que eles, os vestibulares, determinam todo o processo escolar que os antecede. Que isso é verdade se revela no fato de que os pais procuram escolas que preparem seus filhos para o vestibular, e não escolas que os eduquem. A menos que eles - os pais - identifiquem o treinamento para os vestibulares com a educação...

    Para mim, fim de vestibular não é a comida de sempre servida em louça nova. A filosofia do meu projeto foi a Adélia que escreveu: "Não quero faca nem queijo. Quero é fome..."

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    Em São Paulo, 24 de Novembro de 2009

    11/18/2009

    A verdade – entre a dúvida e a certeza

    Encontrei um twit no FaceBook hoje, já devidamente retuitado, aparentemente mais de uma vez, que me fez querer voltar a um tema sobre o qual já escrevi bastante aqui. O twit contém a seguinte frase de André Gide, em Inglês:

    "Believe those who are seeking the truth; doubt those who find it." (“Acredite naqueles que buscam a verdade; duvide daqueles que a encontram”).

    A frase original, segundo me informa a WikiPedia, é: Croyez ceux qui cherchent la vérité, doutez de ceux qui la trouvent”, e foi retirada do livro Ainsi soit-il ou Les Jeux sont faits (André Gide, éd. Gallimard, Paris, 1952, p. 174).

    Gosto de frases assim, porque elas parecem sugerir que procurar a verdade é mais meritório do que encontrá-la, que parece análoga a outra frase de que gosto, que afirma que a felicidade está no caminhar, mais do que no chegar ao destino…

    Mas, confesso que,nessa questão fico meio dividido em meio às idéias de três filósofos (todos já falecidos) que admiro muito: David Hume, Karl Popper e Ayn Rand.

    No caso do primeiro e mais antigo desses filósofos, David Hume (1711-1776), admiro muito a pessoa e as idéias. No caso dos outros dois, admiro mais as idéias do que as pessoas.

    Karl Popper (1902-1994) provavelmente endossaria a frase de André Gide, sem tirar nem pôr. Foi ele que, em sua obra, defendeu aqueles que são humildes buscadores da verdade e criticou aqueles – os arrogantes – que se julgavam seus orgulhosos possuidores.

    Que Popper, como pessoa, se comportasse como um orgulhoso possuidor da verdade, que não admitia a contestação nem de seus inimigos nem de seus discípulos, para mim não importa: aquilo que me interessa, no caso dele, são suas idéias, não sua biografia.

    O que sobremaneira me interessa nas idéias de Popper é o seu falibilismo epistemológico. Exceto na lógica (incluindo a matemática), onde a verdade é plenamente encontrável porque, na realidade, a lógica define as regras do jogo racional, nossos julgamentos, pontos de vista, hipóteses, teorias, etc. devem, segundo ele, poder ser sempre refutadas ou falsificadas pela realidade. Se nossos julgamentos, etc. não forem refutáveis ou falsificáveis pela realidade, não dirão nada, não proibirão nenhum estado de coisas, serão vazios de conteúdo, totalmente vácuos – isto é, serão totalmente fajutos. Em outras palavras: a irrefutabilidade ou infalsificabilidade de nossos julgamentos, etc., longe de ser um mérito deles, é, para eles, um defeito epistemológico insanável – um pecado mortal no plano da epistemologia.

    Essa tese me fascina – porque ela me permite voltar a fazer contato com as idéias do filósofo que, dentre todos, mais me fascina, como filósofo e como pessoa: David Hume, sobre cujas idéias escrevi minha tese de doutoramento em 1970-1972 (defesa: 8 de Agosto de 1972, University of Pittsburgh). As idéias de Hume eram céticas – e ele, como pessoa, se comportava com a humildade intelectual que um cético deve ter (afinal, ele afirma não saber nada – vai se orgulhar de quê?) e Popper diz ser essencial nos eternos buscadores da verdade.

    Hume, porém, se considerava um cético mitigado, não radical – porque ele achava que a natureza humana era muito bem feita. Apesar de sermos capazes de conquistas racionais maravilhosas, somos, em última instância, movidos pelas emoções – pelas paixões violentas que movem alguns, ou, como ele preferia, pelos sentimentos brandos e calmos que devem mover os que humildemente buscam a verdade sem nunca encontrá-la. Segundo ele, a natureza colocou em nós (pelo menos na maioria de nós) uma tendência a nos inclinar para o bem e para o certo… Assim, nos comportamos da maneira certa, a maior parte do tempo, mesmo que tenhamos dúvidas racionais sobre se aquele comportamento é, de fato, correto… Sabemos, por exemplo, dizia ele, que a lei empírica que afirma que “se saltarmos da janela do terceiro andar de um prédio, vamos nos esborrachar lá embaixo” pode ser falsa, porque é, em princípio, refutável e falsificável pelos fatos, não sendo, portanto, necessariamente verdadeira. Mas nossa natureza humana é feita de tal forma que ninguém salta do terceiro andar confiando apenas na refutabilidade ou falsificabilidade da lei…

    Assim, Hume é um cético que mantém a humildade dos buscadores da verdade que acreditam que nunca vão encontrá-la, daqueles que socraticamente afirmam saber que nada sabem, Mas, no fundo, ele se comporta como se houvesse coisas que ele sabe – e que ele, de alguma forma, sabe que sabe… Isso introduz uma contradição em sua obra? Creio que sim. Mas é admirável que ele a tenha admitido, tendo, conscientemente, se recusadoa se livrar dela. 

    Popper chegou a afirmar, peremptoriamente, que a verdade existe e que é possível encontrá-la – mas em seguida qualificou sua afirmação dizendo que, no entanto, nunca teremos justificação bastante para afirmar que a encontramos…

    Como Popper, Ayn Rand (1905-1982) não era humilde, como pessoa. Longe disso. Brigou com todo o mundo, excomungou discípulos que discordaram dela. Seu herdeiro intelectual só obteve o posto às custas de total servilismo intelectual e pessoal. Como Popper, suas idéias também apontam para a postura de quem busca a verdade. Mas diferentemente de Popper, ela acreditava (do ponto de vista epistemológico) ser perfeitamente possível encontrar ou alcançar a verdade. Na realidade, ela não tinha dúvida de que a havia encontrado… Sua busca da verdade, portanto, não era humilde… não era uma busca de quem sabe que não vai encontrá-la (como Hume), nem mesmo uma busca de quem temia que, se a encontrasse, não iria reconhecê-la como tal (como Popper). Epistemologicamente, ela era mais otimista do que Popper – e infinitamente mais otimista do que Hume…

    Ou seja, em Ayn Rand temos, na pessoa, o orgulho de quem encontrou a verdade – e, portanto, não a busca mais. Segundo Gide, isso nos deveria fazer duvidar dela. Na obra de Ayn Rand ela procura nos mostrar por que estaria justificada em afirmar que havia encontrado a verdade. Tendo a concordar que ela está certa em tanta coisa, mas…

    Com Popper e com Rand, e contra Hume, estou convicto de que a verdade existe e de que é possível aceder a ela. Mas, como disse, fico meio dividido entre, de um lado, a tese popperiana de que, mesmo que a verdade exista e seja encontrável, nunca poderemos ter certeza de tê-la encontrado, e, de outro lado, a tese randiana de que a verdade existe, é encontrável, e é possível ter certeza de que a encontramos (embora a justificativa dessa certeza seja extremamente complexa do ponto de visto filosófico).

    Fico dividido, humeanamente, no meio: humildemente buscando a verdade, ao mesmo tempo duvidando, intelectualmente, de todas as verdades, mas com uma tendência forte a acreditar que algumas aspirantes à verdade estão bem mais próximas dela do que outras… A questão que não consegui resolver ainda é se essa tendência é, como afirmava Hume, simplesmente uma característica não-racional de minha natureza humana, ou se ela é,racional como pretende Rand – pelo menos em parte….

    Talvez seja por isso que, mesmo quando julgo ter encontrado a verdade, procuro não ser arrogante – porque, quem sabe, eu estou errado e aquela besta arrogante ali do lado pode estar certa. 

    Se o relato da coisa ficou meio confuso, talvez seja porque a coisa seja confusa em si, não havendo como desconfundi-la sem distorcer a realidade…

    Em São Paulo, 18 de Novembro de 2009

    11/14/2009

    A tuberculose do faraó e outros bichos

    O besteirol que Antonio Cícero condena no artigo transcrito abaixo, publicado na Folha de hoje (14/11/2009), é antigo.

    Na minha modesta opinião, a onda começou com o livro The Social Construction of Reality, de Peter L. Berger e Thomas Luckmann, publicado em 1966.

    Esse pessoal quer sempre chamar a atenção: por isso dá nome um nome chamativo aos livros, ao qual, depois, acabam tendo de renunciar.

    No caso de Berger & Luckmann, o nome do livro era (em Português) A Construção Social da Realidade. A impressão que se tem, ao ler o título, é de que entidades como a Terra, a Lua, o Sol, os minerais, os vegetais, a sociedade, os próprios seres humanos – a Realidade – são todos “socialmente construídas”. Ou seja, se não houvesse os seres humanos vivendo em sociedade, não haveria a Terra, a Lua, o Sol, etc.

    Ao se ler o livro, fica-se a impressão de que os autores, embora pretendam estar falando da construção social da realidade, estão mostrando apenas, e se tanto, que a Realidade Social é construída. Mas isso acredito que ninguém conteste… A Realidade Social é dependente dos seres humanos vivendo em sociedade…

    No artigo transcrito abaixo, Antonio Cícero discute algumas teses absurdas dessa anta que é Bruno Latour – autor de Vida de Laboratório: A Construção Social dos Fatos CientíficosSubseqüentemente ele renegou o sub-título do livro. Mas as teses principais do livro, não. E as teses do livro corroboram o sub-título que ele afirma ter renegado…

    Enfim: O livro de Latour parece sugerir que não há fatos, que todos os fatos são socialmente construídos… Quando se vai ler o texto com atenção, se percebe que ele postula a construção social dos fatos científicos. Como a ciência é uma produção humana, e nós os humanos vivemos em sociedade, os fatos existiam antes, mas não como científicos… Funny. Como é que alguém se torna famoso dizendo esse besteirol???

    Deliciem-se com o artigo de Antonio Cícero.

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    http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq1411200926.htm

    Folha de S. Paulo

    Antonio Cicero

    A tuberculose do faraó


    Para o idealista Latour, natureza e realidade são o que cientistas decidem que sejam


    POR OCASIÃO da morte de Lévi-Strauss, o antropólogo francês Philippe Descola, interrogado sobre "quem seriam os gênios de hoje", citou, em primeiro lugar, Bruno Latour. Mal pude crer no que li. A primeira coisa que me vem à mente, sempre que leio ou ouço o nome de Latour, é o título do excelente livro de Alan Sokal e Jean Bricmont, "Imposturas Intelectuais".

    E, embora ele tenha merecido todo um capítulo nessa obra, esse título me vem à cabeça por outra razão: é que, anos atrás, caiu-me nas mãos um exemplar de um dos mais ridículos livros que já li: o "Jamais Fomos Modernos (Ensaio de Antropologia Simétrica)", de Latour, do qual me poupo -e ao leitor- de falar.

    Estaria Descola sendo sarcástico? Não. Ele pretendia estar sério. Isso me pareceu lamentável, tratando-se do diretor do Laboratório de Antropologia Social do Collège de France. Entretanto, lembrei-me de duas teses de Latour que, de tão grotescas, chegam até a ser engraçadas. Uma é sobre os dinossauros; a outra, sobre Ramsés 2º. O leitor talvez já as conheça, pois não são novas. Mas, na dúvida, vou contar ao menos a que fala de Ramsés 2º.

    Antes, observo que Latour é frequentemente classificado de "construtivista -ou melhor, construcionista- social". Isso não é surpreendente, já que seu livro "Vida de Laboratório", de 1979, escrito em parceria com o sociólogo inglês Steve Woolgar, tem como subtítulo "A Construção Social dos Fatos Científicos". Em 1986, porém, o subtítulo foi removido e Latour passou a recusar essa classificação.

    Contudo, sua recusa diz mais respeito ao adjetivo "social" do que ao substantivo "construção", pois ele continua acreditando que os fatos científicos são construídos. Para o idealista Latour, em última análise, a natureza e a realidade são aquilo que cientistas decidem que sejam, e não algo que preexista à investigação científica.

    Mas vamos à história. Em 1976, a múmia de Ramsés 2º, acometida por fungos e mofo, foi enviada à França para ser tratada. As fotos de sua chegada foram publicadas pela revista "Paris-Match", com a legenda: "Nossos cientistas socorrem Ramsés 2º, que adoeceu 3.000 anos após sua morte".

    Ao ler essa legenda, Latour precipitadamente pensou que ela se referia a outro fato: o de que os cientistas, tendo examinado os restos mortais do faraó, haviam anunciado a descoberta de que ele morrera de tuberculose. "Profundo filósofo", escreveu então, "aquele que redigiu essa legenda admirável". Por que "profundo filósofo"?

    Porque, ao contrário dos seres humanos que se guiam pelo bom senso, o autor dessa legenda teria "compreendido" que Ramsés 2º não poderia, no ano 1213 a.C., ter morrido de um bacilo que foi descoberto por Robert Koch somente em 1882...

    Para o bom senso "grosseiro", é claro que o bacilo já existia muitíssimo antes de Koch o descobrir. Já para o "sutil" Latour, "antes de Koch, o bacilo não tem existência real. [...] Os pesquisadores não se contentam com "des-cobrir': eles produzem, fabricam, constroem". Assim, o bacilo da tuberculose foi "construído" na época moderna.

    Mas, então, como é que ele pode ter causado a morte do faraó, em 1213 a.C.? "Afirmar, sem outras formalidades, que o faraó morreu de tuberculose", diz Latour, "significa cometer o pecado cardeal do historiador, o do anacronismo". Se fosse assim, seria anacronismo afirmar, "sem outras formalidades", que a lei da relatividade tivesse vigência antes de Einstein a demonstrar; ou que a lei da evolução das espécies vigorasse antes de ser enunciada por Darwin.

    E quais são as "outras formalidades"? Suponho que consistam em fazer a ressalva de que, para nós, que vivemos depois de 1976, o faraó morreu de tuberculose, mas não para quem viveu antes de 1976. Ora, se isso quer dizer simplesmente que antes de 1976 não sabíamos que o faraó em 1213 a.C. morreu de tuberculose, então é uma verdade: mas não passa precisamente da verdade trivial que o bom senso já conhecia, de modo que, nesse caso, Latour nada diz de novo.

    Se, por outro lado, quer dizer que, antes de 1976, o faraó, em 1213 a.C., não morrera de tuberculose, então é um disparate: é "nonsense", e é sem dúvida o que ele pensa, ao afirmar que, "antes de Koch, o bacilo não tem existência real".

    Mas devemos reconhecer ao menos um mérito ao artigo de Latour sobre Ramsés 2º: ele inadvertidamente efetua uma redução ao absurdo não só das suas próprias teses mas de todo o construcionismo contemporâneo.

    a.cicero@uol.com.br

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    Em Salto, 14 de Novembro de 2009

    11/13/2009

    Bênçãos

    Apesar de minha religiosidade deixar muito a desejar (para usar um eufemismo), gosto das bênçãos que o Judaísmo e o Cristianismo contribuíram para a nossa cultura.

    Esta é a chamada “Bênção Aarônica”, encontrada no Velho Testamento (Números 6). Sempre a achei muito bonita:

    “O Senhor te abençoe e te guarde.
    O Senhor faça resplandecer o rosto sobre ti e tenha misericórdia de ti.
    O Senhor sobre ti levante o rosto e te dê a paz”

    (Números 6. Texto original em Hebraico:

    יְבָרֶכְךָ יְהוָה, וְיִשְׁמְרֶךָ - yevarechecha Adonai veyishmerecha
    יָאֵר יְהוָה פָּנָיו אֵלֶיךָ, וִיחֻנֶּךָּ - ya'er Adonai panav eleicha vichunecha
    יִשָּׂא יְהוָה פָּנָיו אֵלֶיךָ, וְיָשֵׂם לְךָ שָׁלוֹם - yissa Adonai panav eleicha veyasem lecha shalom)

    [Texto hebraico retirado da Wikipedia: http://pt.wikipedia.org/wiki/Benção_sacerdotal]

    Esta é uma bênção cristã antiga, do século IV, também muito bonita, que encontrei no site “Povo Metodista” (e transcrevo aqui com pequenas modificações de forma):

    “Que o Senhor esteja ao teu lado, como teu amigo e companheiro de jornada;
    que o Senhor esteja sobre ti, velando por ti e te abençoando;
    que o Senhor esteja abaixo de ti, calçando os teus pés e firmando os teus passos;
    que o Senhor esteja à tua frente, como a luz que ilumina a tua caminhada;
    que o Senhor esteja às tuas costas, guardando-te completamente de pessoas maldosas e desleais;
    que o Senhor esteja dentro de ti, dando-te força, coragem, fé e vontade de viver;
    e que o Senhor esteja ao teu redor, envolvendo-te completamente com o seu amor.”

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    Em Comentário, Sueli Cavalcanti Jardim me enviou esta bênção, irlandesa, que tomo a liberdade de acrescentar aqui, agradecendo a contribuição:

    "Que a estrada se erga ao encontro do teu caminho;
    Que o vento esteja sempre às tuas costas;
    Que o sol brilhe quente sobre tua face;
    Que a chuva caia suave sobre teus campos;
    E, até que nos encontremos de novo,
    Que Deus te guarde na palma de sua mão."

    [Se outros leitores tiverem conhecimento de outras bênçãos, e quiserem compartilhá-las, ficarei grato.]

    Em São Paulo, 13 de Novembro de 2009

    Os profissionais da escola (também conhecidos como professores, embora em regra não se saiba o que professam…)

    A escola convencional exige demais -- e, paradoxalmente, de outro ângulo, muito pouco – dos profissionais que lá trabalham (dos professores, como comumente são chamados, nome que é extremamente inadequado para descrever não só o que de fato fazem, mas também o que devem fazer, esses profissionais, como a seguir se verá).

    Pode-se presumir que o ofício do profissional que trabalha na escola (qualquer que fosse o nome dado aos seus ocupantes então) surgiu com a escola – um lugar especializado em ajudar as crianças a aprenderem e, assim, se desenvolverem com seres humanos. Na escola, havia necessidade de alguém que ajudasse as crianças a aprender e, assim, a se desenvolver como seres humanos. Dessa forma, o profissional que trabalhava na escola (ou equivalente) deveria ser um profissional da aprendizagem, ou do desenvolvimento humano – não do ensino. Ele não era necessariamente docente, aquele que ensina. E ele não professava, necessariamente, nada.

    Por milhares e milhares de anos, as crianças aprendiam tudo o que precisavam aprender em casa ou dentro dos limites do círculo familiar. Quem as ajudava a aprender, portanto, era a família: a mãe, o pai, a avó, a avô, a tia, o tio, os irmãos mais velhos, os primos mais experientes... No contexto relativamente simplificado em que isso se dava, os membros da família tinham, em seu conjunto, tudo o que se exigia para ajudar os mais jovens a aprender e a se desenvolver. Em seu conjunto, eles dominavam tudo o que as crianças precisavam, tudo o que devia ser aprendido, a saber:

    • Em primeiro lugar, coisas práticas: a linguagem (por muito tempo apenas a linguagem falada; depois, e mesmo assim nem em todas as famílias, a leitura e a escrita), os rudimentos da aritmética, e as habilidades práticas exigidas pelo negócio da família: os negócios externos (em geral caçar, pescar, cultivar a terra, cuidar dos animais, etc.), em regra reservados para os homens, e o trabalho doméstico: cuidar da casa, cozinhar, lavar roupas, tecer, costurar, bordar, tricotar, etc.), em regra reservado para as mulheres;
    • Em segundo lugar, ainda coisas práticas, mas agora colocadas num “plano mais elevado”: a “arte de viver”, ou os princípios e as regras da moralidade, da vida espiritual e (talvez num plano não tão alto) da estética.

    O primeiro componente era mais ou menos pressuposto como algo que nem merecia discussão, mas o segundo era considerado realmente importante, visto que envolvia preparar as crianças para viver suas vidas não só nesta vida, mas também na futura... (como diz, até hoje, o moto da educação adventista).

    A “arte de viver” geralmente incluía:

    • Educação moral: ajudar as crianças a entender a diferença entre o moralmente certo e o moralmente errado [conceito], entender (ou simplesmente aceitar) aquilo que faz com que uma determinada ação seja moralmente certa ou moralmente errada [critério], classificar diferentes ações concretas como moralmente certas, ou moralmente erradas, ou moralmente indiferentes [segundo o critério], e, mais importante, fazer o que é moralmente certo e deixar de fazer o que é moralmente errado;
    • Educação spiritual: [especialmente em círculos cristãos] ajudar as crianças a entender que temos um corpo mas somos uma alma, que nossa alma que sobrevive à morte do seu corpo, que como nos comportamos aqui na vida aqui na Terra vai nos trazer recompensas ou punições na vida futura, e que, portanto, é importante ler (ou ouvir) as escrituras, orar solicitando a orientação divina, ir à igreja, etc.
    • Educação estética: [dirigida mais para as meninas] ajudar as crianças a desenvolver alguns dos mais finos hábitos e a cultivar as artes, aprendendo a desenhar, pintar, cantar, tocar um instrumento, e, em geral, apreciar o que é belo e evitar o que é feio.

    À medida que a vida foi se tornando mais complexa, porém, a família teve de recorrer a profissionais externos, especializados, para apoiá-la na tarefa de ajudar suas crianças a aprender tudo o que era considerado digno de aprender para que se desenvolvessem plenamente como seres humanos. Foi nesse contexto que surgiu, primeiro, a função de um profissional especializado em ajudar os outros a aprender e a se desenvolver – e foi nesse contexto que a escola moderna (com sua “Congregação dos Mestres”, expressão até hoje utilizada), foi inventada.

    Muitas coisas tornaram esse desenvolvimento necessário – mas algumas delas são especialmente importantes, e tiveram lugar por volta do fim do século quinze e durante os séculos dezesseis e dezessete:

    • A invenção da imprensa de tipo móvel, a explosão de textos escritos que resultou dessa invenção (e que marca o início da literatura no vernáculo da maior parte das línguas modernas);
    • A descoberta de partes até então desconhecidas do mundo;
    • A Reforma Protestante;
    • O aparecimento da ciência experimental moderna.

    Os reformadores protestantes tiveram um papel importante no processo, porque insistiram que cada um devia aprender a ler para poder ler as Escrituras por si só, e, assim, não ser enganado pelos padres católicos (pois o preço de não aprender a ler poderia ser a danação eterna no inferno...). O resultado disso foi que escolas começaram a aparecer em toda cidade ao lado das igrejas protestantes.

    Uma conseqüência importante dessa ênfase na educação foi que o mister de ajudar as crianças a aprender e a se desenvolver se tornou mais complexo e uma gradual “divisão de trabalho” (com sua conseqüente criação de funções especializadas) começou a ocorrer. A família, por um tempo, reteve as funções práticas de preparar os meninos para os negócios externos da família e as meninas para os negócios domésticos relacionados ao cuidado da casa e, oportunamente, dos filhos (ou seja, para o casamento). A educação moral e espiritual foi, em larga medida, compartilhada pela família e pela igreja. A educação estética (“a educação da sensibilidade”) perdeu um pouco de sua importância. E a escola assumiu uma área que não existia antes, mas que estava fadada a crescer e a assumir cada vais mais importante: a educação intelectual.

    Com o aparecimento de várias linguagens modernas e sua correlata literatura, com a descoberta de novos mundos, com a criação de várias denominações protestantes (competindo não só com a Igreja Católica, mas também umas com as outras), com o surgimento da ciência moderna, que gradualmente evoluiu da astronomia e da física para a química e a biologia, e o posterior surgimento das ciências humanas (história, geografia, psicologia, sociologia, antropologia, ciência política, etc.), o cenário intelectual – o mundo das idéias – cresceu em complexidade e importância. De repente a família parecia totalmente inadequada para a tarefa de preparar as crianças para aprender coisas tão complexas e variadas que lhes permitissem a viver e agir com naturalidade no mundo... E, curiosamente, e de certo modo paradoxalmente, esse novo mundo das idéias estimulou o interesse no velho mundo das idéias dos Gregos e Romanos...

    Nem mesmo se podia esperar que um profissional individual, geralmente empregado por famílias de mais posses, pudesse dominar tudo aquilo que se esperava que as crianças, especialmente as das classes mais elevadas, viessem a aprender… As famílias mais ricas começaram a contratar vários profissionais especializados. A classe média emergente (e, mais tarde, também os ricos) tiveram de recorrer à “Congregação dos Mestres” fornecida pelas escolas… (Os pobres geralmente ficavam de fora – até bem recentemente).

    E assim chegamos à escola atual, convencional... Essa escola é, desde o início, e quase que por definição, um ambiente de aprendizagem especializado: ela tenta lidar apenas com a educação intelectual e, mesmo assim, apenas com um segmento dela. A educação moral, espiritual e estética ficam normalmente fora de seu escopo. E a chamada educação profissional e vocacional foi atribuída a instituições especializadas que nunca foram consideradas suficientemente importantes pelas elites para se equipararem às escolas regulares.

    A escola convencional de hoje (e a sociedade, em geral) quer que os seus profissionais sejam várias coisas ao mesmo tempo...

    Acima de tudo, ela quer que seus profissionais sejam especialistas em conteúdo, isto é, quer que eles conheçam bem uma das matérias (disciplinas acadêmicas) nas quais o currículo (aquela parte restrita, que deve ser aprendida na escola, dentre tudo o que deve ser aprendido por uma criança) veio a ser dividido.

    Com a explosão da informação que caracteriza o nosso tempo, expectativas acerca da área dos profissionais que trabalham na escola foram sendo ajustadas (i.e., estreitadas). Hoje não se considera mais razoável que um profissional escolar seja um especialista em toda a biologia, ou em toda a física, ou mesmo em toda a história: os profissionais da escola precisam escolher sub-especialidades: História do Brasil, por exemplo, no caso de um profissional de história... ou até mais (isto é, menos) do que isso: História do Brasil Republicano (ou, pior, História do Brasil Após a Segunda Guerra...)

    Mas as expectativas foram ainda mais estreitadas à medida que foram sendo “focadas”... Além da escolha de especialidades dentro das especialidades, os profissionais da escola começaram a se especializar no conteúdo específico que deveria ser ensinado às classes sob sua responsabilidade: “Sou professor de matemática no ensino médio”... “Sou professor de língua portuguesa na oitava série”...

    Mas o nível de especialização tem uma conseqüência ainda mais problemática.

    Cada uma das diferentes áreas de especialização pode ser dividida em duas partes: uma que contém o que poderia ser chamado de o “conteúdo legado”, produzido pelos especialistas do passado (mesmo recente), e outra que contém o “método de investigação e reflexão” que, quando aplicado, pode produzir conteúdo semelhante...

    Essa distinção é muito importante.

    Tentarei mostrar por que usando como exemplo minha própria área de especialização, a filosofia. É provável que os seres humanos tenham estado a filosofar por muito tempo. Mas a filosofia, como uma forma de investigação sistemática sobre questões como o que existe (ontologia), de onde viemos e para onde vamos (metafísica), qual é o curso correto de ação que devemos assumir (ética), qual é a forma correta de organizar a vida em sociedade (filosofia política), por que consideramos algumas coisas lindas e atraentes e outras feias e repugnantes (estética), e como é que sabemos tudo aquilo que presumimos saber (lógica e epistemologia) – essa forma de investigação teve seu início entre os gregos durante os cinco séculos que precederam a era cristã. E se espalhou, para todo canto e muito rapidamente. Mais de dois mil anos depois, temos uma quantidade incrível de registros históricos daquilo que pensaram os filósofos passados e contemporâneos. Esse é o que chamo de o “conteúdo legado” dessa área de especialização.

    Ajudar uma criança a aprender a filosofar pode, nesse contexto, ser interpretado de duas maneiras diferentes:

    • Ajudá-la a assimilar as idéias mais importantes (segundo algum critério) daquilo que outros filósofos pensaram e escreveram;
    • Ajudá-la a desenvolver as competências e as habilidades necessárias para pensar e escrever de maneira semelhante (ou seja, necessárias para que eles mesmos filosofem).

    A maior parte dos chamados “professores de filosofia” opta por fazer apenas a primeira dessas duas coisas – e muitas vezes não sabe filosofar nem mesmo para consumo próprio. Não tenho dúvida nenhuma, porém, de que a segunda dessas coisas é a mais importante para a filosofia (a primeira, na verdade, não é filosofia: é história, ainda que da filosofia)... Na realidade, o pensamento escrito de outros filósofos só se torna interessante quando a gente começa a dominar a arte de filosofar... Para quem não tem esse domínio, o pensamento filosófico de terceiros é terrivelmente chato.

    O que acabei de dizer sobre a filosofia pode ser dito, com a mesma propriedade, sobre qualquer outra das disciplinas acadêmicas. A maior parte dos profissionais das escolas convencionais de hoje não ajuda as crianças a aprender como filosofar, como pensar como um cientista, como produzir obras de arte. Esses profissionais estão apenas envolvidos em transmitir para os alunos o que filósofos, cientistas e artistas pensaram e fizeram ao longo da história. Seu negócio é “transmitir conteúdos” – uma expressão horrível que, infelizmente, reflete bastante bem o que a maior parte dos profissionais escolares faz: sua área de especialização é, para eles, apenas um monte de conteúdo – conteúdo esse que consiste daquilo que os outros pensaram ou fizeram, e que, agora, precisa ser transferido para os alunos que, quase por definição, não têm familiaridade com ele.

    Posto que o conteúdo de uma área de especialização, hoje, cresce muito rapidamente, os profissionais especializados da escola são incapazes de se manter atualizados até mesmo sobre o que se produz em suas estreitas especialidades, e a tendência é que se especializem cada vez mais, até chegar o ponto de saberem quase tudo sobre virtualmente nada. E é isso que transmitem para seus alunos.

    A bem da clareza, aqui está o que esses professores não fazem – nem suas escolas exigem que o façam:

    • Ajudar seus alunos a dominar os métodos de investigação de suas disciplinas especializadas;
    • Ajudar seus alunos a entender o contexto mais amplo em que as disciplinas foram definidas e operam;
    • Ajudar seus alunos a entender que as questões mais interessantes em geral transcendem os limites das disciplinas tradicionais e mesmo de mega-áreas como, por exemplo, filosofia, ciência, ou arte;
    • Ajudar seus alunos a lidar com as competências e habilidades práticas exigidas pelas diversas profissões intelectuais;
    • Ajudar seus alunos a lidar inteligente e honestamente com questões morais, espirituais e estéticas que vão inevitavelmente confrontá-los.
    • Ajudar seus alunos a lidar inteligente, sensível e honestamente com algumas das questões práticas da vida, como, por exemplo, o amor, os relacionamentos afetivos mais duradouros, a criação e a educação dos filhos.

    Isto posto, fica claro por que eu disse, no início, que a escola convencional, e a sociedade que a apóia, exige, ao mesmo tempo, demais e muito pouco de seus profissionais (os professores).

    Alguém já disse que, dada a complexidade cada vez maior de nossa sociedade, em vinte anos, por aí, serão necessários oito ou nove profissionais especializados para fazer aquilo que hoje se espera de um profissional da escola…

    Mas, sem exageros, certamente já é mais do que tempo de desdobrarmos esse profissional em pelo menos dois… Um, com a função de mentor, conselheiro, orientador, de facilitador da aprendizagem “no atacado”; o outro, com a função de técnico, de tutor, de facilitador da aprendizagem “no varejo”…

    O primeiro profissional seria responsável por cerca de 15 a 20 alunos, no máximo. Sua responsabilidade envolve o desenvolvimento pessoal do aluno em todos os aspectos relevantes: físico, social, emocional, moral, espiritual e, naturalmente, intelectual. Ele deve conhecer bem as crianças por cujo desenvolvimento ele é responsável. Ele deve descobrir o que as crianças já sabem quando entram na escola, isto é, quais são os talentos, inclinações, interesses, esperanças e expectativas que trazem consigo para a escola (tanto quanto se pode descobrir essas coisas em relação a crianças pequenas). Com a ajuda dos pais delas, ele deve ajudar as crianças a escolher e contratar os projetos de aprendizagem em que vão se envolver. Ele deve supervisionar as crianças enquanto elas não estão envolvidas nos seus projetos de aprendizagem (pois neste caso elas ficam sob a supervisão do outro profissional). Ele deve periodicamente avaliar o seu aprendizado e o seu desenvolvimento (com base em suas observações e com a ajuda de relatórios elaborados pelos instrutores/mestres). E, a menos que problemas surjam, ele não é substituído por outro profissional à medida que as crianças vão ficando mais velhas: ele é uma referência constante para elas.

    O outro profissional é, de certo modo, o especialista em conteúdo a quem a responsabilidade pelo desenvolvimento das competências e habilidades específicas é – para usar um termo quase que abusivo – terceirizada. Sua função é oferecer – planejar, desenvolver, implementar, executar -- projetos específicos de aprendizagem para as crianças – e avaliar o seu desempenho neles, avaliando não só se realizaram as atividades previstas mas, também, se desenvolveram, ao realizar essas atividades, as competências e habilidades previstas.

    Há três características importantes que são buscadas nestes profissionais:

    • Que dominem com competência um conteúdo específico;
    • b) Que sejam capazes de olhar para o conteúdo que dominam do ponto de vista das competências e habilidades exigidas para produzi-lo, e não do ponto de vista de sua mera transmissão para os alunos;
    • c) Que tenham um genuíno interesse na área e uma paixão visível pelo que vão fazer, a saber, ajudar as crianças nos detalhes (no “varejo”) de seu desenvolvimento.

    Se essas três características estiverem presentes – domínio, foco nos métodos de investigação, e motivação – esses profissionais não devem ter problemas para conseguir que os alunos voluntariamente se disponham a participar de seus projetos: os alunos não precisam ser seduzidos, muito menos compelidos, a participar.

    Se os primeiros profissionais fornecem oferecem constância e continuidade, os últimos oferecem mudança e diversidade.

    A administração da escola é responsável por garantir que todas as áreas essenciais da Matriz de Competências que serve de currículo estejam cobertas por projetos de aprendizagem oferecidos, liderados e coordenados pelos segundos profissionais – e estes são responsáveis por garantir que os alunos envolvidos em seus projetos não só aprendam o conteúdo dos próprios projetos, mas, também, que desenvolvam as competências e habilidades definidas pela Matriz de Competências. E os primeiros profissionais são responsáveis por garantir que aquilo que os alunos aprendem nos diversos projetos contribui para seu desenvolvimento coerente como pessoas – não só como os indivíduos únicos que são, mas também para sua existência social como cidadãos e para sua preparação para serem, oportunamente, os profissionais que o século XXI exige.

    O profissional da escola convencional assim é dividido em dois. E, no caso dos segundos profissionais, seu foco de atuação, dentro de sua área de especialização, foi retirado da transmissão do “conteúdo legado” nela existente para os métodos de investigação.

    Em Campinas, 12 de Outubro de 2007 -- traduzido para o Português pelo autor, em Salto, 3 de Março de 2008; revisto para remoção de referências específicas em São Paulo, 13 de Novembro de 2009 (uma Sexta-Feira).

    11/12/2009

    Muros: o de Berlin e os outros...

    Os amantes da liberdade comemoraram, recentemente, mais um aniversário, o vigésimo, da queda do Muro de Berlin, que separava a Berlin Ocidental, democrática, da Berlin Oriental, sob a ditadura comunista, dando um passo decisivo, não só para a reunificação da Alemanha, mas para a liberalização do mundo.

    Algumas pessoas não gostaram muito das comemorações... Entre elas, creio, está o meu amigo Carlos Tabosa Saragga Seabra (que tive o prazer de reencontrar ontem no IV Forum do Instituto Claro), que comentou no Twitter e no Facebook:

    “Nos 20 anos sem Muro de Berlim, recordemos os muros de Israel e do Novo México. São menos vergonhosos?”

    Sobre essa tentativa de relativizar a odiosidade (ou vergonhosidade) do Muro de Berlin (pelo menos foi assim que a percebi), retorqui:

    “Vamos diferenciar os muros? O de Berlin era para impedir que os cidadãos da Alemanha Oriental fugissem daquele (então) país... Muros para impedir que cidadãos de outros países entrem ilegalmente num determinado país são apenas a expressão, digamos, arquitetônica de um direito que ninguém -- a não ser os liberais radicais como eu -- questiona quando exercido por qualquer outro país que não os Estados Unidos e Israel. Pelo que consta, nem o Brasil tem fronteira livre que qualquer estrangeiro pode atravessar para entrar e ficar no país.”

    Ou seja: embora eu considere os muros dos Estados Unidos e de Israel também vergonhosos, considero-os, sim, menos vergonhosos do que o Muro de Berlin.

    Carlos Seabra saiu meio pela tangente (em minha opinião), com um twit “d’après Drummond”:

    “Havia um muro no meio do caminho, no meio do caminho havia um muro...”

    Respondi:

    “Sempre há... Muros físicos, legais e burocráticos, sociais, mentais, ideológicos, religiosos... Para guardar você dentro ou para manter você fora.”

    Outra pessoa (Verônica Couto) comentou, ressaltando os muros sociais e físicos existentes no Brasil:

    “Sem esquecer os que estão sendo erguidos nas favelas do Rio... nos condomínios de todo o país...”

    Resolvi retomar o assunto aqui no meu space, porque sou verboso... Raramente me contento com os 140 caracteres que o Twitter me concede ou mesmo com os 420 que os limites mais generosos do Facebook me impõem. Aqui no blog do Live Space não tenho limites – ou, se os tenho, eles são tão amplos e generosos que não os sinto. (Quando a rédea é solta, o cavalo domesticado, acostumado aos seus caminhos, se imagina livre, porque os limites não o fazem sentir-se preso, por não restringirem o que ele está condicionado a fazer). Quero deixar clara minha posição.

    Como disse atrás, sou um liberal radical. Defendo a liberdade do indivíduo contra as tentativas do estado e da sociedade de restringi-la. Minha unidade de análise é sempre primariamente o indivíduo – não o grupo social, muito menos a nação e o estado. Só admito as restrições mínimas ao comportamento do indivíduo que são absolutamente essenciais para a convivência social pacífica. Defendo uma interpretação ampla e permissiva da liberdade e dos direitos individuais: o direito à livre expressão do pensamento, o direito à liberdade de reunião e organização, o direito à liberdade de ir e vir, o direito à liberdade de ação, na busca da felicidade, quando ela não causa danos diretos a terceiros...

    Isso quer dizer que, por mim, não haveria limites a impedir o livre trânsito das pessoas entre uma nação e outra – da mesma forma que não há entre um estado ou outro de uma nação como o Brasil.

    Estou convicto de que, na inexistência de limites, o mercado controlará o trânsito das pessoas entre as nações. Se muitas pessoas querem adentrar um país, como, por exemplo, os Estados Unidos, esse país possivelmente vá ficar, no devido tempo, superlotado, com a conseqüente queda da qualidade média de vida dos seus cidadãos e dos que lá habitam. Isso fará com que muitos decidam sair de lá, ou não ir para lá, para ir para outros países menos superlotados, como, por exemplo, o Canadá ou a Austrália, e o equilíbrio se restabelece. Isso até certo ponto já está acontecendo, mesmo com os controles severos à imigração impostos pelo governo americano.

    Muros físicos que procuram impedir o livre trânsito de pessoas de uma nação para a outra são odiosos e vergonhosos. Por isso, sou contra o muro que está sendo construído em parte da fronteira entre os Estados Unidos e o México para impedir a imigração, para os Estados Unidos, de latino-americanos. Sou igualmente contra o muro dos israelenses que visa a impedir a entrada em Israel de palestinos.

    Acho mais odioso e vergonhoso ainda, porém, o Muro de Berlin. O Muro de Berlin foi construído pela então Alemanha Oriental comunista, controlada por uma violenta ditadura, para impedir, não que cidadãos de outros países entrassem ali, mas, sim, para impedir que os próprios cidadãos da Alemanha Oriental saíssem livremente do “paraíso comunista” para ir viver no “inferno capitalista” ali do lado...

    Mas, como disse atrás, há muros legais e burocráticos que são tão eficazes quanto os muros físicos. Cuba, um dos dois únicos países comunistas que restam no mundo (o outro é a Coréia do Norte), é uma ilha. Por isso não precisa erigir muros para impedir a saída dos cidadãos cubanos daquele “paraíso comunista” no Caribe: o mar, em parte, exerce essa função. Mas mesmo assim o estado cubano não bobeia... Se alguém resolve arriscar sua vida numa balsa, para chegar a Miami, a cerca de 90 km de distância, as barcas e os helicópteros da polícia do governo cubano atiram neles, para matar... Atletas que fazem parte de delegações esportivas que vão participar de competições internacionais se arriscam a “desertar”: fogem e pedem asilo no país em que estão. Dois pugilistas cubanos fizeram isso aqui no Brasil, e nossa administração petista, representada no caso por esse atentado à liberdade e ao bom senso que é o Ministro da Justiça, os entregou de volta ao governo cubano para serem punidos. (Eles já fugiram de lá de novo). Numa de suas muitas incongruências, esse mesmo ministro concedeu asilo político a um criminoso italiano, culpado de vários assassinatos... O Supremo estava julgando o ato do ministro hoje. A sessão terminou com um empate de 4x4 – e o caso será decidido pelo Voto de Minerva do presidente do Supremo na próxima quarta-feira...

    O muro legal-burocrático cubano é, como o de Berlin, um muro que impede a saída dos cidadãos do país – ele não impede a entrada de estrangeiros em Cuba... Cuba necessita dos dólares dos turistas de outros países... Por isso, acho-o mais odioso e vergonhoso do que os muros físicos dos Estados Unidos e de Israel – e tão odioso e vergonhoso quanto o muro físico de Berlin, que também visava a impedir os cidadãos do país de saírem do país.

    Mas há uma situação em muitos aspectos ainda pior...

    Quando cerceados por muros físicos ou por muros legais e burocráticos as pessoas, muitas vezes, são capazes de preservar sua liberdade mental (interior), fato que lhes permite escolher, por vezes, arriscar a própria vida em vez continuar a viver em tirania.

    Muros mentais, porém, sejam eles ideológicos ou religiosos, são aqueles que, através de controles mentais e outros mecanismos de manipulação, fazem com que as pessoas cativas se convençam de que estão em liberdade... Dizem que os pássaros nascidos em cativeiro ignoram o fato de que não são livres porque, condicionando-se a viver em cativeiro, entendem a sua liberdade em termos daquilo que sua gaiola lhes permite fazer. Os muros mentais constroem como se fosse uma gaiola que mantém as pessoas presas mas ignorando o fato de que são cativas...

    Rubem Alves um dia desses escreveu na Folha (11/11/2009):

    "Quero é viver de novo intensamente o passado que vivi, sem os sentimentos de culpa que a minha religião botou na minha cabeça. Toda noite peço perdão a Deus pelos pecados que não cometi..."

    A culpa é um dos muros que a religião usa para não fazermos aquilo que ela define como pecado... Quando fazemos algo que a religião considera pecado, nos consideramos culpados... E carregamos a culpa conosco, muitas vezes para o resto da vida... Já escrevi sobre isso aqui. Surpreende descobrir que o herege Rubem Alves ainda pede toda noite perdão a Deus por pecados que não cometeu... não cometeu, não porque não tenha feito as ações proibidas, mas porque elas não eram pecados... Mas a culpa ainda o faz – a ele, um indivíduo psicanalisado e psicanalista - pedir perdão.

    Outros, como eu, para não incorrer na culpa, se privaram, na juventude e depois, de comportamentos perfeitamente inócuos e inofensivos, mas considerados pecados pela religião – e hoje, em sentido diferente do do Rubem, se arrependem dos pecados não cometidos (como a gente se arrepende dos beijos de amor que não deu...) Quando a gente consegue se livrar dos muros mentais que a religião constrói em nossas mentes, a gente se sente, muitas vezes tarde demais, arrependido pelos pecados que não cometeu... (O termo “pecado” deveria, talvez, vir entre aspas porque essas condutas só são pecados dentro das gaiolas em que os muros mentais da religião nos prendem).

    Esses muros impõem toda sorte de restrição às pessoas, proibindo-lhes comportamentos que doutra forma seriam perfeitamente admissíveis, inócuos e inofensivos que são, mas, ao mesmo tempo, por controle e manipulação mental, fazem com que as pessoas aceitem as restrições como corretas, até mesmo benéficas, incorporando-as à sua própria estrutura mental, levando-as a acreditar que, dentro de sua gaiola, são mais livres do que se não estivessem sujeitas a essas restrições...

    A política faz a mesma coisa...

    Abaixo os muros – principalmente os mentais, que a criação, a educação, os mecanismos de pressão e manipulação social constroem. Principalmente nas crianças e nas mentes jovens.

    Em São Paulo, 12 de Novembro de 2009

    11/10/2009

    Editorial da Folha sobre o processo eleitoral na USP

    Editoriais
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    USP na encruzilhada

    Eleição do novo reitor deveria ser o momento propício para debater rumos da universidade, mas passa longe disso

    A USP entra hoje na fase final da escolha do reitor sem que emane do processo eleitoral, esclerosado, uma visão sobre o papel futuro da mais produtiva universidade da América Latina, 75 anos depois de sua fundação.

    A universidade está numa encruzilhada. O contribuinte paulista, que a sustenta, quer saber para onde pretende ir. A instituição se aliena ainda mais do público, entregue a conchavos entre facções de burocratas instaladas nos departamentos, conselhos e congregações.

    São cerca de 320 os eleitores do segundo turno de hoje. Professores titulares compõem quase metade do colégio eleitoral, que fará sucessivos escrutínios até escolher três dos oito nomes de candidatos. A lista tríplice segue para decisão do governador; nos últimos pleitos saiu ungido pelo Executivo o nome mais votado da relação.

    O método não tem sido capaz de alçar o comando da USP acima de um nível acadêmico-administrativo insatisfatório. Não se deve concluir daí, necessariamente, que a alternativa do voto direto por docentes, estudantes e funcionários vá conduzir a resultado mais auspicioso.
    Várias instituições de excelência pelo mundo prescindem de eleições para selecionar seus dirigentes. O que importa, no caso da USP, é abrir um debate sem preconceitos sobre como aprimorar o seu modelo fossilizado.

    Nos últimos anos, a USP experimentou uma expansão de vagas, em particular na graduação. Eram 44.696 em 2003; hoje são 55.863 -um salto de 25%. Já a dotação orçamentária, um percentual fixo da receita de impostos estaduais, quase duplicou no mesmo período, devendo ultrapassar R$ 2,8 bilhões neste ano.

    Não foi em pesquisa, contudo, que a universidade colheu resultados proporcionais à alta na receita, acarretada pelo crescimento econômico. Dependendo de como se mede a produção científica, registra-se queda na média de trabalhos por docente entre 2003 e 2008 (de 6,9 para 4,9), se somados todos os publicados. Ou acréscimo (de 0,9 para 1,5), se computados só artigos que saíram em periódicos científicos de gabarito internacional.

    Tal desempenho decorre antes de uma mudança de prioridades entre cientistas, em busca de mais pontos na avaliação por agências de fomento à pesquisa, que de algum avanço notável. Não houve investimento significativo na área, nem poderia, pois o orçamento, mesmo em expansão, tem parcela descabida engessada pela folha de pessoal: 86,3% em 2008 (do que sobra, boa parte vai para despesas de custeio também obrigatórias).

    Apesar disso, a USP não paga salários condizentes com a qualificação esperada de seus professores. Um doutor em início de carreira, com dedicação integral, ganha R$ 6.707, bem abaixo dos R$ 12.000 iniciais para algumas carreiras de Estado no governo federal, por exemplo.

    Para prosseguir fornecendo quadros para a sociedade brasileira, a USP precisa ser dirigida pelos melhores entre seus próprios quadros -pessoas que reúnam capacidade gerencial e liderança acadêmica. O escrutínio de hoje não dá garantias de que o objetivo será alcançado.

    Transcrito em São Paulo, 10 de Novembro de 2009

    11/8/2009

    Termina o “Innovative Education Forum” da Microsoft em Salvador, BA

    Terminou, Sexta-feira, dia 6 de Novembro, à meia-noite, em Salvador, o “Innovative Education Forum”, organizado pela Microsoft Corporation, para educadores do mundo inteiro.

    O evento englobou quatro reuniões simultâneas:

    a) Reunião das trinta escolas recentemente escolhidas como “Pathfinder Schools”, mais doze “Mentor Schools”, dentro do programa global “Innovative Schools”;

    b) Reunião de sessenta e nova educadores, representando 35 países, que chegaram ao estágio final do concurso “Innovative Teachers”, dentro do programa global “Innovative Teachers”;

    c) Reunião de cerca de vinte e cinco lideranças educacionais brasileiras, para discutir a necessidade de introduzir inovação no processo educacional, como parte do programa global Innovative Leaders;

    d) Reunião do International Advisory Board da iniciativa global “Partners in Learning”, que engloba os três programas globais anteriormente mencionados. (Tenho o privilégio de participar desse seleto grupo de educadores desde 2003. Atualmente são 15 os membros, de toda parte do mundo).

    No total, havia cerca de 450 participantes no Forum (cuja sigla é IEF).

    O evento, que começou oficialmente no dia 3 de Novembro, Terça-feira, terminou com um magnífico jantar de gala na Sexta. Ali foram revelados os vencedores do concurso, em quatro categorias: Comunidade, Colaboração, Conteúdo, e Seleção dos Educadores. Concorriam 69 projetos, depois de seleções realizadas no nível nacional e regional (no caso do Brasil, a região é a América Latina).

    Nas categorias Comunidade e Conteúdo projetos brasileiros terminaram em terceiro lugar – o que foi celebrado como uma grande vitória, dada a acirrada concorrência. O “Projeto Barreiro”, coordenado pelo Professor Lucrecio Filho de Oliveira, de uma escola agrícola rural da Fundação Brasdesco, ganhou na categoria Comunidade. O Projeto “Fontes de Energia”, do Professor Alex Vieira dos Santos, de Salvador, ganhou na categoria Conteúdo.

    Na Sexta-feira, antes do jantar de gala, houve uma palestra de encerramento de Jean-François Rischard, ex-diretor do Banco Mundial, cujo livro High Noon se tornou um grande sucesso entre tomadores de decisão. Nesse livro ele lista vinte grandes problemas globais que os mecanismos de decisão política atuais (estados nacionais reunidos em algumas instituições internacionais, como a ONU, o IMF, o WEF, etc., não têm conseguido resolver). Segundo Rischard, não temos mais de vinte anos para resolver esses problemas. Se não o fizermos, corremos o risco de entrar em colapso como planeta. A solução desses problemas está a exigir duas coisas:

    a) Uma metodologia para solução de problemas globais, que o livro High Noon fornece mas que lideranças globais ainda não reconheceram como necessária;

    b) Um novo e inovador mindset, que apenas uma educação de qualidade poderá ajudar as pessoas a desenvolver.

    Do ponto de vista cultural, a abertura, na Terça-feira, contou com a participação de um Grupo de Capoeira e uma apresentação do Olodum.

    No jantar de gala da Sexta-feira, houve a participação, na chegada dos congressistas, do grupo Filho de Gandhi e, durante o jantar, da Orquestra Sinfônica Juvenil Dois de Julho, do Projeto Neojibá, regida pelo maestro e pianista Ricardo Castro. A orquestra, que na primeira parte do programa tocou música clássica, impressionou o público, pois tem apenas dois anos e seus cerca de 90 membros foram todos eles retirados de situação de risco. Na verdade, alguns de seus membros tinham apenas um ano de experiência com o seu intrumento – e a menina que tocava oboe tinha apenas 11 anos!

    Mas o sucesso absoluto da orquestra ficou evidente na segunda parte do programa, depois do jantar e do anúncio dos ganhadores dos prêmios, quando literalmente levantou o público quando tocou músicas latinas. Ao tocar “Tico-Tico no Fubá”, todo mundo caiu na dança – e não parou de dançar mais.

    Registre-se que a orquestra foi criada por um projeto do governo do Estado da Bahia, cujo governador, Jacques Wagner, honrou o congresso com sua presença, tanto na abertura como no fechamento (neste caso, acompanhado da Primeira Dama).

    Em suma, o evento foi um sucesso total. Felizmente, para nós brasileiros, nada de errado aconteceu. A comida e a água não fizeram mal, ninguém se machucou seriamente (um pé torcido e uma topada numa placa foram os piores incidentes na área da saúde), não houve assaltos nem nada do gênero. Em suma, merecem parabéns os organizadores, capitaneados por Emílio Munaro e Adriana Siliano Pettengill.

    Muitos dos participantes (como a Paloma e eu) ainda se encontram em Salvador, gozando do sol, do mar e da piscina do Hotel Pestana Bahia, onde o evento teve lugar.

    Abaixo, dois Press Releases da Microsoft Corporation acerca do evento, disponíveis em:

    http://www.microsoft.com/presspass/press/2009/nov09/11-04IEF09PR.mspx?rss_fdn=Press%20Releases 

    e

    http://www.earthtimes.org/articles/show/microsoft-partners-in-learning-announces-2009-worldwide-innovative-teacher-awards,1033429.shtml

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    Teachers and Schools Celebrate Success at 2009 Microsoft Worldwide Innovative Education Forum

    Microsoft Partners in Learning expands global network for educators.

    SALVADOR, Brazil — Nov. 4, 2009 — Today, at its fifth annual Worldwide Innovative Education Forum (IEF), Microsoft Corp. is celebrating the impressive work that teachers and school leaders from around the world are doing to help every student realize his or her full potential. In addition, Microsoft is announcing the launch one of the world’s largest networks for educators at http://www.partnersinlearningnetwork.com.

    The network underscores Microsoft’s commitment to expand the power of education for all through personalized learning by connecting millions of teachers and school leaders around the world in a community of professional development.

    Partners in Learning Network

    Today’s launch of the Partners in Learning Network is the next generation of the Innovative Teachers Network (ITN), a global network expected to serve more than 2 million teachers and school leaders by next year. The network has evolved to include advances in social networking technology that will help teachers and school leaders do their jobs better by connecting them with one another in professional development communities. The site is available today in English and Ukrainian, with more in the coming months. As new languages become available for the Partners in Learning Network, existing ITN users will automatically have access to the new, more powerful features that this version of the network provides.

    Members of the Partners in Learning Network will be able to take advantage of new capabilities such as the following:

    • Connecting with peers around the world based on professional interests, teaching subjects or location

    • Creating communities dedicated to innovative teaching and learning, and professional development

    • Finding new content and curricula such as peer coaching and the Innovative Schools Toolkit

    • Becoming content creators by sharing the latest thinking, tips and tricks, lesson plans, recommended links, and more

    At its core, the Partners in Learning Network helps promote practices that school leaders and teachers can use to improve students’ 21st-century skills such as critical thinking and problem solving, collaboration, communication, contextual learning, creativity, and information and media literacy.

    “The Partners in Learning Network provides a unique and powerful way to connect with educators around the world and offers them an accessible forum dedicated to the exchange of ideas, educational tools and collaboration,” said Michael Golden, corporate vice president of the Education Products Group at Microsoft. “The network demonstrates our continued focus on empowering educators to engage their students more deeply.”

    Worldwide Innovative Teacher Awards

    Each year, Microsoft Partners in Learning searches the world for teachers who have demonstrated an exemplary use of technology in the classroom. Thousands of teachers participate from around the world in country-level and regional competitions. After each competition, winners move to the next level, culminating each year at the Worldwide Innovative Education Forum, taking place this week in Salvador, Brazil. More than 250 regional winners from more than 60 countries are vying for 12 Worldwide Innovative Teacher Awards, to be announced at the end of the week.

    “For me the Microsoft Innovative Teachers Forum is about recognizing an individual teacher’s practice that has had a real impact in the classroom. I believe that computer games have a huge amount of potential in the classroom so, for my project, I used an Xbox game as a contextual hub for learning and as a way to encourage the social interaction of children as they moved between primary and secondary school,” said Ollie Bray, deputy head teacher, Musselburgh Grammar School, Scotland. “My project was so well received that it was adopted and rolled out across all 47 schools in East Lothian, Scotland. I am pleased that Microsoft is recognizing this as an investment in learning and children as well as an innovative use of technology.”

    Innovative Schools Program

    Microsoft is expanding its Partners in Learning Innovative Schools program from a pilot program to a full-scale global program, with the addition of 30 new Pathfinder Schools and 12 Mentor Schools, representing 35 countries. Leaders from all 42 schools are gathering in Salvador for a four-day workshop to begin a journey of transformation in their school communities. Over the next 12 months, these school leaders will go back to their home communities with a mission to transform the way their schools operate. They will be encouraged to rethink all aspects of school life, from the structure of the day and the use of technology in the curriculum to ensuring that teachers have the space and time to bring innovative practices to the classroom. Microsoft is working in close partnership with local ministries of education to implement this program and ensure its success.

    The schools chosen to participate in the Pathfinder Program were selected from more than 110 applicants from around the world. Each school in the program has demonstrated strong school leadership with a proven record of innovation and successful change implementation. The Pathfinder Schools have been chosen because of their vision for learning and have already started on the road to reform and improvement.

    “By working hand in hand with Microsoft Innovative Schools program, the education community can gain an improved understanding of what students need to advance in a global economy,” said Bo Kristoffersson, principal of Viktor Rydberg Gymnasium in Sweden, a 2009 Innovative Schools Pathfinder school. “The Innovative Schools Program gives us the resources we need to provide the best education available, and we look forward to working with Microsoft and other schools in the program to identify the ways in which we can equip our students with knowledge, a drive for innovation, and a passion for technological discovery.”

    The Pathfinder Schools will work with 12 regional Mentor Schools, chosen primarily among participants in the Innovative Schools Pilot Program, which ran over the last two years. The Mentor Schools will be honored at the event because they have achieved a level of change within their education systems and are viewed as leaders in their countries and regions. Their innovations have a global interest and are replicable models that other schools can follow. Some Pathfinder Schools will have the opportunity to share the knowledge they gain as Mentor Schools in the future.

    Partners in Learning

    The Worldwide Innovative Education Forum is hosted by Microsoft Partners in Learning, a 10-year, nearly $500 million commitment by Microsoft to transform education systems around the world. Announced in 2003, Partners in Learning helps schools and teachers more effectively use technology to advance teaching and learning, provides leadership and change management information to school leaders, works to strengthen teachers’ capacity to use technology effectively in the classroom, and provides greater access to technology for teachers and students.

    About Microsoft Education

    We believe that technology can expand the power of education and unlock the potential of students, educators and schools. Microsoft partners with education communities around the world to deliver relevant solutions, services and programs that focus on improved personalized learning outcomes.

    About Unlimited Potential

    Microsoft, through its Unlimited Potential vision, is committed to making technology more affordable, relevant and accessible for the 5 billion people around the world who do not yet enjoy its benefits. The company aims to do so by helping to transform education and foster a culture of innovation, and through these means enable better jobs and opportunities. By working with governments, intergovernmental organizations, nongovernmental organizations and industry partners, Microsoft hopes to reach its first major milestone — to reach the next 1 billion people who are not yet realizing the benefits of technology — by 2015.

    About Microsoft

    Founded in 1975, Microsoft (Nasdaq “MSFT”) is the worldwide leader in software, services and solutions that help people and businesses realize their full potential.

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    SALVADOR, Brazil, Nov. 6 /PRNewswire-FirstCall/ -- After three days of seminars, teacher exhibitions and judging by an internationally renowned panel of education experts, today Microsoft Partners in Learning announced the winners of the 2009 Worldwide Innovative Teacher Awards at the Worldwide Innovative Education Forum. Partners in Learning recognizes and rewards teachers who demonstrate exemplary use of technology in the classroom to improve student learning. The 14 winning teachers -- awarded first, second and third place in four categories -- were chosen from among the 250 at the Forum representing more than 60 countries.

    The Best Practice winners in the four main competition categories are Mandeep Atwal of England, Innovation in Community; Mark Sparvell of Australia, Innovation in Collaboration; Autumne Streeval and Harriet Armstrong of the United States, Innovation in Content; and Moliehi Sekese of Lesotho, Educators Choice. The 2009 Worldwide IEF award ceremony, held tonight in Salvador, Brazil, was attended by 400 educators, school leaders, government officials and others from more than 60 countries.

    "The Innovative Teacher Awards exemplify the dedication and imagination of the world's most forward-thinking educators," said Michael Golden, corporate vice president of Education at Microsoft. "The energy and entrepreneurism of the winning teachers demonstrate the infinite possibilities that technology can create to improve learning opportunities and inspire future generations toward greater academic achievement. Microsoft remains committed to supporting the community in this quest. I'd like to extend warm congratulations to everyone who participated in this and the regional events that led up to today's celebration."

    The following are the top three finalists in each category, in finishing order:

    Innovation in Community

    • Best Practice: Mandeep Atwal (England), "Young Voices"
    • First Runner-Up: Ollie Bray (Scotland), "Thinking outside the XBOX"
    • Second Runner-Up: Lucrecio Filho de Oliveira (Brazil), Projeto "Barreiro"

    Innovation in Collaboration

    • Best Practice: Mark Sparvell (Australia), "Connecting Hearts Heads and Hands"
    • First Runner-Up: Karina Batat (Israel), "The Traveling Mascot"
    • Second Runner-Up (Tie): Myreia Gussinye (Mexico), "Tolerant"
    • Second Runner-Up (Tie): Xiaoyong Tang (China), "Exploration of Ant Behavior"

    Innovation in Content

    • Best Practice: Autumne Streeval and Harriet Armstrong (United States), "US Industrial Revolution Tic Tac Toe"
    • First Runner-Up: Damien Lebegue (France), "Differentiated/adapted Teaching in PE"
    • Second Runner-Up: Alex Vieira dos Santos (Brazil), "Fontes De Energia"

    Educators Choice

    • Best Practice: Moliehi Sekese (Lesotho), "Indigenous Plants"
    • First Runner-Up: Janjira Phongchoo (Thailand), "MS Excel Game Building Techniques"
    • Second Runner-Up: Isabel Schapdryver (Belgium), "Secondhandshop"

    "Winning the Educators Choice award is certainly a great honor," said Moliehi Sekese of Lesotho who won for her project Indigenous Plants. "Just being here and seeing how teachers from all over the world are enriching the lives of students is ultimately even more rewarding."

    Since 2003, the Partners in Learning award competition has been recognizing individuals with the Worldwide Innovative Education Awards for excellence in teaching. Teachers participate in country-level and regional events. Winners move up to the Worldwide competition.

    The judging community includes education experts from all over the world. At the event 36 judges representing 23 countries spend nearly 20 hours talking to the teachers and learning about their projects; then in a private room they discuss, debate and share with one another until the winners are finally selected.

    "Every year the submissions seem to get better and better, and this year is no exception," said Judge Eduardo Chaves of Brazil. "The level of sophistication of these entries shows that teachers are continuing to innovate and expand the ways they use technology to help students all over the world realize their potential."

    Next year's Innovative Teacher Awards results will be announced at the 2010 Worldwide IEF, which will take place in Cape Town, South Africa. Country- and regional-level competitions will take place beginning in November 2009. Interested teachers should contact their local Microsoft office for more information or look online at

    http://www.microsoft.com/education/pil/partnersInLearning.aspx.

    At the event, school leaders from 12 Mentor and 30 Pathfinder Schools also participated in a three-day workshop and were recognized for their leadership in driving system-level educational reform.

    About the Innovative Education Forum

    The Innovative Education Forum is an annual worldwide event. Regional forums are held around the world to create communities of teachers who can share ideas and best practices with their peers and facilitate the creation of collective knowledge. Subsets of regional forum participants are selected to represent their country at the Worldwide Innovative Education Forum.

    About Microsoft Education

    We believe that technology can expand the power of education and unlock the potential of students, educators and schools. Microsoft partners with education communities around the world to deliver relevant solutions, services and programs that focus on improved personalized learning outcomes.

    About Unlimited Potential

    Microsoft, through its Unlimited Potential vision, is committed to making technology more affordable, relevant and accessible for the 5 billion people around the world who do not yet enjoy its benefits. The company aims to do so by helping to transform education and foster a culture of innovation, and through these means enable better jobs and opportunities. By working with governments, intergovernmental organizations, nongovernmental organizations and industry partners, Microsoft hopes to reach its first major milestone -- to reach the next 1 billion people who are not yet realizing the benefits of technology -- by 2015.

    About Microsoft

    Founded in 1975, Microsoft (Nasdaq: MSFT) is the worldwide leader in software, services and solutions that help people and businesses realize their full potential.

    Em Salvador, 8 de Novembro de 2009

    11/1/2009

    Prefácio a um livro de Renato Soffner

    No dia 13 de Março de 2007 escrevi o seguinte texto como Prefácio ao livro Estratégia, Conhecimento e Competências: Visão Integrada do Potencial Humano, de Renato Kraide Soffner (cujo trabalho de Doutoramento na UNICAMP eu tive o privilégio de orientar). Dois anos e meio depois, transcrevo o Prefácio aqui.

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    PREFÁCIO

    Renato Soffner nos diz que, para os chineses, viver em tempos interessantes é uma maldição. Que seja. É nesse tipo de tempo que estamos vivendo. E o livro dele descreve parte daquilo que faz o tempo atual interessante e desafiador.

    Neste início de século XXI nós, seres humanos, nos percebemos como tendo algumas características bastante interessantes.

    Em primeiro lugar, não nascemos prontos para a vida. Na realidade, nascemos totalmente ignorantes e incompetentes – e, por isso, por um bom tempo, somos absolutamente dependentes dos cuidados dos outros.

    Em segundo lugar, bom ou ruim, a nossa natureza não é totalmente programada. Ela deixa espaço para que cada um de nós decida, no devido tempo, o que quer ser, o que quer fazer de sua vida... Isso significa que a vida humana é, em grande medida, projeto – projeto da vida que escolhemos para nós mesmos.

    O que chamamos de educação é o processo mediante o qual os seres ignorantes e incompetentes que somos ao nascer se transformam, gradativamente, em seres menos ignorantes, relativamente competentes, capazes de definir, com um grau potencialmente elevado de autonomia, nosso projeto de vida e a estratégia necessária para transformá-lo em realidade. Conhecimento, competência, estratégia – estes são os ingredientes básicos do desenvolvimento humano, vale dizer, da educação.

    Em terceiro lugar, nascemos com uma importante – na realidade, essencial e indispensável – capacidade: a de aprender. Se nascemos ignorantes e incompetentes e o objetivo da educação que é que construamos conhecimentos e desenvolvamos competências que nos permitam realizar um projeto de vida autônomo, a educação só é possível porque possuímos essa notável capacidade de aprender.

    Aprender não é simplesmente assimilar e absorver, nem mesmo reunir e coletar, informações. Aprender é tornar-se capaz de fazer aquilo que antes não conseguíamos fazer. Na área do saber, construir conhecimentos envolve, entre outras coisas, perceber semelhanças, abstrair o essencial, criar conceitos, elaborar generalizações, construir modelos, inventar métodos para testar generalizações e modelos, derivar de nossos modelos formas de agir ancoradas na realidade e coerentes umas com as outras. Na área do fazer, construir competências, ou “saber-fazeres”, envolve, entre outras coisas, desenvolver conjuntos integrados de habilidades de menor abrangência, que, uma vez dominados, são postos em operação com naturalidade, quase como se fossem automatizados – o quase-automatismo só cedendo lugar ao controle consciente diante do imprevisto.

    Embora haja um sentido importante em que nascemos humanos, em outro, e mais importante, sentido, nós nos fazemos humanos através da educação. Ao nascer, somos biologicamente humanos e, por isso, merecemos ser tratados com a dignidade devida a todos os seres humanos. Mas do ponto de vista psicológico, social e cultural, tornamo-nos humanos à medida que vamos definindo o nosso projeto de vida e nos transformando na vida que projetamos para nós mesmos.

    Por fim, em quarto lugar, possuímos uma intrigante capacidade de inventar tecnologias. A definição mais ampla de tecnologia é que tecnologia é tudo aquilo que o ser humano inventa para tornar a sua vida mais fácil, ou, então, mais agradável. Há tecnologias que são ferramentas – coisas que são úteis e que facilitam nossa vida porque nos ajudam a fazer aquilo que precisamos ou desejamos fazer. Mas também há tecnologias que são brinquedos – coisas que não são úteis e que não facilitam a nossa vida, mas que nos dão imenso prazer. As artes são tecnologias desse tipo. As tecnologias que são ferramentas nos ajudam a nos manter vivos – mas são as tecnologias que são brinquedos que nos fazem querer continuar vivos.

    Esses dois tipos de tecnologia são essenciais para educação: um no plano dos meios, o outro, no plano dos fins.

    É nesses espaços conceituais e teóricos que se situa o livro de Renato Soffner. Desfrutem-no. É uma contribuição importante à causa da educação no ambiente acadêmico e corporativo.

    Eduardo O C Chaves
    Secretário Adjunto de Ensino Superior
    Estado de São Paulo

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    Campinas, 13 de março de 2007

    Transcrito neste space em Salvador, 1º de Novembro de 2009

    10/28/2009

    “O Colocador de Pronomes”

    Relendo o post “Você não sabe até onde eu chegaria para te fazer feliz”, colocado aqui no meu space há poucos dias, lembrei-me de um divertido conto de Monteiro Lobato, com o título do post atual, que tentarei resumir de memória.

    O narrador da história, no conto, se chama Aldrovando Cantagalo. Tem uma obsessão: “a última flor do Lácio, inculta e bela”, a nossa língua portuguesa, Que é bela, não há dúvida. Que é inculta, talvez também… Dizem alguns que é maltratada pelos que erram ao usá-la.

    Mas há erros e erros – erros que são apenas erros e erros que são prenúncios de inovação… (É deste tipo o erro da frase  “Você não sabe até onde eu chegaria para te fazer feliz”…)

    Dentro da obsessão de Cantagalo, os pronomes recebiam especial atenção – porque, como esclarece Lobato, Cantagalo “nasceu e morreu por um erro de pronome”.

    O erro de pronome que explica o seu nascimento é o mais curioso – embora, talvez, o menos trágico.

    Seu pai não tinha lá grande intimidade com as minúcias da gramática de nossa língua. Naqueles tempos sisudos, apaixonou-se, má sorte, pela filha mais nova do Coronel local -- ela, pessoa jovem, graciosa, um amor de criatura; ele, o Coronel, pessoa brava e temida, a principal causa do fato de que sua filha mais velha provavelmente iria morrer solteirona (talvez invicta, mas nunca se sabe). Ela infelizmente tinha, além do pai bravo, outras características não muito desejáveis: era um pouco velhusca, meio rechonchuda, tinha um que de vesga e mancava de uma perna... (É… acho que morreu invicta mesmo).

    O pai de Cantagalo e sua bela se viram no footing do jardim, encontraram-se vez ou outra furtivamente, trocaram-se bilhetes, amaram-se daquela forma que era totalmente virtual, mesmo que o termo ainda não fosse consagrado nesse sentido -- pois o amor virtual era o único que era permitido antes (e fora) do casamento.

    Um dia um dos bilhetes caiu nas mãos do Coronel. O bilhete, dirigido pelo pai de Cantagalo à sua amada, dizia:

    "Fulana [o nome da dita]: Amo-lhe".

    De posse do bilhete o Coronel mandou incontinenti chamar o ousado namorador, que diante da confrontação com o Coronel tremeu nas pernas. Mas convocação de Coronel é coisa que não se recusa -- especialmente quando o Coronel é o pai da amada.

    Lá chegando, o pai de Cantagalo foi recebido pela criada que o colocou no escritório. Um pouco depois entrou no escritório o temido Coronel, que foi direto ao assunto. Mostrou o bilhete ao pobre rapaz e lhe perguntou se era ele o autor.

    -- "Sim, Coronel, fui eu que o escrevi", respondeu.

    -- "E é verdade o que aqui está aqui escrito?", indagou o velho.

    -- "Sim, sim, claro que sim". [‘Oh, Virgem Santíssima, tem piedade de mim…]

    -- "E o bilhete foi dirigido à minha filha mais nova?"

    -- "Sim, sim, senhor".

    -- "Então, está bom. Vai casar".

    Cantagalo caiu das nuvens. Haviam-lhe dito que o Coronel era pessoal temível e que ele poderia nem mesmo sair vivo da casa. Casar? Pois ele não queria outra coisa!

    -- "Ora, Coronel, que alívio… Com prazer, sim, com prazer me casarei com ela. Em verdade eu tinha esperança de que um dia pudesse fazer isso, mas..."

    -- "Tudo bom. Vamos chamar a noiva", interrompeu o Coronel.

    E, dirigindo-se à criada, mandou que esta trouxesse ao escritório sua filha mais velha.

    -- "Perdão, Coronel. Acho que houve um engano. Não é a mais velha, é a mais nova..."

    -- "Como? Você não admitiu que escreveu o bilhete para minha filha mais nova? E o bilhete não diz 'amo-lhe'? Ora, se você, escrevendo à mais nova, lhe diz 'amo-lhe', só pode amar a mais velha -- a menos que fosse minha esposa que o senhor tinha em mente ao escrever?"

    -- "Não, não, Coronel. O senhor está certo. Absolutamente certo. Sua esposa? Não, nunca… Eu me caso com sua filha mais velha".

    E casou-se. E do casamento nasceu Aldrovando Cantagalo.

    Nasceu por um erro de pronome. Por isso dedicou sua vida ao estudo da língua portuguesa, para que o que aconteceu ao pai não lhe acontecesse, a ele próprio, um dia.

    Mas quis o destino que, do mesmo modo que nasceu por um erro de pronome, viesse a morrer por outro.

    Em seus estudos da língua portuguesa Cantagalo se encantou com a prosa de Eça de Queiroz. Leu tudo que o escritor português escreveu. E resolveu, inspirado pela beleza daquela prosa, escrever um tratado (em vários volumes) enaltecendo a beleza de nossa língua e ensinando as pessoas a reverenciá-la, falando-a bem…

    Dedicou a obra “A Eça, que me sabe as dores”.

    Terminada a obra, procurou editores – não os encontrou, naqueles tempos primitivos, anteriores à Sociedade da Informação. Resolveu pagar com recursos de seu próprio bolso (embora escassos) uma tipografia para que a imprimisse.

    No dia em que a obra foi entregue em sua casa, sentou-se para se deliciar calmamente com a inebriante sensação que é ver o seu primeiro livro impresso… Abriu um dos pacotes, retirou dele o primeiro volume, abriu-o – e caiu fulminado por um ataque do coração!

    O tipógrafo, ao compor o texto da dedicatória, resolveu corrigir o que estava certo, e mudou a dedicatória para:

    “A Eça, que sabe-me as dores”.

    Morreu o Cantagalo por outro erro de pronomes – este, de colocação. Provavelmente é o primeiro (quiçá o único) mártir da língua portuguesa.

    Deveria ter um feriado dedicado a ele.

    [NOTA: Este post incorpora elementos de uma crônica que escrevi, “O Amor e a Gramática”, publicada em meu site de crônicas: http://cronicas.info/textos/gramatica.htm]

    Em São Paulo, 28 de Outubro de 2009

    Onze anos da EduTec.Net: Rede de Educação e Tecnologia

    Hoje faz onze anos que criei  a Rede EduTec – um grupo de discussão na Internet sobre Educação e Tecnologia que chegou a ter bem mais de mil participantes – e que eu fechei na seqüência dos eventos de Nine Eleven. Fui muito criticado por fazê-lo. E, um pouco tardiamente, reconheci que os críticos tinham razão – tanto que ressuscitei a EduTec.Net no ano passado, neste dia 28/10 (em resposta a insistentes pedidos). Mas não é mais a mesma, embora muitos dos old faithful tenham voltado. (Outros não conseguiram me perdoar o ter fechado a lista no auge de seu sucesso).

    Para mim, foi um enorme aprendizado – não só na área de Educação e Tecnologia como na sub-área de coordenação de grupos de discussão / comunidades virtuais. A EduTec.Net foi uma experiência pioneira no Brasil de “Aprendizagem Colaborativa a Distância”, ou, melhor colocando, de uma “Comunidade Virtual de Aprendizagem Colaborativa”. Que eu saiba, há um trabalho de fim de Curso de Especialização e uma Dissertação de Mestrado que analisam a EduTec.Net. Mas há inúmeros ex-edutequianos por aí…

    Os então edutequianos tivemos um encontro presencial (gerenciado, do ponto de vista administrativo, por minha filha Patrícia Chaves), com cerca de setenta participantes, em 2000, dentro do Congresso Educador, da Promofair, do qual fui Coordenador Técnico aquele ano (pela segunda vez – a primeira foi em 1994, no primeiro Congresso Educador). Encontramo-nos no Congresso e tivemos um jantar de confraternização no Hotel Ibis da Barra Funda, perto do Anhembi, onde quase todos os edutequianos ficaram.

    À lista correspondia um site (http://edutec.net), que ainda existe mas que está muito desatualizado.

    A lista, depois de ter sido hospedada em Topica, eGroups e, finalmente, Yahoo! Groups, que comprou eGroups. Está no Yahoo! Groups até hoje, no enderreço:

    http://br.groups.yahoo.com/group/edutecnet/ 

    Clicando no link acima você pode se tornar parte da EduTec.Net ainda hoje.

    Há uma comunidade no Orkut chamada “Eu fiz parte da EduTec”, coordenada pelo edutequiano de primeira hora Wilson Azevedo, que possui atualmente 42 membros. Vide:

    http://www.orkut.com.br/Main#Community?cmm=36400141 

    Se você participou da EduTec.Net, volte a participar e se associe também à comunidade do Orkut.

    Espero ainda vir a ter tempo e energia para ressuscitar a EduTec.Net e o site EduTec comme il faut. Vou precisar da ajuda da Paloma para fazer isso.

    Deixo aqui, portanto, o registro de mais um aniversário do nascimento da EduTec.Net – ad perpetuam rei memoriam.

    Em São Paulo, 28 de Outubro de 2009

    10/27/2009

    Filmes antigos de que eu gosto…

    Meu sobrinho me pediu para fazer uma lista de meus filmes antigos favoritos… Escolhi 1989 como a linha divisória – afinal, filmes lançados em 1989 já têm vinte anos e, por conseguinte, contam como antigos,,, :-)

    Aqui vão eles, começando com os mais antigos:

    Gone with the Wind (1939)
    Rebecca (1940)
    For Whom the Bell Tolls (1943)
    Viva Zapata! (1952)
    Rear Windows (1954)
    Love is a Many-Splendored Thing (1955)
    Picnic (1955)
    Giant (1956)
    The Eddy Duchin Story (1956) 
    An Affair to Remember (1957)
    A Farewell to Arms (1957)
    Vertigo (1958)
    Inherit the Wind (1960)
    Alexis Zorba (1964)
    The Sound of Music (1965)
    The Sandpiper (1965)
    Ship of Fools (1965)
    Doctor Zhivago (1965)
    Guns for San Sebastian (1968)
    Ryan's Daughter (1970)
    The Summer of 42 (1971)
    The Effect of Gamma Rays on Man-in-the-Moon Marigolds (1972)
    Sophie's Choice (1982)
    Yentl (1983)
    Paris, Texas (1984)
    84 Charing Cross Road (1988)
    The Unbearable Lightness of Being (1988)
    The Tenth Man (1988)
    Camille Claudel (1988)
    Dead Poet's Society (1989)
    Cousins (1989)

    Em  São Paulo, 26 de Outubro de 2009

    10/26/2009

    "Você não sabe até onde eu chegaria para te fazer feliz"

    Possivelmente uma pequena parcela dos leitores vai estranhar a frase que dá título a este post. Essa mistura de pronomes da terceira e da segunda pessoa é rejeitada por nossa norma culta. No entanto, imagino que boa parte dos leitores não vai notar nenhum problema na frase – até que leiam o que estou escrevendo. Falamos, normalmente, sem nenhum problema, como na frase que dá título ao post – ou como em “Você não sabe o quanto eu te amo”…

    A principal razão para essa mistura de pessoas nos pronomes é simples. Provavelmente dá para contar nos dedos as pessoas que, numa situação de vida real, diriam: “Você não sabe do que eu seria capaz para fazê-lo/a feliz”, ou “Você não sabe o quanto eu o/a amo”. Já imaginaram, em meio àquele beijo escaldante, dizer “Eu o/a amo”???

    A norma culta deve refletir os usos e costumes de quem fala a língua. Já temos alguns usos esdrúxulos nas formas de tratamento: “Você” com a terceira pessoa do singular, normalmente aquela de quem se fala, não com quem se fala… Ou “Vossa Excelência” também com a terceira pessoa, apesar do “Vossa” explicitado (em “Você” o “Vossa” de “Vossa Mercê” sumiu…).

    Para a maioria absoluta da população brasileira, “Você” leva o verbo para a terceira pessoa – mas o verbo transitivo direto concorda com o pronome “te”, da segunda pessoa, não com “o” ou “a”, da terceira, no objeto direto…

    Vejamos só quantas vezes Roberto Carlos mistura pronomes da terceira (como sujeito)e da segunda pessoa (este como objeto direto) na canção “Você não sabe”…

    “VOCÊ não sabe até onde eu chegaria pra TE fazer feliz…”

    “Encontraria uma palavra … pra TE dizer…” [i.e., para dizer para você]

    “… loucuras que já fiz pra TE fazer feliz” (duas vezes) [i.e., para fazer você feliz]

    “VOCÊ só sabe que eu TE amo tanto…

    No entanto, Roberto Carlos corretamente (fiel ao espírito da língua) diz:

    “VOCÊ não sabe quanta coisa eu faria por um sorriso SEU…”

    O sorriso é o seu – mas a declaração de amor é "eu te amo"…

    Então, vamos parar de frescura e falar como o espírito da língua nos move a falar… Sob

    Em Americana, 26 de Outubro de 2009

    10/25/2009

    "Em Nome do Romance" (Mario Vargas Llosa)

    [Transcrevo aqui magnífico artigo de Mario Vargas Llosa, publicado, em tradução para o Português, na revista Piauí. Vide http://www.revistapiaui.com.br/interna_print.aspx?id=1159&nEdicao=37]

    Incivilizado, bárbaro, órfão de sensibilidade e pobre de palavra, ignorante e grave, alheio à paixão e ao erotismo - um mundo sem literatura teria como traço principal o conformismo, a submissão dos seres humanos ao estabelecido. Seria um mundo animal

    Muitas vezes me ocorre, nas feiras de livros ou nas livrarias, que um senhor se aproxime de mim com um livro meu nas mãos e me peça para autografá-lo, especificando: é para a minha mulher, ou minha filha, ou minha irmã, ou minha mãe; ela, ou elas, são grandes leitoras e são apaixonadas por literatura. E eu lhe pergunto, de imediato: "E o senhor? Não gosta de ler?"

    A resposta chega pontual, quase sempre: "Bem, sim, é claro que gosto, mas sou uma pessoa muito ocupada, sabe como é". Sim, sei muito bem, porque ouvi essa explicação dezenas de vezes: esse senhor, esses milhares de senhores iguais a ele têm tantas coisas importantes, tantas obrigações e responsabilidades na vida, que não podem desperdiçar seu tempo precioso passando horas e horas imersos num romance, num livro de poemas ou num ensaio literário. Segundo essa concepção, a literatura é uma atividade da qual se pode prescindir, um entretenimento elevado e útil para cultivar a sensibilidade e as boas maneiras, um ornamento que se podem permitir os que dispõem de tempo livre para a recreação, e que seria necessário computar na categoria dos esportes, do cinema, do bridge ou do xadrez, mas que pode ser sacrificado sem escrúpulos no momento de estabelecer uma escala de prioridades nos afazeres e compromissos indispensáveis da luta pela vida.

    É verdade que a literatura acabou por se tornar, cada vez mais, uma atividade feminina: nas livrarias, nas conferências ou nas readings dos escritores e, naturalmente, nos departamentos e nas faculdades em que se estuda literatura, as saias ganham de goleada das calças. A explicação é que, na classe média, as mulheres leem mais porque trabalham menos horas que os homens, e que muitas delas tendem a se considerar mais justificadas do que os homens no tempo que dedicam à fantasia e à ilusão. Como sou um tanto alérgico a essas explicações, que dividem homens e mulheres em categorias estanques com virtudes e fraquezas coletivas, não partilho dessas interpretações; mas num aspecto não resta dúvida: há cada vez menos leitores de literatura - há muitos leitores, mas de lixo impresso - e, entre eles, as mulheres prevalecem.

    Uma pesquisa organizada recentemente pela Sociedade Geral de Autores Espanhóis forneceu um dado alarmante: metade dos habitantes daquele país jamais leu um livro. A pesquisa revelou também que, na minoria leitora, o número de mulheres que declaram ler é superior em 6,2% ao dos homens. Muito me alegro pelas mulheres, é claro, mas me preocupo pelos homens, e pelos milhões de seres humanos que, podendo ler, renunciaram a fazer isso. Não só porque desconhecem o prazer que perdem, mas porque estou convencido de que uma sociedade sem romances, ou na qual a literatura foi relegada, como certos vícios inconfessáveis, às margens da vida social e convertida mais ou menos num culto sectário, essa sociedade está condenada a se barbarizar no plano espiritual e a pôr em risco a própria liberdade.

    Vivemos numa época de especialização do conhecimento, causada pelo prodigioso desenvolvimento da ciência e da técnica, e da sua fragmentação em inumeráveis afluentes e compartimentos estanques. A especialização permite aprofundar a exploração e a experimentação, e é o motor do progresso; mas determina também, como consequência negativa, a eliminação daqueles denominadores comuns da cultura graças aos quais os homens e as mulheres podem coexistir, comunicar-se e se sentir de algum modo solidários.

    A especialização leva à incomunicabilidade social, à fragmentação do conjunto de seres humanos em guetos culturais de técnicos e especialistas, aos quais a linguagem, alguns códigos e a informação progressivamente setorizada relegam naquele particularismo contra o qual nos alertava o antiqüíssimo adágio: não é necessário se concentrar tanto no ramo nem na folha, a ponto de esquecer que eles fazem parte de uma árvore, e esta de um bosque. O sentido de pertencimento, que conserva unido o corpo social e o impede de se desintegrar em uma miríade de particularismos solipsistas, depende, em boa medida, de que se tenha uma consciência precisa da existência do bosque. E o solipsismo - de povos ou indivíduos - gera paranoias e delírios, as deformações da realidade que sempre dão origem ao ódio, às guerras e aos genocídios. A ciência e a técnica não podem mais cumprir aquela função cultural integradora em nosso tempo, precisamente pela infinita riqueza de conhecimentos e da rapidez de sua evolução que levou à especialização e ao uso de vocabulários herméticos.

    A literatura, ao contrário, diferentemente da ciência e da técnica, é, foi e continuará sendo, enquanto existir, um desses denominadores comuns da experiência humana, graças ao qual os seres vivos se reconhecem e dialogam, independentemente de quão distintas sejam suas ocupações e seus desígnios vitais, as geografias, as circunstâncias em que se encontram e as conjunturas históricas que lhes determinam o horizonte. Nós, leitores de Cervantes ou de Shakespeare, de Dante ou de Tolstoi, nos sentimos membros da mesma espécie porque, nas obras que eles criaram, aprendemos aquilo que partilhamos como seres humanos, o que permanece em todos nós além do amplo leque de diferenças que nos separam. E nada defende melhor os seres vivos contra a estupidez dos preconceitos, do racismo, da xenofobia, das obtusidades localistas do sectarismo religioso ou político, ou dos nacionalismos discriminatórios, do que a comprovação constante que sempre aparece na grande literatura: a igualdade essencial de homens e mulheres em todas as latitudes, e a injustiça representada pelo estabelecimento entre eles de formas de discriminação, sujeição ou exploração.

    Nada, mais que bons romances, ensina a ver nas diferenças étnicas e culturais a riqueza do patrimônio humano, e a valorizá-las como uma manifestação de sua múltipla criatividade. Ler boa literatura é divertir-se, com certeza; mas também aprender, dessa maneira direta e intensa que é a da experiência vivida através das obras de ficção, o que somos e como somos em nossa integridade humana, com os nossos atos, os nossos sonhos e os nossos fantasmas, a sós e na urdidura das relações que nos ligam aos outros, em nossa presença pública e no segredo de nossa consciência, essa soma extremamente complexa de verdades contraditórias - como as chamava Isaiah Berlin - de que é feita a condição humana.

    Esse conhecimento totalizador e imediato do ser humano, hoje, se encontra apenas no romance. Nem mesmo os outros ramos das disciplinas humanistas - como a filosofia, a psicologia, a história ou as artes - puderam preservar essa visão integradora e um discurso acessível porque, por trás da pressão irresistível da cancerosa divisão e fragmentação do conhecimento, acabaram por sucumbir também às imposições da especialização, por isolar-se em territórios cada vez mais segmentados e técnicos, cujas ideias e linguagens estão fora do alcance da mulher e do homem comuns. Não é nem pode ser o caso da literatura, embora alguns críticos e teóricos se empenhem em transformá-la em uma ciência, porque a ficção não existe para investigar uma área determinada da experiência, mas para enriquecer de maneira imaginária a vida, a de todos, a vida que não pode ser desmembrada, desarticulada, reduzida a esquemas ou fórmulas, sem que desapareça.

    Por isso, Marcel Proust disse: "A verdadeira vida, a vida por fim esclarecida e descoberta, a única vida, pois, plenamente vivida, é a literatura." Não exagerava, guiado pelo amor a essa vocação que praticou com talento superlativo: simplesmente queria dizer que, graças à literatura, a vida se compreende e se vive melhor, e entendê-la e vivê-la melhor significa vivê-la e partilhá-la com os outros.

    Borges se irritava quando lhe perguntavam: "Para que serve a literatura?" Parecia-lhe uma pergunta idiota, e ele respondia: "A ninguém ocorreria perguntar-se sobre qual é a utilidade do canto de um canário ou das cores do céu no crepúsculo!"; com efeito, se essas coisas belas estão ali e graças a elas a vida, ainda que por um instan-te, é menos feia e menos triste, não é mesquinho procurar justificativas práticas?

    À diferença do gorjeio dos pássaros ou do espetáculo do sol fundindo-se no horizonte, um poema, um romance não estão pura e simplesmente ali, fabricados por acaso ou pela natureza. São uma criação humana, e é lícito perguntar como e por que nasceram, e o que deram à humanidade para que a literatura, cujas origens remotas se confundem com as da escrita, tenha durado tanto tempo. Nasceram como fantasmas incertos, no íntimo de uma consciência, projetados a ela pelas forças conjugadas do inconsciente, de uma sensibilidade e de algumas emoções, a que, numa luta às vezes implacável com as palavras, o poeta, o narrador, deram forma, corpo, movimento, ritmo, harmonia, vida. Uma vida artificial, feita com a linguagem e a fantasia, que coexiste com a outra, a real, desde tempos imemoriais, e à qual acorrem homens e mulheres porque a vida que têm não lhes basta, não é capaz de oferecer tudo aquilo que gostariam de ter. O romance não começa a existir quando nasce, por obra de um indivíduo; só existe realmente quando é adotado pelos outros e passa a fazer parte da vida social, quando se torna, graças à leitura, experiência partilhada.

    Um dos primeiros efeitos benéficos se verifica no plano da linguagem. Uma comunidade sem literatura escrita se exprime com menos precisão, riqueza de nuances e clareza do que outra cujo instrumento principal de comunicação, a palavra, foi cultivado e aperfeiçoado graças aos textos literários. Uma humanidade sem romances, não contaminada pela literatura, se pareceria com uma comunidade de tartamudos e afásicos, atormentada por problemas terríveis de comunicação causados por uma linguagem ordinária e rudimentar.

    Isso vale também para os indivíduos, obviamente. Uma pessoa que não lê, ou que lê pouco, ou que lê apenas porcarias, pode falar muito, mas dirá sempre poucas coisas, porque para se exprimir dispõe de um repertório reduzido e inadequado de vocábulos. Não se trata apenas de um limite verbal; é, a um só tempo, um limite intelectual e de horizonte imaginário, uma indigência de pensamentos e de conhecimentos, porque as ideias, os conceitos, mediante os quais nos apropriamos da realidade e dos segredos da nossa condição, não existem dissociados das palavras, por meio das quais as reconhece e define a consciência. Aprende-se a falar com precisão, com profundidade, com rigor e agudeza, graças à boa literatura, e apenas graças a ela.

    Nenhuma outra disciplina, nenhum outro ramo das artes, pode substituir a literatura na formação da linguagem com que as pessoas se comunicam. Os co-nhecimentos que nos transmitem os manuais científicos e os tratados técnicos são fundamentais; mas eles não nos ensinam a dominar as palavras nem a exprimi-las com propriedade: pelo contrário, amiúde são mal escritos e revelam certa confusão linguística porque os autores, às vezes eminências indiscutíveis em sua pro-fissão, são literariamente incultos e não sabem se servir da linguagem para comunicar os tesouros conceituais de que são detentores. Falar bem, dispor de uma linguagem rica e variada, encontrar a expressão adequada para cada ideia ou emoção que se queira comunicar, significa estar mais preparado para pensar, ensinar, aprender, dialogar e, também, para fantasiar, sonhar, sentir e emocionar-se.

    De uma maneira sub-reptícia, as palavras reverberam em todas as ações da vida, até mesmo nas que parecem muito distantes da linguagem. Isso, na medida em que, graças à literatura, evoluiu até níveis elevados de refinamento e de sutileza nas nuances, elevou as possibilidades da fruição humana, e, com relação ao amor, sublimou os desejos e alçou à categoria de criação artística o ato sexual. Sem a literatura não existiria o erotismo. O amor e o prazer seriam mais pobres, privados de delicadeza e de distinção, da intensidade a que chegam todos aqueles que se educaram e estimularam com a sensibilidade e as fantasias literárias. Não é exagero afirmar que um casal que haja lido Garcilaso, Petrarca, Góngora e Baudelaire ama e usufrui mais do que outro, de analfabetos semi-idiotizados pelas séries de televisão. Em um mundo iletrado, o amor e a fruição não poderiam ser diferenciados daqueles que satisfazem os animais, não iriam além da mera satisfação dos instintos elementares: copular e devorar.

    Os meios audiovisuais não estão em condições de substituir a literatura na função de ensinar o ser humano a usar com segurança, e talento, as riquíssimas possibilidades que a língua encerra. Esses meios tendem a relegar as palavras a um segundo plano em relação às imagens, que são a sua linguagem essencial, e a reduzir a língua à sua expressão oral, ao mínimo indispensável, o mais distante possível de sua vertente escrita que, na tela e nos alto-falantes, resulta sempre soporífera. Dizer de um filme ou de um programa que ele é "literário" é um modo educado de chamá-lo de chato.

    Isso me leva a pensar, também, embora sobre essa questão eu deva admitir que nutro certas dúvidas, que não só a literatura é indispensável para o conhecimento correto e para o domínio da língua, mas que o destino dos romances está ligado, em um matrimônio indissolúvel, ao do livro, produto industrial que muitos declaram já obsoleto.

    Um deles é um senhor importante e a quem a humanidade deve muito no campo das comunicações, isto é, Bill Gates, o fundador da Microsoft. O senhor Gates estava em Madri, há pouco tempo, e visitou a Real Academia Espanhola, com a qual a Microsoft lançou as bases daquilo que, assim se espera, será uma fecunda colaboração. Entre outras coisas, Bill Gates assegurou aos acadêmicos que se ocupará pessoalmente de que a letra "ñ" nunca seja retirada dos computadores, promessa que, é óbvio, arrancou de nós um suspiro de alívio, de nós, 400 milhões de hispanohablantes dos cinco continentes, para os quais a mutilação daquela letra essencial no ciberespaço teria criado problemas babélicos.

    Pois bem, imediatamente depois dessa concessão amável à língua espanhola e, assim entendo, sem ter sequer deixado a Real Academia, Bill Gates declarou que espera não morrer sem ter realizado o seu maior projeto. E qual seria ele? Acabar com o papel, e, pois, com os livros, mercadoria que, a seu entender, já é de um anacronismo contumaz. O senhor Gates explicou que as telas dos computadores estão em condições de substituir com êxito o papel em todas as funções e que, além de isso custar menos, de ocupar menos espaço e de ser mais fácil de transportar, as informações e a literatura por meio da tela terão a vantagem ecológica de pôr fim à devastação dos bosques, cataclismo que, pelo visto, é consequência da indústria de papel. As pessoas continuam a ler, explicou ele, mas nas telas, e, desse modo, haverá mais clorofila no meio ambiente.

    Eu não estava presente - tomei conhecimento desses detalhes pela imprensa -, mas, se houvesse estado lá, teria interrompido rumorosamente o senhor Bill Gates para contestar, sem o menor constrangimento, a sua intenção de nos aposentar a mim e a tantos colegas meus, a nós, pobres escritores de livros. Pode o monitor substituir o livro em todos os casos, como afirma o criador da Microsoft? Não estou seguro disso. Digo isso sem negar, de modo algum, a revolução que no campo das comunicações e da informação representou o desenvolvimento das novas técnicas, como a internet, que todo dia me presta uma ajuda inestimável em meu trabalho; mas daí a admitir que a tela eletrônica possa substituir o papel no que concerne às leituras literárias há uma lacuna que não consigo preencher. Simplesmente não sou capaz de aceitar a ideia de que a leitura não funcional nem prática, a que não busca uma informação nem uma comunicação de utilidade imediata, possa conviver na tela de um computador com o sonho e com a fruição da palavra, gerando a mesma sensação de intimidade, a mesma concentração e o mesmo isolamento espiritual do livro.

    Talvez seja um preconceito, resultante da falta de prática, da já longa identificação na minha experiência da literatura com os livros de papel, mas, se bem que navegue com muito prazer na internet em busca de notícias do mundo, não me ocorreria servir-me dela para ler os poemas de Góngora, um romance de Onetti ou de Calvino, nem um ensaio de Octavio Paz, porque sei muito bem que o efeito dessa leitura jamais seria o mesmo.

    A literatura não diz nada aos seres humanos satisfeitos com seu destino, de todo contentes com o modo como vivem a vida. A literatura é alimento dos espíritos indóceis e propagadora da inconformidade, um refúgio para quem tem muito ou muito pouco na vida, onde é possível não ser infeliz, não se sentir incompleto, não ser frustrado nas próprias aspirações. Cavalgar junto ao esquálido Rocinante e a seu desregrado cavaleiro pelas terras da Mancha, percorrer os mares em busca da baleia branca com o capitão Ahab, tomar o arsênico com Emma Bovary ou transformar-se em inseto com Gregor Samsa é um modo astuto que inventamos para nos mitigar pelas ofensas e imposições desta vida injusta que nos obriga a sermos sempre os mesmos, enquanto gostaríamos de ser muitos, tantos quantos fossem necessários para satisfazer os desejos incandescentes de que somos possuídos.

    Só momentaneamente é que o romance aplaca essa insatisfação vital, mas, nesse intervalo milagroso, nessa suspensão temporária da vida em que a ilusão lite-rária nos imerge - que parece nos arrancar da cronologia e da história e nos converter em cidadãos de uma pátria sem tempo, imortal - somos outros. Mais intensos, mais ricos, mais complexos, mais felizes, mais lúcidos do que na rotina forçada da nossa vida real. Quando, fechado o livro, posta de parte a ficção, voltamos àquela e a comparamos com o território resplandecente que mal acabamos de deixar, espera-nos uma grande desilusão. Isto é, esta grande confirmação: que a vida sonhada do romance é melhor - mais bela e variada, mais compreensível e perfeita - do que a que vivemos quando estamos despertos, uma vida tolhida nos limites e na servidão a nossa condição.

    Nesse sentido, a boa literatura é sempre - ainda que não proponha isso nem se dê conta disso - sediciosa, insubmissa, em revolta: um desafio ao que existe. A literatura nos permite viver em um mundo cujas leis transgridem as leis inflexíveis em meio às quais transcorre a nossa vida real, emancipados da prisão do espaço e do tempo, na impunidade para o excesso e donos de uma soberania que não conhece limites. Como não nos sentirmos defraudados depois de termos lido Guerra e Paz ou Em Busca do Tempo Perdido, ao nos voltarmos a este mundo de mesquinharias infinitas, de fronteiras e proibições que estão à espreita e que em toda parte, a cada passo, perturbam nossas ilusões? Esta é, talvez, ainda mais do que conservar a continuidade da cultura e enriquecer a linguagem, a melhor contribuição da literatura ao progresso humano: recordar-nos (involuntariamente, na maior parte dos casos) de que o mundo se acha mal-acabado, de que mentem os que sustentam o contrário - por exemplo, os poderes que o governam -, e de que poderia ser melhor, mais próximo dos mundos que a nossa imaginação e a nossa palavra são capazes de inventar.

    Entenda-se bem: chamar de sediciosa uma literatura porque as belas obras de ficção desenvolvem nos leitores uma consciência alerta em face das imperfeições do mundo real não significa, como creem as igrejas e os governos que se fiam da censura para atenuar ou anular sua carga subversiva, que os textos literários provoquem diretamente comoções sociais ou acelerem as revoluções. Os efeitos sociopolíticos de um poema, de um drama ou de um romance não podem ser verificados porque não se mostram quase nunca de ma-neira coletiva, mas individual, e isso significa que variam enormemente de uma pessoa para outra. Por isso é difícil, para não dizer impossível, estabelecer normas precisas. Por outro lado, muitas vezes esses efeitos, quando resultam evidentes no âmbito coletivo, podem ter pouco a ver com a qualidade estética do texto que os produz. Por exemplo, um romance medíocre, A Cabana do Pai Tomás, de Harriet Beecher Stowe, parece ter desempenhado um papel importantíssimo na tomada de consciência social, nos Estados Unidos, dos horrores da escravidão; o fato de que esses efeitos sejam difíceis de identificar não significa que eles não existam, mas que se manifestam, de maneira indireta e múltipla, por meio dos comportamentos e ações dos cidadãos cuja personalidade os romances contribuíram para moldar.

    A boa literatura, enquanto aplaca momentaneamente a insatisfação humana, incrementa-a e, fazendo que se desenvolva uma sensibilidade inconformista em relação à vida, torna os seres humanos mais aptos para a infelicidade. Viver insa-tisfeito, em luta contra a existência, significa empenhar-se, como dom Quixote, bater-se contra os moinhos de vento, condenar-se, de certa forma, a viver as bata-lhas travadas pelo coronel Aureliano Buendía, em Cem Anos de Solidão, sabendo que as perderia todas. Isso é provavelmente verdadeiro; mas também é verdadeiro que, sem a revolta contra a mediocridade e a sordidez da vida, nós, seres humanos, ainda viveríamos em condições primitivas, a história teria acabado, não teria nascido o indivíduo, a ciência e a tecnologia não se teriam desenvolvido, os direitos humanos não teriam sido reconhecidos, a liberdade não existiria, porque tudo isso nasceu de atos de insubmissão contra uma vida percebida como insuficiente e intolerável.

    Tentemos traçar uma reconstrução histórica fantástica, imaginando um mundo sem literatura, uma humanidade que não haja lido romances. Nessa civilização ágrafa, com um léxico liliputiano, em que talvez os grunhidos e a gesticulação simiesca prevalecessem sobre as palavras, não existiriam certos adjetivos formados a partir das criações literárias: quixotesco, kafkiano, pantagruélico, rocambolesco, orwelliano, sádico e masoquista, entre muitos outros. Haveria loucos, vítimas de paranoias e delírios de perseguição, e pessoas de apetite descomunal e de excessos desmedidos, e bípedes que gozariam recebendo ou infligindo a dor, com certeza; mas não teríamos aprendido a ver por trás desses comportamentos extremados, em contraste com a pretensa normalidade, aspectos essenciais da condição humana, vale dizer, de nós mesmos, algo que só o talento criador de Cervantes, de Kafka, de Rabelais, de Sade ou de Sacher-Masoch nos revelou.

    Quando veio a lume o Dom Quixote, os primeiros leitores riam daquele homem iludido e extravagante, da mesma forma como riam as outras personagens do romance. Agora sabemos que o empenho do Cavaleiro da Triste Figura em ver gigantes em vez de moinhos de vento e em cometer todos os desatinos que comete é a forma mais elevada de generosidade, um modo de protestar contra as misérias deste mundo e de procurar mudá-lo. Os próprios conceitos de ideal e de idealismo, tão impregnados de uma validade moral positiva, não seriam o que são - ou seja, valores claros e respeitáveis - se não tivessem encarnado naquela personagem de romance com a força persuasiva que lhe conferiu o gênio de Cervantes. E o mesmo se poderia dizer desse pequeno dom Quixote pragmático e de saias que foi Emma Bovary - o bovarismo não existiria, está claro -, que por sua vez se bateu com ardor para viver essa vida resplendente de paixões e de luxo que ela conhecera nos romances, e se queimou nesse fogo como a mariposa que se aproxima demais da chama.

    Como as de Cervantes e Flaubert, as invenções dos grandes criadores literários, ao mesmo tempo em que nos arrancam de nossa prisão realista, conduzem e guiam pelos mundos da fantasia, abrem-nos os olhos sobre aspectos desconhecidos e secretos da nossa condição, e nos dão os instrumentos para explorar e entender mais os abismos do que é -humano. Dizer "borgeano" significa destacar-se da realidade racional costumeira e penetrar numa fantástica, rigorosa e elegante construção mental, quase sempre labiríntica, impregnada de referências e alusões livrescas, cuja singularidade não nos é, todavia, estranha, porque nela reconhecemos desejos recônditos e verdades íntimas do nosso ser que só graças às criações literárias de um Jorge Luis Borges puderam tomar forma. O adjetivo "kafkiano" nos vem à mente de maneira natural, como o flash de uma daquelas velhas máquinas fotográficas de fole, toda vez que nos sentimos ameaçados, como indivíduos inermes, por esses mecanismos opressores e destrutivos que tanta dor, tantos abusos e injustiças causaram no mundo moderno: os regimes autoritários, os partidos verticais, as igrejas intolerantes, as burocracias asfixiantes. Sem os contos e romances daquele atormentado judeu de Praga que escrevia em ale-mão e que viveu sempre à espreita, não teríamos sido capazes de compreender o sentido de fragilidade e impotência do indivíduo isolado ou das minorias discriminadas e perseguidas, ante as forças onipotentes que podem pulverizá-los.

    O adjetivo "orwelliano", primo em primeiro grau de "kafkiano", refere-se à angústia opressiva e à sensação de absurdo extremo que geraram as ditaduras totalitárias do século xx, as mais refinadas, cruéis e absolutas da história, em seu controle dos atos, da psique e até dos sonhos dos membros de uma sociedade. Nos seus romances mais célebres, A Revolução dos Bichos e 1984, George Orwell descre-veu, com acentos gélidos e de pesadelo, uma humanidade submetida ao controle do Grande Irmão, um senhor absoluto que, por meio de uma combinação eficaz de terror e tecnologia moderna, eliminou a liberdade, a espontaneidade e a igualdade - nesse mundo alguns são "mais iguais do que os outros" - e transformou a sociedade em uma colmeia de seres humanos autômatos, programados como os robôs. Não apenas as condutas obedecem aos desígnios do poder, mas também a língua, o newspeak, foi depurada de toda conotação individualista, de toda invenção ou matiz subjetivo, transformando-se numa enfiada de lugares-comuns e clichês impessoais, o que aumenta a servidão dos indivíduos ao sistema. É verdade que a profecia sinistra de 1984 não se materializou e que, como ocorreu com os totalitarismos fascista e nazista, o comunismo totalitário desapareceu na União Soviética e depois começou a se deteriorar na China e naqueles anacronismos que são ainda Cuba e a Coreia do Norte; mas a palavra "orwelliano" permanece como lembrança de uma das experiências político-sociais mais devastadoras vividas pela civilização, e que os romances e ensaios de George Orwell nos ajudaram a compreender nos seus mecanismos mais recônditos.

    Por vezes, a imagem que se delineia no espelho que os romances e os poemas nos oferecem de nós mesmos é a imagem de um monstro. Ocorre quando lemos as horripilantes carnificinas sexuais fantasiadas pelo Divino Marquês, ou as tétricas dilacerações e sacrifícios que povoam os livros malditos de um Sacher-Masoch ou de um Bataille. E, todavia, o pior dessas páginas não são o sangue nem a humilhação, tampouco as torturas abjetas nem a sanha que as tornam febris; é a descoberta de que essa violência e os abusos não nos são estranhos, estão repletos de humanidade, de que esses monstros ávidos de transgressão e excesso estão entocados no mais fundo de nosso ser e que, das sombras onde estão ocultos, aguardam uma ocasião favorável para se manifestar, para impor a lei dos seus desejos, que acabaria com a racionalidade, com a convivência e talvez com a própria existência. Não a ciência, mas a literatura foi a primeira a examinar os abismos do fenômeno humano e a descobrir o apavorante potencial destrutivo e autodestrutivo que também o conforma. Portanto, um mundo sem romances seria parcialmente cego em face desses abismos terríveis onde com fre-quência jazem as motivações das condutas e comportamentos inusitados, e por isso mesmo tão injusto contra o que é diferente, como aquele que, em um passado não muito remoto, acreditava que canhotos, aleijados e gagos estivessem possuí-dos pelo demônio. Esse mundo talvez continuasse a praticar, como até há pouco tempo algumas tribos amazônicas, o perfeccionismo atroz de afogar nos rios os recém-nascidos com defeitos físicos.
    Incivilizado, bárbaro, órfão de sensibilidade e pobre de palavra, ignorante e grave, alheio à paixão e ao erotismo, o mundo sem romances, esse pesadelo que procuro delinear, teria como traço principal o conformismo, a submissão dos seres humanos ao estabelecido. Seria um mundo animal. Os instintos básicos decidiriam a rotina de uma vida oprimida pela luta pela sobrevivência, pelo medo do desconhecido, pela satisfação das necessidades físicas, em que não haveria espaço para o espírito e a que, à monotonia sufocante da vida, acompanharia o pessimismo, a sensação de que a vida humana sempre será assim, e que nada nem ninguém poderá mudar o estado das coisas.

    Quando se imagina um mundo assim, há a tendência a identificá-lo de imediato com o primitivo, com o trapo cobrindo os órgãos genitais, com as pequenas comunidades mágico-religiosas que vivem à margem da modernidade na América Latina, na Oceania e na África. A verdade é que o formidável desenvolvimento dos meios audiovisuais em nossa época - os quais, por um lado, revolucionaram as comunicações tornando todos os homens e mulheres do planeta partícipes da atualidade e, por outro, monopolizaram cada vez mais o tempo que os seres vivos dedicam ao ócio e à diversão em vez de à leitura - permite imaginar, como possível cenário histórico do futuro, uma sociedade moderníssima, repleta de computadores, telas e alto-falantes, e sem livros, ou mais precisamente, onde os livros - a literatura - se tornaram semelhantes à alquimia na era da física: uma curiosidade anacrônica, praticada nas catacumbas da civilização mediática por minorias neuróticas. Esse mundo cibernético, receio muito, apesar de sua prosperidade e poderio, de seus elevados níveis de vida e de suas façanhas científicas, seria profundamente incivilizado, letárgico, privado de espírito, uma humanidade resignada de robôs que abdicaram da liberdade.

    É mais do que improvável que essa perspectiva sombria chegue a se concretizar. A história não está escrita, não há um destino preestabelecido que tenha decidido por nós o que seremos. Depende totalmente da nossa visão e da nossa vontade que aquela utopia macabra se realize ou se oculte. Se queremos evitar que com os romances desapareça, ou permaneça apartada no desvão das coisas inúteis, essa fonte que estimula a imaginação e a insatisfação, que nos aguça a sensibilidade e nos ensina a falar com força expressiva e rigor, e nos torna mais livres e nossas vidas mais ricas e intensas, é necessário agir. Há que ler os bons livros e incitar a ler, e ensinar a fazer isso a quantos venham depois de nós - nas famílias e nas aulas, nos meios de comunicação de massa e em todos os setores da vida comum - como uma ocupação imprescindível, pois que é a que imprime a sua marca em todos os demais, e os enriquece.

    Transcrito em São Paulo, 25 de Outubro de 2009

    Hebe Camargo - Uma homenagem

    Gosto da Hebe Camargo. Mais do que isso: sou fã dela. Há muito tempo. Muito antes de ela ser apresentadora famosa. Desde o tempo, no início dos 50, quando ela cantava, uma vez por semana, ao vivo, no Programa Manoel da Nóbrega, na Rádio Nacional de São Paulo, por volta das 12:20 das quintas-feiras, com a locução de Sílvio Santos: “Hoje é quinta-feira, dia de nosso encontro com Hebe Camargo!!!” Vinham cerca de dez segundos de papo e ela cantava. As canções eram sempre lindas, a voz deliciosa, a interpretação impecável.

    Ontem ganhei da Paloma um conjunto de dois CDs que têm o título de “Elas Cantam Roberto Carlos”. A primeira música do primeiro CD é “Você não sabe”, cantada – cantada simplesmente não: magistralmente interpretada – pela Hebe. A melodia é magniífica e a letra, então, um primor.

    Transcrevo a letra, uma obra prima de declaração de amor, para quem não teve o privilégio de lê-la devagar, sorvendo-a:

    Você Não Sabe

    Roberto Carlos
    Composição: Roberto Carlos / Erasmo Carlos

    Você não sabe quanta coisa eu faria,
    Além do que já fiz.
    Você não sabe até onde eu chegaria
    Pra te fazer feliz…

    Eu chegaria
    Onde só chegam os pensamentos,
    Encontraria uma palavra que não existe,
    Pra te dizer nesse meu verso quase triste
    Como é grande o meu amor!

    Você não sabe que os anseios do seu coração
    São muito mais pra mim
    Do que as razões que eu tenha
    Pra dizer que não.
    E eu sempre digo sim…
    E, ainda que a realidade me limite,
    A fantasia dos meus sonhos me permite
    Que eu faça mais do que as loucuras
    Que já fiz pra te fazer feliz…

    Você só sabe
    Que eu te amo tanto…
    Mas, na verdade,
    Meu amor, não sabe o quanto…
    E, se soubesse, iria compreender
    Razões que só quem ama assim pode entender!

    Você não sabe quanta coisa eu faria
    Por um sorriso seu…
    Você não sabe até onde chegaria
    Amor igual ao meu

    Mas se preciso for
    Eu faço muito mais,
    Mesmo que eu sofra
    Ainda assim eu sou capaz
    De muito mais
    Do que as loucuras que já fiz
    Pra te fazer feliz!

    É isso.

    Em São Paulo, 25 de Outubro de 2009

    10/24/2009

    James Patrick Maher, In Memoriam

    Jim Maher está morto. Eu o conheci em 1976, quando ele veio para a UNICAMP, recém doutorado em Bowling Green State University, universidade com cuja School of Education a Faculdade de Educação da UNICAMP tinha um convênio.

    Era especializado em metodologia da pesquisa experimental e estatística. Conseguia ficar entusiasmado com questões que passavam longe de meus interesses e até mesmo de minha compreensão.

    Como ele não falava quase nenhum Português, embora casado com uma brasileira, a Teca, ficamos amigos, ele, Raymond Paul Shepard e eu, que falava bem Inglês.

    A amizade durou o tempo todo, até agora, quando de sua morte. Eu gostava dele – e ele, aparentemente de mim. Apoiou-me em todas as brigas que eu tive naquela instituição. E, aqui entre nós, não foram poucas.

    Agora, ele se foi. Era mais novo do que eu, e foi-se antes. Comigo, vai deixar saudade.

    A Faculdade de Educação que a gente construiu até 1988, por aí, e que era consistentemente considerada a melhor do país, está terminando, com mortes e aposentadorias.

    Bye, Jim.

    Em São Paulo, 24 de Outubro de 2009