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2009/2/1 Será que terminou o dilúvio na Serra da Mantiqueira?Faz uma semana que estamos aqui no Lageado, bairro “rururbano” de Santo Antonio do Pinhal, perto de Campos do Jordão, na Serra da Mantiqueira. E, até anteontem, choveu todo dia. Quase o dia inteiro. E à noite. Também, inteira. Parecia que um novo dilúvio estava em curso. Sem arca, porém, e sem animais; talvez porque não houvesse nem sequer um Noé por aqui… Ontem o sol reapareceu e hoje se sustentou – embora tenha caído um chuvisco há pouco. O lugar é paradisíaco. Faz lembrar o Éden - mas invocar o Éden, nas circunstâncias, acabará me levando a confundir os personagens da história bíblica: Adão e Noé. O primeiro, segundo reza a tradição, chegado a uma maçã; o outro, ao vinho da uva… (Bebeu tanto que deixou que os seus filhos o vissem nu). [Nota (não solicitada, porém autorizada) da Paloma: Embora a tradição reze que a fruta oferecida pela serpente a Eva, e posteriormente oferecida por Eva a Adão, seja a maçã, não existe nenhuma evidência bíblica que confirme essa informação. Na verdade a passagem bíblica apenas faz referência ao fruto de uma árvore que ficava no centro do jardim. É mencionado, ainda, que a árvore era boa para se comer e agradável aos olhos, mas não é feita nenhuma referência a que tipo de fruto se tratava. No contexto deste artigo essa informação não tem a menor relevância, mas não gostaria que os leitores mais atentos deste Blog pensassem que o autor desconhece esse fato…] Voltando ao presente, estamos hospedados numa casa do passado, chamada Casa Centenária - porque foi construída em 1906. É uma casa de pau a pique - mas os paus e o barro estão hoje escondidos por trás de uma camada de reboco (exceto num pequeno espaço perto da mesa de jantar em que o reboco foi removido e se vê a construção original, protegida por um vidro, como se fosse um quadro na parede...). Assim:
O assoalho é velho - parece original. Mas o resto foi modernizado. Há luz elétrica, TV por parabólica, aquecedor de água a gás… E há uma lareira, pequena mas acolhedora, na sala. (O bom da região é que mesmo no verão, à noite, faz frio o suficiente para acender a lareira…) O local em que a casa se encontra é lindo. É o vale que se vê lá de cima, do Mirante, quando se está chegando a Campos do Jordão. Quem ainda não olhou esse vale lá de cima não sabe que está deixando de ver uma das maravilhas do mundo: o local em que estamos... Ao redor da casa há um laguinho, com um chafariz permanentemente ligado, que faz um barulho de chuva à noite (como se precisasse, nos últimos tempos…). Na cozinha há tudo o que se pode esperar em uma “pousada de uma família só” – inclusive um fogão de lenha… Embora não seja literalmente uma pousada (só uma família pode alugar a casa de cada vez), há arrumadeira, que limpa a casa todo dia, etc. Fora há forno de lenha para pizza, churrasqueira, piscina, cadeiras gostosas para a gente sentar - e ver a chuva... :-( E, para nos proteger, há a Branca, uma cachorra linda e amiga. Quando saímos para andar (como o fizemos no sábado cedo, indo para a Sorveteria Eisland, a 3 km daqui, para tomar um sorvete, ela nos acompanha... Da casa até Santo Antonio do Pinhal é um puilinho: 8 km - mas as estradas são de terra e a chuva as tem deixado em estado lamentável. É possível encurtar a parte de terra do percurso, mas dando uma volta enorme pela rodovia SP-50, que vai de Campos do Jordão para São Bento do Sapucaí e o Sul de Minas. Para ir de Santo Antonio do Pinhal até Campos do Jordão há dois caminhos: a própria SP-50 ou a SP-46, que liga a cidade à SP-123, que começa onde termina a Rodovia Carvalho Pinto e vai até Campos do Jordão. Leva menos de meia hora. Em outro post vou falar de Santo Antonio do Pinhal – uma delícia de cidade, com apenas seis mil habitantes. O que fazemos por aqui? Damos formação para os professores das duas escolas Lumiar do local: uma mais antiga, municipal, conveniada com o Instituto Lumiarl a outra, uma escola bilíngüe, que começa a funcionar agora (amanhã, na verdade). Devemos ficar aqui até quarta-feira que vem, dia 4/2. No Lageado, em Santo Antonio do Pinhal, 1 de Fevereiro de 2009 2008/9/5 Seattle: a beleza deste lugarConheço muitos lugares no mundocom incrível beleza natural: o Rio de Janeiro, visto do alto, e compreendendo a Baía da Guanabara, o Corcovado, e o Pão de Açúcar é um deles; San Francisco, do alto da Lombard Street, e compreendendo a Baía de San Francisco, Fisherman's Wharf, Golden Gate Bridge, Alcatraz e Sausolito, é outro. Mas cada vez me convenço mais de que nenhum se compara com Seattle - especialmente a Seattle vista do alto de Bellevue, ali do morro em que está localizada a Forest Ridge School of the Sacred Heart. A vista compreende não só todo o skyline de Seattle, mas boa parte de Lake Washington, Murrow Bridge (na Rodovia 90), a ponte da Rodovia 520 (que leva até Redmond, sede da Microsoft). Se for possível chegar mais alto, em algum lugar privilegiado, é possível ver, além da cidade, a Puget Sound Bay e a Elliott Bay, e, em um dia limpo, como hoje, o majestoso Mount Rainier, já (ou ainda?) coberto de neve - apesar de nem o Outono haver ainda chegado... Da janela do meu quarto aqui no Hyatt Regency em Bellevue também tenho uma vista impressionante: vejo um pedaço do Lake Washington, às margens do qual Bill Gates tem sua casa, e, atrás, um pôr do sol impressionante, cheio de avermelhados fortes, entremeados de amarelo e azul, com um ameaço de lua em cima e as luzinhas piscantes dos aviões que descem e sobem no aeroporto de Seattle - Tacoma (SeaTac), lá longe. Dá pra ver também as luzinhas dos carros cruzando a Murrow Bridge. Bellevue, em 4 de Setembro de 2008 (no Brasil, já dia 5/9) 2008/5/17 Jennifer TongEstou voltando mais uma vez de Taiwan. Desta vez rodei bastante: Taipei, Sun Moon Lake, Taichung, Changhua, Hsinchu e Taipei de novo. Gostei muito de Sun Moon Lake -- mas vou deixar para escrever sobre o local -- a mais visitada atração turística de Taiwan -- uma outra hora. Aqui quero prestar uma homenagem a uma pessoa extremamente interessante que conheci: Jennifer Tong, "my personal tour guide" durante a viagem a Sun Moon Lake. No ano passado, quando visitei Hualien e o Taroco State Park, fui com um "personal tour guide". Mas ele não falava muito bem o Inglês e, aqui entre nós, não tinha um papo interessante. Desta vez, porém, saí premiado. Esperava na frente do hotel The Tango, em Taipei, quando chegou uma senhora pequena, magrinha, com idade próxima da minha, com cabelo de trancinhas, como o cabelo de meninhas, só que coberto com um pano, ao estilo das camponesas que no sol. Seus dentes, amarelados e todos fora de linha. Carregava apenas uma sacolinha de plástico e uma bolsa. Era minha guia. Atrasada quase meia hora. Minha primeira reação foi mais ou menos um "Ai, meu Deus, o que foi que me arrumaram desta vez?"... Mas quando ela falou comigo, desculpando-se pelo atraso, tive minha primeira surpresa: seu Inglês era perfeito, com um leve sotaque britânico... Entrei no taxi com ela e começamos a conversar -- e foi surpresa atrás de surpresa... Seu nome era Jennifer Tong. Ainda no carro perguntei a ela onde havia aprendido o Inglês. Ela disse: "O senhor provavelmente não vai acreditar". Eu lhe disse, naturalmente, que não imaginava por que não iria acreditar no que ela me dissesse... Mas eu estava errado. A história foi longa. Quando percebi que seria longa, perguntei a ela quanto tempo tínhamos para pegar o trem -- ela havia chegado com cerca de meia hora de atraso. Ela me disse: "Temos várias opções. Não devemos nos estressar. Há um trem às 8h45, que acho que já perdemos. Mas há outro às 9h05, outros às 9h30... Não temos problema. Além disso, nosso roteiro e nossos horários somos nós que fazemos. Portanto, fique tranqüilo. Disse OK e continuei a ouvir a história dela. Nasceu em Taipei e, segundo me disse, nunca saiu de lá a não ser para uma rápida viagem a Cingapura, acompanhando uns comerciantes de flores. Só estudou Inglês no Ensino Médio, três anos -- e o pai era seu professor. Aprendeu bastante com ele, me disse, mas o seu domínio da língua inglesa não vinha daí: vinha de uma vinda anterior. Em uma prévia encarnação, me garantiu, havia vivido na Inglaterra -- mais especificamente, em Cambridge. Parou, tomou fôlego, e me perguntou: "O senhor acredita?" O que é que um cético como eu diz numa hora dessas sem ser deselegante. Tentei sair pela tangente e lhe disse algo assim: "Não tenho razão nenhuma para duvidar de você e tenho certeza de que você acredita no que está me dizendo". Mas ela não deixou por menos: "Mas o senhor, acredita que aquilo que eu estou dizendo é verdade?" Não tive saída. Disse-lhe que não acreditava na reencarnação e que, portanto, achava muito difícil acreditar na história dela. "Mas, então", continuou ela, "como o senhor explica o meu Inglês?". Disse-lhe que não tinha a menor idéia de como explicar -- mas que tinha que admitir que o Inglês era perfeito e tinha um leve sotaque britânico. Ela continuou a sua história. A essas alturas já havíamos chegado à estação ferroviária, tomado o trem de alta velocidade, e estávamos cruzando a costa leste de Taiwan, rumo a Taichung. Desde criança, continuou ela, sonhava com um determinado lugar. Explicou-me em detalhes o lugar, o estilo das casas, sua cor, as árvores, uma taverna, o dono da taverna, as bebidas que havia atrás do balcão, etc. Sempre tinha esse sonho. Quase toda noite. Tanto que contou o sonho para as amigas mais chegadas, que ficaram tão familiarizadas com o lugar virtual como ela mesma... Um dia, me disse, uma amiga dessas amigas suas voi passear pela Inglaterra e, na volta, lhe disse: "Você tem de ver isso" -- e lhe mostrou fotos de Cambridge, idênticas, nos mínimos detalhes, a tudo que ela via em seu sonho recorrente... Para Jennifer, não podia haver outra explicação: em vida anterior, havia sido vivido em Cambridge, e, por isso, conhecia tão bem a cidade, apesar de nunca ter estado lá. E por isso falava tão bem o Inglês, apesar de ter estudado pouco e de nunca ter ido passear em países que falavam Inglês, exceto, naturalmente, Cingapura, onde se fala um Inglês bastante diferente do falado em Cambridge... Como essa, houve outras histórias, sempre interessantes. O tempo passou rápido. Para tudo tinha explicação. E eu não tinha como verificar se as explicações eram verídicas -- mas nem tinha interesse em fazê-lo. As histórias eram suficientemente interessantes em si mesmas, ainda que fictivas. Em Chicago, 17 de Maio de 2008 2008/4/15 Free flow of consciousnessSão 20h, horário de Tóquio -- 8h, horáro do Brasil. O dia é 15/4, terça-feira, em ambos os lugares. Estou no vôo US 884 da United, que me leva de Tóquio para Chicago. Desde criança me fascino com o fato de que o Brasil (Leste - São Paulo, Rio) e o Japão estão exatamente doze fusos horários a parte. São Paulo fica três horas atrás do horário do meridiano de Greenwich -- ou GMT -03, GMT querendo dizer Greenwich Meridian Time. Tóquio fica nove horas na frente do horário do meridiano de Greenwich -- ou GMT +09. Ao todo, doze fusos horários separam as duas cidades. Sempre achei curioso que, quando era meio-dia em São Paulo, já fosse meia-noite em Tóquio -- ou seja, que quando estivéssemos almoçando em Santo André (cidade em que cresci, na Grande São Paulo) os toquianos já estivessem entrando num novo dia, provavelmente em pleno sono. No meu imaginário infantil a idéia se alimentava de que os japoneses eram o oposto de nós -- idéia que, em seu extremo, resultava na imagem de que, se a gente cavasse um buraco suficientemente fundo na superfície da Terra na região de São Paulo, iria acabar saindo, no lado oposto, na região de Tóquio -- imagem que não levava em conta o fato de que nós estávamos no Hemisfério Sul, Tóquio no Hemisfério Norte. Para o experimento dar certo o buraco teria de ser furado meio na diagonal... Saí de Tóquio, em direção a Chicago, às 18h de hoje, 15/4 Vamos estar no ar por aproximadamente doze horas, e vou chegar a Chicago por volta das 16h do mesmo dia -- duas horas antes do horário em que saí de Tóquio, porque Chicago está 14 horas atrás de Tóquio... Esse é o tipo de coisa que me fascina. Ou seja, vamos estar no ar durante doze horas, apenas para tirar parte da diferença, em fusos horários, que separa Chicago de Tóquio. Se estivéssemos indo de Tóquio para São Paulo, direto, e a viagem levasse as mesmas doze horas, chegaríamos exatamente no mesmo horário em que havíamos saído... Fascinante. Para onde teria ido o tempo que evaporou? Saí de Hanói -- que fica duas horas atrás de Tóquio -- às 23h30 de ontem, 14/4, segunda-feira, em direção a Seoul, que está no mesmo fuso horário de Tóquio. O vôo era da Asiana, empresa aérea coreana que faz parte do sistema Star Alliance, liderado pela United. O embarque em Hanói foi tranqüilo, porque com os cartões especiais de Frequent Flyer da United fomos direto para a frente da fila, o Les Foltos e eu. Depois de fazermos o check-in, ficamos na Sala VIP da Asiana em Hanói, até o horário de embarque. Pobrinha a sala VIP deles -- mas tinha computadores e Internet de graça para quem quisesse usar. A propósito, li na Newsweek desta semana (Edição Internacional com data de 14/4) que, enquanto os governos de alguns países (como a Arábia Saudita) censuram sites pornográficos da Internet, impedindo os seus cidadãos de visualizarem material com conteúdo sexual, digamos, explícito, o governo comunista do Vietnam censura sites cujo conteúdo político possa interferir com os seus propósitos. Aliás, vale a pena ler o artigo inteiro, que tem o curioso título de "Repression 2.0". A tese principal é de que, nos tempos da Internet tradicional (a Internet 1.0), a repressão era menos sofisticada: sites eram simplesmente bloqueados. Às vezes extensões "top level" inteiras eram bloqueadas. Lembro-me de que, uma vez, quando estive em Perth, na Austrália, dando uma série de palestras a convite da Associação Australiana de Escolas Particulares, fiquei hospedado na Saint Hilda's Anglican School for Girls, uma escola chiqúerrima que tem um excelente apartamente para (professores) visitantes. Descobri, muito a contragosto, que, de dentro da escola, a extensão "top level" .br inteira era censurada para as alunas (não para os professores, descobri depois). Qualquer site que eu digitasse que terminasse em .br, como o site do UOL, por exemplo, me trazia uma mensagem na tela de que o acesso àquele site estava proibido. Só no dia seguinte, depois que eu reclamei, me deram uma senha de professor, que não tinha a restrição. Ou seja, professor podia até ver as meninas seminuas do Paparazzi -- mas as aluninhas da escola, mulheres como as outras, não... Mas, voltando ao assunto do artigo da Newsweek. Na Internet 2.0 (a Internet dos webmails, dos sites de relacionamento, como o Orkut, é mais difícil fazer esse tipo de censura "no atacado". O problema é sintonizar o filtro: restrinja-se demais o filtro e se impede o usuário de ver coisas perfeitamente inócuas até do ponto de vista do censor (como ler a Folha de S. Paulo de dentro de Saint Hulda's); flexibilize-se demais o filtro e ele vai permitir que conteúdos considerados impróprios sejam exibidos. Censurar o Orkut inteiro porque há algum material impróprio lá dentro? Isso pode impedir os usuários de fazer bom uso do Orkut. Não censurar o Orkut? Os usuários, neste caso, poderão a aceder a materiais -- de natureza sexual ou política -- que o censor considera profundamente inconvenientes. A solução que os novos censores acharam, segundo o artigo da Newsweek, foi agir de forma mais sutil, não "no atacado". Os censores hoje dão a impressão (nos países que praticam esse tipo de censura) de que eles lêem, ou pelo menos gravam, tudo o que se passa na Internet, de modo que se você entrar num site considerado impróprio, mais cedo ou mais tarde eles vão descobrir. Se os usuários acharem que os censores de fato fazem isso, eles nem precisam fazê-lo: os próprios usuários se censuram!!! Terrível, não? É COMO SE os censores governamentais -- ou, o que seria equivalente, os pais, ou o cônjuge, ou os próprios filhos -- estivessem sempre atrás da gente, observando, por cima do nosso ombro, o que a gente faz, escreve, lê na Internet... Quando a gente está absolutamente seguro de que ninguém está olhando, a gente faz coisas que nunca faria quando sabe -- ou suspeita -- que alguém está nos observando... É esse o princípio da "Repression 2.0": dar a impressão de que os censores do governo, os censores da empresa, os censores do lar estão por todo lado e que tudo o que você faz é devidamente observado, classificado, registrado e arquivado para uso futuro. Um dia, quando você tiver algum problema com o governo (ou com seu chefe) ele pode lembrá-lo de que, você, sessentão, pai e avô, respeitado na comunidade, etc., andou bisbilhotando umas fotinhos inocentes da Britney Spears sem calcinha... Ou andou demonstrando interesse num vídeo do Alexandre Frota (antes da conversão) ou da Rita Cadillac. O princípio básico é o de que não é nem necessário montar toda uma estrutura para fazer esse tipo de censura: basta convencer os "súditos" de que você a possui -- e eles próprios se encarregam de se censurar. O seu próprio superego fazem o trabalho sujo dos censores. Nessa época de debate sobre a China, o Tibet, os Jogos Olímpicos, consta que a governo chinês, com a colaboração das companhias de telefonia celular, de vez em quando envia uma mensagem sem remetente, totalmente anônima, a todos os usuários dos telefones, dizendo coisas como "Obedeça a lei", "Siga as regras"... Está feito o serviço. O pobre usuário, que provavelmente aqui ou ali desobedeceu uma leizinha idiota, ou quebrou uma regrinha imbecil, fica matutando: os fdps sabem que eu fiz isso, por isso estão me mandando esse recado. E, assim, da vez seguinte em que a oportunidade se apresentar, ele não faz: seu superego o censura... Mas voltemos à minha viagem de volta para o Brasil. O bom filho, à casa torna. O vôo de Hanói a Seoul levou apenas três horas e meia (na ida foram quase cinco horas) -- e chegamos a Seoul às 5h (não se esqueçam de que Seoul está duas horas na frente de Hanói). Em Seoul, fomos direto para a Sala VIP da Asiana, A sala estava quase vazia quando ali chegamos, Les Foltos e eu. Eu belisquei alguma coisinha, para servir de acompanhamento para um café do tipo Latte. Mas o Les, que, na minha opinião, está totalmente orientalizado, tomou chá com sopa de macarrão e verduras cozidas -- isso antes das seis da manhã, pode? Entre as verduras cozidas havia repolho, couve-flor e outras coisas que só os orientais conseguem comer a essas horas da manhã. Ficamos na Sala VIP perto de seis horas, trabalhando nos nossos computadores. A sala tem uma rede wireless razoável -- e gratuita. Um pouco antes das 11h rumamos para o portão 45 do interminável aeroporto de Incheon (Incheon está para Seoul como Guarulhos para São Paulo, em termos de localização dos respectivos aeroportos), de onde sairia o vôo da United para Tóquio, porque em Hanói só nos deram o cartão de embarque até Seoul: os demais cartões, disseram-nos, deveríamos obtê-los em Seoul (e de fato os obtivemos). Como isso aqui é "free flow of consciousness", é esquisito que o principal aeroporto de São Paulo tenha, como código internacional de identificação, GRU. Essas três letrinhas vêm, naturalmente, de Guarulhos (como CGH vem de Congonhas e VCP de Viracopos). Minha bagagem está etiquetada para GRU. Na verdade, a etiqueta indica que saí de HAN (Hanói), passei por ICN (Incheon / Seoul), passei por NRT (Narita / Tóquio) e vou passar por ORD (Ohare / Chicago, que tem como código ORD porque o aeroporto, quando era um mero campinho de aviação, no meio de uma plantação de hortaliças, se chamada Orchard...), antes de chegar a GRU. De Seoul a Tóquio o vôo foi de mais ou menos duas horas e meia. Dormi a maior parte do tempo (só tirando um tempinho para comer uma salada). Em Tóquio, onde chegamos por volta das 14h30, mais espera. Ficamos no Red Carpet Club da United. O Les saiu para Seattle às 16h e eu para Chicago às 18h. O meu vôo de Tóquio para Chicago saiu duas horas depois de um outro vôo da United com o mesmo destino. Resultado: o meu vôo está totalmente vazio. Na classe Executiva deste Boeing 777 há 45 lugares, e apenas dez passageiros -- cada um dono de um pequeno feudo. Pude deixar minha maleta de mão em cima da poltrona do lado, posso pegar o computador quando quiser, uma beleza. Tomei duas taças de vinho e comi uma salada. Dispensei o filé mignon que seria o prato principal: fui direto para a sobremesa, um bolo gelado de chocolate delicioso, acompanhado de Vinho do Porto. E agora estou aqui, batendo papo -- ou, como diz o caipira do interior de São Paulo, jogando prosa fora... Como disse, ninguém está sentado do meu lado, de modo que posso esparramar minha tralha por duas poltronas enormes. Ali estão, além da maleta do computador, a Newsweek e o Time (com o Papa na capa), fones de ouvido, kit com escova de dentes, etc. Com todo o vinho tomado, estou com sono. Vou guardar o computador e depois volto. Pronto, estou de volta. Dentro de duas horas chegaremos a Chicago. Dormi bastante e bem, ouvindo dois CDs de hinos religiosos que povoaram a minha infância. O nome da coleção de dois CDs é "Thomas Kincade's 32 Country Gospel Classics". Uma beleza, para quem gosta do gênero, como eu. O cognitivo (a cabeça) faz a gente deixar de ser religioso, mas o emocional (o coração) mantém, escondidinho em algum lugar recôndito, resquícios do tempo em que a gente foi religioso, e a gente continua a gostar de hinos cujas letras são simplesmente horrorosas. Ou seja, o coração tem seus cantinhos que a própria razão desconhece -- ou simplesmente ignora, por considerá-los inofensivos. A aeromoça já veio trazer aquelas toalhinhas quentes que servem para a gente fingir que lava a cara quando acorda num vôo longo... Dispensei o café da manhã (só aceitei um suco de tomate gelado) -- não estou com fome. Além disso, ficarei na Sala VIP da United, onde há comida, e, depois, pegarei o vôo para o Brasil, em que haverá um bom jantar. Isto significa que devemos chegar mais cedo do que previsto em Chicago. No momento ouço "Near the Cross" ("Junto à Cruz", em Português), cantado por Eddie Arnold. É curioso como quase todo cantor americano mais convencional (isto é, excluídos os roqueiros da pesada) que se preza mais cedo ou mais tarde grava um disco de hinos -- ou, no mínimo, de músicas de Natal. Elvis Presley, Frank Sinatra, Perri Como, George Whitakker, Doris Day, Barbara Streisand, Anne Murray (que é canadense), you name it, todos gravaram. Os do Presley são maravilhosos: creio que os tenha todos. Estou cansado. Por mais confortável que seja a classe Executiva da United, uma viagem que mantém você no ar por cerca de 32 horas, ainda que em quatro segmentos, especialmente para quem vai fazer 65 anos esse ano. Por falar nisso, vou comentar rapidamente o sistema que tenho (em Excel) para me lembrar de tomar todos os meus remédios na hora certa. Tomo cinco remédios de manhã, dois na hora do almoço, e cinco de novo na hora do jantar. Doze comprimidos, ao todo. Quando viajo e atravesso vários fusos horários, tenho de fazer uma tabelinha que me diz quando devo tomar cada conjunto de remédios. Há várias soluções para o problema, mas optei por manter o horário do Brasil. Como a maioria dos países da Ásia está cerca de 12 horas, mais ou menos duas, do Brasil, simplesmente inverto a hora de tomar os remédios: os que tomaria na hora do café da manhã tomo no jantar; os que tomaria na hora do almoço, tomo antes de ir dormir; e os que tomaria na hora do jantar, tomo ao me levantar. Funciona bem. O problema maior é a hora de tomar os remédios em trânsito, quando estou indo de um lugar para outro. Tomei há pouco os remédios da hora do almoço -- porque já estou operando no fuso horário de Chicago, que, no momento, está só duas horas atrás do de São Paulo. Um coisinha dessas dá trabalho, quando você sai da rotina. Antes de terminar, lembrei-me de uma notícia curiosa que li no International Herald Tribune, Edição Ásia, enquanto estava em Seoul. Em algum lugar do mundo em que mudanças de sexo são legalmente permitidas, uma mulher, que nunca havia se sentido confortável no seu corpo de mulher, conseguiu permissão para mudar legalmente de sexo e sofrer os procedimentos médicos, cirúrgicos e medicamentosos, necessários para adequar seu corpo à sua nova identidade legal. Ou seja, legalmente virou homem, mudando de nome e de sexo (que os politicamente corretos preferem chamar de gênero, porque não gostam de falar de sexo). Tomou hormônios, cresceu barba e bigode, removeu cirurgicamente os seios, etc. E, como de certo modo pareceria inevitável, se casou (legalmente -- estamos falando de um país prafrentex) com uma mulher. Passado algum tempo, quiseram ter um filho. A lei e a medicina podem ir até certo ponto, mas não conseguem (hoje) fazer com que um homem construído de um corpo de mulher consiga engravidar a esposa (Dani: uso o termo aqui apenas por falta de maiores recursos lingüísticos, dado o contexto). Resultado, optaram por comprar esperma de um banco de esperma para que a esposa pudesse ser impregnada artificialmente. Na hora de fazer isso, descobriram que ela tinha um problema e não poderia ficar grávida. Solução? Foram verificar se o corpo do marido, a despeito da barba e do bigode, e da falta dos seios, ainda teria condições de ser impregnado artificialmente -- e tinha, pois o útero não havia sido removido e, aparentemente, estava em pleno funcionamento. Resultado: hoje quem passar pela cidadezinha onde mora o casal pode ser que veja um distinto senhor, de terno, barba e bigode, tremendamente grávido, ao lado de sua mulher magrinha e esbelta. Ironias do mundo moderno. Estamos chegando. ET: Chego aos Estados Unidos ao mesmo tempo que o Papa. No ar, entre Tóquio e Chicago, 15 de Abril de 2008 2008/4/12 Ha Long BaySão 5h50 do sábado, dia 12 de abril. Escrevo de dentro da minha cabine no barco-cruzeiro Bhaya (vinte cabines), em plena Ha Long Bay -- uma das coisas mais lindas que a natureza já aprontou. Lá fora (vejo pela janela da cabine) parece que será mais um dia brumoso, como quase todos os que passei aqui no Vietnam. Mas as formações rochosas ficam ainda mais impressionantes com as brumas: assumem um ar que, além de "misty" (brumoso), é também "mystic" (místico). Da minha janela vejo o Emeraude, outro barco cruzeiro -- este mais parecido com os famosos barcos do Mississipi: branco, com aquela roda que era usada para fazer o barco andar mas que hoje é apenas decorativa. O meu barco, o Bhaya, é de madeira escura e tem um design mais adequado ao ambiente. Tem quatro andares (decks): dois com cabines (dez cabines em cada deck), um em que fica a sala de refeições, e a upper deck, para tomar sol (quando há) e simplesmente contemplar a natureza. Boa parte dos que participam desta viagem devem estar, agora, fazendo aqueles exercícios "taichi". Eu prefiro ficar aqui. O café será às sete. Depois subirei para dar uma olhada no taichi. Vim para cá com Les Foltos, meu amigo da área de Seattle, criador e implantador mundial de Peer Coaching. Saímos do hotel Sheraton em Hanoi ontem às 8h da manhã, num taxi, e viemos para cá -- uma viagem de quase quatro horas. Chegando a Ha Long, pegamos o Bhaya, tomamos um drink de boas-vindas, almoçamos, e ficamos observando a baía. Vejam as fotos nos sites indicados abaixo. À tardinha paramos para visitar uma fantástica caverna -- cujo nome não consegui registrar (mas há uma foto abaixo). Mas registrei o cenário em centenas de fotos (que aos poucos irei compartilhando). Depois da caverna visitamos ainda uma vila de pescadores que moram em casas-barco, em cima da água o tempo todo. Depois tomamos uma taça de vinho, vim tomar banho (tudo funciona -- a cabine é excelente: estou na 108 e o Les na 107, em frente), subi, tomamos mais uma taça de vinho, e jantamos (comida de primeira) -- acompanhados de uma garrafa de vinho chileno. Depois passaram o filme Indochine, com a Catherine Deneuve, que eu já comentei aqui, mas não agüentei ver até o fim -- foi muito vinho antes do filme... Vim deitar. Hoje me levantei às 5h, tomei banho, arrumei minhas fotos... e estou aqui. Em suma, um passeio absolutamente fantástico. Ha Long Bay é candidata a uma das Sete Maravilhas Naturais do Mundo (não confundir com o concurso anterior das Sete Maravilhas Artificiais do Mundo). Deveria ganhar. A impressão visual que o conjunto fornece é incomparável. Eis aqui algumas referências e fotos: http://en.wikipedia.org/wiki/Halong_Bay http://www.halongbay-vietnam.net/photos/index.htm http://www.halongbay-vietnam.net/halong_bay_overviews.htm http://whc.unesco.org/en/list/672 http://www.voteforvietnam.com/ Em Ha Long Bay, 12 de Abril de 2008 2008/4/6 Flashes matutinosEstava descendo para tomar café da manhã, agora há pouco, e entraram no elevador quatro distintas senhoras, de cabelos branquinhos, todas elas claramente acima de 75 anos. Gentis, sorriram, me cumprimentaram... Eu puxei prosa: "Where are you all from?" "New Zealand", responderam -- e perguntaram: "What about you?" "Brazil", disse eu. "Ah", continuou uma delas, com aquela franqueza que só crianças e, pelo jeito, pessoas bem idosas têm: "Sorry to hear about that!" Fui pego de surpresa e não tive a presença de espírito de perguntar por quê... Poderia ter aprendido alguma coisa útil. Ao sair do elevador, uma comoção: estavam instalando um enorme, e grosso, tapete vermelho, da saída do elevador até a calçada onde se tomam os carros. Evidentemente, para o presidente da Bielo-Rússia. Político é bicho vaidoso em qualquer lugar. Vaidoso aqui é eufemismo, naturalmente. Xô... Em Hanoi, 7 de Abril de 2008 Bielo-Rússia (ou Bielorrússia)Ontem, ao voltarmos do restaurante, à noite (por volta de 22h30), encontramos um circo de segurança montado na entrada do hotel. Detectores de metais, aparelhos de Raios X para bolsas e pacotes, policiais por todos os lados... Explicação: o presidente da Bielo-Rússia estava hospedado no hotel... Se você tem alguma dúvida sobre onde fica a Bielo-Rússia, veja na Wikipedia: http://pt.wikipedia.org/wiki/Bielorrúsia Diz o artigo: "Nos anos 1980, a Bielorrússia é reduto da resistência comunista às reformas democratizantes do presidente soviético Mikhail Gorbachev. Em agosto de 1991, a independência da Bielorrússia é proclamada, e o país integra a Comunidade dos Estados Independentes (CEI)." Por aí se vê que o país foi contra o fim do Comunismo... Gente finíssima. Não é à toa que precisam de segurança desse jeito, mesmo num país comunista. Em Hanoi, 7 de Abril de 2008 O trânsito de HanoiOntem, domingo à noite, saí para jantar com alguns amigos -- fui ao Bobby Chinn Restaurant, sobre o qual coloquei uma notinha aqui. Fomos de taxi, eu sentado na frente, junto ao motorista (estávamos em quatro). O trânsito estava animado mas não muito intenso. Mas a bagunça é inacreditável. Nunca vi coisa igual - nem mesmo em Istambul. Exceto em raríssimos locais, não há farol. Não há sinal de PARE. Não há faixas de rolamento pintadas no chão. O que seriam as faixas de rolamento na direção contrária são aproveitadas para dirigir na contramão, empurrando quem vem na mão certa para a faixa mais da direita ou para cima da calçada. Enfim, todo mundo dirige por todo lugar... Parece uma largada de Fórmula 1, como foi a do Bahrain ontem: carro passando por tudo quanto é lado. Carros brigando com outros carros, todos brigando com as motos. Brigando é modo de dizer. Eles buzinam e dão sinal de luz, mas ninguém parece se importar com isso. Nas motos, jovens, velhos, senhores, senhoras, senhoritas, casais... Em toda a bagunça, duas senhoras andando de moto lado a lado -- e conversando uma com a outra, enquanto dirigiam. Meu amigo Vincent Quah me contou que já viu dois motoqueiros dirigindo tranqüilos no trânsito caótico, carregando uma viga de madeira de mais ou menos oito metros -- no ombro de cada um, uma moto na frente, a outra atrás, a viga ligando as duas... Os cruzamentos em que não há farol -- a maioria -- são um exercício em aventura. Todo mundo vai entrando. Parece que vão bater mas se desviam um do outro. Gente que está na esquerda querendo virar para a direita, e vice-versa. Houve um cruzamento em que deveria haver um balão: havia pelo menos umas seis ruas chegando no mesmo lugar, mas não havia balão nenhum. Uns queriam passar direto, outros queriam mudar de direção, nunca se sabia exatamente quem ia fazer o quê. Compreendi porque buzinam e dão sinal de luz. Pelo jeito ninguém usa espelhos retrovisores. Eles vão enfiando o carro ou a moto, ou vão deixando o carro ou a moto "escorregar" para onde querem ir, e se ninguém buzina, eles continuam; se buzina, eles param momentaneamente de enfiar ou carro ou a moto e tentam de novo -- na expectativa de que o outro vai deixar que passem ou entrem. Uma loucura. Não é difícil, também, encontrar um carro parado do lado esquerdo de uma rua movimentada de uma mão só. Às vezes estacionado lá -- com duas rodas em cima da calçada. Motos estacionadas em lugares em que obviamente deveria ser proibido estacionar também é comum. Para nos deixar do lado do restaurante, a fim de que não tivéssemos de cruzar a rua, o motorista do taxi foi entrando no lado oposto da pista, na contra mão, devagarinho, buzinando, dando sinal de luz, desviando dos carros e motos que vinham em direção contrária, até que encostou na calçada do lado do restaurante -- mas virado para a direção errada do fluxo de trânsito. Como ele, motorista, ficou do lado da calçada, fez sinal para que eu não saísse. Deu a volta, estendeu o braço assim na horizontal, meio que, simbolicamente, empurrando o tráfego para longe, para criar um espaço protetor no qual eu pudesse sair do carro pelo lado do trânsito sem ser atropleado e dar a volta para entrar no restaurante... Fui direto pro bar e pedi uma vodka Finlandia... Fico pensando no Seymour Papert, atropelado aqui por uma moto, e que nunca mais recobrou sua saúde. A gente fala do trânsito de São Paulo, com os motoqueiros dirigindo entre os carros, mas o trânsito de São Paulo é um modelo de ordem, comparado com o daqui. Em Hanoi, 7 de Abril de 2008 Bobby Chinn RestaurantOntem estive nesse restaurante. Vide http://www.bobbychin.com/. Simplesmente fantástico -- e não tão caro, para padrões internacionais. O ambiente é sofisticado, chique, agradável. Bobby Chinn aparece com freqüência, conversa com clientes, explica e sugere pratos... Há uma biografia dele no site. O restaurante fica no coração da Hanoi velha, numa esquina. O bar é distinto e tem ampla seleção de bebidas. Ninguém que venha a Hanoi deve perder. Em Hanoi, 7 de Abril de 2008 2008/4/5 A moeda vietnamita: o "dong"Fiquei até com uma certa pontinha de orgulho, com ares de superioridade, quando me dei conta de que são necessários nada menos do que 9.421 (nove mil, quatrocentos e vinte e um) dongs -- moeda vietnamita -- para fazer um mísero real... (16.110 para fazer um dólar). Fizemos progresso na área econômica no Brasil, desde o Plano Real -- que o FHC reivindica como realização dele, mas o presidente na época era o Itamar Franco. Foi o Itamar que precisou ter coragem para autorizar o plano. Mas para quem se deixou fotografar com a Lílian Ramos sem calcinha, ressuscitou o Fusca, e arrumou uma namorada oficial, com a qual queria se casar, tudo, em retrospectiva, parece ser possível. Nunca ouvi uma palavra de gratidão do FHC ao Itamar por tê-lo dado a chance de introduzir o Real (precedido da UVC). Quem quiser conhecer um site interessante sobre Currency Conversions deve visitar http://www.xe.com/. O site é excepcional -- e envia uma cotação diária da moeda que você escolher: dólar, euro, real... Em Hanoi, 5 de abril de 2008. Hanoi: o SheratonÉ gozado como alguns gabaritos habitam na mente da gente -- colocados lá por livros, por filmes, por fotos... Lembro-me de que, quando estive em Macau, na parte velha (a parte nova é uma imitação de Las Vegas), fiquei com a impressão de que andava por uma cidadezinha pequena em Portugal. Casas no estilo português, pintadas de marrom e amarelo, rosa e verde... Quando entrei na Vila Militar, que hoje é um clube privado que tem um restaurante aberto ao público, pensei que estava entrando num daqueles Clubes Militares da Índia, quando esta ainda era colonia inglesa. Pé direito alto, janelas enormes, mas com as vidraças fechadas, ventiladores no teto, tudo muito próprio... Parecia que a Greta Scacchi iria aparecer a qualquer momento, louríssima e linda como em White Mischief (1987), onde representou Lady Diana Broughton... A comida, porém, deliciosa, e o vinho, eram portugueses... Digo isso porque o Sheraton aqui de Hanoi, às margens de um lado brumoso, que dá a impressão de um alagado, me faz lembrar o decadente passado colonial francês -- e me faz lembrar de Catherine Deneuve em Indochine (1992), onde ela fez o papel de Elaine. Ganhou o Oscar de Best Foreign Language Film, que o Brasil tanto persegue -- e Miss Deneuve foi indicada para Best Actress in a Leading Role... Não sei quem ganhou. Mas eu teria dado o prêmio para Catherine. Pelo filme e pelo conjunto da obra -- e por ela ter nascido no mesmo ano em que eu nasci (1943), e por ser irmã de Françoise Dorléac, e por sido vivivo (e tido uma filha) aquele babaca do Marcelo Mastroianni, cujo Catolicismo não o impedia de ser adúltero, mas o impedia de se divorciar... Mesmo sem fechar os olhos eu consigo rever cenas de Indochine na minha mente. Enfim, voltemos ao Sheraton Hanoi. Fiquei quase uma hora, hoje cedo, sentado no lobby, depois de ter tomado café da manhã, lendo o International Herald Tribune (Asia Editiion) e observando o cenário. Tudo distinto, como il faut a um Sheraton. Tudo bem cuidado. Mas a aparência geral era claramente "decadent French colonial"... O quarto tem móveis de madeira escura, uma cortina pesada, também escura, estampada, cheia de flores. A colcha da cama é vermelha, quase vinho. Os quadros na parede são meio impressionistas -- é preciso chegar perto para verificar que são vasos de flores. O tapete é marrom meio claro, mesclado de bege. Já viu dias melhores. A televisão destoa: é prateada, tela plana, Samsung -- creio que 29 polegadas apenas (hoje em dia 42 polegadas LCD em bons hotéis asiáticos é de rigueur. No banheiro, as torneiras (o que os americanos chamam de "fixtures") são estilo "Belle Époque"... Tudo muito distinto. O hotel fornece shampoo, conditioner, bath gel, moisturizer, bath salts (para a bela banheira clássica), shower cap -- além de mouth wash, shaving kit, tooth brush, comb, cotton swabs, makeup removal kit, nail file, mending kit, sanitary napkins... E, naturalmente, chinelos e roupões. O frigobar tem o necessário, but no more. Há uma cafeteira e um aquecedor de água e material para fazer café e chá. A cama é king size (o que no Brasil, que tudo distorce, se chama de "super king", porque a queen size é chamada de king...). Por volta das 20h vem a camareira, arruma a cama para dormir, deixa dois chocolatinhos... Simpatiquinha, ela. Pouco inglês, porém. O serviço de atendimento telefônico é competente. Você chama a recepção ou Guest Services e eles atendem chamando-o pelo nome. Aqui me chamam de Professor Chaves -- acho que porque a Microsoft, quando fez a reserva, forneceu o título -- não mais adequado, agora que estou aposentadíssimo da carreira docente. Pedi uma Salada Cesar hoje à tarde e mal havia terminado de comer eles ligaram para saber se a comida havia sido o que eu esperava e se o atendimento havia sido bom... A gente não encontra toda essa atenção nem mesmo em hotéis mais sofisticados, como The Four Seasons, de Tóquio. Os canais da televisão a cabo são bons -- quase todos internacionais (os mesmos que vemos na Net no Brasil), com mais opções de canais de esporte. Espero que mostrem a corrida de Formula 1 amanhã. É demais esperar que algum canal mostre o jogo do SPFC com o Juventus... :-) Espero que o "moleque travesso" não apronte contra o meu tricolor. Amanhã vou considerar meu período de adaptação terminado e sair um pouco. Vou me aventurar pelo dia brumoso e procurar conviver com as motocicletas ao atravessar as ruas. Aqui perto do hotel há um prédio enorme, que se anuncia como um Shopping Center (com esse exato nome), mas que tem uma faixa enorme, que vejo do meu quarto, dizendo "Opening Soon"... Quem diria que o comunista vietnam teria placas de "Opening Soon" para um "Shopping Center"... Ironias desses dias em que o Comunismo virou mais uma categoria que se aplica mais a regimes políticos, como a China e aqui o Vietnam, do que a sistemas econômicos, que viraram todos capitalistas, mais ou menos... Em Hanoi, 5 de Abril de 2008 Open skies are not friendly skies...Quando eu morei nos Estados Unidos, de 1967 a 1974, a United tinha uma propaganda na TV que convidava: "Fly the friendly skies of United". Eu era cliente fiel da PanAm naquela época. Mas a United me herdou, quando a PanAm faliu -- porque comprou as rotas da PanAm para a América Latina, entre as quais as do Brasil. Desde então, muita coisa mudou. A PanAm voava direto para o Rio de Janeiro, a partir de New York e de Miami. Os passageiros destinados a São Paulo (então de "segunda classe"), tinham de fazer imigração e alfândega no Rio e pegar um vôo especial para São Paulo, que reunia os passageiros destinados a São Paulo dos dois vôos para o Brasil. Se um dos dois vôos atrasava, os passageiros do outro também eram penalizados. São Paulo, no caso, era Congonhas, porque Guarulhos não existia ainda (thanks, Maluf!). Ou, então, Viracopos, que era usado por algumas companhias internacionais (SwissAir, por exemplo). O serviço de bordo, porém, era fabuloso. Comida de muito boa qualidade, servida com aparelhagem de hotel de primeira classe, bebidas alcoólicas à vontade, mesmo na Econômica, atendimento impecável, aeromoças jovens e bonitas. Muita coisa, como eu disse, mudou. A United, inteligentemente, logo mudou seus vôos para São Paulo, assim que Guarulhos se tornou operacional. Os passageiros do Rio perderam a categoria de brasileiros privilegiados. Agora são eles que precisam esperar os passageiros do outro vôo para concluir sua viagem. O destino dos vôos da United nos Estados Unidos também mudou. Ela abandonou Miami em favor de Chicago, seu hub principal nos Estados Unidos -- e New York em favor de Washington. Há três anos começou a oferecer dois vôos diários de/para Washington, de Outubro a Abril. Este ano o segundo vôo começou a chegar/sair do Galeão, devolvendo aos cariocas parte do prestígio perdido. O que mudou mais, porém, foi o serviço de bordo. Os passageiros de classe Econômica têm, agora, "uma jantinha" chinfrim, servida em aparelhagem de plástico, com guardanapo de papel. Bebida alcoólica é servida -- 5 dólares por dose (inclusive por uma latinha de cerveja). E as aeromoças -- agora incluem aeromoços -- são uma desgraça em termos de aparência. Aerovelhas seria uma descrição mais apta. Não só velhas: feias, gordas -- raramente atenciosas. Na classe Executiva o serviço continua bom -- mas as aeromoças são as mesmas... (Ah, que diferença da Asiana, que tomei de Seoul para cá: aeromoças coreanas jovens, lindas, atenciosas, sorridentes, aparentemente de bem bom a vida...). Mas preciso justificar o título deste post. A edição asiática do International Herald Tribune de ontem (a versão impressa, que peguei na recepção do hotel, tem data de 4/4 -- a edição online diz dia 3/4) traz uma notícia interessante. Os Estados Unidos e a Europa celebraram um acordo -- batizado de "Open Skies" -- mediante o qual companhias americanas podem voar para qualquer cidade européia, e mesmo de uma cidade européia para outra, desde que em país diferente, e companhias européias podem voar para qualquer cidade americana -- mas não de uma cidade americana para outra. Por que a assimetria? Por que as companhias americanas agora podem voar, digamos, de Londres para Paris, mas as companhias européias não podem voar, digamos, de New York para San Francisco? Porque, segundo informa o jornal, os países europeus continuam sendo unidades políticas soberanas, não simplesmente estados de uma unidade política soberana, como é o caso dos estados americanos. Só político (ou filósofo) para inventar uma distinção escolástica dessas... Parece que o acordo é meio precário: tem de ser revisto em 2010, e se qualquer das partes não estiver satisfeita, pode ser rescindido... O jornal tece considerações interessantes sobre o acordo. Transcrevo o artigo, em Inglês, abaixo, para os interessados em mais detalhes. Embora fosse lógico esperar que tarifas fossem baixar com um acordo desses, parece que não vão, não, porque as companhias aéreas ("as aéreas", como prefere o idiota Manual de Redação da Folha) parecem já estar operando no limite. "O problema fundamental", diz Anthony Concil, diretor de relações públicas da IATA, em Genebra, "é que os governos se metem demais nos negócios das companhias aéreas. A indústria tinha expectativa de que o acordo pudesse ser um marco decisivo de mudança nessa atitude, permitindo que as companhias aéreas conduzissem seus negócios como qualquer outra empresa. Mas o acordo não chegou a tanto" [citado do artigo transcrito adiante]. É isso. Como dizia o saudoso Ronald Reagan, o governo é sempre parte do problema -- não da solução. E nós, no Brasil, quando é que vamos permitir que "as aéreas" estrangeiras voem de uma cidade para outra no Brasil? A TAP, por exemplo, tem vários vôos para o Nordeste -- mas não pode estendê-los para São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília... Perdemos nós. Culpado? Nem precisa dizer. Em Hanoi, 5 de abril de 2008 (já dia 5 também no Brasil) ----- FREQUENT TRAVELER'Open skies' not likely to mean lower faresPublished: April 3, 2008 The "open skies" pact reached between the United States and European Union - and which came into force on March 30 - should bring many benefits to travelers. Airlines will be free to serve any point-to-point trans-Atlantic route. More competition will bring more choice and hopefully better service. But with soaring fuel prices and economic gloom, and with airlines already offering the cheapest price options for years, don't hold your breath for lower fares. The pact does away with the bilateral treaties between the United States and EU states, allowing any European and U.S. airline to fly between any EU city and any city in the United States. But while it will allow any U.S. carrier to fly among European cities (though not city pairs in a country), EU carriers are not allowed to fly between two U.S. cities; the argument being that the United States is a sovereign state, whereas flights between, say, France and Spain are between two countries. But open skies is a fragile agreement. The present "phase one" will automatically end if there is no agreement between U.S. and EU negotiators on "phase two" of the pact which is due to be in place by 2010. Under the terms of the interim pact, individual EU states have the power to withdraw flying rights to U.S. carriers if they are dissatisfied with progress, especially on the contentious issue of restrictions on airline ownership. Talks on phase two are due to start in May. Giovanni Bisignani, director general of the International Air Transport Association, has warned governments that protectionist attitudes toward national flag carriers is "killing" the industry. "We have too much capacity; yields are down and we need to consolidate," Bisignani says. "The industry has lost $42 billion since 9/11. The first profit we made last year was $5.6 billion, which is one percent." But cross-border airline mergers are impossible because countries, such as the United States, ban majority ownership of airlines by foreign firms. "The fundamental problem is that governments are too involved in the airline business," said Anthony Concil, director of public relations at IATA in Geneva. "The airline industry had hoped that the agreement would be a watershed for change, that it would allow airlines to be run like any other business," he added, "but it clearly stopped short of that. Could airline alliances be a device to get around the issue of ownership? "There's a big difference between partnerships and having a proper business," Concil said. "You only start to act like a real business when you have a common bottom line. There's no doubt that mergers create better companies; it doesn't necessarily mean that you give up your national identity; Air France and KLM, for instance. Swiss still serves Switzerland, even though it's owned by Lufthansa. These entities are among the most profitable in the industry." London is still the top destination for travelers among European cities, despite its being considered the dirtiest and the most expensive, according to a new annual survey by TripAdvisor of more than 1,100 travelers worldwide. Next most expensive cities were Paris and Rome; and the next dirtiest cities, Paris and Rome. The cleanest cities were Zurich, Copenhagen and Stockholm. But London was voted best in Europe for public parks and nightlife. Paris, Barcelona and Amsterdam ranked high in both categories. And despite its high prices, London was runner-up to Paris, followed by Rome, for best shopping. Paris is perceived as the most romantic city, followed by Venice, and Rome. Brussels, Zurich and Warsaw are the most boring cities; Paris, London, and Moscow are cities with the "most unfriendly hosts," while Dublin, Amsterdam, and London are cities with the "most friendly and helpful locals." The survey predicts a good year for European tourism; 65 percent of travelers said they were planning to travel to or within Europe in the next 12 months, nearly the same as last year. And despite the weak dollar, exactly half of U.S. respondents intend to visit Europe again this year. Switzerland, Austria, Germany, Australia and Spain have the top five "most attractive environments for developing travel and tourism," according to the Travel & Tourism Competitiveness Report 2008, released by the World Economic Forum in Geneva. Britain, the United States, Sweden, Canada and France complete the top-10 list covering 130 countries. 2008/4/4 A viagem para Hanoi: 48 horasContando da hora em que saí de casa, em Campinas, até a hora em que entrei no Sheraton Hotel, aqui em Hanoi (num subúrbio, fora do centro da cidade), minha viagem durou exatas 48 horas. Dessas, 32 horas foram passadas no ar e 16 horas em traslados em terrra e esperas em aeroporto. Saí de casa, em Campinas, às 14h do dia 2/4, quarta-feira, peguei o ônibus da Viação Caprioli para o Aeroporto de Guarulhos às 14h30, cheguei a Guarulhos às 16h30. O vôo 842 da United para Chicago saiu às 20h30, chegando a Chicago às 5h do dia seguinte -- depois 10:30 de viagem. Esperei três horas para o vôo 137 da United para San Francisco, que saiu às 08h, hora local, e chegou a San Francisco 04:30 horas depois (10h30 hora local). O vôo 893 da United para Seoul saiu às 13h30, hora de San Francisco, e chegou ao Aeroporto Incheon, na Grande Seoul, 12 horas depois, às 17h30, hora de Seoul. O vôo United de Seoul para Hanoi (operado pela Asiana) saiu às 19h30, horário de Seoul, e chegou em Hanoi às 22h30, hora local, durando cinco horas. Para vocês entenderem os fusos horários, aqui vão eles -- explicando que as cidades americanas de Chicago e San Francisco estão em Horário de Verão (DST) -- as demais, em horário regular (STD). Pego como horário referência 7h em São Paulo, porque esse horário permite que todas as cidades envolvidas estejam no mesmo dia. SÃO PAULO (STD) CHICAGO (DST) SAN FRANCISCO (DST)) HANOI (STD) TOKYO (STD) SEOUL (STD) Como se pode constatar, fiquei 32 horas no ar: 10:30 de São Paulo a Chicago Tempo de espera nos aeroportos, exceto o de São Paulo, foi mínimo para viagens desse tipo: 03:00 em Chicago, 03:00 em San Francisco e 02:00 em Seoul (total: 8 horas). As outras 8 horas correspondem ao tempo de traslado de Campinas a São Paulo e espera em São Paulo e ao tempo de traslado do aeroporto ao hotel em Hanoi. Total de duração da viagem: 48 horas corridas, ou dois dias inteiros. Toda a viagem transcorreu sem incidentes, sem atrasos, exatamente como planejado. Minha mala foi uma das primeiras a aparecer... Em São Paulo, tiveram de colocar duas etiquetas de bagagem nela, porque o máximo que uma etiqueta comporta é três vôos, e eu iria tomar quatro -- como de fato tomei... Parece um milagre, quando verifico que não consegui ir de Campinas ao Rio de Janeiro (como eu fui no dia 31/3) sem um atraso de uma hora na ida, pela TAM, e outro na volta, pela Gol. E há americano que ainda reclama da United... O tempo em Hanoi, às 23h, quando cheguei, estava húmido, com a temperatura nos 20 graus centígrados. Havia uma neblina no ar. A estrada do aeroporto para o hotel estava virtualmente deserta, com apenas algumas motocicletas carregando enormes fardos de flores para o mercado -- pareciam, de trás, mais Kombis do que motocicletas. O motorista que foi me apanhar no aeroporto veio o trajeto todo buzinando e dando sinal de luz. O pior é que parece necessário. Vários carros e alguns caminhões estavam dirigindo no meio das duas faixas de trânsito que iam na direção em que estávamos indo -- e as motocicletas zanzavam um pouco, de lá pra cá. Acho que o motorista sabia o que estava fazendo. O hotel é antigo, num parque, ao lado de um lago, meio fora da cidade. Apesar de antigo, está bem conservado. O quarto em que estou parece ter sido todo renovado. Amanhã vou ver se ando um pouco. No domingo à tarde começa a chegar a minha turma. Eu precisava de um dia extra para descansar. Em Hanoi, 5 de Abril de 2008 (no Brasil, ainda dia 4). 2008/3/20 Bobaginhas - para não dizer que não falei da lua e da neve...Hoje é quinta-feira aqui em Cortland. Ontem à tarde, por volta do horário do jantar (comemos um linguado [flounder] delicioso que minha filha preparou), começou a nevar. Logo o chão ficou coberto com mais ou menos uma polegada (2,5 cm) de neve. Mais tarde (fiquei fuçando meu novo notebook até por volta de uma hora da manhã) parou de nevar e o céu limpou, permitindo-me ver a lua, que estava linda. Creio que, se não era cheia, estava apenas um dia distante de sê-lo -- ou de tê-lo sido (o Português soa meio esquisito, de vez em quando). Hoje cedo, a neve continua no chão -- embora provavelmente vá se derreter logo, porque o dia está limpo e o sol já aparece forte. A temperatura, porém, não vai passar de um grau centígrado. Agora está menos dois -- e o Google me diz que ficará entre uma mínima de menos seis (que provavelmente já ocorreu) e um grau. Um grau de temperatura máxima soa até esquisito. Visto que este texto lida com bobaginhas, ontem estive na Best Buy e acabei comprando alguns "pen drives" para colocar num porta-retrato digital que dei para a Sueli (minha mulher, para quem não sabe) de presente de aniversário (que foi no dia 13/3). Isso, em si, não seria digno de tanta nota, visto que é algo inteiramente privado (embora eu freqüentemente trate o privado como público mais do que o público como privado, como fazem os políticos). O digno de nota é que paguei 7,99 dólares por pen drive de 1 GB. Quando eles saíram cheguei a pagar 150 dólares por um. Agora, nem oito dólares. Os de 8 GB já estão custando cerca de quarenta dólares. Na mesma linha, também comprei um disco rígido de 2,5 polegadas, USB, externo, por 150 dólares. Já cheguei a pagar mais de 500 dólares por um disco de 5 MB (sic). Já cheguei pagar cinco mil dólares por um notebook -- hoje paguei dois mil por um incrivelmente mais potente. Minha filha comprou um notebook com processador Intel Core 2 Duo de 5540, 3 GB de memória, disco rígido de 250 GB, por menos de 750 dólares -- cerca de 1.275 reais. Em 1994 eu paguei cinco mil dólares em Campinas por uma linha telefônica comercial da antiga Telesp, que hoje não vale nada: pedi para desligá-la há dias (depois conto a história). Comecei dizendo que iria falar sobre bobaginhas. Algumas desses coisas não são bobaginhas: são até importantes... Em Cortland, totalmente nevada, 20 de Março de 2008 2008/3/1 Hanói e as motosDevo ir para Hanoi no dia 2 de Abril. Estou meio apavorado -- com a história das motos... Em 7 de Dezembro de 2006 Seymour Papert, o inventor de LOGO, e o pai da informática na educação, foi atropelado por uma moto em Hanói, ao sair de um hotel. Ficou em coma vários dias, sofreu cirurgia no cérebro. Embora tenha sobrevivido, nunca mais voltou à normalidade. A notícia do atropelamento pode ser encontrada em: http://www.boston.com/news/local/articles/2006/12/08/top_mit_scientist_injured_in_vietnam/ Julguei que o atropelamento de Papert, que eu tive (na verdade, tenho) o prazer de conhecer, fosse um desses acidentes imprevisíveis. Mas, pelo jeito, não foi. Na Folha de hoje, 1 de Março de 2008, o médico Drauzio Varela, que está em Hanói, publica um artigo apavorante sobre as motos da cidade. O artigo, que tem o título "Atravessar a rua em Hanói", pode ser lido em: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq0103200821.htm A seguir, alguns trechos do artigodo Drauzio Varela. Sobre a quantidade de motos: "JURO QUE nunca vi tantas motos ao mesmo tempo. Contadas as que trafegam um mês inteiro pela 23 de Maio, Radial Leste e marginais, a soma não chega aos pés das motinhos e lambretas que circulam pelas ruas centrais de Hanói, a qualquer hora do dia." Sobre a quase inexistência de semáforos e a forma de dirigir dos motoqueiros: "Não há assaltantes nas ruas, no máximo, um batedor de carteira à moda antiga, avisou o porteiro do hotel. No entanto, acrescentou, atravessar as ruas é um perigo, porque as motos trafegam em ambos os sentidos e os semáforos são raros." Como atravessar a rua: "No final da preleção, o conselho mais relevante [do porteiro do hotel]: 'Os acidentes só acontecem quando o transeunte, assustado com o movimento, corre ao fazer a travessia. É preciso cruzar em passos lentos. Sangue frio.'" A realidade: "Parei no meio-fio do cruzamento. Então, percebi a dificuldade da empreitada. As motos vinham às centenas em ambos os sentidos, num movimento ininterrupto embaralhado por ultrapassagens e conversões inesperadas à direita e à esquerda. O ronco dos motores era entrecortado por um buzinaço frenético, capaz de ensurdecer o mais barulhento de nossos motoqueiros. . . . Três vezes ensaiei descer da calçada. Numa delas consegui dar dois passos, para recuar de um salto assim que a primeira máquina infernal se aproximou ameaçadoramente, com um camicase com a mulher e o filho na garupa. . . . Quando o desânimo estava prestes a me dominar, divisei duas escolares do lado oposto, perfiladas como bonecas chinesas. Em câmera lenta, a passos miúdos, elas desceram da calçada e vieram em minha direção sem mover a cabeça. Não pude crer no que assisti. Assim como as águas do Mar Vermelho se afastaram para o povo judaico passar, as motos desviavam das meninas. Parecia um número de circo: quando a colisão se tornava iminente, o motoqueiro manobrava com habilidade para evitá-la. . . . Então, decidi fazer igualzinho às meninas: ir em frente bem devagar sem olhar para os lados; transferir para os motoqueiros a responsabilidade de preservar minha integridade física. Por que não entregar a sorte em mãos alheias? Não agimos assim nos aviões? Deu certo, fui parar na outra calçada com o coração na boca, porém incólume." Será que consigo passar cerca de uma semana em Hanói sem atravessar uma rua? Não tenho sangue frio suficiente para atravessar uma rua desse jeito... Em Campinas, 1 de Março de 2008 2008/2/26 Em Hanoi -- 40 anos depois de 1968...Ando-me vendo perseguido por coincidências: quarenta anos aqui, quarenta anos ali... Em 1968, durante o meu primeiro ano inteiro como estudante nos Estados Unidos, participei em várias demonstrações contra a Guerra do Vietnã. Agora, em 2008, quarenta anos depois, irei conhecer o Vietnã. Devo partir dia 2 de Abril, chegar lá dia 4, e ficar lá durante dez dias, voltando no dia 14 à noite -- chegando aqui dia 16 de manhã. Vou participar numa reunião da Microsoft Asia Pacific -- e aproveitar para fazer um pouco de turismo. Vai ser interessante conhecer o Vietnã -- Hanói, especialmente. Em Campinas, 26 de Fevereiro de 2008. 2008/1/30 O trem no Brasil: webliografiaPara os interessados, sugiro esses artigos encontrados na Web - a maioria na WikiPedia: Ferrovias extinhas no Brasil Estrada de Ferro Sorocabana Companhia Paulista de Estradas de Ferro Estrada de Ferro Santos-Jundiaí Estrada de Ferro Noroeste do Brasil Estrada de Ferro Araraquarense (no texto dito só Araraquara) Companhia Mogiana de Estradas de Ferro Companhia Ytuana (sic) de Estradas de Ferro Estação da Luz Estação Sorocabana (Júlio Prestes) Fora da WikiPedia (que ainda tem muitos outros verbetes, veja-se: Cronologia História das Estradas de Ferro em São Paulo, de 1867 até os dias atuais Integração Ferroviária Santos - São Paulo Estações Ferroviárias do Brasil Estação da Luz - São Paulo Estação Sorocabana (Júlio Prestes) - São Paulo Estação Ferroviária de Campinas Por enquanto, é isso... Em São Paulo, 30 de Janeiro de 2008 Ainda sobre o trem no BrasilRecebi, a propósito de um artigo sobre "O Trem no Brasil", aqui neste Space (que transcrevo abaixo, mas que pode ser encontrada no URL http://ec.spaces.live.com/blog/cns!511A711AD3EE09AA!1137.entry) uma mensagem de um leitor chamado Serginho, de São Paulo, que tem 43 anos e que fez, quando criança, viagens de trem entre São Paulo e Maringá. Ele tem algumas dúvidas, que gostaria de esclarecer, para poder contar aos filhos sobre a experiência gostosa que era viajar de trem por longas distâncias aqui no Brasil de alguns anos atrás. Especificamente, ele pergunta: 1) Qual o tipo de trem que fazia esta viagem (São Paulo - Maringá)? (Por exemplo, modelo, cores dos vagões, máquina, etc.) 2) Qual o caminho percorrido? (Por exemplo, cidades onde passava e parava -- sei que passava em Ourinhos) 3) Com relação ao modelo do trem pergunto porque viajei muito para o interior de São Paulo (Oswaldo Cruz) e os trens eram da Companhia Paulista/Fepasa e eram nas cores azul e creme, as máquinas eram na maioria das vezes vermelhas ou na cor azul. Partimos sempre da estação da Luz, acho que por volta das 23:00 horas. Dei uma resposta individual a ele, mas já descobri que está incompleta. Aqui transcrevo a resposta, com os acréscimos de que me lembrei depois de enviá-la. Caro Sérgio: O de que realmente me lembro, no tocante à viagem de São Paulo para o Paraná, é o que disse na mensagem a que você se refere: "As viagens que ficam mais gravadas em minha memória eram entre São Paulo (Estação Sorocabana) e Ourinhos, no famoso (e confiável) Expresso Ouro Verde. Saía da Sorocabana em São Paulo por volta das 22h (22h10, creio) e chegava a Ourinhos de manhã. O trem era lindo -- verde, naturalmente. Íamos numa cabine leito, meus pais, meu irmão (mais novo 3 anos e 3 meses) e eu. Eu dormia no beliche de cima, como meu pai, meu irmão no beliche de baixo, com minha mãe. Isso se dava antes de eu completar sete anos. Minha mãe levava sanduíches de presunto e queijo e um sacolinha com queijo e goiabada. Viagem de trem para mim ficou para sempre associada com sanduíches de presunto e queijo e com Romeus-e-Julietas... " O trem e a linha, neste caso, eram da Estrada de Ferro Sorocabana, não da Companhia Paulista de Estradas de Ferro. Os vagões do trem eram de ferro (ou algo que se lhe assemelhasse), não de madeira, e tinham a cor verda escura, que explica o nome nome do trem: "Expresso Ouro Verde". O trajeto do Expresso Ouro Verde era entre São Paulo (Estação Sorocabana, nome oficial Júlio Prestes) e Ourinhos. Ele saía da Sorocabana seguindo o trajeto da linha da Sorocabana, que era o mesmo trajeto da linha de trem metropolitano que, hoje, saindo da Júlio Prestes, passa por Barra Funda, Lapa, Domingos de Moraes, Presidente Altino, etc. Osasco, Carapicuíba, Barueri, Jandira, Itapevi, etc. (não me lembro se a ordem das estações é bem essa). Depois de Itapevi passava por várias estações, como Sorocaba, e acabava em Ourinhos. A linha da Sorocabana seguia mais ou menos o trajeto da Rodovia Raposo Tavares. Tanto quanto eu saiba, o Expresso Ouro Verde terminava seu trajeto em Ourinhos. A linha da Sorocabana, e outros trens da Sorocabana, iam até Presidente Prudente -- creio que até Presidente Epitácio, na divisa com Mato Grosso. Já fui nesse trem até a divisa, no início nos anos 60. Na divisa havia um ramal que ia para o Norte, ligando com outras cidades. Não sei se chegava a Dracena, encontrando a linha da Paulista. De Ourinhos para frente -- quando eu era criança, na década de 40, o trem só ia até Apucarana, se bem me lembro: quando eu fazia esse trajeto Maringá era uma cidadezinha minúscula, morei lá de 1947 até 1951) --a gente baldeava para um trem bem mais vagabundo da Rede de Viação Paraná - Santa Catarina, que também tinha linha de Ourinhos para Curitiba e, acredito, dado o nome, para Florianópolis. O trem que ia de São Paulo até Oswaldo Cruz, passando por Bauru, Marília, etc. era o da Paulista, que saía da Estação da Luz. Fiz algumas vezes esse trajeto, quando era criança (na verdade, nenê), porque nasci em Lucélia, do lado de Oswaldo Cruz. Na verdade, o trajeto entre São Paulo e Oswaldo Cruz (indo, se não me engano, até Dracena) era feito, entre São Paulo e Jundiaí, pela Estrada de Ferro Santos-Jundiaí, que tinha locomotivas vermelhas (elétricas ou a diesel). A partir de Jundiaí começava a linha da Paulista, que ia, como disse, até Dracena (acredito). As locomotivas da Paulista, também elétricas ou a diesel, eram azuis. Por isso sua lembrança quanto à cor das locomotivas está absolutamente correta. O comboio trocava de locomotiva em Jundiaí -- onde parava por cerca de 15 minutos. Creio que, a partir da linha da Paulista em Bauru, saía uma nova linha, chamada Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, que ia, se bem me lembro, até Panorama (ou Pindorama, não me lembro bem). A partir da linha da Paulista em Rio Claro, se não me engano, também saía a linha da Estrada de Ferro Araraquarense, que ia seguindo mais ou menos o trajeto da Rodovia Washington Luiz de hoje, passando por Araraquara, São José do Rio Preto, Fernandópolis, e indo não sei até onde. Acho difícil que se fosse de São Paulo para Maringá de trem pela Paulista, via Bauru -- a menos que se desse uma volta grande (porque acredito que deveria haver um ramal qualquer que ligasse Bauru a Ourinhos, no sentido Norte-Sul). De Campinas saía uma linha, chamada Estrada de Ferro Mogiana, que ia para Jaguariuna, Mogi-Mirim, Mogi Guaçu, passava por Água da Prata e ia pra Minas, via Poços de Caldas, Borda da Mata, etc. Andei muito nesse trem, também, indo tanto para Poços como para Borda da Mata. Em parte dessa linha, entre Campinas e Jaguariuna, circula até hoje um trem turístico, adorado pelas crianças, puxado por uma Maria Fumaça. Meus netos menores (Gabriela, Marcelo e Felipe, junto com a Maria Luiza, neta postiça) fizeram a viagem há pouco tempo e adoraram. Também de Campinas, ou de Sorocaba, talvez, saía uma outra linha, chamada Ituana, que ia para Indaiatuba, Elias Fausto, Salto e Itu, etc. (se o ponto de origem fosse Sorocaba, como é mais provável, a ordem das estações se inverte). Conheço bem as estações ferroviárias dessas cidades porque tenho um sítio em Salto e circulo bastante por essas quatro cidades. Ainda há pouco passei por Cardeal, um bairro "rururbano" de Elias Fausto (fica entre Indaiatuba e Elias Fausto) e vi a estação ferroviária do lugarejo. Aqui está a mensagem "O Trem no Brasil", escrita em Salto, em 2 de agosto de 2006" (com pequenas correções e acréscimos): "Fazia tempo que vinha procurando sites sobre a história do trem no Brasil. O trem foi muito importante na minha vida. Com um mês e doze dias fiz minha primeira viagem de trem. Nasci em 7/9/1943, em Lucélia, na chamada Alta Paulista. Meu pai escreveu um pequeno relato de meus primeiros dois anos. Eis o que ele diz sobre essa primeira viagem de trem, nos dias 19-20/10/1943: "No dia 19 de outubro tomamos a jardineira até Tupã. O dia estava quente, mas o Oscarzinho dormiu quase o tempo todo. Só chorava quando a jardineira parava. Às 2 hs. da tarde chegamos a Tupã e às 3,45 tomamos o trem. A viagem não foi muito boa, pois o trem estava muito cheio! Metade da viagem foi feita no carro de 2ª classe, pois não pudemos arranjar lugar na 1ª classe, devido ao grande número de pessoas. Passamos a noite com o Nenê nos braços. Ele não deu trabalho, pois dormiu mais ou menos bem. Às 6 hs. da manhã chegamos a Campinas." Como se vê, em Outubro de 1943 a linha da Paulista parece que chegava apenas até Tupã -- não indo até Oswaldo Cruz, Lucélia, Adamantina, Dracena. Esta foi a primeira de muitas viagens de trem do local de residência dos meus pais até Campinas, onde moravam minha avó materna e minha tia, irmã de minha mãe (que faleceu faz um mês, aos 85 anos -- minha mãe faz 82 agora segunda-feira). Meus pais se mudaram de Lucélia para Irati, no Sul do Paraná, depois para Marialva, no Norte do Paraná, depois ainda para Maringá, também no Norte do Paraná, e, finalmente, para Santo André, em São Paulo, onde minha mãe e meus irmãos ainda residem (meu pai faleceu em 1991). Viajávamos sempre de trem. As viagens que ficam mais gravadas em minha memória eram entre São Paulo (Estação Sorocabana) e Ourinhos, no famoso (e confiável) Expresso Ouro Verde. Saía da Sorocabana em São Paulo por volta das 22h (22h10, creio) e chegava a Ourinhos de manhã. O trem era lindo -- verde, naturalmente. Íamos numa cabine leito, meus pais, meu irmão (mais novo 3 anos e 3 meses) e eu. Eu dormia no beliche de cima, com meu pai, meu irmão no beliche de baixo, com minha mãe. Isso se dava antes de eu completar sete anos. Minha mãe levava sanduíches de presunto e queijo e um sacolinha com queijo e goiabada. Viagem de trem para mim ficou para sempre associada com sanduíches de presunto e queijo e com Romeus-e-Julietas... Quando mudamos para Santo André, o trajeto mudou. Pegávamos o trem subúrbio até São Paulo e lá pegávamos o trem da Estrada de Ferro Santos-Jundiaí para o interior. Em Jundiaí a locomotiva (vermelho meio escuro) era removida e uma locomotiva da Companhia Paulista de Estradas de Ferro assumia -- linda, linda, azul... -- e o trem passava a ser conduzida por empregados da Paulista. Em Jundiaí o trem parava uns 15 minutos e a plataforma da estação ficava cheia de vendedores ambulantes vendendo, entre outras coisas, "pipóóóóóóóóóóóca". Vendiam uva e figo também: Jundiaí é terra de uva e figo. Campinas era um importante entrocamento ferroviário. Além dos trilhos da Companhia Paulista passarem pela cidade, começava ali também a linha da Companhia Mogiana, e havia um ramal, o da Companhia Ituana, que ligava Campinas diretamente à Estrada de Ferro Sorocabana, em Sorocaba, passando por Itu. Salto, onde estou agora, ainda tem sua estação -- devidamente abandonada. Elias Fausto, aqui juntinho, também. Estive lá na semana passada e vi fotos da estação. A estação de Itu está bem mais conservada, mas tornou-se um Centrl Cultural, se não me engano. De Santo André também íamos a Santos de trem. A cidade principal no trajeto de São Paulo para Santos era Paranapiacaba, pequena cidade, que nunca vi sem neblina, na beirada da serra, onde o trem começava a ser literalmente puxado para subir a serra. Emocionante. Alguém cometeu um crime contra o Brasil, deixando todo o nosso enorme sistema ferroviário ser sucateado. Precisavam ser identificados e punidos os criminosos, post mortem, se necessário. Por indicação do jornalista José Carlos Daltozo, de Martinópolis, SP, que tem escrito sobre Lucélia (vide artigo recente "Lucélia - Terra Natal", neste space), encontrei o site http://www.estacoesferroviarias.com.br. Lá você pode encontrar fotos da estação ferroviária de sua cidade, se ela teve uma. E lá encontrei referência ao site http://www.trem.org.br, que, por sua vez, tem vários links relacionados. Uma mina de informação. Ao escrever essas referências me lembrei de que o meu caro amigo, Tonhão (Antonio Morales), de Bauru, um dia fez referências a sites sobre ferrovias. O pai dele foi ferroviário. Vamos ajudar a preservar a memória do trem..." Em São Paulo, 29 de Janeiro de 2008 2008/1/26 Coréia - MiscelâneaPrometi, quando escrevi, há dias, uma pequena mensagem dizendo que estava indo para a Coréia, que nos dias seguintes comentaria alguns aspectos da vida lá. Acabei não fazendo isso. Tento fazê-lo agora, que já estou no aeroporto O'Hare, em Chicago, a caminho de casa. o O o Estava pensando, no avião que me levou de Seoul até Tokyo, depois de ter usufruído daquela maravilha que é o aeroporto de Incheon, em Seoul, que somos muito apressados ao desejar resultados de algumas ações -- com a intervenção dos Estados Unidos no Irak (ou mesmo a intervenção americana no Vietnam). No final da Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos e a União Soviética haviam ocupado a Coréia - ocupação necessária para derrotar o Japão, que a havia ocupado anteriormente. O Paralelo 38 ficou sendo a linha divisória entre a ocupação americana e a soviética. Em 1949 a área que veio a se tornar a Coréia do Sul promoveu eleições - e o presidente eleito, Singman Rhee, entabulou negociações com a área que veio a se tornar a Coréia do Norte com vistas à unificação do país (que era unificado desde o século VII). Evidentemente a intenção de Rhee era unificar o país em um regime democrático, ou pelo menos amigo dos Estados Unidos. Em meados de 1949, porém, o líder norte-coreano Kim-II Sung (Secretário Geral do Partido Comunista) pressionou Stalin para ajudá-lo a unificar o país debaixo do regime comunista. Nos meses seguintes, a Coréia do Norte transformou suas forças armadas numa forte máquina de guerra. Os ânimos foram se exaltando de um lado e de outro e em Abril de 1950 Stalin autorizou a Coréia do Norte a atacar a do Sul. As tropas da Coréia do Norte tiveram grande sucesso inicialmente - até que os Estados Unidos, com a aprovação da ONU, intervieram na guerra civil. Aos poucos o controle da guerra passou para as mãos dos americanos, que não só rechaçaram os norte-coreanos que haviam invadido a Coréia do Sul para trás do Paralelo 38 como invadiram o território da Coréia do Norte. Com a invasão da Coréia do Norte, a China entrou na guerra, do lado dos coreanos do norte. Com a intervenção da China, as forças americanas recuaram até o Paralelo 38. O fim negociado da guerra deixou as duas Coréias divididas -- mas salvou a do Sul de se tornar comunista, como fatalmente aconteceria se a intervenção americana na guerra não houvesse acontecido. Na época, houve muita crítica da ação americana -- como sempre há, sempre que os Estados Unidos agem militarmente. Mais de 50 anos depois, porém, ao se comparar as duas Coréias, não há como não concluir que a ação americana foi extremamente benéfica para a Coréia do Sul -- que se desenvolveu econômica, social e culturalmente, sendo, hoje, um país do primeiro mundo. A Coréia do Norte, em contrapartida, atrasadíssima do ponto de vista econômico, social e cultural, é, com Cuba, o último bastião do Comunismo. É verdade que tem a bomba atômica, porque os comunistas irresponsavelmente lhe passaram a tecnologia. Mas é só. o O o Fiquei hospedado em um dos hotéis Intercontinentais de Soul -- o COEX (os dois ficam pertinhos um do outro). Fiquei abismado com o preço das coisas. No primeiro dia fui tomar um café no lobby e o preço do café -- café preto, numa xícara média -- foi de W 14.000: o equivalente a 15 dólares americanos (1 dólar = W 900). No frigobar do quarto, uma cerveja de lata Budweiser ou Hanneken custava W 9.500 -- no Seven Eleven que ficava no Mall debaixo do hotel a mesma cerveja podia ser comprada por W 2.000. Provavelmente, fora do Mall era ainda mais barata. Uma coca em lata custava a W 7500 no frigobar, W 1.500 no Seven Eleven. Uma caixinha pequena de batatinhas fritas Pringle, W 5000 no hotel, W 1.200 no Seven Eleven. Um café da manhã completo, no hotel, ficava em W 45.000 -- ou seja, nada menos do que 50 dólares americanos. Acho inacreditável que os hotéis cobrem esses preços e os hóspedes pagam -- quando com um esforço de nada podem ir ao Mall e comprar as coisas por cerca de um quinto do preço do hotel. Apesar de ter minhas despesas custeadas pelos organizadores, recuso-me a tomar café da manhã no hotel ou a usar o frigobar. Saio, ando um pouco, e tomo café na rua ou compro o que quero consumir num Seven Eleven qualquer. Pago com o meu dinheiro, mas não contribuo para a manutenção de uma estrutura de preços absurda. o O o Andei bastante de metrô pela cidade. O sistema tem mais de quinze linhas, e cada linha tem umas 40 estações em média. Há linhas do metrô que vão até o aeroporto Incheon, que fica a 70 km do centro da cidade. Andei em geral entre 9h e 16h -- os trens sempre cheios. As estações não são tão bonitas, mas são bem cuidadas. O mesmo pode ser dito dos trens. A sinalização é perfeita. Consegui, olhando o mapa do metrô, decidir que linha deveria tomar, onde deveria fazer baldeação, etc. Cada linha tem um número e uma cor e as estações de cada linha têm nome mas também têm número, o que facilita muito as coisas, especialmente para o turista. Em cada estação está pintado, em letras grandes, o número da estação e, com letras menores, o número da estação seguinte, com uma flecha na direção que toma o trem que passa ali na plataforma. O hotel ficava na Linha 2, Verde, na estação 219 (Sumseong). Para ir ao TechnoMart era fácil: o Shopping Eletrônico fica na mesma linha, na estação 214. Parece pertinho. Da janela do meu quarto conseguia ver o prédio. Um dia em que o sol estava bonito resolvi ir a pé. Foi a maior fria. Levei uma hora e vinte minutos debaixo de um frio de gelar. Os problemas que dificultam a gente andar a pé (só havia eu andando a pé) são dois. Primeiro, o rio, enorme. Eu tinha de cruzá-lo, e tive de fazê-lo numa passagem para pedestre numa ponte longérrima e de acesso quase impossível para pedestres. Foi com muito custo que descobri como chegar ao acesso para a ponte, de dentro de um parque que fica na beira do rio. Segundo, as vias expressas que cortam a cidade, e há inúmeras, são bloqueadas com cercas e, por conseguinte, impossíveis de transpor por pedestres. Você tem de achar lugares em que pode passar por baixo delas, mas para isso tem de dar voltas imprevisíveis. Enfim, vivendo e aprendendo. o O o Nas lojas mais do centro sempre se encontra alguém que fala Inglês com alguma fluência -- embora seja bem mais difícil na Coréia do que em Taiwan. Cingapura fala Inglês e Hong Kong falava Inglês até 1997. O governo coreano está enfatizando de todas as formas o aprendizado do Inglês. Estive numa mega-livraria e fiquei impressionado com a quantidade de livros de referência sobre o Inglês (Dicionários, Gramáticas, etc.) e de livros que testam o conhecimento de Inglês (TOEFL e outros). Há prateleiras e prateleiras de histórias infantis em Inglês, de material voltado para o Ensino Fundamental (livros texto) em Inglês, material de multimídia, etc. Se o país continuar nesse ritmo, logo vencerá esses desafio, porque, como dizia, no centro ainda se encontra gente que fala Inglês (em geral mal, mas com alguma fluência), mas fora do centro... Na sexta-feira fui até um outro local que é o paraíso da eletrônica: Yongsam, chamada de o Supermercado da Eletrônica. Precisei pegar três linhas do metrô para chegar lá. De metrô, levei uma hora e 15 para chegar lá. Lá, porém, me vi perdido. Ninguém falava Inglês. Há muitas coisas interessantes, mas é impossível conversar com eles. Se você faz o sinal de preço eles escrevem o preço na máquina de calcular -- mas o diálogo acaba aí. Na hora de voltar, passei apertado. Nas minhas outras andanças pelo metrô, sempre tomei o trem ou baldeei em estações com no máximo duas linhas. Yongsam, porém, é um entroncamento ferroviário. Por ali passam trens normais, trens de subúrbio, e as linhas do metrô. Por causa da viariedade de opções, há mais de doze plataformas -- que não estão pintadas com as cores das linhas do metrô, porque muitas delas nem são do metrô... Minha salvação foi uma mocinha que, falando muito mal, que me disse que deveria ir para a plataforma quatro -- eu estava na um. Fui até lá. Não era na quatro, era na cinco -- mas a cinco era simplesmente do outro lado. Quando vi o nome da linhado metrô e a identificação da direção em que o trem iria, fiquei aliviado. Já estava me preparando para sair da estação e pegar um taxi. Neste caso, carrego sempre um cartão de visitas do hotel, em Inglês e na lingua local. Mostro o cartão e aponto para o nome do hotel. Funciona. Em Chicago, 26 de Janeiro de 2008. 2008/1/18 CoréiaEstou indo para a Coréia mais uma vez (a terceira). Acho Seoul uma cidade muito bonita, principalmente ao lado do rio, mas gosto do interior do país, também. Já andei de trem e de ônibus por algumas cidades distantes até três horas de Seoul. E Seoul é o paraíso das TVs de tela líqüida, sendo a cidade sede de duas das maiores empresas do setor: LG e Samsung. No tocante a tecnologia, o melhor lugar de comprar, em Seoul, é o TechMart: oito andares (ou mais, não me lembro) só de tecnologia. Há um andar (enorme) só de câmeras, de todos os tipos. É de deixar o visitante zonzo. Estou saindo daqui de São Paulo hoje à noite para Chicago. De lá pego um vôo para Seoul, via Tokyo. United all the way through. Chego lá no domingo à noite (21h40, no aeroporto). É viagem pra ninguém botar defeito -- em termos de duração. Participo de um encontro lá, onde darei duas palestras. Michael Fullan estará no mesmo evento, com uma palestra e uma oficina. Irei escrevendo pequenos artigos sobre coisas que achar interessante na viagem. Em São Paulo (usando meu modem Claro), 17 de Janeiro de 2008 |
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