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11/12/2009 Muros: o de Berlin e os outros...Os amantes da liberdade comemoraram, recentemente, mais um aniversário, o vigésimo, da queda do Muro de Berlin, que separava a Berlin Ocidental, democrática, da Berlin Oriental, sob a ditadura comunista, dando um passo decisivo, não só para a reunificação da Alemanha, mas para a liberalização do mundo. Algumas pessoas não gostaram muito das comemorações... Entre elas, creio, está o meu amigo Carlos Tabosa Saragga Seabra (que tive o prazer de reencontrar ontem no IV Forum do Instituto Claro), que comentou no Twitter e no Facebook: “Nos 20 anos sem Muro de Berlim, recordemos os muros de Israel e do Novo México. São menos vergonhosos?” Sobre essa tentativa de relativizar a odiosidade (ou vergonhosidade) do Muro de Berlin (pelo menos foi assim que a percebi), retorqui: “Vamos diferenciar os muros? O de Berlin era para impedir que os cidadãos da Alemanha Oriental fugissem daquele (então) país... Muros para impedir que cidadãos de outros países entrem ilegalmente num determinado país são apenas a expressão, digamos, arquitetônica de um direito que ninguém -- a não ser os liberais radicais como eu -- questiona quando exercido por qualquer outro país que não os Estados Unidos e Israel. Pelo que consta, nem o Brasil tem fronteira livre que qualquer estrangeiro pode atravessar para entrar e ficar no país.” Ou seja: embora eu considere os muros dos Estados Unidos e de Israel também vergonhosos, considero-os, sim, menos vergonhosos do que o Muro de Berlin. Carlos Seabra saiu meio pela tangente (em minha opinião), com um twit “d’après Drummond”: “Havia um muro no meio do caminho, no meio do caminho havia um muro...” Respondi: “Sempre há... Muros físicos, legais e burocráticos, sociais, mentais, ideológicos, religiosos... Para guardar você dentro ou para manter você fora.” Outra pessoa (Verônica Couto) comentou, ressaltando os muros sociais e físicos existentes no Brasil: “Sem esquecer os que estão sendo erguidos nas favelas do Rio... nos condomínios de todo o país...” Resolvi retomar o assunto aqui no meu space, porque sou verboso... Raramente me contento com os 140 caracteres que o Twitter me concede ou mesmo com os 420 que os limites mais generosos do Facebook me impõem. Aqui no blog do Live Space não tenho limites – ou, se os tenho, eles são tão amplos e generosos que não os sinto. (Quando a rédea é solta, o cavalo domesticado, acostumado aos seus caminhos, se imagina livre, porque os limites não o fazem sentir-se preso, por não restringirem o que ele está condicionado a fazer). Quero deixar clara minha posição. Como disse atrás, sou um liberal radical. Defendo a liberdade do indivíduo contra as tentativas do estado e da sociedade de restringi-la. Minha unidade de análise é sempre primariamente o indivíduo – não o grupo social, muito menos a nação e o estado. Só admito as restrições mínimas ao comportamento do indivíduo que são absolutamente essenciais para a convivência social pacífica. Defendo uma interpretação ampla e permissiva da liberdade e dos direitos individuais: o direito à livre expressão do pensamento, o direito à liberdade de reunião e organização, o direito à liberdade de ir e vir, o direito à liberdade de ação, na busca da felicidade, quando ela não causa danos diretos a terceiros... Isso quer dizer que, por mim, não haveria limites a impedir o livre trânsito das pessoas entre uma nação e outra – da mesma forma que não há entre um estado ou outro de uma nação como o Brasil. Estou convicto de que, na inexistência de limites, o mercado controlará o trânsito das pessoas entre as nações. Se muitas pessoas querem adentrar um país, como, por exemplo, os Estados Unidos, esse país possivelmente vá ficar, no devido tempo, superlotado, com a conseqüente queda da qualidade média de vida dos seus cidadãos e dos que lá habitam. Isso fará com que muitos decidam sair de lá, ou não ir para lá, para ir para outros países menos superlotados, como, por exemplo, o Canadá ou a Austrália, e o equilíbrio se restabelece. Isso até certo ponto já está acontecendo, mesmo com os controles severos à imigração impostos pelo governo americano. Muros físicos que procuram impedir o livre trânsito de pessoas de uma nação para a outra são odiosos e vergonhosos. Por isso, sou contra o muro que está sendo construído em parte da fronteira entre os Estados Unidos e o México para impedir a imigração, para os Estados Unidos, de latino-americanos. Sou igualmente contra o muro dos israelenses que visa a impedir a entrada em Israel de palestinos. Acho mais odioso e vergonhoso ainda, porém, o Muro de Berlin. O Muro de Berlin foi construído pela então Alemanha Oriental comunista, controlada por uma violenta ditadura, para impedir, não que cidadãos de outros países entrassem ali, mas, sim, para impedir que os próprios cidadãos da Alemanha Oriental saíssem livremente do “paraíso comunista” para ir viver no “inferno capitalista” ali do lado... Mas, como disse atrás, há muros legais e burocráticos que são tão eficazes quanto os muros físicos. Cuba, um dos dois únicos países comunistas que restam no mundo (o outro é a Coréia do Norte), é uma ilha. Por isso não precisa erigir muros para impedir a saída dos cidadãos cubanos daquele “paraíso comunista” no Caribe: o mar, em parte, exerce essa função. Mas mesmo assim o estado cubano não bobeia... Se alguém resolve arriscar sua vida numa balsa, para chegar a Miami, a cerca de 90 km de distância, as barcas e os helicópteros da polícia do governo cubano atiram neles, para matar... Atletas que fazem parte de delegações esportivas que vão participar de competições internacionais se arriscam a “desertar”: fogem e pedem asilo no país em que estão. Dois pugilistas cubanos fizeram isso aqui no Brasil, e nossa administração petista, representada no caso por esse atentado à liberdade e ao bom senso que é o Ministro da Justiça, os entregou de volta ao governo cubano para serem punidos. (Eles já fugiram de lá de novo). Numa de suas muitas incongruências, esse mesmo ministro concedeu asilo político a um criminoso italiano, culpado de vários assassinatos... O Supremo estava julgando o ato do ministro hoje. A sessão terminou com um empate de 4x4 – e o caso será decidido pelo Voto de Minerva do presidente do Supremo na próxima quarta-feira... O muro legal-burocrático cubano é, como o de Berlin, um muro que impede a saída dos cidadãos do país – ele não impede a entrada de estrangeiros em Cuba... Cuba necessita dos dólares dos turistas de outros países... Por isso, acho-o mais odioso e vergonhoso do que os muros físicos dos Estados Unidos e de Israel – e tão odioso e vergonhoso quanto o muro físico de Berlin, que também visava a impedir os cidadãos do país de saírem do país. Mas há uma situação em muitos aspectos ainda pior... Quando cerceados por muros físicos ou por muros legais e burocráticos as pessoas, muitas vezes, são capazes de preservar sua liberdade mental (interior), fato que lhes permite escolher, por vezes, arriscar a própria vida em vez continuar a viver em tirania. Muros mentais, porém, sejam eles ideológicos ou religiosos, são aqueles que, através de controles mentais e outros mecanismos de manipulação, fazem com que as pessoas cativas se convençam de que estão em liberdade... Dizem que os pássaros nascidos em cativeiro ignoram o fato de que não são livres porque, condicionando-se a viver em cativeiro, entendem a sua liberdade em termos daquilo que sua gaiola lhes permite fazer. Os muros mentais constroem como se fosse uma gaiola que mantém as pessoas presas mas ignorando o fato de que são cativas... Rubem Alves um dia desses escreveu na Folha (11/11/2009): "Quero é viver de novo intensamente o passado que vivi, sem os sentimentos de culpa que a minha religião botou na minha cabeça. Toda noite peço perdão a Deus pelos pecados que não cometi..." A culpa é um dos muros que a religião usa para não fazermos aquilo que ela define como pecado... Quando fazemos algo que a religião considera pecado, nos consideramos culpados... E carregamos a culpa conosco, muitas vezes para o resto da vida... Já escrevi sobre isso aqui. Surpreende descobrir que o herege Rubem Alves ainda pede toda noite perdão a Deus por pecados que não cometeu... não cometeu, não porque não tenha feito as ações proibidas, mas porque elas não eram pecados... Mas a culpa ainda o faz – a ele, um indivíduo psicanalisado e psicanalista - pedir perdão. Outros, como eu, para não incorrer na culpa, se privaram, na juventude e depois, de comportamentos perfeitamente inócuos e inofensivos, mas considerados pecados pela religião – e hoje, em sentido diferente do do Rubem, se arrependem dos pecados não cometidos (como a gente se arrepende dos beijos de amor que não deu...) Quando a gente consegue se livrar dos muros mentais que a religião constrói em nossas mentes, a gente se sente, muitas vezes tarde demais, arrependido pelos pecados que não cometeu... (O termo “pecado” deveria, talvez, vir entre aspas porque essas condutas só são pecados dentro das gaiolas em que os muros mentais da religião nos prendem). Esses muros impõem toda sorte de restrição às pessoas, proibindo-lhes comportamentos que doutra forma seriam perfeitamente admissíveis, inócuos e inofensivos que são, mas, ao mesmo tempo, por controle e manipulação mental, fazem com que as pessoas aceitem as restrições como corretas, até mesmo benéficas, incorporando-as à sua própria estrutura mental, levando-as a acreditar que, dentro de sua gaiola, são mais livres do que se não estivessem sujeitas a essas restrições... A política faz a mesma coisa... Abaixo os muros – principalmente os mentais, que a criação, a educação, os mecanismos de pressão e manipulação social constroem. Principalmente nas crianças e nas mentes jovens. Em São Paulo, 12 de Novembro de 2009 10/4/2009 Para além da euforia: artigos sobre a vitória no “bid” pela Olimpíada de 2016Vários artigos na Folha de hoje (04/10/2009) sobre o fato de que o Brasil ganhou o “bid” para sediar as Olimpíadas de 2016. Em geral, artigos sensatos, não ufanistas. Vale a pena lê-los. Transcrevo-os aqui para que gerem um debate positivo, para além do “sou brasileiro, com muito orgulho”… Como brasileiro, fiquei contente com o fato de que o Brasil conseguiu trazer para cá uma Olimpíada. Mas, do ponto de vista político, fico com nojo da exploração que está sendo feita do fato. E me causam arrepio as besteiras que têm sido ditas. Concordo com Janio de Freitas: “ACHAR QUE O BRASIL "conquistou cidadania no mundo" porque sediará uma Olimpíada daqui a sete anos não é só uma elaboração mental estapafúrdia, que por si não causaria espanto, é uma demonstração de que Lula não tem noção do que seu governo faz, nem do seu próprio fazer na Presidência.” Concordo com Juca Kfouri (apesar de ele ser corintiano): “PRIMEIRO é preciso dizer que a escolha do Rio para sediar a Olimpíada de 2016 foi fruto de um trabalho brilhante. Pura ficção, mas brilhante. Quem viu o Pan-2007 não tem por que acreditar em nenhuma das promessas feitas e sabe que aquela cidade maravilhosa que os filmes mostraram não existe. É claro, porém, que pode existir. Bastará gastar o que está previsto, de fato, nela.” E concordo especialmente com Vinicius Torres Freire: “Sob o pretexto da preservação da "imagem do país", quantos "aditamentos de contratos" virão? Quantas revisões orçamentárias, quantas verbas extraordinárias e emergenciais serão requisitadas devido a falta de planejamento, inépcia, superfaturamentos ou por furto puro e simples? Vide o Pan. Vide a Copa, que mal começa mas já custa caro.” Já vimos o filme. Vamos vê-lo mais uma vez na Copa do Mundo de Futebol de 2014, e, depois de dois anos, na Olimpíada de 2016. Por fim, concordo mais uma vez com o Juca Kfouri: “É difícil exercitar a esperança quando a experiência já ensinou o que precisava em relação aos que comandarão o projeto olímpico. Gente que fechou as portas aos maiores empresários do Rio de Janeiro e que fez questão de acumular cargos, como faz Carlos Arthur Nuzman, presidente do COB e do comitê organizador da Olimpíada. Assim como, aliás, Ricardo Teixeira acumula os cargos de presidente da CBF e do comitê organizador da Copa do Mundo, diferentemente do que acontece e aconteceu em todas as outras partes do mundo, basta lembrar de Michel Platini, na Copa da França, ou de Franz Beckenbauer, na da Alemanha. Lula não gostava dessa gente e a colocou no topo do mundo. Sem se preocupar em ter uma política esportiva para o país. Se a Rio-2016 mudar tal estado de coisas, valerá a pena. A ver.” Aqui estão os textos na íntegra. ---------- MARCO ANTONIO VILLA Saudades do barão Seria bom aproveitar as próximas eleições e, pela primeira vez, transformar a política externa em tema eleitoral AS TRAPALHADAS na condução da crise de Honduras sintetizam de forma cristalina a ação do Itamaraty nos últimos sete anos. É um misto de voluntarismo com irresponsabilidade. Algumas vezes, Celso Amorim mais parece um líder estudantil do que ministro das Relações Exteriores. O Brasil não tem nenhuma vinculação histórica com a América Central. Contudo, o governo brasileiro insistiu em ter participação direta na crise hondurenha. Queria demonstrar liderança regional numa área historicamente de influência norte-americana. Como uma espécie de recado do "cara" para Barack Obama, comunicando que o Brasil era a nova potência da região. Potência sem "marines", mas com muita retórica e bazófia. Claro que tinha tudo para dar errado, como se, em um filme de faroeste, John Wayne fosse substituído por Oscarito. A aventura alcançou o ápice quando Zelaya chegou à embaixada brasileira. Minutos depois, recebeu a adesão de centenas de seguidores. Logo o local virou um acampamento. A tradição latino-americana se impôs. Muitos discursos, acusações, traições e atos de valentia sem nenhuma consequência prática. E tudo isso na embaixada brasileira, território nacional. Quando o governo hondurenho cercou o prédio, o ato foi considerado autoritário. Imagine o que faria Fidel Castro se um líder anticastrista entrasse na embaixada brasileira em Havana e de lá insuflasse a população cubana à rebelião... Celso Amorim declarou diversas vezes que lá em Honduras estava sendo jogada a sorte da democracia na América. Não era possível transigir com princípios democráticos e legais. Era necessário não retroceder. Estranhamente, essa determinação não é aplicada na América do Sul. Mais ainda quando nossos vizinhos agem deliberadamente contra os interesses brasileiros, violando tratados, leis e contratos. Tivemos o caso das refinarias da Petrobras na Bolívia, que foram tomadas abusivamente pelo governo local. Tivemos a insistência paraguaia impondo a revisão do tratado de Itaipu 15 anos antes do seu término. Tivemos as sucessivas violações do tratado do Mercosul realizadas pela Argentina e as abusivas medidas adotadas pelo governo equatoriano contra empresa brasileira. A tudo isso o governo Lula assistiu passivamente. Não moveu um dedo. Pelo contrário, concordou com as arbitrariedades, desmoralizou as gestões anteriores do Itamaraty e, assim, abriu caminho para que amanhã um governo resolva, de moto próprio, descumprir um tratado ou acordo. A simpatia política com os governos chamados bolivarianos e subserviência a eles chegou ao ponto da absoluta irresponsabilidade. A Colômbia, que tem tentado estabelecer uma política de cooperação com o governo Lula para melhorar a fiscalização da fronteira, é sistematicamente tratada com hostilidade, inclusive nos fóruns regionais. Já a Venezuela, que disputa claramente espaço político com o Brasil e que não perde uma oportunidade para debilitar os interesses brasileiros na região (como durante a encampação das refinarias da Petrobras na Bolívia), é tratada como aliada, mesmo tendo uma política externa agressiva, sustentada por fabulosas compras de modernos armamentos. E, como o que está ruim pode piorar, a Venezuela vai entrar no Mercosul. A diplomacia brasileira tentou por todos os meios ter presença diretiva em vários organismos internacionais e no Conselho de Segurança da ONU. Como necessitava de votos, considerou natural ignorar graves violações dos direitos humanos em vários países (como o genocídio de Darfur), apoiou ditadores (como Muammar Gaddafi) e até fez campanha para um aspirante a diretor-geral da Unesco notabilizado por declarações de cunho antissemita. Mesmo assim, os candidatos brasileiros foram derrotados, e a estratégia fracassou. O presidente Lula transformou o Itamaraty em uma espécie de Íbis, clube de futebol pernambucano celebrizado pelo número de derrotas. O Brasil precisa ter papel relevante nos organismos e nas negociações internacionais. Disso ninguém discorda. Mas a maturidade econômica do país não condiz com uma política externa inconsequente. Não é com base em aventureirismo que o país vai ser respeitado. E muito menos servindo de cavalo de troia de bufões latino-americanos. Um dos grandes desafios para o século 21 brasileiro é a construção de uma política externa global, que enfrente os desafios da nova ordem internacional. Um bom caminho para dar início a essa discussão é aproveitar a próxima eleição e, pela primeira vez, transformar a política externa em tema eleitoral. MARCO ANTONIO VILLA , 54, historiador, é professor de história da UFScar (Universidade Federal de São Carlos) e autor, entre outros livros, de "Jango, um Perfil". ---------- JANIO DE FREITAS O lugar no mundo Com alguns erros, a verdade é que Lula deu ao Brasil projeção na política internacional que o país jamais tivera ACHAR QUE O BRASIL "conquistou cidadania no mundo" porque sediará uma Olimpíada daqui a sete anos não é só uma elaboração mental estapafúrdia, que por si não causaria espanto, é uma demonstração de que Lula não tem noção do que seu governo faz, nem do seu próprio fazer na Presidência. Com alguns erros menores e inevitáveis, porque na ação política a linha reta é quase inexistente, a verdade é que o governo Lula deu ao Brasil uma projeção na política internacional que o país jamais tivera. Nem a participação da FEB e de um bravo grupo de aviação de caça é lembrada nas histórias da Segunda Guerra, nem ao chegar à dimensão de oitava economia mundial o Brasil se tornara mais considerado nas formulações internacionais. Auxiliado pelo equívoco dos países desenvolvidos que o supõem um operário autêntico e reformador do Brasil, fantasia da embasbacada imprensa europeia e norte-americana, Lula teve o mérito de operar uma confusa identificação do seu exacerbado personalismo com o país. E estendeu de um ao outro atenções e benevolências que abriram portas e presença em centros de decisão. Dá uma ideia dessa fusão inovadora, e do seu processo, a comparação com o personalismo de Fernando Henrique, não menos exacerbado, mas que confinou seus objetivos aos limites pessoais dos títulos, condecorações e outras projeções individuais. A ação externa do governo Lula é parte de um contraste agudo. Lula produz nas relações internacionais um passo primordial e extenso de descolonização do Brasil. No plano interno, porém, a política econômica e suas projeções sociais preservam o colonialismo ante essa espécie de metrópole mundial que são os capitais internacionais combinados, com suas ramificações internas completando o sistema colonizante. Ainda estamos por saber se tal contraste é uma contradição, decorrente do conservadorismo de Lula, ou se é como um habeas corpus -provavelmente parte das propostas de José Dirceu no planejamento do governo Lula- para tornar aceita a política externa e, em especial, sua realçada face latino-americana. Sob críticas internas muito azedas, capazes de ver no erro de uma indicação para a Unesco uma condenação de toda a política externa, é no entanto inegável que o Brasil chegou a uma expressão internacional que não depende da safra de soja e dos êxitos da Vale. E não foi a concessão da Olimpíada que lhe trouxe a nova condição. Lula, pelo visto, não sabe, mas foi o contrário, a "cidadania no mundo" já conquistada é que levou o Brasil a obter a Olimpíada. Com a ajuda, isso Lula sabe, de caríssimo marketing e outros recursos menos citáveis. ---------- VINICIUS TORRES FREIRE "Alegria, alegria" Olimpíada no Rio mostra que a reputação mundial do país melhora mais rápido do que as condições reais da vida "POR QUE NÃO?" Por que não Olimpíadas no Brasil? "O sol é tão bonito", dizia Caetano Veloso. Porque "os teus príncipes são companheiros dos ladrões", dizia o português-baiano padre Vieira citando Isaías, e "porque furtam, furtavam, furtaram, furtariam e haveriam de furtar mais, se mais houvesse". A citação não é nada original, mas furta-se de modo também tão recorrente que é difícil não pensar no quanto se poderá furtar de um governo refém de um compromisso internacional irrevogável como a Olimpíada. Sob o pretexto da preservação da "imagem do país", quantos "aditamentos de contratos" virão? Quantas revisões orçamentárias, quantas verbas extraordinárias e emergenciais serão requisitadas devido a falta de planejamento, inépcia, superfaturamentos ou por furto puro e simples? Vide o Pan. Vide a Copa, que mal começa mas já custa caro. "O sol se reparte em crimes", "E eu nunca mais fui à escola", dizia o Veloso: ainda somos selvagens e ignorantes, apesar de melhoras no último decênio. Temos, porém, a oportunidade de corrigir alguns barbarismos e confirmar a boa opinião de que ora gozamos pelo mundo, coisa um tanto equívoca. Podemos fazer dessas despesas nada prioritárias em Copas e Jogos algo de útil ou, ao menos, a preço justo. É uma ambição modesta. Há muito oba-oba sobre o benefício econômico da empreitada. A "literatura" sobre o assunto é bem controversa. As melhorias derivadas das obras olímpicas poderiam ser realizadas, a custo menor, sem a cenoura dos jogos. O México fez a Olimpíada de 1968 e a Copa de 1970. Depois disso, ainda viveu mais um quarto de século de ditadura "institucional". Hoje, ainda meio pobre como nós, fica ainda mais perto dos EUA e tão longe de Deus como sempre. Sim, naqueles tempos mais simples os jogos eram mais modestos. Exigiam bem menos do que as Olimpíadas da globalização da tralha esportiva de grife, dos jogos pós-Moscou de supermercantilismo esportivo, da disseminação da TV colorida, via satélite, e da política espetacular, midiática. Olimpíadas hoje exigem mais competência e rendem mais publicidade e propaganda. Apesar das nossas tigradas, a medalha de organizador de jogos internacionais é de fato uma promoção. Os estrangeiros parecem acreditar que, em 2016, vão encontrar pistas para correr com menos buracos do que nossas estradas, que haverá ônibus, lençóis limpos e que não serão assassinados. Assim como têm acreditado que não serão tungados ao investir aqui, embora, como diga Delfim Netto, o Brasil e seus juros sejam um dos últimos perus do mundo. Por falar em dinheiro, sediar jogos mundiais e receber qualificações de crédito melhores são condecorações parecidas: não mudam grande coisa, mas indicam mais boa vontade. Melhor assim do que má vontade. Na sexta-feira, um economista do Citigroup dizia à agência de notícias financeiras Bloomberg que "o Brasil está chegando. Chegou ao palco global. Isso [a Olimpíada] é uma espécie de prêmio para as excelentes políticas do Brasil". É meio besteira, mas não é gratuito e foi o tom geral dos comentários, do "Wall Street Journal" aos diários argentinos. Em termos políticos, é um gol. ---------- JUCA KFOURI Uma chance de ouro Sediar uma Copa do Mundo de futebol e os Jogos Olímpicos pode fazer do Brasil o país do século 21 PRIMEIRO é preciso dizer que a escolha do Rio para sediar a Olimpíada de 2016 foi fruto de um trabalho brilhante. Pura ficção, mas brilhante. Quem viu o Pan-2007 não tem por que acreditar em nenhuma das promessas feitas e sabe que aquela cidade maravilhosa que os filmes mostraram não existe. É claro, porém, que pode existir. Bastará gastar o que está previsto, de fato, nela. Em segundo lugar, é preciso dizer com todas as letras e sem nenhuma ironia que nunca, jamais, o Brasil teve um presidente da República como Luiz Inácio Lula da Silva. Nunca, jamais e em tempo algum. Nenhum governo antes tirou tantos milhões de brasileiros da linha de pobreza, diferença maior dele em relação a todos os seus antecessores. Porque, de fato, um presidente preocupado com os excluídos, coisa que os outros só conheceram na teoria, enquanto Lula foi um deles, na prática. E nenhum governo antes do dele conseguiu projetar tanto o Brasil internacionalmente, não à toa chamado de "o cara" pelo surpreendentemente derrotado poderoso presidente dos Estados Unidos, Barack Obama. Sim, reitere-se aqui que a vitória carioca é a maior surpresa do colunista em quase 40 anos de exercício do jornalismo. Mas Lula simplesmente não só trouxe os dois maiores eventos mundiais para o Brasil como, ainda por cima, se não fez da crise internacional apenas uma marolinha, tratou de impedir que fosse um tsunami por aqui. Bem ele, o único que não falava inglês na comitiva quase totalmente da elite branca que o país mandou para Copenhague. Fenômeno, sem dúvida, fabulosamente macunaímico, cercado por inúmeras histórias mal contadas, algumas que até envolvem assassinato, como a do prefeito de Santo André, Celso Daniel. Desnecessário dizer que haverá roubalheira. Como haveria, já foi dito, também em Tóquio, em Chicago, em Madri e está havendo em Londres, que receberá a Olimpíada de 2012. Mas nós não vivemos nem nos Estados Unidos nem na Espanha nem no Japão. Nem na Inglaterra. E desnecessário dizer que fiscalizaremos -e descobriremos uns 10% das tramoias. Ainda mais em ano eleitoral, como 2010. É difícil exercitar a esperança quando a experiência já ensinou o que precisava em relação aos que comandarão o projeto olímpico. Gente que fechou as portas aos maiores empresários do Rio de Janeiro e que fez questão de acumular cargos, como faz Carlos Arthur Nuzman, presidente do COB e do comitê organizador da Olimpíada. Assim como, aliás, Ricardo Teixeira acumula os cargos de presidente da CBF e do comitê organizador da Copa do Mundo, diferentemente do que acontece e aconteceu em todas as outras partes do mundo, basta lembrar de Michel Platini, na Copa da França, ou de Franz Beckenbauer, na da Alemanha. Lula não gostava dessa gente e a colocou no topo do mundo. Sem se preocupar em ter uma política esportiva para o país. Se a Rio-2016 mudar tal estado de coisas, valerá a pena. A ver. ---------- SERGIO MAGALHÃES O que quer se desenvolver, o Rio ou a Barra? ESPECIAL PARA A FOLHA É excepcional a oportunidade oferecida para o desenvolvimento do Rio de Janeiro como sede dos Jogos Olímpicos. As Olimpíadas, contudo, não são uma panaceia para problemas urbanos. Degradação ambiental, crescimento de favelas e violência não se superam por mágica. Mas é justo esperar que os investimentos previstos e o sentimento de promoção da cidade possam estruturar uma recuperação consistente. Há dois condicionantes, porém: 1) o adequado tratamento ambiental que venha a ser desenvolvido até lá, no sentido da sustentabilidade urbana; 2) a coerência entre a marca da cidade e o palco dos Jogos. Por que isso pode preocupar? Porque há uma questão urbanística importante: a ambiguidade quanto à região a ser desenvolvida prioritariamente. É a cidade ou a Barra da Tijuca? Entre os mais importantes legados projetados está a despoluição da baía de Guanabara, fundamental para a reestruturação urbanística da cidade. Um segundo legado poderá ser a revitalização do centro. O centro do Rio é o seu lugar histórico. Dispõe da melhor acessibilidade e conexões metropolitanas. É o núcleo principal dos empregos. Seu processo de esvaziamento tem se exacerbado pelo abandono de edifícios e áreas antes ocupados pelo governo federal. Sofre também com o estímulo à ocupação da Barra, distante 40 km. Com 200 mil habitantes (2% do total), a Barra tem recebido investimentos públicos desproporcionalmente à sua participação demográfica. Embora os Jogos estejam projetados para ocorrerem em quatro áreas (sul, centro, norte e Barra), é na Barra que se prevê a Vila Olímpica. Algumas modalidades têm exigências de lugar, como esportes náuticos, na lagoa Rodrigo de Freitas e em Copacabana (sul). Ou pelo aproveitamento de arenas existentes, como o estádio João Havelange (norte) e o Maracanã (centro expandido). Já os equipamentos da Barra, como a Vila, não tem especificidade de localização. Ao contrário, é o bairro que demanda a construção de infraestrutura para os Jogos. A escolha da Barra foi justificada pela disponibilidade de grandes áreas livres. Em que pese a baixíssima densidade populacional, que torna proibitivo investir em transporte de massa, essa decisão seria a mais adequada, já que não se vislumbrava outra região com áreas passíveis de aproveitamento. Mas, felizmente, as coisas mudaram. O município anunciou como prioritário o desenvolvimento da região portuária (centro), onde há grandes áreas disponíveis, públicas, para cujo aproveitamento já houve acordo entre Lula, o governador e o prefeito. A sinergia que não havia antes, entre as decisões federadas, hoje é inconteste. Tal disponibilidade tem potencial construtivo muito superior ao necessário para a Vila e demais arenas projetadas. De frente para a baía recuperada, a Vila poderá servir de fomento à moradia no centro, a sinalizar novo século de desenvolvimento. Por certo se constituirá como o coração dos Jogos-2016. É justo que assim seja, pois disporá da melhor infraestrutura de transporte, com duas linhas de metrô mais as três novas linhas que poderão resultar da transformação dos trens suburbanos em metrô, promovendo integração por transporte de massa de 70% da população. Assim, o palco dos acontecimentos olímpicos estará indissociado da imagem ambiental do Rio. Os Jogos de 2016 podem representar o papel que as obras de Pereira Passos desempenharam no início do século 20, quando a ideia de cidade maravilhosa foi constituída -e que, hoje, pode ser recuperada. SERGIO MAGALHÃES é arquiteto, doutor em Urbanismo, professor do Prourb e da FAU-UFRJ ---------- Com a Olimpíada, Brasil pode superar "vira-latice" Para especialistas, realização dos Jogos é oportunidade para derrubar complexo Vitória põe país como polo nas relações internacionais, mas sucesso esportivo e na organização serão decisivos para consolidar autoestima LEONARDO CRUZ "Deixamos de ser um país de segunda classe. Ganhamos a cidadania internacional", bradava o presidente Lula logo após a escolha do Rio como sede dos Jogos Olímpicos de 2016. Para alguns especialistas consultados pela Folha, a declaração de Lula em Copenhague simboliza um processo de projeção do país no cenário internacional e ajuda a alimentar o espírito ufanista que dominou os discursos da comitiva brasileira em Copenhague. Seria a superação do "complexo de vira-latas"? O termo cunhado pelo cronista Nelson Rodrigues expressa "a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo". "O complexo de vira-latas já virou complexo de cocker spaniel", analisa Sergio Miceli, professor de sociologia da USP. "A escolha do Rio tem grande repercussão por lidar com o esporte, algo de grande interesse nacional e internacional. Mas a autoestima do brasileiro já melhorou nos últimos anos por causa de uma série de indicadores econômicos e sociais positivos", completa Miceli. Nos últimos anos, o Brasil consolidou sua posição como principal líder regional nas negociações com EUA e Europa. Além disso, foi um dos articuladores do fortalecimento do G20, o grupo das 20 maiores economias do mundo, como palco de negociações internacionais, em detrimento do G8. Para se afirmarem definitivamente no cenário internacional, muitos países emergentes, como o Brasil, usaram a Olimpíada como instrumento. Nas últimas décadas, os casos mais emblemáticos são os da Coreia do Sul e da China. Em 1988, os sul-coreanos demonstraram sua pujança econômica como tigre asiático ao sediarem a Olimpíada de Seul. Vinte anos depois, foi a vez dos chineses. Eles exibiram os Jogos mais exuberantes de todos os tempos diante de 4,4 bilhões de espectadores. Gastaram cerca de US$ 40 bilhões e seu principal legado foi imaterial. A China exibiu-se para o mundo todo como uma das maiores potências atuais. Para especialistas, o Brasil segue uma trajetória similar. "A mídia dá uma visibilidade cósmica aos Jogos. Em um mundo no qual se opera muito com a imagem, isso [sediar uma Olimpíada] tem um impacto colossal", declara o economista Carlos Lessa. O país, aliás, encerra o ciclo de grandes eventos esportivos sediados pelos Bric (Brasil, Rússia, Índia e China), países emergentes, em uma década. Após Pequim-08, haverá em 2010, em Nova Déli (Índia), os Jogos da Comunidade Britânica. Quatro anos depois, o Brasil sediará a Copa do Mundo, e Sochi, na Rússia, a Olimpíada de Inverno. Em 2016, o Rio de Janeiro complementa o ciclo. "Não que o Brasil tenha virado uma potência, mas a escolha do Rio para sediar a Olimpíada é mais um indicador do rearranjo da posição brasileira no mundo. É a cereja do bolo," afirma Sérgio Miceli. Anteontem, inclusive, paralelamente à comemoração nas ruas do Rio, milhares de brasileiros demonstravam com humor seu otimismo na internet. O termo "Yes, we créu" -paródia ao "Yes, we can", do presidente americano Barack Obama- virou hit no Twitter, microblog usado no mundo inteiro. Sempre associado à Olimpíada no Rio, ele liderou a lista de expressões mais usadas durante toda a sexta-feira. Para o antropólogo carioca Gilberto Velho, a sensação de ufanismo e deslumbramento do povo vem acompanhada ainda por uma certa desconfiança sobre a capacidade de o país obter ganhos materiais por abrigar os Jogos Olímpicos. "Saí nas ruas de Ipanema hoje [anteontem] à tarde para sentir o espírito e vi que as pessoas estão animadas. Mas tem muita gente cética, muita gente preocupada por causa de experiências anteriores", diz Velho, em referência ao Pan de 2007, cujo orçamento foi de R$ 3,7 bilhões, muito superior ao originalmente estimado. "O Pan foi muito frustrante para muita gente. Houve desde o não cumprimento de promessas básicas até o desvio de recursos financeiros. Coisas que foram abandonadas. Então, espera-se que não haja nada similar na Olimpíada porque isso gera uma desmoralização. Dá muito medo", pontua. Mesmo que o país se saia bem na organização dos Jogos, ainda há a possibilidade de o brasileiro voltar a assumir o complexo de vira-latas. Para o historiador Manolo Florentino, o país terá que ter um êxito similar no âmbito esportivo. "O brasileiro não aceita ser segundo colocado", avalia o professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro. "Se a escolha do Rio infla o ego nacional agora, o desempenho do país na competição de 2016 tem grande chance de causar um sentimento de frustração, porque é improvável que o país se mostre uma potência olímpica", completa. Foi justamente essa frustração, advinda de uma das maiores derrotas brasileiras dentro de campo, que fez Nelson Rodrigues criar o termo "complexo de vira-latas". O revés diante do Uruguai na final Copa de 1950, justamente o último grande evento esportivo sediado no Brasil, deixou o país atônito e criou o Maracanazo. "Perdemos da maneira mais abjeta. Por um motivo muito simples: porque Obdulio [Varela, capitão uruguaio] nos tratou a pontapés, como se vira- -latas fôssemos", afirmava a crônica de Nelson Rodrigues. ---------- MARCELO PRONI Receber Jogos é, de fato, um bom negócio? ESPECIAL PARA A FOLHA Nos últimos anos, várias metrópoles têm gastado centenas de milhões de dólares em candidaturas olímpicas. Certamente, estão convencidas de que é bom negócio. Querem repetir os êxitos de Barcelona-92, Sydney-00 e Pequim-08. O impacto da realização dos Jogos pode ser bastante positivo. Crescimento do PIB, impulso ao turismo internacional, aumento das oportunidades de emprego e reestruturação urbana são algumas das benesses. E tornar-se uma metrópole mundialmente admirada ajuda a estabelecer novo posicionamento na economia global para receber fluxos de pessoas, de mercadorias e de capitais. Investir na cidade deve ser a prioridade para sediar os Jogos. Além de instalações esportivas, é importante pensar nas facilidades de transporte e comunicação, na questão ambiental, na segurança e conforto de turistas, atletas e jornalistas. Em relação ao legado para a cidade, Barcelona-92 tornou- -se paradigma por ter ajudado a superar a estagnação dos anos 80 e ter se tornado uma cidade moderna. A maioria dos investimentos foi feita na infraestrutura, deixando para a população legado muito maior do que o esportivo, em especial na revitalização de áreas de convivência, no aumento da autoestima e na qualidade de vida. Por sua vez, Sydney-00 tornou-se referência em razão da despoluição da Homebush Bay e da preocupação com o desenvolvimento sustentável. Portanto os Jogos podem ser catalisadores no almejado processo de alquimia do Rio, pois legitimam investimentos públicos em estrutura; criam otimismo e tornam atraentes investimentos privados em turismo e em atividades de serviço; e ajudam a preservar o ambiente. Em acréscimo, podem difundir no mundo todo a imagem de uma cidade maravilhosa... Pode acontecer, contudo, de os Jogos não trazerem o legado esperado. Foi o que ocorreu em Atenas-04 por causa do medo do terrorismo, que reduziu as receitas com o turismo e ampliou os gastos com segurança. Nesse caso, o legado incluiu grande dívida para o governo grego. Ainda houve denúncias de superfaturamento de obras, uso indevido de recursos públicos e corrupção. E as instalações agora ociosas sugerem que a verba poderia ter sido aplicada em áreas mais prioritárias. A questão do financiamento é crucial, pois o Estado deve assumir papel central na alocação de recursos. As receitas do marketing olímpico podem pagar a festa (e até gerar lucros à organização), mas não pagam a construção do local da festa nem o suporte logístico. No Rio, os três níveis de governo se responsabilizam pelos gastos com equipamentos urbanos e instalações esportivas. Por isso, é preciso que a execução dos orçamentos seja transparente. Deve-se considerar que os efeitos positivos não beneficiarão a todos da cidade de forma homogênea. Alguns segmentos serão mais beneficiados. Se a aplicação de recursos nos Jogos provocar o adiamento da ampliação do sistema de saúde, impedir que a prefeitura eleve salários dos funcionários públicos ou levar o governo federal a reduzir suas transferências para o saneamento básico, grande parcela da população pode ser prejudicada. Por isso, é preciso continuar fortalecendo as políticas públicas de combate às desigualdades sociais e regionais. Finalmente, há vários motivos para crer que a economia brasileira terá um bom desempenho na próxima década. Para que o investimento estatal nos Jogos tenha retorno satisfatório, é fundamental que todas as ações sejam coordenadas entre os níveis de governo e criem sinergias positivas entre setor público e setor privado. MARCELO PRONI é doutor em educação física e professor do Instituto de Economia da Unicamp --------- ELIANE CANTANHÊDE 50 anos em 7 BRASÍLIA - Os EUA descem (do topo), o Brasil sobe (da base emergente). Obama murcha, Lula infla. As mútuas cutucadas continuam, e o contraste diz muito: um chegando cabisbaixo de volta a Washington e outro falando de Copenhague ao mundo. É o retrato do momento e uma projeção do futuro. Internamente, o Brasil está em festa, recuperando a autoestima, o orgulho, a ambição. Ou seja, as Olimpíadas de 2016 reforçam os projetos de Lula para 2010 e embalam o seu sonho de disputar a Presidência em 2014 e voltar em 2015. Mas, se o Rio é a "Cidade Maravilhosa, de encantos mis", nem tudo ali é festa. A Olimpíada será em 2016, e os Jogos, porém, começam desde agora: os cem metros rasos para garantir o metrô e o acesso à Barra da Tijuca, o salto triplo para construir e reformar a Vila Olímpica, o revezamento para despoluir a baía de Guanabara e a lagoa Rodrigo de Freitas, quatro sets para duplicar a rede hoteleira. Sem falar nas modalidades em que o Brasil e o Rio, em particular, não sobem ao pódio: combate à violência, à polícia corrupta, às balas perdidas, às metralhadoras e, ultimamente, até às granadas; e o campeonato de superfaturamento que multiplica misteriosamente os orçamentos, como no Pan. O desafio é o de 50 anos em 7, para a urbanização das favelas, o ataque ao crime organizado, a inclusão social e soluções para saúde, educação e o menor abandonado. As Olimpíadas trazem uma profusão de emoções, desde o choro de Lula, a alegria do carioca e "o orgulho de ser brasileiro" até o medo das enormes responsabilidades. No discurso de Copenhague, forte, emocionado e irônico em relação a Obama, Lula admitiu "alegria e preocupação". Não explicou, nem precisava. A alegria é pela vitória estonteante, com seus efeitos externos e internos. A preocupação é com o que vem por aí. Botar a casa em ordem para uma Olimpíada não é fácil, nem só uma festa. ---------- CARLOS HEITOR CONY Razão e paixão RIO DE JANEIRO - Modéstia à parte, meus senhores, eu sou da Vila, quer dizer, emendando o carioca Noel Rosa, eu sou do Rio. Uma vitória suada, mas esperada. No painel das finalistas, o Rio já se destacava pela economia das letras (apenas três) que indicava uma logomarca, um cidade, um país que começa a botar as manguinhas de fora em vários departamentos da realidade internacional. Em sete anos, o Rio terá a oportunidade de criar todas as condições materiais e técnicas para a realização de um evento mundial do porte de uma Olimpíada. Em 1950, quando não passávamos de grupo ainda atolado no subdesenvolvimento, sediamos uma Copa do Mundo e construímos em tempo recorde o maior estádio do planeta. Veio depois o Rio-92, com mais de cem chefes de Estado e de governo; vieram os Jogos Pan-Americanos; o alinhamento com o Bric -países que se destacarão ao longo do século 21. A louvar, mais uma vez, o sucesso de Carlos Arthur Nuzman, presidente de nosso comitê olímpico, que já se firmara nos Jogos Pan-Americanos com sua diplomacia e capacidade. Louvor também a Lula, a quem não poupamos críticas diversificadas, mas que na hora das horas veste a camisa do povo com seu jeitão inconfundível. Num pequeno -e feliz- discurso em Copenhague, ele expressou uma aparente contradição, falando que a vitória do Brasil foi a vitória da paixão e da razão. Razão e paixão geralmente se encontram em situações opostas, uma negando a outra. Contudo, o resultado do Comitê Olímpico Internacional conseguiu premiar os dois polos da condição humana, fazendo a razão e a paixão decidirem uma guerra pacífica que constituiu um ponto significante para o bom entendimento da humanidade. PS: por motivo de viagem, o cronista ficará alguns dias fora da coluna. ---------- Em Salto, 4 de Outubro de 2009 7/7/2009 Michael JacksonHaverá gente que não gostará do fato de que eu estou escrevendo sobre uma terceira morte em seqüência… E haverá quem critique o fato de que eu fale de Pinotti, Maraschin e Jackson assim, como direi, no mesmo fôlego (in the same breath). Mas vá lá… Transcrevi no meu Facebook uma frase que me pareceu um justo epitáfio para Michael Jackson, que eu encontrei na primeira página de The Seattle Times de 26 de Junho de 2009: "Michael Jackson, 1958-2009. Um ícone pop eletrizante, uma alma perturbada. Seu trabalho foi freqüentemente brilhante, desde sua fase de garoto prodígio com The Jackson 5 até o seu reinado como Rei do Pop. Mas sua vida teve um lado escuro. Para as legiões de seus fãs, ele foi o Peter Pan da música pop: o menino que se recusou a crescer. Mas, agora, ele se foi”. Hoje cedo escrevi no meu Facebook: “Ontem [06/07/2009], entre outras coisas, visitamos a Calçada da Fama, em Hollywood Blvd, em frente ao Teatro Chinês, e a estrela do Michael Jackson tinha até policiais para controlar o tráfego, sem falar de uma enormidade de flores e presentes de todo tipo (inúmero CDs e DVDs: fiquei imaginando o que conteriam...). Mais tarde passamos em frente à casa em que ele morava quando morreu, em Beverly Hills. Mais do mesmo...” Surpreende-me que pessoas se dêem ao trabalho de fazer vigílias ao redor da estrela na Calçada da Fama ou em frente à casa de alguém que morreu – e que, provavelmente, elas nunca encontraram em pessoa. Surpreende-me ainda mais que deixem flores ali – tantas que fiquem amontoadas, mesmo com a ajuda de voluntários que tentam arranjá-las. Surpreende-me ainda mais que deixem presentes ali: coisas como ursinhos de pelúcia, isto é, presentes destinados a crianças, talvez sugerindo com eles, na linha do que disse The Seattle Times, que ele tentou ser uma eterna criança… Mas surpreende-me ainda mais de tudo que deixem, fotos, papeizinhos escritos a mão, CDs e DVDs. O que será que disseram para ele? As palavras, seriam elas de apoio, consolo, encorajamento – ou seriam pedidos? Estaria Michael Jackson, como Elvis Presley antes dele, virando uma espécie de santo pop? Acho fascinante a necessidade de heróis dos seres humanos. Só lastimo que, no plano pessoal, o herói Michael Jackson tenha legado aos seus jovens fãs tão pouco para ser emulado. Espero que emulem apenas sua competência artística. Em Garden Grove / Anaheim, 7 de Julho de 2009 4/17/2009 Têm os índios brasileiros o direito de praticar o infanticídio?Era o de que precisávamos: um caso quente que envolve ética, antropologia, direito, política... Em última instância: filosofia... Em discussão estão principalmente estas duas questões: 1) A diversidade e o relativismo cultural Se a cultura indígena aprova, ou mesmo determina, que bebês com deficiência física sejam sacrificados (isto é, que sejam deixados sem assistência para que morram, ou mesmo que sejam ativamente matados), nós que temos uma cultura diferente vamos ficar apenas olhando? Afinal de contas, a diversidade cultural, como há muito se alega, não é um bem? O relativismo cultural não é apregoado aos quatro cantos, afirmando que nenhuma cultura é superior a outra, e que todas têm o direito de ter seus próprios sistemas éticos, que são igualmente bons, ou, pelo menos, incomensuráveis? O multiculturalismo não é ensinado em nossas escolas como um valor a ser preservado? Não é isso que prega, aos quatro ventos, a FUNAI? 2) A questão das “nações indígenas” Os indígenas brasileiros estão de fora da nação brasileira, constituindo uma outra nação, ou um conjunto de outras nações, com seu próprio território, suas próprias leis, seus próprios costumes, seus próprios valores? O presidente da FUNAI não é uma espécie de Secretário Geral do equivalente da ONU dessas nações indígenas brasileiras --- e é assim que elas se denominam e a FUNAI freqüentemente a designa? Não é isso que prega a FUNAI e os seus antropólogos de plantão? A questão não é só cultural, antropológica, ética: é também política e de direito (quiçá internacional...) o O o Por fim, a FUNAI mistura tudo, trazendo para o mexilhão até mesmo a religião: ter um filho defeituoso é, para os índios, um grave "pecado", diz a nota da FUNAI. A nota da preclara instituição não esclarece, no caso, de quem seria o "pecado": seria dos pais? Da comunidade? Da tribo? Da própria criança que nasce defeituosa? E esse "pecado" justificaria o sacrifício da criança? A FUNAI parece pensar (se é que pensa) que, no mínimo, são os índios que devem decidir isso, não as leis e o sistema judiciário do país... – e que a cultura predominante do país pensa sobre a questão é absolutamente irrelevante. A FUNAI alega estar tentando proteger os direitos dos pais da menina. E os direitos da menina com hidrocefalia, quem protege? As questões do aborto e da eutanásia aqui reaparecem em um contexto multicultural... A cultura aqui faz as vezes da religião (como a nota da FUNAI deixa claro), misturando esse caso com a postura dos Testemunhas de Jeová que se recusam a, por exemplo, fazer transfusão de sangue e a permitir que ela seja feita em seus filhos, ainda que morram... o O o Institutionalmente, essa é uma questão da Justiça Estadual ou da Justiça Federal? Ou seria da Justiça Internacional, visto que os Ianomânis são, como se apregoa, uma nação autônoma? Ainda institucionalmente, a Fundação Nacional de Saúde (FUNASA) e a Fundação Nacional do Índio (FUNAI) estão em pé de guerra. Quando duas Fundações do Executivo Federal discordam, quem resolve? O Presidente? E o Conselho Tutelar, onde fica, institucionalmente, nessa briga entre as diversas Justiças e as diversas Fundações? E o Ministério Público Federal? E as Igrejas, que vivem tentando salvar os índios de sua cultura, levando-os a aceitar o Cristianismo, como ficam? E as ONGs, que vivem tentando salvar os índios do Cristianismo e de toda cultura não-indígena, que apito vão apitar? Numa questão marginal, mas importante, será que nós, agindo na contra-mão da recomendação contida no princípio da Navalha de Ockham, não estamos multiplicando entidades além da necessidade -- e além do bom senso? o O o De repente descobrimos que o infanticídio é praticado no Brasil impunemente e que os índios matam não só crianças que nascem defeituosas, mas também gêmeos e filhos de mãe solteira... E isso com o conhecimento e sob a proteção da FUNAI!!! Que país é esse? Que belo cardápio para um curso transdisciplinar que discuta o que hoje seria objeto de cursos de filosofia, antropologia, direito, ciência política, para não mencionar a teologia, a regina scientiarum? O UOL ataca com suas próprias armas de alta tecnologia: Enquetes e Grupos de Discussão... Enquete: A bebê ianomâmi deficiente deve ser entregue aos pais? Vote! Grupo de discussão: Em casos de vida ou morte, a Justiça deveria interferir em questões culturais? Opine! Vote!!! Opine!!! A sociedade deve se envolver na discussão da questão, excitar-se toda, ler mais o site do UOL... Os ativistas devem organizar seus exércitos, fazer demonstrações, elaborar piquetes, conseguir seus 15 segundos de fama... o O o No meio disso tudo, há as curiosidades e as figuras ridículas... Nesse primeiro assalto claramente se destaca a figura do administrador regional da Funai em Manaus, Edgar Fernandes. Colocando-se no lugar da Corte Suprema brasileira ela já sentencia: "Ela (Justiça Estadual) não tem prerrogativa para julgar esse caso. Questões envolvendo índios têm de ser resolvidas na Justiça Federal." Colocando-se na posição de Antropólogo Mor da Nação ele determina: "Os povos indígenas têm direito às suas próprias crenças. Os pais da menina não acreditam mais na medicina ocidental e querem que ela tenha os seus últimos dias na aldeia". Será que os pais da menina acreditaram um dia na medicina ocidental e agora não acreditam mais???
Abaixo, a matéria do UOL. ========================= DO UOL 16/04/2009 - 20h30 Caso de índia ianomâmi deficiente gera crise institucional no Amazonas Especial para o UOL Notícias Em Manaus FOTO: Enfermeira cuida de bebê ianomâmi que está internada com hidrocefalia, tuberculose e pneumonia em hospital infantil de Manaus. O Conselho Tutelar da capital amazonense vai protocolar no Ministério Público Estadual pedido de suspensão dos direitos dos pais da criança, depois que três indígenas teriam tentado levá-la de volta à aldeia sem autorização médica Enquete: A bebê ianomâmi deficiente deve ser entregue aos pais? Vote! Grupo de discussão: Em casos de vida ou morte, Justiça deveria interferir em questões culturais? Opine! A internação de uma índia da etnia ianomâmi em um hospital de Manaus está criando uma crise institucional no Amazonas. Os pais da criança querem retirá-la do hospital e levá-la para a aldeia. Nesta quinta-feira (16), porém, a Justiça Estadual concedeu uma ordem para que a menina, vítima de hidrocefalia (condição na qual há líquido cérebro-espinhal em excesso ao redor do cérebro e da medula espinhal), permaneça no hospital até ter alta. De outro lado, a Fundação Nacional do Índio (Funai) ameaça recorrer da decisão para garantir os direitos dos pais da menina. E em meio a tudo isso está o Conselho Tutelar, que teme que a criança seja sacrificada pelos pais quando retornar à aldeia, como parte de um ritual da etnia. A criança chegou ao hospital levada pela Fundação Nacional de Saúde (Funasa) e da ONG Serviço e Cooperação com o povo Yanomami (Secoya), que faz serviço de atendimento em saúde para os índios desta etnia. A crise em torno da menina começou no início desta semana. Na última terça-feira (14), os pais da pequena ianomâmi de um ano e meio de idade foram ao Hospital Infantil Drº Fajardo, em Manaus, para tentar retirá-la do local. Ela está internada desde março com hidrocefalia, pneumonia, tuberculose e desnutrição. Polêmica no Amazonas A direção do hospital acionou o Conselho Tutelar que, diante das suspeitas de que a criança seria sacrificada por ser portadora de deficiência física, acionou o Ministério Público Estadual (MPE) pedindo a permanência da criança no hospital. Nesta quinta-feira (16), a juíza Carla Reis, da 2º Vara da Infância e da Juventude, concedeu pedido de providências ordenando que a menina fique onde está até que seu quadro clínico seja considerado satisfatório. A decisão causou indignação do administrador regional da Funai em Manaus, Edgar Fernandes. "Ela (Justiça Estadual) não tem prerrogativa para julgar esse caso. Questões envolvendo índios têm de ser resolvidas na Justiça Federal. Vamos recorrer ao MPF (Ministério Público Federal) para interceder a favor da família", disse Edgar. Para a diretora do hospital, Glória Chíxaro, o estado clínico da menina é estável, mas a interrupção de seu tratamento pode leva-la à morte. "O quadro dela, hoje, é estável, mas se for retirada do hospital, seu tratamento será seriamente comprometido e ela pode morrer na aldeia", disse completando que a menina será submetida a uma cirurgia para drenar o líquido de sua cabeça. Edgar Fernandes discorda do entendimento da diretora e diz que o desejo dos pais da menina de levá-la para sua aldeia é legítimo e amparado pela Constituição Federal. "Os povos indígenas têm direito às suas próprias crenças. Os pais da menina não acreditam mais na medicina ocidental e querem que ela tenha os seus últimos dias na aldeia", explicou. Para Fábio Menezes, conselheiro tutelar que acompanha o caso, retirar a menina do hospital é sentencia-la à morte. "Na cultura deles, quem tem deficiências deve ser sacrificado. Eles já disseram à Funai que irão fazer isso. A própria Funai já admitiu que isso pode acontecer", disse Menezes. Sobre o possível 'sacrifício' da índia, a Funai divulgou uma nota explicando que esse tipo de ritual faz parte da cultura da etnia ianomâmi. "Gerar um filho defeituoso, que não terá serventia numa aldeia que precisa necessariamente de gente sadia (...) é um grave 'pecado', pois este não poderá cumprir o seu destino ancestral", diz a nota. Ainda de acordo com o documento, para evitar o transtorno de ter um integrante deficiente na aldeia, quando a criança nasce, a mãe realiza um cuidadoso exame e se constatar que a mesma é portadora de deformidade, a mesma é 'descartada'. Fábio Menezes diz que, apesar da decisão da Justiça Estadual, vai tentar impedir que ela seja levada de volta à aldeia. "Vou tentar uma reanálise do caso. Ela não pode voltar pra lá", disse. Polêmica sobre infanticídio indígena mistura leis, valores culturais e saúde O infanticídio entre indígenas é um tema que já gerou documentários, projetos de leis e muita polêmica em torno de saúde pública, cultura, religião e legislação. Ainda utilizado por volta de 20 etnias entre as mais de 200 do Brasil, esse princípio tribal leva à morte não apenas gêmeos, mas também filhos de mães solteiras, crianças com problema mental ou físico, ou doença não identificada pela tribo Para o antropólogo Ademir Ramos, o caso mostra, de forma emblemática, o choque entre as culturas indígenas e a ocidental. "O não índio não está discutindo hoje a eutanásia? Essa é uma questão já resolvida para os ianomâmis. Eles precisam de gente saudável na aldeia. Uma criança com deficiência gera uma série de transtornos aos integrantes da tribo", disse o antropólogo. A juíza Carla Reis defendeu sua decisão ordenando a manutenção da menina no hospital. "Eu estou analisando apenas o fato de ela se tratar de uma criança. Não entrei no mérito de ela ser indígena ou não. Pra mim, ela é apenas uma criança", disse. A magistrada admite, porém, que a Funai tem argumentos para recorrer de sua decisão. "Se eles quiserem, podem argumentar que a Justiça Estadual não tem autoridade para decidir em casos envolvendo índios. Vai depender deles", disse. Uma reunião entre Conselho Tutelar, Funai e o Ministério Público Federal (MPF) está sendo realizada na noite desta quinta-feira. O MPF ainda não se manifestou sobre o caso. 16/04/2009 - 21h19 Polêmica sobre infanticídio indígena mistura leis, valores culturais e saúde pública Do UOL Notícias Em São Paulo FOTO: Muwaji Suruwahá: Muwaji (à dir.) segura sua filha que nasceu com paralisia cerebral em cena do documentário "Hakani" do cineasta norte-americano David Cunningham, sobre o infanticídio indígena no Brasil; a luta da índia Muwaji contra sua tribo inspirou a criação da Lei Muwaji, que tramita na Câmara, que visa combater "práticas tradicionais que atentem contra a vida" O infanticídio entre indígenas é um tema que já gerou documentários, projetos de leis e muita polêmica em torno de saúde pública, cultura, religião e legislação. Ainda utilizado por volta de 20 etnias entre as mais de 200 do Brasil, esse princípio tribal leva à morte não apenas gêmeos, mas também filhos de mães solteiras, crianças com problema mental ou físico, ou doença não identificada pela tribo. A quantidade de índios mortos por infanticídio no país é uma incógnita. Nos dados da Funasa (Fundação Nacional de Saúde) sobre mortalidade infantil indígena, esse número aparece somado a óbitos causados por "lesões, envenenamento e outras consequências de causas externas". Esse grupo responde por 0,4% do total das mortes de menores de um ano de idade, segundo os últimos dados disponíveis da Funasa, de 2006. Tramitando no Congresso, a Lei Muwaji (em homenagem à índia que enfrentou a tribo para salvar sua filha com paralisia cerebral) estabelece que "qualquer pessoa" que saiba de casos de uma criança em situação de risco e não informe às autoridades responderá por crime de omissão de socorro. A pena vai de um a seis meses de detenção ou multa. Esse projeto se inspirou no caso da indígena Muwaji Suruwahá que lutou pela sobrevivência de sua filha Iganani, que tem paralisia cerebral - por isso, estava condenada à morte por envenenamento em sua própria comunidade. O caso alcançou repercussão nacional em outubro de 2005. A proposta é polêmica entre índios e não índios. Há quem argumente que o infanticídio é parte da cultura indígena. Outros afirmam que o direito à vida, previsto no artigo 5º da Constituição, está acima de qualquer questão. O antropólogo Mércio Pereira Gomes, que foi presidente da Funai (Fundação Nacional do Índio) nos quatro primeiros anos do governo Lula, admitiu que sofreu "um dilema muito grande" no órgão diante da questão do infanticídio. Como cidadão, é contrário à prática, mas como antropólogo e presidente do órgão, discorda de uma política intervencionista - segundo ele, há de cinco a dez mortes por infanticídio no Brasil por ano. Em 2004, o governo brasileiro promulgou, por meio de decreto presidencial, a Convenção 169 da OIT (Organização Internacional do Trabalho), que determina que os povos indígenas e tribais "deverão ter o direito de conservar seus costumes e instituições próprias, desde que não sejam incompatíveis com os direitos fundamentais definidos pelo sistema jurídico nacional nem com os direitos humanos internacionalmente reconhecidos". Antes disso, em 1990, o Brasil já havia promulgado a Convenção sobre os Direitos da Criança da ONU, que reconhece "que toda criança tem o direito inerente à vida" e que os signatários devem adotar "todas as medidas eficazes e adequadas" para abolir práticas prejudiciais à saúde da criança. O infanticídio voltou a criar polêmica com o lançamento do filme "Hakani", dirigido David Cunningham, filho do fundador de uma organização missionária norte-americana. A ONG Survival International, sediada em Londres, divulgou no começo do ano uma nota em que acusa os autores do controverso filme de incitar o ódio racial contra os índios brasileiros. A produção mostra cena protagonizada por supostos sobreviventes e parentes encenando pais enterrando viva uma criança deficiente. Outra ONG que atua na área é a Atini, sediada em Brasília, atua na defesa do direito das crianças indígenas. Formada por líderes indígenas, antropólogos, lingüistas, advogados, religiosos, políticos e educadores, a organização trabalha para erradicar o infanticídio nas comunidades indígenas, promovendo a conscientização. Em São Paulo, 17 de Abril de 2009 11/21/2008 Café da manhã em padarias…Lembro-me do tempo em que as pessoas – em geral homens – de vez em quando tomavam café da manhã em uma padaria. Quase sempre de pé, no balcão, apressados. O café da manhã não passava de um pingado (de café de coador) com um pão com manteiga (nunca na chapa: essa já é moda mais recente). Isso acontecia quando, por alguma razão, não havia sido possível tomar café em casa. A padaria era uma qualquer, em regra no caminho que se tinha de tomar. Não havia, portanto, compromisso com uma padaria fixa. Era a que estivesse mais à mão. Hoje a coisa mudou, em especial para a classe média (média-média, com laivos de média-alta). Aqui perto de casa (na Chácara Klabin) há uma padaria enorme. Na verdade, chamá-la de padaria já parece inadequado, pois é uma padaria com um razoável upgrade, já indicado no seu nome: “Empório dos Pães”. Apesar de sua fachada ter pelo menos uns 30 metros, e de a gente poder estacionar de frente na calçada (em paralelo), não se trata de um estacionamento comum de padaria: ali há, nos momentos de rush (manhã e tarde) valet parking, com os operadores usando aqueles prisminhas coloridos numerados para colocar em cima dos carros a fim de identificá-los. Ontem à noitinha, por exemplo, depois das 20h, tivemos de estacionar há cerca de um quarteirão de distância, porque nem o valet parking dava conta da demanda. O Empório dos Pães tem de tudo. O mais interessante é que tem uma área de alimentação que é um verdadeiro restaurante, com visão panorâmica e tudo (a vista, devo admitir, não é das melhores: é, em parte, uma vista do Extra da Ricardo Jafet, que fica a pouca distância). À noitinha, serve-se ali um sofisticado bufê, com sopas, assados, frios, tortas, doces, e, naturalmente, os mais diversos pães. Mas quero falar do que acontece ali de manhã: a padaria está sempre lotada de gente tomando café da manhã. Não são apenas homens: são homens, mulheres, crianças, famílias, casais. Não estão sozinhos, apressados, indo de casa para algum lugar: saíram de casa especificamente para ir tomar café na padaria. Têm tempo. Alguns ali chegam bem depois das 10h. Ficam lá um tempo razoável (como se a padaria fosse um “café” parisiense – só que tomam bem mais do que um café au lait. O café da manhã típico ali tem mais calorias do que a refeição principal da maioria dos brasileiros. Alguns lêem jornal, revista, livro. Outros usam o notebook (em geral há rede wifi em padarias desse tipo). Uns conversam. As crianças se divertem. O café da manhã virou um happening para a classe média nessas superpadarias chiques. Por isso elas agora precisam ter estacionamentos enormes, valet parking, o escambau. Ontem cedo, chegamos cedo para uma reunião nos Jardins e tivemos a oportunidade de tomar um café (simples) e uma coca (com gelo e limão) na Meca dessas padarias: A “Benjamin Abrahão”, que tem o “sub-título” de “No Mundo dos Pães: Tradição Há Três Gerações”. (As três gerações cobrem 68 anos). Fomos à filial da José Maria Lisboa, esquina com a Padre João Manuel. Mas a matriz parece ser na Rua Maranhão, em Higienópolis. A padaria foi considerada a melhor da cidade pela Vejinha SP em 2007. Tem um site sofisticado. (Vide http://www.benjaminabrahao.com.br/www/index.htm). Na Benjamin Abrahão Jardins todo o segundo andar é restaurante. Mas mais interessante do que a padaria em si é a tribo (fauna urbana?) que a freqüenta. Gente sofisticada, de todas as idades. Alguns muito bem vestidos, com roupas esporte de grife, outros caramente vestidos para parecerem desleixados. O olhar, sempre superior – daqueles olhares que olham sem parecer que vêem ninguém (a menos que apareça no campo de visão alguém que interesse…) Fantástico. Como mudam os costumes. Assim caminha a humanidade. Se a gente pedir na Benjamin Abrahão um pingado com café de coador e um pão de manteiga na canoa a garçonete provavelmente vai olhar pra gente com ar de desprezo e perguntar: o senhor não prefere um latte com um croissant? Sanduíche de mortadela, então… Talvez cem gramas de mortadela Ceratti esquentada na chapa… É isso. Em São Paulo, 21 de Novembro de 2008 7/24/2008 O crime, a polícia... -- e os bandidos?Excelente artigo do Carlos Heitor Cony na Folha de hoje, 24 de julho de 2008. Transcrevo-o abaixo. Apesar de erros e excessos cometidos por policiais, não podemos viver sem a polícia. A função policial é, como parte da atribuição maior de manter a lei e a ordem, parte essencial da função do estado. Não vamos sobreviver como sociedade civilizada como uma sociedade em que a polícia é detestada e temida pela população não criminosa. E o Cony ressalta bem o papel da mídia na criação dessa situação em que detestamos e tememos mais a polícia do que os criminosos que ela deve combater. Em 24 de julho de 2008 ---------- Folha de S. Paulo Era de paz CARLOS HEITOR CONY RIO DE JANEIRO - Uma nova realidade somada a outras realidades: a instituição policial não apenas caiu no descrédito da população, mas passou a ser detestada. Há motivos para isso, alguns históricos, outros mais recentes, como a morte de inocentes durante as operações contra supostos criminosos. A julgar pelo noticiário da mídia, não existem bandidos a não ser aqueles fardados que dispõem de armas fornecidas pelo Estado. São eles que, sozinhos, promovem aleatoriamente os tiroteios, matam cidadãos honestos e são responsáveis por todas as balas perdidas que fazem vítimas fatais. É notório o despreparo de grande parte dos policiais. Cometem erros de interpretação, de truculência, de precipitação etc. Mas, a julgar pelas matérias veiculadas na mídia, a impressão resultante é que todos os dias sai dos quartéis um bando de assassinos que só retornam a seus alojamentos deixando cinco, seis ou mais corpos nas ruas. Não fosse a polícia, viveríamos um estado de graça permanente, sem roubos, assaltos, seqüestros e chacinas. Os supostos bandidos, apesar de disporem de arsenal sofisticado, são pessoas de bem, aceitos por suas comunidades, alguns deles até são promovidos a heróis que defendem os oprimidos contra o arbítrio do poder constituído. Pelo menos aqui no Rio, o governo estadual adotou oficialmente a política do confronto com o crime. Mas a realidade que se depreende do noticiário é que não mais existe crime, mas supostos criminosos que são assassinados implacavelmente por aqueles que são pagos para proteger a população. Se houver um plebiscito para acabar com a polícia, não será surpresa se a maioria votar pela sua extinção, na esperança de viver em paz, sem supostos bandidos e sem balas perdidas. 3/12/2008 Sobre a chamada Inclusão / ExclusãoTermos entram em voga e saem de voga. Certamente os termos "inclusão" e "exclusão estão em plena voga. Fala-se a toda hora e em todo lugar de inclusão e exclusão, incluídos e excluídos. A categoria mais ampla de inclusão / exclusão parece ser a social: os socialmente excluídos seriam os pobres, os que sem educação formal, os sem poder (ou "desempoderados", outro termo da moda, junto com o seu correlato "empoderados" -- os substantivos sendo empoderamento e desempoderamento, que traduzem mal o Inglês "empowerment" e "disempowerment"). Os socialmente incluídos seriam os outros: os que têm dinheiro e educação e, assim, participam do "jogo do poder" (são "empoderados"). Outra categoria, menor, é a da inclusão / exclusão digital: os digitalmente excluídos seriam os que não têm acesso ao mundo digital ou, tendo acesso, não sabem o que fazer com esse acesso para melhorar a qualidade de sua vida. Os digitalmente incluídos seriam os outros: nós, os que temos acesso a esse maravilhoso mundo digital e conseguimos até ganhar a vida explorando-o (no bom sentido). Há os que alegam que, hoje, a inclusão digital é chave para a inclusão social -- sem aquela, esta seria virtualmente impossível. Talvez seja. Mas eu quero falar aqui é de inclusão / exclusão de outro tipo. Talvez essa seja a área em que os dois termos originalmente apareceram. Falo da área dos deficientes em geral -- daqueles que a consciência das pessoas politicamente corretas resolveu chamar denominar de "pessoas com necessidades especiais". Os mais exagerados em seu corretismo político os chamam de "differently abled" -- pessoas com habilidades diferentes, ou diferenciadas. Tudo eufemismo para descrever o triste fato de que algumas pessoas, por falha da natureza, ou por acidente de percurso, carecem de recursos (de algum tipo ou de outro) que as demais pessoas (as "normais" -- termo, hoje, quase de opróbrio, têm): ou não vêem, ou não ouvem, ou não têm algum membro, ou têm alguma outra disfunção física, ou, por fim, ficam significativamente abaixo da média em capacidade mental -- ou "inteligência" (outro termo, hoje, problemático). Os defensores da inclusão (no sentido aqui contemplado) têm lutado, com unhas e dentes, contra o preconceito para com os deficientes e para que todos nós, os não-deficientes, nos coloquemos no lugar dos que não têm tanta sorte quanto nós e têm diversos tipos de problemas para fazer as coisas corriqueiras da vida: andar de cadeira de rodas em ruas ou edifícios sem rampas, para os que usam cadeira de rodas, ou a estudar, para os cegos e surdos, etc. Nisso estão absolutamente corretos. Nada do que vou dizer no que segue pretende questionar isso. Também não quero nem de longe duvidar do fato de que pessoas, por exemplo, com deficiência mental podem ter até mesmo um superávit de outras características humanas extremamente positivas. O que quero questionar é a tese, apaixonadamente defendida por alguns proponentes da inclusão dos deficientes, de que estes não são, afinal de contas, deficientes -- ou, alternativamente, de que, tendo em vista o (suposto) fato de que todos nós somos deficientes em algum aspecto, os chamados deficientes não são realmente deficientes: simplesmente são diferentes, ou possuem habilidades diferentes ou diferenciadas ("differently abled"). Estou convicto de que os que assim agem prestam um desserviço à causa dos deficientes -- e vou tentar explicar por quê. Não resta dúvida de que existem grandes diferenças individuais entre os seres humanos. Uns são muito altos, outros muito baixos, a maioria fica entre os dois extremos; uns são mais claros, outros mais escuros; uns são mais robustos ou gordos, outros mais franzinos ou magros; etc. Também não tenho dúvida de que a mesma diversidade que existe nas características físicas prevalece nas características mentais. Não acredito que nossa mente seja uma "tabula rasa" e que todas as diferenças mentais se devam ao ambiente. Estou convicto de que, da mesma forma que uns são mais altos, claros, fortes e outros mais baixos, escuros e franzinos (em todas as combinações possíveis), alguns são mais bem dotados do que outros em características como inteligência, motivação, ambição, capacidade de relacionamento interpessoal, etc. Reconhecer o fato da diversidade física e mental do ser humano, entretanto, não nos obriga a aceitar a tese de que a normalidade inexiste. É verdade que, em determinadas áreas, o conceito de normalidade é um conceito estatístico, e, portanto, tem limites (contornos demarcatórios) fluidos, porosos, e, por causa disso, flexíveis. Dizer de alguém que ele tem inteligência normal é afirmar que sua inteligência, como medida por testes de inteligência, recai dentro de certos limites intermediários. Exclui-se, nesse caso, tanto a possibilidade de que ele seja "retardado" (abaixo da linha demarcatória da normalidade) como a possibilidade de que seja um "gênio" (acima da linha demarcatória da normalidade). É verdade que há problemas com esse discurso: questiona-se se os chamados testes de inteligência realmente medem inteligência; há discussões homéricas sobre quanto da inteligência, assim medida, seria devido a fatores genéticos e quanto a fatores ambientais; há toda uma discussão relacionada sobre a questão da "educabilidade da inteligência", ou seja, da possibilidade de melhorar a inteligência das pessoas através da educação, etc. Isso posto, parece-me indiscutível que, apesar das questões abertas que permanecem, e apesar de não haver consenso sobre onde estão os limites, a tese de que "todos somos deficientes intelectuais" é um absurdo. A tese representada pela expressão entre aspas é defendida em um artigo de Fábio Adiron que vem circulando pela Internet. Vide: http://insanadiron.blogspot.com/2008/03/somos-todos-deficientes-intelectuais.html Fábio Adiron é professor de teologia sistemática (protestante) e pai de um menino com Síndrome de Down -- chamado Samuel. Diz ele (Fábio):
Não há a menor dúvida de que a capacidade de percepção, mémória, abstração, raciocínio, etc. difere de um ser humano para outro e admite, dentro da curva da normalidade, grande diferenciação. Também não há a menor dúvida de que, mesmo alguém que representa um sério caso de Síndrome de Down pode, com estimulação (i.e., educação) adequada fazer progressos significativos no seu desempenho intelectual, psico-motor e interpessoal. Tudo isso é concedido. Mas, para que possamos dar a esses deficientes o melhor atendimento possível, é preciso reconhecer que eles estão fora da curva da normalidade, e, portanto, possuem "necessidades especiais" que dificilmente serão contempladas se fizermos de conta que eles são normais, ou que todos nós somos anormais (ou, no caso, "deficientes intelectuais"). Pode ser que, em algumas atividades, o deficiente (no caso, o portador da Síndrome de Down) seja beneficiado pela "inclusão" -- ou seja, pelo fato de receber o mesmo tratamento que os demais. Mas é possível (talvez mais do que isso, provável) que em outros casos ele se beneficie de uma "educação especial", dedicada especificamente às "necessidades especiais" que eles têm e os demais não têm -- e, por conseguinte, "exclusiva". Para não me estender demais, as dificuldades conceituais na definição da normalidade na área mental, em especial na que envolve a inteligência, absolutamente inexiste na área da integridade física. Se alguém tem ou não tem os dois braços, ou as duas pernas, não é uma questão estatística. Pode-se tentar contra-argumentar com a questão da percepção sensorial: se alguém é cego ou surdo, ou não, seria uma questão estatística? Eu, por exemplo, uso óculos desde os oito anos de idade (e, provavelmente, deveria ter começado a usá-los bem antes, só não o fazendo por causa da teimosia de meu pai que achava que eu reclamava de que não enxergava a lousa na escola porque achava charmoso usar óculos...). Agora, que estou mais velho, há sons que não escuto facilmente (entre eles o do despertador de meu relógio de pulso). Mas essas minhas "deficiências" são, em parte, corrigíveis: a miopia pelo uso de óculos, por exemplo. A dificuldade para ouvir o alarme de meu relógio não prejudica em nada o meu desempenho nas tarefas que realizo -- só me obriga a não depender de meu relógio para ser acordado de manhã. Além, disso, o fato de que alguns de nós não enxergamos ou ouvimos tão bem quanto a maioria não elimina o fato, nem reduz sua importância, de que algumas pessoas simplesmente não enxergam ou não ouvem absolutamente nada. É ridículo pretender que, porque eu tenho de usar óculos, ou minha mãe tem de usar aparelho de audição, a cegueira ou a surdez não sejam deficiências sérias que estão a exigir atenção especial e formas de educação muito especiais (e, por conseguinte, "exclusivas"). O braille e a linguagem de sinais certamente são linguagens -- mas não são totalmente equivalentes às linguagens naturais. Pretender doutra forma é tentar mascarar a realidade. Por fim, acho que a tentativa de ser politicamente correto, com seus eufemismos bobos, é uma bestagem terrível. As coisas devem ser chamadas pelo nome certo: ser cego, ou ser surdo, é uma deficiência, sim; ser portador de Sïndrome de Down é ser portador de uma deficiência, sim. Ninguém sai ganhando se a gente pretender que a realidade é diferente só porque a gente a rotula com outros termos. Da mesma forma que uma rosa continuaria a cheirar bem, mesmo que fosse chamada de uma forma diferente, uma deficiência continua a ser uma deficiência, ainda que a gente a chame de outra coisa. Em Bellevue, 12 de março de 2008 8/7/2007 A esquerdopatia brasileiraA patologia esquerdista alcança proporções epidêmicas no cenário intelectual (?) brasileiro. A principal evidência de que um indivíduo está afligido por essa patologia é sua defesa das seguintes teses (que, em geral, vêm sempre juntas): a) O maior problema brasileiro é a desigualdade econômica (entre indivíduos, grupos, regiões geográficas); b) Essa desigualdade pode ser eliminada, ou pelo menos drasticamente reduzida, pela ação governamental (mediante "políticas públicas"); c) A ação governamental em prol da redução das desigualdades é a forma pela qual o governo promove a liberdade ("positiva") e a justiça ("social"); d) Os níveis absurdos de confisco da renda nacional mediante impostos e taxas praticados no Brasil se justificam em decorrência das três teses anteriores. Todas essas teses são comprovadamente falsas -- e já foram devidamente refutadas por evidência e argumento. A patologia atinge dimensão crítica quando, na tentativa de transformar essas teses em ação, os esquerdopatas atingem um nível tal de debilidade mental que passam a acreditar, adicionalmente, que: a) O governo Lulla é um governo bem intencionado, cujo maior objetivo é promover a justiça social (ou seja, a igualdade econômica); b) Além de bem-intencionado, o governo Lulla é competente e realizador, na área social e em outras (estando certo ele em jactar-se, com freqüência, de que "nunca antes neste país..." -- seguido de alguma pretensão positiva); c) Há uma conspiração da "elite branca de direita", bem sintonizada com os meios de comunicação (cujos proprietários seriam todos para da referida elite), para desmoralizar o governo Lulla divulgando acusações de corrupção e incompetência administrativa que seriam totalmente falsas, fruto de montagens, denúncias incomprovadas, etc.; d) Mesmo diante de fatos inegáveis, como a corrupção revelada no caso do mensalão e a incompetência administrativa revelada no caso do caos aéreo, insistem que os fatos não são fatos e que as evidências trazidas à tona foram forjadas pelos membros da conspiração da "elite branca de direita". Será que tem cura essa patologia? Em Campinas, 7 de agosto de 2007 7/15/2007 Vaia estrepitosaPoucas vezes uma palavra foi tão apta: estrepitosa. Sim, a vaia ao Lulla no Maracanã foi estrepitosa. O Michaelis Online define estrepitoso da seguinte forma: "1. Que produz estrépito. 2. Estrondoso. 3. Ruidoso. 4. Ostentoso, magnificente. 5. Que dá na vista, que é notório". Estrépito é, evidentemente, um estrondo ou ruído grande. A vaia foi tudo isso. Ostentosa. Magnificente. Dada na frente do mundo. Deu na vista. Foi só anteontem, mas já ficou notória - e, acredito, vai ficar na história.
Na verdade, não foi apenas uma vaia. Foram várias. Seis, segundo os chegados à precisão. Contra aos debilóides que dizem que foi orquestrada, a primeira foi menor, meio indecisa, mas claramente espontânea. O Galvão Bueno até ensaiou atribuir essa vaia a um suposto anúncio de que haveria um atraso no início da cerimônia... As demais foram ganhando adeptos, até chegar a última, a vaia olímpica, a vaia tamanho Maracanã - aquela que teve lugar quando se anunciou que o homem ia falar e que o calou... Vê-lo no telão do estádio já era demais. Ouvi-lo falar seria insuportável. Era evidente que ele não iria ater-se às palavras oficiais de abertura dos jogos, não iria resistir a um público internacional de milhões. Iria... Iria se... se não houvesse a vaia estrepitosa que o deixou em pé, de microfone à frente e discurso na mão, mudo, sem saber o que fazer, com um sorriso amarelo na cara... - vaia que só parou quando alguém fez as vezes do Presidente, declarando abertos os jogos e desejando boa sorte ao Brasil, permitindo-lhe sair do estádio às escondidas ("à socapa", dizem os dicionários), com a fisionomia carregada, com o rabo entre as pernas, sem falar com ninguém, acompanhado apenas de dona Marisa, verde-amarelada, quase irreconhecível por detrás das plásticas e dos botox.
Foi a glória. Emocionei-me naquele momento. Fiquei com a sensação de que nem tudo está perdido e de que ainda há esperança para o Brasil.
Depois fui ler os comentários na Internet. O primeiro e mais brilhante foi "Parabéns, Brasil!", do meu amigo Ney Mourão, jornalista e educador de Belo Horizonte, ex-consultor, colega meu, no Instituto Ayrton Senna. Não deixem de ver: a crônica está em seu blog: http://blog.neymourao.com.br/. Ele colocou seu comentário na lista LivreMente, que coordeno. Sua matéria produziu as respostas de sempre dos viúvos do comunismo, dos lullistas de carteirinha, dos lullistas de ocasião... A vaia foi orquestrada, disseram... A vaia foi de uns poucos ricos que puderam pagar até 250 reais por um ingresso no Maracanã. A vaia foi dirigida aos políticos em geral. No Maracanã se vaia tudo, até minuto de silêncio. Desculpas esfarrapadas. Em alguns casos, mentiras deslavadas. Não foi uma minoria que vaiou. Foi o Maracanã em peso. E se havia ricos lá, eram poucos. A resposta mais ridícula foi a de que a vaia havia sido orquestrada. Como? E, ainda que, por absurdo, houvesse sido, seria impossível orquestrar uma vaia de milhares sem que a "inteligência" do governo o descobrisse e advertisse o homem de que ficaria numa posição constrangedora...
Os cronistas e comentaristas políticos só hoje se manifestaram. Foi o primeiro risco no teflon de Lulla, disse Clóvis Rossi na Folha.
Espero que sim.
É possível enganar muitos por algum tempo, ou alguns por muito tempo -- mas é difícil enganar todo mundo o tempo todo.
Em Salto, 15 de julho de 2007 6/17/2007 Festa JuninaAriano Suassuna de vez em quando diz, ao ver algo amarelo: não fosse pelo mau gosto, o que seria do amarelo? Hoje fui à Festa Junina do meu neto Gabriel, de quase oito anos e me lembrei da frase. O que seria da Festa Junina se não fosse o amor de pais e avôs (e algumas vezes também de tios)? As músicas são horrendas e o som ensurdecedor. Os movimentos nas quadras só podem ser chamados de danças mediante licença lingüística. A coreografia é a mesma, independente da música e da idade dos dançantes. As roupas com que eles se vestem lhes dão vergonha, quando crescem e olham as fotografias. (Pela primeira vez o meu neto não dançou, este ano, com um remendo, na forma de coração, costurado no fundilho das calças). Mas o pior é a audiência, composta em sua maioria de adultos. Na arquibancada da quadra, há lugar para todos se sentarem. A cerca que separa a arquibancada da quadra, esta mais embaixo, tem avisos, a cada 150 cm, dizendo: “Favor não parar aqui”. Mas não há um espaço que não esteja tomado por um pai, uma mãe, um avô, uma avó tentando tirar fotografias ou filmar – meio agaxadinhos, para não levar uma bronca de quem está na primeira fila e tem a visão atrapalhada. Cada vez que termina uma dança, uma boa parte da audiência sai: os pais e parentes dos que acabaram de dançar. Eles chegaram mais cedo, não para ver as outras crianças dançarem, mas, sim, para não perder um minuto sequer da dança de seus pimpolhos. Acabada esta, adiós. Enquanto esta não chega, conversam, riem, levantam-se (atrapalhando os detrás). De volta ao pátio, a luta é para comprar algo para comer. As mesas e cadeiras estão todas tomadas -- ou, então, guardadas, esse irritante costume brasileiro de impedir que quem chega na hora consiga se sentar, porque alguns espertinhos designaram um infeliz para chegar mais cedo e guardar as cadeiras para os que vão chegar mais tarde. Em alguns casos havia umas cinco mesas e quinze cadeiras todas elas guardadas por um cão de guarda – um senhor sizudo, mal-encarado, ainda por cima de bigode espesso. Estivéssemos ainda na Ditadura e ele estivesse de óculos escuro, à la Costa e Silva, seria imediatamente identificado como agente do DOPS. Quem é que se aventuraria a comprar briga com ele??? Mas, para nós, não foi preciso comprar briga com ninguém. Como também somos brasileiros, um dos meus genros quardava mesas e cadeiras para nós. Saí e fui comprar os “junitos” – dinheiro usado nas barracas de comidas e bebidas. Um junito valia 0,50 centavos – e se vendem cartelas de 20 ou 40 junitos. Comprei 80 junitos (éramos uma turma grande) e fui ver o que queriam. Um queria sanduíche de pernil, o outro, sanduíche de calabresa, o outro um sanduíche de churrasco, a outra um salsichão alemão com mostarda. Além disso, seria necessário comprar alguns pastéis e algumas porções de batatas fritas (as crianças também são filhos de Deus). E refrigerantes e cervejas. A rodada se repetiu algumas vezes. De sobremesa, churros com doce de leite -- que sobremesa poderia ser mais adequada do que essa nesse contexto? Caminhar pelo pátio é uma aventura. Você tromba com gente carregando coisas para comer e beber, é abordado pelas meninas que fazem o Correio Elegante (que coisa mais antiga!), tem de se desviar daqueles que ficam parados, de pé, nas passagens, na vã esperança de que alguém abandone uma cadeira... O preço para entrar na festa – sim, tem preço, não é de graça! – foi um quilo de mantimento (termo antigo este também, não?) não perecível. A despensa era o lugar onde se guardavam os mantimentos. Os mantimentos a granel (arroz, feijão, açúcar, café) eram guardados em umas latas redondas de alumínio. Bons tempos. Hoje as latas redondas de alumínio foram substituídas por umas coisinhas de plástico – por cima ainda quadradas... Eu esperava que, saindo da quadra onde as crianças dançavam, o barulho diminuisse. Ledo engano. No pátio havia um grupo de rock, tocando tão alto quanto as gravações de música caipira lá dentro. Fui ficando meio zonzo... Sinal de que deveria logo sair dali. Comentei que aquilo era a coisa mais próxima de inferno que eu conhecia. Levei uma bronca severa, como era de esperar. O inferno, me garantiram, é ainda muito pior. Ainda bem que ele não existe. As Festas Juninas existem -- em profusão -- e se repetem todo ano, sem nenhuma inovação. Em Campinas, 16 de junho de 2007 5/12/2007 Dia das MãesHoje é Dia das Mães (escrevo já no dia, visto que estou em Taipei, Taiwan). Aproveito para desejar Feliz Dia das Mães a todas as mulheres que, mães no sentido literal ou não, "de alguma maneira contribuem para que a vida de outros possa ser mais feliz, mais cuidada, mais leve, mais fácil de ser vivida"... (É isso que ser mãe quer dizer. (A frase entre aspas é de Ana Rita Hermes, colega tradutora pública juramentada, enviada em uma mensagem da lista de tradutores públicos juramentados. Foi dela que tomei emprestado essa definição de mãe). Sempre argumentei que minha vida tem passado (na verdade, vem passando) por uma série de mães (elas vão se acrescentando). Primeiro, houve a mãe biológica. Ela ainda existe -- velhinha, com enormes brancos de memória, mas ainda firme. Depois a mulher que, principalmente no Brasil, é uma outra mãe (que outra pessoa, se não uma mãe, lhe pergunta se você dormiu direito, comeu coisas certas, fez exercícios (andou), está bem agasalhado, etc.?). Depois da mulher vieram as filhas. Em especial depois que tive um infarto, cinco anos atrás, minhas filhas me ligam todo dia -- bem, quase todo dia -- para saber se andei, se tomei os remédios, se não ando comendo porcaria, etc. -- esse é o tipo de preocupação tipicamente materna. Até minha nora, que é fisioterapeuta, quer saber de meus exercícios, critica minha postura, me alerta para que cuide melhor do meu peso, olha carinhosamente feio quando acha que tirei um pedaço muito grande de sobremesa ou bebi vodka em vez de vinho tinto... Daqui uns anos, se eu viver até lá, provavelmente será a vez das (por enquanto) três netas... Enfim, neste Dia das Mães, felizmente, mãe é o que não me falta. Esse tipo de cuidado maternal nunca recebi de meu pai e não recebo do meu filho, nem, provavelmente, irei receber dos meus três netos homens, todos eles muito queridos, mas muito pouco maternais. E isso por uma razão simples: eles não são mulheres. (Um quarto netinho, infelizmente, morreu uma semana depois de nascer, em 2003). ET: Estou em Taipei, em Taiwan. O fuso horário aqui está 11 horas na frente do fuso horário do leste do Brasil. Tomar os remédios da manhã, da hora do almoço, da hora do jantar e de antes de dormir, quando se muda drasticamente de fuso horário, fica complicado. Faço uma tabela em Excel para ter certeza de que os tomo todos, na hora certa. Apesar disso, ao falar, agora há pouco, com minha mulher no Windows Live Messenger, eis com que ela me brinda: "Amor meu, não se esqueceu de tomar o seu remédio nenhum dia?" Só um sentimento muito filial me impede de me irritar... :-) Feliz Dia das Mães para você, em especial. Em Taipei, 13 de maio de 2007 12/23/2006 NatalNesta data recebo muitos cartões de Natal. Felizmente, hoje, a maior parte deles virtual - embora alguns cartões físicos ainda pinguem de vez em quando. Confesso que, ainda que isso possa parecer rude, quase nunca os respondo e, no fim, deleto todos - ou jogo fora os que vieram pelo correio convencional ou por portador (exceto os que contêm alguma informação adicional, além da mensagem de Natal, como é o caso dos cartões de meu amigo Greg Butler, que são uma verdadeira newsletter das andanças da família no ano anterior).
Não sou muito de apreciar esses festejos de fim de ano. Não me interpretem mal: gosto de festejar - quando, naturalmente, há o que festejar. Quando o São Paulo ganhar o Campeonato Mundial pela quarta fez, espero que agora em 2007, certamente festejarei - mais do que se a Seleção Brasileira tivesse ganho o seu hexa. O que não aprecio são festejos regulares, artificiais, sem razão de ser, determinados por calendários, de data marcada. Como o Natal.
O que celebra o Natal?
O foco da celebração é a data (suposta) de nascimento de um judeu nascido na Palestina há cerca de dois mil anos. A Palestina, por sinal, já tinha problemas sérios naquela época: era ocupada pelos Romanos, e, pelo que consta, governada por um preposto romano, Herodes, de sobrenome Antipas, chegado em matar criancinhas indefesas (será por isso que o termo "antipático" tem o sentido que tem? Mas antipático é pouco para descrevê-lo: assassino sanguinário é o que ele era). Registra a história cristã que o nascimento do menino foi envolto em uma série de irregularidades. Ele era, pelo jeito, filho de mãe solteira, e nasceu em lugar absolutamente inóspito, em meio a animais. Consta que, apesar disso, ganhou presentes ricos, como ouro, incenso e mirra - e, ainda por cima, dados por reis e trazidos ali ao estábulo pelos próprios. Toda a história é bastante inverossímil, convenhamos. Reis raramente saem, em pessoa, dando presentes ricos para filhos de mães solteiras nascidos em manjedouras. Nem quando os filhos irregulares são deles.
Acreditam os que ainda hoje se dizem seus discípulos que o menino judeu era precoce - em algumas áreas, pelo menos (na área sexual, segundo o relato oficial, nem tanto - embora o relato oficioso lhe seja mais lisonjeiro). Aos doze anos, ao ir ao Templo em Jerusalém pela primeira vez, supostamente engajou sábios judeus ("doutores na lei") em uma discussão acalorada sobre alguma filigrana jurídica e os deixou encurralados, basbaques. Xeque-mate. Depois, porém, surpreendentemente, em vez de seguir o rabinato, carreira para a qual parecia ser eminentemente bem-dotado, enveredou-se por uma atividade braçal: foi ser carpinteiro, em sociedade com o padrasto - este sim, um santo. (A meu ver, o padrasto é o maior santo dessa história. Acreditou que a gravidez da noiva fosse miraculosa e a aceitou como virgem, mesmo depois do nascimento do filhote. Cuidou do filho que não era seu, educou-o, dentro de suas possibilidades, ensinou-lhe seu ofício, e, no devido tempo, ofereceu-lhe sociedade no negócio. Poucos pais fazem isso. Ele tem minha total simpatia.). Simpatias à parte, porém, mais uma história implausível, não é? Judeus em geral dedicam o primeiro filho para o rabinato, especialmente se o menino demonstra sinais precoces de brilhantismo intelectual. E, depois, escolhem uma noiva rica e não muito burra para ele. É assim que aprimoram a raça (pelo menos segundo o livro The Bell Curve). Nada disso, porém, aconteceu neste caso.
Quando o jovem chegou às portas da meia-idade, lá por volta dos 30 anos, ainda na casa materna, sem ter chamado atenção sobre si próprio, com exceção do episódio da discussão no Templo, ele foi batizado, por um primo-segundo, um tipo estranho, cujo nascimento também havia sido envolto em algum mistério. Pois vejam. O presumido pai do primo, um sacerdote, pelo que consta estava já velhinho, não dando mais no couro. Mas a mulher dele, bem mais jovem, queria porque queria um filho. Só um milagre resolveria o problema. E, miraculosamente, o milagre aconteceu. Os detalhes não são esclarecidos no Evangelho, mas o milagre envolveu a presença de um anjo na história, o resultado sendo que a mulher do sacerdote acabou grávida do filho que tanto desejava. (Casar-se com mulher muito mais jovem em geral dá na nisso, sinto dizer. Mulher velha, casar-se com homem muito mais moço, também dá: a Suzana Vieira que o diga.). Mas voltemos à nossa história. Trinta e poucos anos depois de seu nascimento, esse filho milagroso, que era uma espécie de hippie do século primeiro, que andava pregando pelo deserto com uma voz estrondosa, vestido com vestes de pelos de camelo, e comendo gafanhotos e mel silvestre, batizou o primo também milagroso - e, pelo que consta, talvez para valorizar o próprio papel, declarou que o batizado era o cordeiro de Deus que iria tirar o pecado do mundo. É muito milagre pro meu gosto. Pelo jeito o pessoal de antigamente não acreditava que gente nascida de uma transa convencional pudesse ser grande coisa. Pra ser bom o cara tinha de nascer, milagrosamente, de virgem ou, então, numa época em que inexistia Viagra, também milagrosamente de homem sexualmente aposentado.
O pior é que o próprio batizado acreditou na profecia do primo, convenceu-se de que era o Messias e resolveu se tornar um pregador itinerante. Ele tinha voz mansa, diferentemente do seu primo. Considerava-se o filho primogênito de Deus, e, por isso, chamava Deus de pai e o tratava por "tu". (Nisso ele foi seguido pelos protestantes que até hoje tratam Deus de "tu". Os católicos, achando isso uma falta de respeito, mudaram a linguagem dele e tratam Deus de "vós" - o que, convenhamos, de certo modo, sendo um tratamento plural, reconhece o caráter uniplural da divindade cristã. Fim de parêntese.) Mas o nosso amigo (se ele me permite essa forma intimista de tratamento) andou em companhia que, admitamos, estava longe de ser considerada acima de qualquer crítica. Prostitutas, em mais de um momento, fizeram parte de sua entourage. A lenda preservada fora dos Evangelhos canônicos é insistente em afirmar que até teve um caso prolongado com uma delas (fato que o redime da alegada imprecocidade sexual) - uma vertente diz que ele até se casou com ele. De qualquer forma, ele causou um reboliço danado no Templo, em Jerusalém, dando chicotadas a torto e a direito nos ambulantes que tentavam ganhar a vida vendendo coisinhas aos fiéis. Não conquistou muitos amigos entre os pequenos empresários locais com esse gesto. Além disso, arrebanhou um grupo de discípulos meio arrebatados: um deles, antes um pescador, chegou a tirar a espada para matar um desafeto. O pregador itinerante, apesar da voz mansa, tinha uma mensagem meio subversiva, alegando que os últimos seriam os primeiros, que os pobres herdariam a terra, que seria preciso ter "fome e sede de justiça", etc. Com tanto problema, não é de admirar que tenha oportunamente sido preso, condenado (em rito mais ou menos sumário, como se faz em Cuba ainda hoje) e crucificado - depois de devidamente traído por um de seus discípulos, negado por aquele seu discípulo valentão e abandonado pelos demais. Isso tudo apesar de ele, de vez em quando, para despistar, designar-se "Filho do Homem", e não "Filho de Deus". (Aqui entre nós, o primo que o batizou também teve triste fim: a cabeça cortada e servida em uma bandeja à filha da mulher de Herodes. Se tivessem perguntado a mim, eu teria dito, do alto de minha experiência de sexagenário, que a coisa não iria dar certo. Deu no que deu.)
As histórias fantásticas, porém, continuaram. Depois de morto e sepultado, o corpo do crucificado desapareceu, deu sumiço. Acharam seu túmulo vaziozinho. Mas, apesar disso, a moça (se é que o termo é aplicável: trata-se daquela com a qual a história extra-canônica diz que ele teve um caso) disse que o havia visto vivinho da silva, depois de morto... e alguns dos seus discípulos também se convenceram de que o haviam re-encontrado numa estrada. Ainda hoje, seus seguidores acreditam que ele de fato ressuscitou dentre os mortos e, depois de alguns dias assombrando os desavisados, subiu aos céus onde está até o momento presente e de onde um dia há de voltar para julgar vivos e mortos. Faz dois mil anos que seus seguidores consideram essa volta iminente. Alguns dos seus seguidores acreditam até mesmo que sua mãe também subiu aos céus onde está até hoje, ao lado do filho, tendo, na verdade, enorme influência junto a ele. Muitos até mesmo acreditam que, conversando primeiro com ela, e pedindo para ela insistir junto ao filho famoso, vão conseguir graças especiais. (A propósito, os católicos acham que a mãe dele é virgem até hoje. Certamente é um record de virgindade: dois mil anos! E, o que é pior, sem perspectiva, posto que, segundo os católicos, a virgindade dela está condenada a ser perpétua. Eu acharia cruel condenar alguém à virgindade perpétua - mas, novamente, ninguém me consultou.)
Aqui entre nós, e para terminar: se alguém escrevesse um romance com tal enredo fantástico (Gabriel Garcia Marquez perde longe), você acreditaria que a história era verídica? Não tenho dúvida de que haveria gente que iria comprar o livro (compram até os livros mais fraquinhos do puxador de saco do Fidel), e de que Hollywood poderia até fazer um filme (como já fez vários), mas será que isso faria com que você acreditasse que a história era verídica?
Não estou sozinho nesse meu ceticismo. Um dos seus discípulos, lá no século II, reconheceu que a história era totalmente absurda. Mas disse: "credo quia absurdum" -- "creio porque é absurdo"... Se a história não fosse absurda, raciocinou ele, não era preciso crer - bastava aceitá-la, racionalmente, como a gente aceita tantos outros fatos da história. Um grande filósofo escocês do século XVIII (na minha opinião o maior), que, como eu, era meio desconfiado de milagres, ressaltou que essa história é tão cheia de milagres que só com outro alguém consegue acreditar nela... Quase foi pra fogueira por dizer uma coisa dessas...
Pois bem: é o nascimento desse menino judeu, que, depois de morto e supostamente ressurreto, veio a se tornar globalizado, que o Natal comemora. Pergunto: exatamente o que há para comemorar nessa história?
Em todo caso, crendo ou não que haja o que comemorar, desejo a todos que tenham um Feliz Natal. [Em tempo: Desculpas antecipadas aos meus amigos que se ofenderem. Como se dizia antigamente na Internet, "flames --> null"]. [NOTA acrescentada em Dezembro de 2007: O glorioso SPFC não ganhou sua quarta estrela mundial em 2007 -- embora tenha sido Campeão Brasileiro, humilhando os concorrentes ao ficar mais de 15 pontos na frente do segundo colocado. Ganhou o Campeonato Mundial o Milan -- na realidade, o Kaká, que é são-paulino... Festejei.]
Em Salto, 23 de Dezembro de 2006 12/11/2006 Anti-americanismoJá discuti este assunto aqui neste space, comentando um livro de Jean-François Revel. Trago-o de novo à baila a propósito de um outro livro. Comprei, numa megalivraria de origem japonesa em Kuala Lumpur, no sábado, 9/12, dia em que, à noite, saí de lá, um livro interessante, e que mereceria ser traduzido para o português: “Understanding Anti-Americanism: Its Origins and Impact, At Home and Abroad”, editado por Paul Hollander, que também faz uma grande introdução, e publicado por Ivan R. Dee, Chicago, 2004. (A propósito, nunca ouvi falar nessa editora. Uma das razões por que comprei o livro na hora, sem hesitar, foi a editora desconhecida. Editoras desconhecidas têm maior dificuldade para colocar seus livros nas livrarias e de conseguir que eles sejam traduzidos. Assim, é preciso aproveitar a chance: quando encontro um livro que parece interessante, compro-o na hora). O editor, Paul Hollander, já havia escrito um livro sobre o assunto – mas antes de 11 de Setembro (Nine Eleven) – com o título: “Anti-Americanism: Critiques At Home and Abroad” (New York, 1992), que foi atualizado três anos depois e, curiosamente, saiu publicado, na edição revisada, com um título bastante diferente: “Anti-Americanism: Irrational and Rational” (New Brunswick, NJ, 1995). Paul Hollander, que é um imigrante húngaro que fugiu do país quando os soviéticos invadiram a Hungria em 1956, indo, primeiro, para a Inglaterra, e, em 1959, para os Estados Unidos, onde fez pós-graduação e acabou se naturalizando americano, foi, durante muitos anos, professor de sociologia da Universidade de Masachussetts em Amherst, MA, estando agora aposentado, como Professor Emérito de Sociologia. Hollander faz questão de distinguir “anti-americanismo” de “crítica dos Estados Unidos”. Ele admite, sem problemas, que os Estados Unidos, como país, têm muito que pode e deve ser criticado, e que não há nada de excepcional no fato de que, tanto dentro como fora do país, essas críticas se expressem, até mesmo com certa veemência. O anti-americanismo de que trata o livro, porém, é algo diferente. Ele está muito mais próximo de um ódio generalizado dos Estados Unidos do que de uma crítica objetiva de aspectos isolados da política e da sociedade americana. Esse ódio tem raízes complexas, que o livro se propõe analisar. Algumas dessas raízes podem, no caso de um país ou uma região, envolver elementos geopolíticos, ideológicos, religiosos e até mesmo psicológicos – para mencionar apenas alguns. Os anti-americanos, no mais das vezes, querem a destruição dos Estados Unidos, não reconhecendo no país (na sociedade, na cultura, na economia) nada que o “redima”. Os anti-americanos se regozijaram, em 11 de Setembro, quando as Torres Gêmeas de Nova York foram destruídas, com a morte de mais de três mil pessoas inocentes – civis, não militares. Na verdade, a maioria deles se recusa a reconhecer que as pessoas que morreram eram inocentes: um americano é culpado, e, portanto, objeto legítimo de uma ação terrorista, simplesmente por ser americano. Os anti-americanos, alguns deles dentro dos Estados Unidos e cidadãos do país, se apressaram em afirmar, na seqüência a 11 de Setembro, que os Estados Unidos foram os principais responsáveis pelos ataques terroristas daquele dia, por causa de sua política externa, por causa da ação de seus militares, por causa do controle da economia mundial por parte de suas empresas, por parte da invasão das telas e livrarias do mundo pelos programas, filmes, revistas e livros americanos. Alguns anti-americanos não hesitaram em chamar de “contra-terrorismo” a ação dos terroristas em 11 de Setembro, chamando de “terroristas” as ações do governo e das empresas americanas no mundo. Não faltou quem dissesse, entre os anti-americanos, que Bush era uma ameaça maior para a paz do mundo do que Osama bin Laden ou Saddam Hussein, ou quem o tivesse comparado a Hitler e Stalin, ou, então, acusado os Estados Unidos de estarem no mesmo nível da Alemanha Nazista – ou até em nível pior, porque a Alemanha Nazista pelo menos tinha quem lhe pudesse resistir (a Inglaterra, os próprios Estados Unidos, a Rússia), enquanto os Estados Unidos, hoje, depois do colapso da União Soviética, são um poder político, militar, econômico e cultural sem concorrentes e, por isso, sem possibilidade de contestação e resistência. O livro editado por Hollander é escrito a várias mãos, e cobre, na primeira parte, depois daintrodução do editor e de um capítulo sobre as raízes filosóficas do anti-americanismo, as raízes regionais do fenômeno, discutindo o anti-americanismo de extração francesa, britânica, alemã, russa (pós-comunista), árabe-islâmica, e latino-americana (com capítulos especiais sobre Cuba e a Nicarágua). Na segunda parte o livro tem como foco o “anti-americanismo doméstico”, surgido (não necessariamente sem influência estrangeira) nos próprios Estados Unidos. Aqui capítulos são dedicados aos problemas do racismo, do feminismo, do multiculturalismo, da chamada “educação para a diversidade e a tolerância”, do movimento pacifista, da esquerda política, e do conteúdo não só crítico, mas profundamente satírico, da cultura e da vida americana que se vê nos filmes e nos programas de televisão que os Estados Unidos distribuem para o mundo inteiro, e que são, na opinião do autor do capítulo, visões extremamente unilaterais e distorcidas da sociedade americana (em que aparecem, como regra, casais interraciais, casais de homossexuais, casais rotineiramente adúlteros ou insatisfeitos com seus casamentos ou relacionamentos, mães e pais solteiros ou divorciados, em que as pessoas ridicularizam os valores da classe média e da religião, etc.). A visão da sociedade e da vida americana que o cinema e a televisão dos Estados Unidos apresentam ao mundo não corresponde à realidade da sociedade e da vida americana. Entre os múltiplos fatores que explicam o anti-americanismo há alguns que não podem ser esquecidos ou negligenciados, ainda que seu peso maior se dê em casos específicos de anti-americanismo. Um primeiro desses fatores é ideológico. A esquerda, no mundo inteiro, ficou órfã com a queda fragorosa do comunismo na União Soviética e no Leste Europeu. Os Estados Unidos sempre foram o grande inimigo da União Soviética e do comunismo no mundo, combatendo-o uma e outro dentro e fora de suas fronteiras, sem hesitar em usar meios militares, como aconteceu nas guerras da Coréia e do Vietnam. Era de esperar, portanto, que com a vitória dos Estados Unidos na Guerra Fria, o ódio que a esquerda tinha ao país aumentasse – afinal de contas, os Estados Unidos, através de uma estratégia bem elaborada daquele que a esquerda insiste em chamar de o primeiro cowboy presidente (o segundo seria o Bush), derrotaram a pátria do socialismo comunista, na verdade, sem precisar fazer grande esforço naquele momento específico. É verdade que se pode dizer que a União Soviética se auto-destruiu, caiu de podridão interna – e isso seria, em parte, verdadeiro. Mas não resta dúvida, por mais que a esquerda tente negar, que Ronald Reagan elevou a aposta na Guerra Fria a tal ponto que a União Soviética não tinha como pagar para ver: precisou retirar seu time de campo. E, ao perceber a fraqueza da pátria do socialismo comunista, os demais países comunistas, com exceção de Cuba e da Coréia do Norte, rejeitaram o comunismo e abraçaram princípios liberais na economia e, em parte, na política (a China sendo a exceção: liberalizou-se na economia, mas nem tanto na política). A vitória dos Estados Unidos provocou enorme frustração e sentimento de fracasso nas esquerdas – sensações que facilmemente se transformaram, no mundo inteiro, em ressentimento para com o vencedor da Guerra Fria. A estratégia de luta da esquerda, derrotada por completo, se alterou, embora pouco e de forma não muito sutil. Agora o foco principal não é mais criticar os Estados Unidos por serem um país liberal-capitalista (hoje, quem não é?), mas, sim, criticar a globalização econômica e cultura liderada pelos Estados Unidos, a posição do governo americano em relação ao ambiente (especialmente sua recusa do Protocolo de Kioto), as ações militares em que os Estados Unidos se envolveram no combate ao terrorismo, seu unilateralismo, que implica rejeição dos multilateralismos patrocinados pela ONU e pela União Européia, etc. Uma nova pauta de reclamações – mas, no fundo, essa pauta é alimentada pela frustração e pelo ressentimento dos órfãos do comunismo pela vitória retumbante dos Estados Unidos na Guerra Fria, e por ter o país vindo a ocupar, virtualmente sem contestação significativa, posição de liderança na vida política, militar, econômica e cultural do mundo atual. Um segundo desses fatores é – por falta de melhor termo – a inveja. Já escrevi um longo artigo sobre a inveja, no início da década de noventa, e aqui volto ao tema. Só que, anteriormente, discuti a inveja como um fator importante na busca do igualitarismo e da chamada justiça social – bem como da crítica dos que são bem sucedidos, que raramente recebem o crédito devido para esse sucesso, que, o mais das vezes, é atribuído a exploração, corrupção, quando não a roubo descarado. Aqui a questão da inveja se aplica a nações e regiões, não a indivíduos – embora o princípio seja o mesmo, porque a inveja é sempre expressa por indivíduos (nações e regiões, evidentemente, não falam, a não ser através da boca dos indivíduos que as compõem). Esse fator – a inveja – parece ser um componente importante do anti-americanismo latino-americano atual. A América Latina é um bloco de países que abrange a maior parte da América do Sul (só se excetuando as Guianas), a América Central como um todo, boa parte do Caribe, e o México, na América do Norte. Territorial e populacionalmente esse bloco é extremamente significativo: representa bem mais território e muito mais gente do que a União Européia – com a vantagem cultural de falar basicamente duas línguas, o espanhol e o português, línguas essas que são indicativas da hegemonia que a Espanha e Portugal exerceram sobre a região. Apesar de ter um bloco tão significativo, territorial e populacionalmente, e de ter tido sua colonização por países europeus iniciada antes da colonização do restante da América do Norte, a América Latina, como um bloco regional, continua a ser um país sub-desenvolvido do Terceiro Mundo, tanto econômica quanto politicamente, enquanto os Estados Unidos são hoje uma potência hegemônica militarmente e a maior potência do mundo em termos políticos, econômicos, e culturais. Dificilmente os latinoamericanos vão achar a causa desse desempenho inferior em si mesmos. A tendência é colocar a culpa pelos seus males nos Estados Unidos, que viraram bode expiatório para tudo que de mau e ruim acontece na região (e no mundo). Se há um golpe militar na América Latina que interrompe um governo que os latinoamericanos identificam como de esquerda, ou como nacionalista, ou como anti-americano, a culpa é sempre do governo americano e da CIA. Vejam-se as ladainhas sobre o papel da CIA no golpe militar brasileiro e na queda do governo Allende no Chile. Numa atitude que, ironicamente, parece admitir que os latinoamericanos são totalmente incapazes de, por si só, realizar até mesmo golpes de estado que encerram governos não desejados pelas lideranças ou até mesmo pela maioria da população, os latinoamericanos, especialmente os de esquerda, que já possuem propensão ideológica para o anti-americanismo, acusam o governo americano de intervenção, em geral através da CIA. A atribuição da causa de seus males, de seus problemas, e de seus fracassos ao “grande irmão do Norte” (agora visto mais como “Big Brother” do que como realmente “hermano”) leva boa parte dos latino-americanos – as esquerdas, os intelectuais, os artistas, a mídia – a promover, ativamente, um anti-americanismo de invejosos e despeitados. Por fim, um terceiro desses fatores é a religião. Os Estados Unidos talvez sejam o último país, no Ocidente que um dia foi cristão, em que a religião cristã ainda tem um papel importante na vida social e na vida pública (razão pela qual os europeus, em regra, ridicularizam o país, chamando-o de culturalmente primitivo, fundamentalista, etc.). Fora do Ocidente e do mundo islâmico, Israel é o único outro país em que a religião desempenha um papel importante na vida social e na vida pública. Também é verdade, porém, que, sem contradição, tanto os Estados Unidos como Israel também são países seculares e não teocracias, e, do ponto de vista científico, tecnológico e econômico, extremamente bem sucedidos. Assim sendo, ambos representam uma grande ameaça para o mundo árabe-islâmico, ameaça decorrente do fato de que os Estados Unidos são, aparentemente, o último reduto do Cristianismo e Israel do Judaísmo – as duas grandes religiões que concorrem com o Islamismo. Isso explica porque o ódio dos árabes-islâmicos aos Estados Unidos vai de mãos dadas com seu ódio a Israel. Além disso, mesmo sem entrar nos problemas geopolíticos que colocam árabes-islâmicos, de um lado, e americanos e israelenses de outro, o caráter moderno e secular dos dois países aparece como a maior ameaça para a visão predominantemente religiosa e teocrática do mundo dos países islâmicos, em especial no mundo árabe. (Não se dá o mesmo na Malásia, por exemplo, país do qual estou retornando para o Brasil, que é islâmico mas é moderno e, até certo ponto, secular – a lei islâmica cobre aspectos da conduta, mas há uma lei secular que regula os demais – e profundamente comprometido com a adoção do modelo de produção, da arquitetura, da tecnologia e de um sem número de outros aspectos da cultura ocidental, vale dizer, predominantemente americana). Assim, o anti-americanismo árabe-islâmico tem componentes geopolíticos, sem dúvida, mas também religiosos e culturais. Enfim, vale a pena ler o livro. Gostaria de ter tempo de traduzi-lo eu mesmo para o português. Mas aos 63 anos a gente tem de definir cuidadosamente as prioridades: há outros que podem fazer isso, quem sabe até melhor. Talvez este artiguinho os motive. Em cima do Oceano Atlântico, viajando de Londres para São Paulo, 10 de dezembro de 2006 [em tres horas mais devemos estar chegando a Guarulhos]. 11/28/2006 Multiculturalismo, interculturalidade e relativismoEstou lendo um livro interessante, de Roberto Carneiro, ex-ministro da Educação de Portugal e integrante da comissão que elaborou o famoso Relatório Jacques Delors para a UNESCO, que foi publicado como “Educação: Um Tesouro a Descobrir”. Em inglês o título, curiosamente, é “Learning: A Treasure Within”. Valeria a pena fazer um artigo discutindo as sutis diferenças entre essas duas versões do título do relatório. Quem saiba eu o escreva um dia. Apesar de conter muita coisa com que concordo sem reservas, o livro “unescamente”, contém certas teses que tenho dificuldade de aceitar. Explico-me. Não tenho nada contra quem combate, como o faz Roberto Carneiro, de um lado, o fanatismo, o dogmatismo, o sectarismo, e, de outro lado, a xenofobia, o racismo, o etnismo, o nacionalismo, a intolerância (vide p.75). Muito pelo contrário. Esses dois combates são faces diferentes de uma mesma moeda. Quem é fanático, dogmático, sectário acerca de suas próprias crenças em geral é intolerante de quem é diferente de si, ou porque pertença a outra raça, etnia ou nação, ou porque tenha outra cultura (língua, religião, costumes, etc.) ou porque simplesmente pense de forma diferente sobre questões que o fanático, dogmático, sectário considera importantes. Não só nada tenho contra quem assume esses dois combates como eu próprio tenho, ao longo de minha vida, me juntado a esse combate, em especial na esfera política e religiosa. Isso é uma coisa. Outra coisa é combater esse combate, como o faz Roberto Carneiro, em nome do multiculturalismo e da interculturalidade. É inegável que existem inúmeras culturas no mundo – de macroculturas (como as chamadas “cultura ocidental”, “cultura européia”, “cultura islâmica”, “cultura asiática”, ou, voltando no tempo, “cultura clássica”, “cultura medieval”) e microculturas (como a cultura de uma pequena tribo indígena ou até mesmo o que se chamou de “a cultura pariense da margem esquerda do Sena” na época de Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir). E não resta a menor dúvida de que essas diferem umas das outras em múltiplos aspectos, alguns essenciais e importantes, outros secundários. Não há como fugir desse fato – e fato é o que isso é. Ao descrever isso não se faço nenhuma valoração, nem positiva, nem negativa. Por outro lado, é possível atribuir uma valoração – negativa ou positiva – a esse fato. Muitos fanáticos, dogmáticos e sectários valorizam, positivamente, de tal forma a sua própria raça, etnia, nação, cultura (macro ou micro) que se sentem obrigados a valorizar, negativamente, outras raças, etnias, nações e culturas. Essa valorização negativa, quando alcança um grau extremo, leva os fanáticos, dogmáticos, sectários a ter pavor de tudo o que é diferente deles (xenofobia) e a se propor a destruir o que é diferente deles. Roberto Carneiro é um admirador da diversidade e um defensor da diferença. Refere-se ao fenômeno que acabei de descrever de forma lírica, quase idílica. Segundo ele, a educação precisa promover uma “consciência intercultural” que, entre outras coisas, deve “realizar a vontade indómita de ‘descobrir’ o outro” e “cultivar o fascínio perante o diferente” (p.71). “Com efeito”, diz ele, “a erecção de uma cultura de direitos humanos é indivisível do respeito por toda a trama da variedade humana” (p. 66). Ele assim defende uma “Educação para a Tolerância e a Interdependência”, que propugna “o desenvolvimento pessoal de um sentimento de estima pela humanidade, de apreço pela sua aventura coletiva e de valoração [positiva] de suas diversas culturas como expressão inestimável dos dramas de vida de cada povo” (p. 70). Ele se define como um combatente na luta contra “o monismo cultural” e contra qualquer idéia de “supremacia cultural”. Essa luta, diz ele, “apresenta-se como uma prioridade educacional incortonável”, o que o leva a propor “uma genuína e duradora Educação Intercultural para Todos” (p. 70). Dispenso-me de fazer outras citações. Roberto Carneiro, no entanto, não quer se deixar caracaterizar como um “relativista” (vide pp. 65, 73). Afirma ele: “Mas se o fanatismo cego é condenável, do mesmo modo e a título igualmente vigoroso, é de denunciar o reino do relativismo” (p. 65). Por quê? Porque “o progresso humano [sic] demanda âncoras axiológicas de referência sem as quais ele não tem possibilidade de se direccionar nem de adquirir sentido” (p. 65). Por isso, “o pluralismo não [pode ser] sinónimo de relativismo” (p. 73). É louvável a tentativa de defender o multiculturalismo e, ao mesmo tempo, tentar combater o relativismo. Mas é aqui que Roberto Carneiro começa a se complicar. Como Roberto Carneiro, sou contra o relativismo. E sou contra, basicamente, pelas mesmas razões. Concordo com ele que exista o que ele chama de “progresso humano”. Também concordo com ele que, para que não podemos acreditar na existência do “progresso humano” a menos que também acreditemos na existência de “âncoras axiológicas de referência”, pois sem elas a noção de progresso humano não faz sentido (progresso em relação a que critérios?). E concordo com ele, por fim, que a crença na existência do “progresso humano” e das tais “âncoras axiológicas de referência” é incompatível com a crença no relativismo. Minha discordância básica das teses de Roberto Carneiro está no fato de que, no meu entender, a crença na existência do “progresso humano” e das tais “âncoras axiológicas de referência” é incompatível também com a defesa do multiculturalismo e da interculturalidade. Aqui é preciso fazer dois “caveats”: o primeiro, para discutir a questão da diversidade, da diferença; o segundo para discutir com mais precisão o conceito de relativismo. Não tenho a menor dúvida de que em inúmeros aspectos a diversidade e a diferença são extremamente positivas. Não tenho dúvida de que, contemplando a totalidade do ponto de vista estético, o mundo é muito mais rico (e, por conseguinte, mais belo) porque existem diversas espécies vegetais e animais, e porque, no tocante a seres humanos, existem mulheres e homens, e existem mulheres e homens de diferentes cores, tamanhos, aparências, etc. Contemplando uma área da cultura, como a música, não tenho dúvida de que o mundo é muito mais rico (e, por conseguinte, mais belo) porque existem diferentes tipos de música: a clássica, a popular “chique” (estilo Jobim, no caso brasileiro), a popular do “povão” (ainda, no caso brasileiro, caipira, sertaneja, brega, forró, etc.), a das diferentes regiões do mundo (o fado português e o yoodle tirolês, por exemplo, que tive o privilégio de observar de perto recentemente), e assim por diante. Não há razão para combater essa diversidade e diferença – muito pelo contrário: há todas as razões possíveis e imagináveis para promovê-la. E digo isso sem cair no relativismo de dizer que todos esses tipos de beleza física ou musical se equiparam, e que não há um que seja mais belo do que o outro. Mas mudemos de registro. Diferentes culturas têm diferentes valores e costumes. Alguns países islâmicos praticam, nas meninas, quando se tornam púberes, a clitoridectomia e a infibulação. A clitoridectomia é a remoção do clitóris e de boa parte dos lábios vaginais. A infibulação é a costura da abertura vaginal (deixando apenas uma pequena passagem para a urina e sangue mentrual). A razão dessa prática está em evitar, pela costura da abertura vaginal, que a menina tenha relações sexuais até que seja adquirida (sic), comprovadamente virgem, pelo seu marido. A razão da clitoridectomia está em evitar que a menina-moça possa associar o sexo com o prazer, e, assim, venha a desejar ter relações sexuais. Na verdade, o procedimento, feito em condições que estão longe de se comparar com as oferecidas pelos hospitais Alberto Einstein e o Sírio Libanês, em geral associa, na mente da menina-moça, o sexo com dor e sofrimento. Quando ela casa e o seu marido a disvirgina (em geral sem qualquer carinho ou preocupação com o bem-estar ou sofrimento dela), seu órgão sexual é, via de regra, dilacerado – o que acentua a associação do sexo com dor e sofrimento e a desincentiva de procurar sexo fora do casamento. O que diria Roberto Carneiro sobre essa manifestação da diversidade e da diferença? Diria ele que a “educação intercultural” deve “cultivar o fascínio” perante essa diferença cultural? Diria ele que a “educação intercultural” deve promover “apreço” por essa “expressão inestimável dos dramas de vida” daquelas meninas? Diria ele que “a educação para a tolerância” deve ser tolerante para com essas práticas? Houve época – e ainda há partes do mundo em que essas épocas se mantêm – em que seres humanos rotineiramente praticavam estupro, tortura, até canibalismo. Aqueles que, como Roberto Carneiro e eu, acreditam que tem havido “progresso humano”, e que essas práticas foram abandonadas porque elas conflitam com “âncoras axiológicas de referência” que vieram a ser amplamente aceitas. Mas se realmente houve progresso – e eu não tenho dúvida de que houve – Roberto Carneiro deve responder a algumas perguntas. O que ele sobre essa manifestação da diversidade e da diferença? Diria ele que a “educação intercultural” deve “cultivar o fascínio” perante culturas desse tipo? Diria ele que a “educação intercultural” deve promover “apreço” por essa “expressão inestimável dos dramas de vida” vividos pelas vítimas dessas práticas? Diria ele que “a educação para a tolerância” deve ser tolerante para com essas práticas? Essas mesmas “âncoras axiológicas de referência” hoje condenam terroristas que, em nome do fanatismo, do dogmatismo e do sectarismo que Roberto Carneiro pretende combater, se fazem de bombas humanas para matar civis inocentes que são de outra raça, ou de outra etnia, ou de outra nação, ou de outra religião, ou de outra língua, ou de outra... Se queremos que a humanidade continue a progredir, devemos perguntar a Roberto Carneira o que devemos fazer em relação, não só a essas práticas, mas às culturas que as incentivam, apóiam, aplaudem e defendem. O que dirá ele? Dirá ele que a “educação intercultural” deve “cultivar o fascínio” perante práticas culturas desse tipo e as culturas que as incentivam, apóiam, aplaudem e defendem? Dirá ele que a “educação intercultural” deve promover “apreço” por essa “expressão inestimável dos dramas de vida” vividos pelas vítimas dessas práticas? Dirá ele que “a educação para a tolerância” deve ser tolerante para com essas práticas? Se realmente temos “âncoras axiológicas de referência” e achamos que elas são importantes e essenciais para o “progresso humano”, não podemos defender o multiculturalismo, a interculturalidade, “cultivar o fascínio” e promover “apreço” por culturas diferentes, independentemente de seu respeito às nossas “âncoras axiológicas de referência”. Se realmente temos “âncoras axiológicas de referência” não podemos ter receio de avaliar culturas, de dizer que umas são superiores a outras, do ponto de vista moral, de hierarquizá-las em relação ao respeito que demonstram pelas nossas “âncoras axiológicas de referência”. Isso quer dizer que o multiculturalismo e a interculturalidade são posturas teóricas não só erradas, mas nocivas e perniciosas, porque nos deixam incapazes de criticar e condenar as práticas culturas mencionadas e as culturas e pessoas que as promovem, apóiam, aplaudem e defendem. Apesar de as críticas que Roberto Carneiro faz à educação tradicional, sua proposta positiva de uma “educação intercultural”, uma “educação para a tolerância e a interdependência”, é fundamentalmente errada. Roberto Carneiro afirma (e já citei): “Com efeito”, diz ele, “a erecção de uma cultura de direitos humanos é indivsível do respeito por toda a trama da variedade humana” (p. 66). Errado. “A erecção de uma cultura de direitos humanos é indivisível do respeito por” nossas “âncoras axiológicas de referência”. No ar, voando em cima do Afganistão (o mesmo do Talibã, que apedrejava mulheres adúlteras e cortava a mão de quem roubava uma fruta), a caminho da Malásia (a mesma que, contraditoriamente, é condenada pelos multiculturalistas por permitir o trabalho infantil), 28 de novembro de 2006 (ainda 27, no Brasil) Em tempo: Cerca de doze horas atrás voava por cima de Genebra, a caminho de Munique. O avião da Lufthansa dava acesso à Internet. Lá de cima escrevi a meu amigo Joaquim Brasil Fontes Júnior dizendo que estava voando por cima de Genebra, olhando Lac Léman (Lake Geneva) – ele me respondeu em menos de cinco minutos, dizendo: “Sobrevoas a civilização”. Não tenho dúvida de que o que ele disse doze horas é verdade. A frase “sobrevoas a civilização”, se dita agora, não seria verdade. Na verdade, as duas proposições, embora consistam exatamente das mesmas palavras, são distintas. Uma afirma que a Suiça é um exemplo de civilização; a outra afirma que o Afganistão é um exemplo de civilização. A primeira proposição é verdadeira; a segunda, infelizmente, não. 8/2/2006 O trem no BrasilFazia tempo que vinha procurando sites sobre a história do trem no Brasil. O trem foi muito importante na minha vida. Com um mês e doze dias fiz minha primeira viagem de trem. Nasci em 7/9/1943. Meu pai escreveu um pequeno relato de meus primeiros dois anos. Eis o que ele diz sobre essa primeira viagem de trem, nos dias 19-20/10/1943: "No dia 19 de outubro tomamos a jardineira até Tupã. O dia estava quente, mas o Oscarzinho dormiu quase o tempo todo. Só chorava quando a jardineira parava. Às 2 hs. da tarde chegamos a Tupã e às 3,45 tomamos o trem. A viagem não foi muito boa, pois o trem estava muito cheio! Metade da viagem foi feita no carro de 2ª classe, pois não pudemos arranjar lugar na 1ª classe, devido ao grande número de pessoas. Passamos a noite com o Nenê nos braços. Ele não deu trabalho, pois dormiu mais ou menos bem. Às 6 hs. da manhã chegamos a Campinas." Esta foi a primeira de muitas viagens de trem do local de residência dos meus pais até Campinas, onde moravam minha avó materna e minha tia, irmã de minha mãe (que faleceu faz um mês, aos 85 anos -- minha mãe faz 82 agora segunda-feira). Meus pais se mudaram de Lucélia para Irati, no Sul do Paraná, depois para Marialva, no Norte do Paraná, depois ainda para Maringá, também no Norte do Paraná, e, finalmente, para Santo André, em São Paulo, onde minha mãe e meus irmãos ainda residem (meu pai faleceu em 1991). Viajávamos sempre de trem. As viagens que ficam mais gravadas em minha memória eram entre São Paulo (Estação Sorocabana) e Ourinhos, no famoso (e confiável) Expresso Ouro Verde. Saía da Sorocabana em São Paulo por volta das 22h (22h10, creio) e chegava a Ourinhos de manhã. O trem era lindo -- verde, naturalmente. Íamos numa cabine leito, meus pais, meu irmão (mais novo 3 anos e 3 meses) e eu. Eu dormia no beliche de cima, como meu pai, meu irmão no beliche de baixo, com minha mãe. Isso se dava antes de eu completar sete anos. Minha mãe levava sanduíches de presunto e queijo e um sacolinha com queijo e goiabada. Viagem de trem para mim ficou para sempre associada com sanduíches de presunto e queijo e com Romeus-e-Julietas... Quando mudamos para Santo André, o trajeto mudou. Pegávamos o trem subúrbio até São Paulo e lá pegávamos o trem da Estrada de Ferro Santos-Jundiaí para o interior. Em Jundiaí a locomotiva (vermelho meio escuro) era removida e uma locomotiva da Companhia Paulista de Estrada de Ferro assumia -- linda, linda, azul... -- e o trem passava a ser da Paulista. Em Jundiaí o trem parava uns 15 minutos e a plataforma da estação ficava cheia de vendedores ambulantes vendendo, entre outras coisas, "pipóóóóóóóóóóóca". Vendiam uva e figo também: Jundiaí é terra de uva e figo. Campinas era um importante entrocamento ferroviário. Além dos trilhos da Companhia Paulista passarem pela cidade, começava ali também a linha da Companhia Mogiana, e havia um ramal, o da Companhia Ituana, que ligava Campinas diretamente à Estrada de Ferro Sorocabana, em Itu. Salto, onde estou agora, ainda tem sua estação -- devidamente abandonada. Elias Fausto, aqui juntinho, também. Estive lá na semana passada e vi fotos da estação. De Santo André também íamos a Santos de trem. A Jundiaí do trajeto para Santos era Paranapiacaba, pequena cidade, que nunca vi sem neblina, na beirada da serra, onde o trem começava a ser literalmente puxado para subir a serra. Emocionante. Alguém cometeu um crime contra o Brasil, deixando todo o nosso enorme sistema ferroviário ser sucateado. Precisavam ser identificados e punidos os criminosos, post mortem, se necessário. Por indicação do jornalista José Carlos Daltozo, de Martinópolis, SP, que tem escrito sobre Lucélia (vide artigo recente "Lucélia - Terra Natal", neste space), encontrei o site http://www.estacoesferroviarias.com.br. Lá você pode encontrar fotos da estação ferroviária de sua cidade, se ela teve uma. E lá encontrei referência ao site http://www.trem.org.br, que, por sua vez, tem vários links relacionados. Uma mina de informação. Ao escrever essas referências me lembrei de que o meu caro amigo, Tonhão (Antonio Morales), de Bauru, um dia fez referências a sites sobre ferrovias. O pai dele foi ferroviário. Vamos ajudar a preservar a memória do trem... Em Salto, 2 de agosto de 2006 7/28/2006 PROCON ou PAICON?Enquanto ia do meu sítio para o "downtown, Greater Salto", ouvia a CNN, que, em programa local, de Campinas, entrevistava alguém do PROCON de Vinhedo. Tradicionalmente o PROCON tenta proteger o consumidor. Se você é lesado ao comprar alguma coisa ou algum serviço, ou se alguma loja anuncia alguma oferta e na hora se recusa a honrá-la, você recorre ao PROCON. Mas agora fiquei sabendo que o PROCON está ocupado em "proteger" (termo do entrevistado) as pessoas que estão endividadas. Segundo a ele, as pessoas contraem dívidas, que depois não podem pagar, porque em algum momento consumiram algo que se propuseram a pagar a prazo. Chega um ponto em que alguns têm mais dívidas do que conseguem pagar com sua renda mensal. E, segundo o entrevistado, não têm a quem recorrer. Não tinham: agora têm, o "paizão" PROCON. O órgão deveria mudar seu nome para PAICON. Quando recorrerem ao PROCON nesse caso, estarão recorrendo contra quem??? Só pode ser contra si mesmos, porque ninguém os obrigou a contrair mais dívidas do que conseguem pagar. Segundo o entrevistado, o PROCON agora se propõe proteger esses até aqui desprotegidos, e ajudá-los. A razão? Quem está endividado, fica com a auto-estima baixa, e nenhum ser humano deve sentir humilhado por estar devendo demais, acima de sua capacidade de pagar. Fico imaginando o que o PROCON fará, numa situação dessas... Ajudará o indivíduo a renegociar suas dívidas e assinará com avalista? E se o indivíduo não pagar a dívida negociada, como fica a auto-estima dele? O PROCON daí paga a dívida no lugar dele para ele não ser humilhado? O entrevistado do PROCON se mostra ciente de alguns dos riscos da nova empreitada do órgão. Entre os super-endividados pode haver gente de "má fé", que consumiu com a intenção de não pagar... O entrevistado diz saber que isso acontece. Por causa disso, o PROCON estará realizando, nos próximos meses, uma grande pesquisa para identificar "o consumidir de 'boa fé' que está sobre-endividado". É esse que o PROCON quer proteger. Mais uma vez o governo está intervindo para proteger as pessoas dos resultados de suas próprias ações. Me faz lembrar de um dito que ouvi há tempo: "A humanidade começou a ir pro brejo quando, pela ação do governo, a burrice deixou de ser fatal". Em Salto, 28 de julho de 2006 6/24/2006 Bondes e trens em Campinas (e Genebra)Se a gente conseguisse determinar quem são os responsáveis pela desativação / destruição do sistema de tranporte sobre trilhos no Brasil (bondes, trams, trens de passageiros, etc.), cem anos no inferno seria pouco. Não cresci em Campinas -- mas sempre passei minhas férias, quando criança, em Campinas, pois aqui moravam meus avós maternos (e minha tia -- que, velhinha, está ainda viva). Havia um sistema que, inicialmente, tinha doze linhas de bonde, que passo a descrever, para preservação da memória: Linha 01 - Vila Industrial (saindo pela Rua General Osório [onde hoje fica a Igreja Presbiteriana Central] e Av. Andrade Neves) Linha 02 - Vila Industrial (saindo na direção oposta, pela Rua Barão de Jaguara e Av. Moraes Salles) [As duas linhas se cruzava na Av Salles de Oliveira, na Vila Industrial] Linha 03 - Guanabara Linha 04 - Taquaral Linha 05 - Estação (Ferroviária) Linha 06 - Cambuí (saindo pela Rua General Osório) Linha 07 - Cambuí (saindo pela Rua Dr. Quirino e Av. Orozimbo Maia) [As duas linhas cruzavam na Av. Julio de Mesquita] Linha 08 - Bonfim Linha 09 - Botafogo Linha 10 - Castelo Linha 11 - Cemitério da Saudade Linha 12 - Bosque Posteriormente acrescentou-se a Linha 13 - Alecrins (que ia pra a Chácara da Barra, o Jardim Flamboyant, o Fura-Zóio). Além dessas doze linhas havia uma linha especial, às vezes chamada de Linha 14, o chamado "bondão verde" (os outros eram amarelos e vermelhos), que ia para Souzas e Joaquim Egídio, até o Morro das Cabras, onde fico o Observatório de Capricórnio. É bom que se diga que Souzas e Joaquim Egídio, quando eu era criança, eram lugares perto do fim do mundo. Hoje eu saio de casa para ir cortar cabelo com o Zezito em Souzas. E Joaquim Egídio virou um lugar badalado, cheio de restaurantes interessantes. O passeio no Bosque dos Jequitibás era o melhor passeio que uma criança podia fazer naquela época. O Bosque parecia longe. Hoje está dentro do centrão da cidade, como estão o estádio de futebol da Ponte Preta (o Estádio Moysés Lucarelli, que os "guaranienses", aqui chamados de "bugrinos", porque o símbolo do Guarani é um indiozinho, insistem em chamar carinhosamente de "pastinho"), que a gente via ao passar no trem da Paulista, chegando de São Paulo a Campinas, se estivesse nos bancos à direita, e o estádio de futebol do Guarani (o famoso "Brinco de Ouro da Princesa" -- assim chamado porque Campinas tem o apelido carinhoso de "A Princesa do Oeste": o campo do Guarani é o brinco de ouro da Princesa...). Por falar em trens, a viagem de trem entre São Paulo e Campinas era uma delícia. Os trens da Paulista, sempre limpos e bonitos, com suas locomotivas azuis (isto de Jundiaí para o Interior -- de Jundiaí para São Paulo as locomotivas eram vermelhas, porque os trilhos pertenciam à Estrada de Ferro Santos Jundiaí). Por algum tempo, houve a litorina, um trem rápido de três vagões que ia de Campinas até Santo André, onde moravam meus pais. Para ir de Campinas para o Interior, havia várias opções. A Paulista, que ia na direção de Bauru e chegava até Dracena. A Araraquarense, a Noroeste, a Sorocabana, a Mogiana...Tudo isso sumiu no afã estatizante que matou a iniciativa privada do setor. O Estado estatizou para acabar. Uma vergonha. Bons tempos aqueles em Campinas. A Lagoa do Taquaral ainda não era cercada, e muito menos o centro de lazer que é hoje -- por obra e mérito de Orestes Quércia, quando foi Prefeito da cidade, que até colocou na lagoa uma réplica de uma das caravelas do descobrimento (não sei qual delas), hoje em lastimável estado de desconservação, obra de algumas administrações petistas. Antes da obra de revitalização do local realizada pelo Quércia a região não era bem vista, até porque as chamadas moças de vida fácil haviam escolhido o Taquaral como sua zona -- zona essa que algum bom prefeito, talvez o Quércia também, mudou para um local bem afastado da cidade, no Jardim Itatinga, já quase chegando em Viracopos. Apesar disso, quando voltei a Campinas, em 1961, para estudar no Seminário Presbiteriano, no Alto da Guanabara, na Av. Brasil, eu não tinha medo nenhum de andar por aquelas bandas (Taquaral, a lagoa ou o bairro), sozinho ou com um namorada que era preciso entregar em casa, lá pela meia-noite. Ia e voltava a pé, porque os bondes paravam de circular por volta das 23 horas... A gente (eu e meus colegas seminaristas) estudava para ser pastor. A ideologia que dominava o seminário naquela época era esquerdista -- até 1966, quando houve o expurgo que até a mim levou de roldão. Por isso, nunca arrumava namorada rica, que morasse ali por perto do Seminário, naqueles casarões que, na época, pareciam maravilhosos -- hoje, olhando para eles, vejo que não passavam de casas de classe média, em terrenos com frente de não mais de 10 m, com fundos de no máximo 30 m. A gente buscava umas namoradinhas mais simples e pobres, cujos usos e costumes fossem mais próximos da classe da qual a gente originava (em geral, D e E). Seminário protestante dificilmente era lugar de estudo de gente que tinha dinheiro -- esses iam pra USP, ou para a França. Quando fui para a Europa pela primeira vez, nos idos de 1987, fiquei surpreso de ver trens rodando para toda parte e bondes circulando por todos os bairros da cidade. A primeira cidade em que fiquei tempo razoável na Europa foi Genebra, na Suiça -- lá chamada Suisse, com dois s's -- terra de Calvino, de Rousseau e para onde fugiu Voltaire). Eu comprava a Carte Orange e andava de ônibus, bonde (tram) ou trem subúrbio livremente durante um mês. A Carte Orange custava 27 francos suícos. Hoje, que sou "Senior Citizen", provavelmente pagaria menos, mesmo que o preço tenha subido. De lá era possível sair para qualquer lugar na Europa. Saudade de meu amigo Aharon Sapsezian, de Genebra, que, há dias, sofreu um infarto e uma parada cardíaca. Não consigo falar com a Zabel, a mulher dele -- e, na verdade, tenho até medo de falar. Wilson Azevedo me enviou o URL de um belo artigo sobre os bondes de Campinas e outro URL com o mapa das linhas de bonde: http://www.tramz.com/br/cp/cp.html e http://www.tramz.com/br/cp/cpm.jpg] Em Salto, 24 de Junho de 2006 6/1/2006 Reflexões não tão fúnebres: relações pessoais e a InternetOntei à tarde coordenei uma mesa redonda no Congresso do EducaRede, patrocinado pela Fundação Telefónica. Como sou membro do Conselho Consultivo do EducaRede (com Bernardete Gatti e Mônica Alonso), minha tarefa era garantir que os participantes na mesa dessem o melhor de si e que os participantes na audiência fizessem perguntas interessantes. Acho que saiu tudo perfeito.
Gostei da apresentação da Profa. María Irma Marabotto, de Buenos Aires. Mas gostei mesmo foi da apresentação do Prof. Roberto Lerner, da Pontifícia Universidade Católica do Peru, em Lima.
O Prof. Lerner falou sobre relações interpessoais no espaço virtual -- concentrando-se no amor e no sexo. Foi uma palestra deliciosa e muito instrutiva. Depois de 25 anos envolvido com computadores e a Internet -- meu primeiro e-mail foi em 1987, quase 20 anos atrás -- achei que dificilmente iria ouvir algo em uma palestra que pudesse ser novidade para mim. Pois bem: estava errado. A palestra do Prof. Lerner foi "mui novidadosa".
No que segue, vou resumir algumas idéias dele -- e algumas idéias minhas que as idéias dele provocaram... Como diz o meu amigo Rubem Alves, o que vem a seguir é Roberto Lerner digerido por Eduardo Chaves: é o Roberto Lerner que ficou no meu sistema vital...
Lerner começou, provocadoramente, citando dois livros: O Amor Interligado por Fios (Wired Love -- meu amigo Wilson Azevedo criativamente traduziu esse título por "Amor Fiado"...) e Os Perigos do Amor Interligado por Fios (The Dangers of Wired Love). Para surpresa de todos, esses livros foram escritos no século XIX, quando construíram-se paixões "online", usando o telégrafo como tecnologia e o código Morse como linguagem... Surpreendente. (Ainda o Wilson Azevedo me recomendou o seguinte livro, que trata das implicações sociais da invenção do telégrafo: The Victorian Internet, de Tom Standage [New York: Walker Publishing Company, 1998]).
Falou também do amor epistolar, esse bem mais conhecido... Cartas (incluindo as mensagens de e-mail) são a única maneira de combinar solidões... Lindo, não? Recorremos a cartas (e e-mails) quando nos sentimos sós... E as cartas, combinando solidões, nos faz sentir menos sós.
Há muitos tipos de solidão. Às vezes não estamos fisicamente sós -- há gente conosco, ou ao nosso redor. Às vezes não estamos nem mesmo sexualmente sós -- temos um(a) parceiro(a) sexual. Mas com tudo isso podemos nos sentir emocionalmente sós... Ou intelectualmente sós... Ou metafisicamente abandonados...
Antes da Internet éramos relativamente limitados no número de relacionamentos realmente significativos que podíamos ter fora dos relacionamentos estáveis dos quais o casamento é o exemplo mais difundido. Isso era ruim, porque é virtualmente impossível que um só ser humano supra todas as nossas necessidades físicas, sexuais, emocionais, intelectuais, espirituais -- e que nós possamos suprir todas essas necessidades emocionais para um outro ser humano. Nos relacionamentos tradicionais, as pessoas, se não queriam viver vidas relativamente incompletas e, por isso, razoavelmente insatisfeitas, acabavam arrumando outros relacionamentos significativos fora do casamento que, por causa da necessidade de contato físico para a viabilização do relacionamento, freqüentmente envolviam sexo -- e assim, descambavam para a traição. É notório que muita gente famosa teve mais de um desses relacionamentos significativos à margem de seu relacionamento oficial, chancelado pela burocracia governamental ou pelos preconceitos sociais.
Com a Internet tornou-se, em tese, possível ter vários -- na verdade, inúmeros -- relacionamentos significativos no plano virtual sem que a questão sexual seja necessariamente colocada -- embora esses relacionamentos claramente envolvam, de forma muito significativa, as emoções, a sensibilidade, e, quiçá, verdadeiramente o amor (que, a meu ver, é uma mistura de emoção, intelecto, e, para ser completo, sexo) -- para não mencionar o intelecto, a espiritualidade. De vez em quando, um desses relacionamentos "platônicos" pode evoluir (ou talvez involuir) e vir a envolver o sexo. Neste caso, o relacionamento claramente se torna traição, pelos padrões vigentes. Mas nos outros casos, em que temos afeição, carinho, admiração intelectual, respeito mútuo, sem que haja sexo, temos uma área cinzenta com a qual ainda não sabemos lidar direito...
Nossos parceiros de relacionamento estável (nossos "cônjuges") certamente se sentirão traídos se souberem que outras pessoas representam um relacionamento significativo para nós do ponto de vista afetivo, ainda que não haja sexo envolvido. Isso talvez se dê porque a gente se imagina (erroneamente) capaz de suprir todas as necessidades do parceiro. Por conseguinte, espera e exige do parceiro fidelidade não só no agir mas também no sentir e no pensar. Eventualmente pode ser que esse sentimento de traição seja substituído por algo mais racional. Não sei. Pode ser que o sentimento de posse e propriedade, o ciúme, a inveja do outro que pode oferecer ao parceiro algo que eu não posso -- pode ser que todos esses esses sentimentos nos impeçam de ver as coisas mais racional e objetivamente.
Eu, pessoalmente, acho perfeitamente possível amar (num sentido real do termo) mais de uma pessoa ao mesmo tempo -- embora provavelmente de formas diferentes. A literatura e o cinema estão recheados de exemplos disso, como eu mesmo já mencionei em mensagens anteriores. Como disse, não tenho dúvida de que, no atual esquema de valores, os cônjuges que descubram que seus parceiros estão envolvidos emocional e intelectualmente com outras pessoas, vão se sentir profundamente traídos -- mesmo que não tenha havido sexo, ou mesmo que os envolvidos nem se conheçam face-a-face. (Acho belíssima a contribuição do filme "Cousins" [Creio que o título em Português é "Um Toque de Infidelidade", mas não estou certo], com Isabella Rossellini e Ted Danson. Ali fica claro que, para alguns casais, o envolvimento afetivo do parceiro com outro, ainda que sem sexo, é mais ameaçador do que o sexo sem envolvimento afetivo -- o sexo que não significa nada, como alegam os culpados...)
Roberto Lerner comparou a Internet com a televisão e explicou porque há "viúvos" e "viúvas" da Internet e não havia "viúvos" e "viúvas" da televisão... Ou porque ninguém nunca acusou o parceiro de traição por ver tv demais -- e tenha havido inúmeros casos de divórcio em que a Internet é o pivot do problema. É verdade que, quando se acusa um parceiro de traição virtual, não é porque o parceiro anda navegando por sites pornográficos, que são sites anônimos, impessoais mesmo... A acusação aparece quando, do outro lado da "linha", há uma outra pessoa... É a comunicação (o relacionamento) com uma outra pessoa real, de carne e osso, através da Internet, que consubstancia a acusação de traição -- não a virtualidade em si... Na realidade, pouco ou nada há de virtual no sentimento, em si, que é muito real -- apesar de ter surgido não na ou pela presença física do outro, mas, sim, em sua presença virtual.
A televisão é uma diversão eminentemente pública: muitas pessoas podem assistir a uma mesma tv ao mesmo tempo. Antigamente, quando poucas pessoas tinham televisão, todos vinham assistir à televisão na sala do vizinho que a tinha... Depois, quando todas as casas tinham tv, mas um aparelho só, toda a família ficava na sala reunida vendo tv... Hoje, com o nível de afluência que muitos já alcançam, a tv vai ser tornando pessoal: cada um tem a sua, no seu quarto...
Além disso, a tv pode facilmente tornar-se "ruído de fundo" que nos permite, por exemplo, fazer outra coisa (por exemplo, namorar...) enquanto a tv continua ligada. Muitos até mesmo usam a tv como sonífero (porque a tv dificilmente pode ser vista como afrodisíaco...). Quando nossa cabeça está cheia de coisas que nos preocupam, o ruído da tv nos impede de ficar pensando nos problemas e acabamos dormindo, vencendo a insônia que se prenunciava...
A Internet, porém, é exclusivista e excludente: só nós podemos usar um determinado equipamento -- e, quando estamos ocupados com esse equipamento, excluímos outros tipos de relacionamento pessoal... A Internet, mesmo quando ela envolve duas pessoas se comunicando, por e-mails seriados ou por Messenger, é um meio solitário -- embora ela, por conter a possibilidade de um relacionamento pessoal epistolar, permita combinar solidões... O MSN Messenger inventou o "nudge": uma "sacudida" virtual que reclama nossa completa e exclusiva atenção... (Nunca deixe seu cônjuge ficar sabendo que você, ao conversar com ele(a), está também conversando, em regime de multitarefa, com uma outra pessoa... Isso ofende ao extremo.)
Enfim. A apresentação do Roberto Lerner foi estimulante. Ele recomendou dois livros: Patricia Wallace, The Psichology of the Internet (livro velho!!! de 1999... Cambridge: Cambridge University Press) e Aaron ben Ze'ev (Filósofo e Reitor da Universidade de Haifa, em Israel), Love Online: Emotions on the Internet (Cambridge: Cambridge University Press, 2004). Já encomendei os dois na Amazon.
Roberto Lerner tem excelente senso de humor. Citou Mae West, a quem se atribui o dito de que sexo é como bridge: só se sai bem quem tem um bom parceiro ou uma excelente mão... No sexo virtual pela Internet, o parceiro pode estar lá -- mas a mão terá de estar aqui mesmo...
Em Salto, 1 de junho de 2006 5/3/2006 United flight 881 - May 2, 2006Se Alvin Toffle está certo ao afirmar que riqueza é tudo aquilo que satisfaz uma necessidade ou um querer, sou uma pessoa muito rica, no momento -- apesar de pequenos dramas pessoais e de frustrações profissionais.
Escrevo esta crônica a bordo de um Boeing 747, que se dirige para o Polo Norte, numa viagem de Chicago a Tóquio (voo United 881, do dia 2 de maio de 2006). O vôo saiu de Chicago ao meio-dia, hora local, e deve chegar em Tóquio às 15 horas do dia seguinte - também hora local. A duração do vôo é de treze horas. (Se algúem duvida, estude os fusos horários). De Tóquio saio às 17h30 com destino a Taipei, Taiwan, onde chego às 20h15 de amanhã -- para dar uma palestra às 10h30 de depois de amanhã, abrindo um congresso sobre Jogos na Educação, do qual a Microsoft é co-patrocinadora.
Enquanto lia e ouvia música no meu iPod Nano na sala de espera do Portão C-18, no Terminal 1 do aeroporto O'Hare de Chicago, ouvi um ruído estranho no background. Era um senhor engravatado que, ao lado de alguém vestido como piloto, dizia alguma coisa amplificada pelo sistema de som. Tirei os meus fones de ouvido e prestei atenção. O engravatado dizia que aquele vôo (o vôo em que eu iria embarcar) seria o último vôo daquele comandante -- que, completando 60 anos dois dias depois, era obrigado a se aposentar. Fez um breve discurso, dizendo que o comandante estava com a United há 32 anos -- desde 1974. (Imediatamente me lembrei de que 1974 foi o ano em que comecei a trabalhar na UNICAMP). E que agora, em decorrência da legislação americana, era obrigado a se aposentar. (Eu também me aposento este ano da UNICAMP, depois de 32 anos de trabalho, embora não pela compulsória). E aquele era seu último vôo. "The Final Flight". Todos aplaudimos o discurso e, naturalmente, o fiel comandante - que recebeu seu broche ("pin") de aposentado como prêmio por tantos anos de dedicação. (Que eu saiba, a UNICAMP - i.e., seu corpo diretivo - nem está tomando conhecimento de que eu vou me aposentar no segundo semestre. Nem, muito menos, está planejando elaborar um pin que comemore a ocasião. E tem gente que acha que empresas privadas, que visam ao lucro, são entidades opressoras, desumanizadoras, e que a solução está em entidades estatais como a UNICAMP...)
O vôo estava surpreendentemente vazio. Estou no lugar, 12A, na parte de cima da classe executiva de um Boeing 747, sem ninguém no assento B, ao lado, e com pouca gente nos outros assentos (dos 30 lugares, só 13 estavam ocupados). Com duas comissárias de bordo e um estagiário, fui muito bem atendido - e o clima estava tão descontraído que tive a oportunidade de conversar um pouco com a tripulação. A comissária de bordo chefe, me chamando pelo nome (Mr. Chaves), veio perguntar o que eu queria comer. Havia escolha entre filé mignon, frango e massa. Preferi o filé mignon. Perguntei a ela por que o vôo estava tão vazio. Não sabia. Falou que em mais de 20 anos voando entre Chicago e Tóquio, nunca esteve em um vôo tão vazio. Sorte minha. Sorte dela também, creio - tem menos trabalho. Quanto a mim, ganhei mais espaço, mais sossego, e uma interlocutora...
Quando a Comissária veio me trazer bebidas (pedi Vodka Absolut, on the rocks, acompanhada de castanhas de caju torradas e bem salgadas), solicitei-lhe que me escrevesse numa folha de papel o nome do comandante - o piloto que estava fazendo sua viagem final. Disse a ela que pretendia escrever uma crônica sobre o episódio e queria o nome dele. Achei bonito a United reconhecer publicamente seus fiéis empregados - que certamente já viram melhores dias.
Vi que os olhos azuis dela brilharam quando lhe pedi o nome do piloto... "Claro", disse ela, assentando-se meio de lado no assento vazio. "Terei enorme prazer. Sabe que ele e eu ficamos noivos há seis meses e vamos nos casar em Dezembro?" Fui pego de surpresa. Dei-lhe os parabéns. Ousei perguntar-lhe como o conheceu. Disse que foi num desses mesmos vôos entre Chicago e Tóquio. Não especulei mais. Tive enorme vontade de perguntar se os dois eram solteiros, quando se conheceram, ou se eram casados e... Mas até a indiscrição tem limites. Não sou repórter de coluna social.
Para resumir: escreveu o nome do comandante, o e-mail dele (no Yahoo! -- sorry, Microsoft), e, naturalmente, o nome e o e-mail dela (mulher é um bicho difícil de entender). Ele é o comandante Wayne Walczak. Ela, a Comissária de Bordo Nani Lovell. Os e-mails são informação privilegiada, que não revelo, nem em juizo...
Depois veio o primeiro prato. Salada de folhas verdes da estação, com molho de queijo parmesão, seguido de um "boursin" recheado com núcleo de alcachofras, acompanhado de salmão defumado e camarões gigantes. O prato principal, filé mignon, com pimentas vermelhas "chipotie", e molho demi-glacé de mostarda. Tudo "comme il faut". O vinho, para acompanhar, Château Haut-Brisey 2001 Médoc. Havia outras escolhas, mas preferi esse.
[Lamento informar que entre o primeiro prato e prato principal tive de ir ao banheiro fazer xixi... A natureza parece não conhecer as normas de bom-tom e não respeitar o clima romântico desta crônica. Eu, cronista fiel à realidade, não posso deixar de registrar o fato].
De sobremesa, "Eli's Caramel Apple Cobbler", acompanhado de Sandeman Founders' Reserve Porto. "Apple Cobbler" é nome sofisticado para a nossa torta de maçã - que no sul se chama "Apfel Strudel". O vinho do Porto é coisa que só aos deuses deveria ser permitido. No entanto, cá estou eu, sorvendo-o...
Enfim... O que mais se pode desejar? Querem mais riqueza do que isso? Estou viajando lendo um livro interessantíssimo (Revolutionary Wealth, de Alvin Toffler), com comida de primeira, e tendo o privilégio de conviver com histórias pessoais tão interessantes... E, para culminar, tendo acesso ao meu computador Dell (Latitude X1) que me permite registrar tudo isso enquanto as coisas acontecem.
Desejo ao comandante Wayne Walczak e à Comissária-Chefe de Bordo Nani Lovell uma vida feliz e longa. Eles certamente a merecem. Trabalharam na United num período difícil, em que a empresa passou de líder do mercado a concordatária - só se recuperando recentemente (quando saiu da concordata). Devem ganhar menos hoje do que ganhavam há 10 anos, em termos relativos.
Apesar de tudo, só lamento que a UNICAMP não seja a United - embora ambas as instituições tenham um nome que comece com "Uni" - e não reconheça aqueles que deram boa parte de sua vida a ela. Quando me aposentar da UNICAMP, terei de abrir mão do e-mail chaves@unicamp.br, e, se quiser colaborar com a Universidade, sem ganhar um tostão a mais, terei de me sujeitar a todo um ridículo processo avaliatório, extremamente burocrático, que ignora o fato de que já trabalhei ali por 32 anos. Se servi durante 32 anos, por que não iria servir agora, principalmente levando-se em conta que iria trabalhar de graça??? Não vou querer colaborar. Quanto ao e-mail, registrei o domínio unicamp.net nos Estados Unidos. Se quisesse, poderia usar o e-mail chaves@unicamp.net enquanto vivesse. Não faço questão. Prefiro continuar usando o meu eduardo@chaves.com.br. Só registrei o domínio unicamp.net para encher o saco (se bem que não saiba bem de quem).
Se a gente estiver atento, há histórias, mesmo dramas e algumas tragédias, ocorrendo ao nosso lado o tempo todo. Eu posso nem saber agora - mas este Boeing 747 pode cair antes de aterrissar em Tóquio daqui umas dez horas. Ele já tem idade para se aposentar. E, em decorrência, haverá várias tragédias pessois acontecendo. Haverá quem chore por mim, acredito.
Mais ou menos em cima do Polo Norte, em 2 de maio de 2006.
(Meu neto Felipe completa hoje um dia inteiro de vida fora do Éden uterino). 5/2/2006 As demonstrações dos imigrantes ilegais nos EUAOs Estados Unidos não celebram o Dia do Trabalho com o resto do mundo. Aqui, Labor Day é a primeira segunda-feira de Setembro. Ontem (1/5/2006).
Ontem, porém, houve passeatas em quase todas as cidades grandes do país. Eu estava aqui em Chicago e testemunhei. Muita gente. Cerca de 400 mil pessoas. Imigrantes ilegais e, digamos, simpatizantes. Gente que está pressionando para que os Estados Unidos liberalizem sua política imigratória -- e, acima de tudo, legalize a situação dos atuais imigrantes ilegais, estimados em cerca de 12 milhões!
Em Março também houve passeatas. Mas o tiro, então, saiu pela culatra. Naquela ocasião os demonstrantes eram predominantemente mexicanos, carregavam bandeiras do México, e falavam em espanhol. "Sí, se puede" era o seu refrão. A população "mainstream" reagiu. A questão controvertida, afirmaram os defensores de uma legislação mais forte ainda e de uma vigilância maior na fronteira com o México, não é de imigrantes ilegais: é, predominantemente, de imigrantes mexicanos ilegais, ou, então, de imigrantes ilegais de outros países latinoamericanos que entram nos EUA através da fronteira com o México. E os mexicanos, apontavam os defensores de medidas mais duras contra a imigração ilegal via fronteira com o México, não estão interessados em se integrar na sociedade americana. Continuam a ser leais ao México -- como provam as bandeiras que carregavam e o fato de que, em um jogo de futebol recente dos EUA com o México, em Los Angeles, a torcida era 90% para o México. Essa gente, continuavam, não quer aprender Inglês: continuam a falar o Espanhol em casa, e muitos nunca aprendem o Inglês.
As forças a favor da legalização dos imigrantes ilegais tiveram de pensar rápido e mudar sua estratégia e seu marketing. E trabalharam bem.
Nas passeatas de ontem, a bandeira predominante era a americana. De longe. Havia bandeiras de virtualmente todos países latinoamericanos (Brasil inclusive), mas também havia da China, da Coréia, do Vietnam, etc. Isso significa que os mexicanos conseguiram globalizar a demonstração, convidando imigrantes (ilegais e legais) de inúmeros países, até mesmo fora da América Latina. E o Inglês era a língua predominante. Quando se começava ouvir "Sí, se puede", ele era logo abafado por um "Yes, we can" mais forte. Tentou-se não dar a impressão de que o movimento era coisa de chicano.
E cantaram o Hino Nacional americano -- em Inglês, direitinho, sabendo a letra de cor. Esqueceram a controvérsia de que o hino deveria poder ser cantado também em Espanhol -- porque isso de novo latinizaria a demonstração. Saudaram a bandeira americana com respeito -- até exagerado: houve gente que se ajoelhou, com um joelho no chão, como se estivesse diante de um altar. E os depoimentos, todos eles em Inglês, ressaltaram que estavam orgulhosos de viver neste país, a verdadeira terra da liberdade e da oportunidade, que se orgulhavam do fato de que seus filhos falavam Inglês sem sotaque... Só não queriam viver sob ameaça constante de deportação para o país de origem -- com a conseqüentente separação dos filhos nascidos aqui, que, segundo eles, ficariam aqui na hipótese de deportação.
Boa parte das empresas ontem funcionou "a meio pau", porque os imigrantes ilegais (e mesmo alguns legais) nao apareceram para trabalhar. Algumas empresas até resolveram dar apoio moral e declararam feriado por conta.
E os demonstrantes foram criativos nas faixas... Uma dizia: "What if the Indians had closed the borders?" -- "O que teria acontecido se os Índios tivessem fechado as fronteiras?"
A coisa se complica.
Os defensores de medidas mais radicais contra a imigração ilegal ficaram quietos ontem -- esperavam que os demonstrantes dessem algum passo em falso que pudesse gerar novo backlash. Mas, pelo jeito, não deram. Corrigiram os erros das demonstrações de Março e deram uma demonstração de força e união -- e, o que é mais importante, de lealdade ao país que adotaram e em que escolheram viver (ainda que por meios ilegais).
Eu acho que os EUA, como nação e sociedade, deveriam se orgulhar do que aconteceu ontem: milhões de pessoas lutando nas ruas para conquistar o direito de morar aqui legalmente. Enquanto países como o nosso vêem milhares de pessoas se matando para sair daqui, no vizinho do norte o problema é o oposto -- prova da pujança da sociedade americana, que é capaz de dar oportunidades aos que para cá vêm e que alenta os sonhos de tantos outros que gostariam de estar aqui mas não têm a coragem de tentar.
Em Chicago, 2 de maio de 2006 |
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