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    11/18/2009

    A verdade – entre a dúvida e a certeza

    Encontrei um twit no FaceBook hoje, já devidamente retuitado, aparentemente mais de uma vez, que me fez querer voltar a um tema sobre o qual já escrevi bastante aqui. O twit contém a seguinte frase de André Gide, em Inglês:

    "Believe those who are seeking the truth; doubt those who find it." (“Acredite naqueles que buscam a verdade; duvide daqueles que a encontram”).

    A frase original, segundo me informa a WikiPedia, é: Croyez ceux qui cherchent la vérité, doutez de ceux qui la trouvent”, e foi retirada do livro Ainsi soit-il ou Les Jeux sont faits (André Gide, éd. Gallimard, Paris, 1952, p. 174).

    Gosto de frases assim, porque elas parecem sugerir que procurar a verdade é mais meritório do que encontrá-la, que parece análoga a outra frase de que gosto, que afirma que a felicidade está no caminhar, mais do que no chegar ao destino…

    Mas, confesso que,nessa questão fico meio dividido em meio às idéias de três filósofos (todos já falecidos) que admiro muito: David Hume, Karl Popper e Ayn Rand.

    No caso do primeiro e mais antigo desses filósofos, David Hume (1711-1776), admiro muito a pessoa e as idéias. No caso dos outros dois, admiro mais as idéias do que as pessoas.

    Karl Popper (1902-1994) provavelmente endossaria a frase de André Gide, sem tirar nem pôr. Foi ele que, em sua obra, defendeu aqueles que são humildes buscadores da verdade e criticou aqueles – os arrogantes – que se julgavam seus orgulhosos possuidores.

    Que Popper, como pessoa, se comportasse como um orgulhoso possuidor da verdade, que não admitia a contestação nem de seus inimigos nem de seus discípulos, para mim não importa: aquilo que me interessa, no caso dele, são suas idéias, não sua biografia.

    O que sobremaneira me interessa nas idéias de Popper é o seu falibilismo epistemológico. Exceto na lógica (incluindo a matemática), onde a verdade é plenamente encontrável porque, na realidade, a lógica define as regras do jogo racional, nossos julgamentos, pontos de vista, hipóteses, teorias, etc. devem, segundo ele, poder ser sempre refutadas ou falsificadas pela realidade. Se nossos julgamentos, etc. não forem refutáveis ou falsificáveis pela realidade, não dirão nada, não proibirão nenhum estado de coisas, serão vazios de conteúdo, totalmente vácuos – isto é, serão totalmente fajutos. Em outras palavras: a irrefutabilidade ou infalsificabilidade de nossos julgamentos, etc., longe de ser um mérito deles, é, para eles, um defeito epistemológico insanável – um pecado mortal no plano da epistemologia.

    Essa tese me fascina – porque ela me permite voltar a fazer contato com as idéias do filósofo que, dentre todos, mais me fascina, como filósofo e como pessoa: David Hume, sobre cujas idéias escrevi minha tese de doutoramento em 1970-1972 (defesa: 8 de Agosto de 1972, University of Pittsburgh). As idéias de Hume eram céticas – e ele, como pessoa, se comportava com a humildade intelectual que um cético deve ter (afinal, ele afirma não saber nada – vai se orgulhar de quê?) e Popper diz ser essencial nos eternos buscadores da verdade.

    Hume, porém, se considerava um cético mitigado, não radical – porque ele achava que a natureza humana era muito bem feita. Apesar de sermos capazes de conquistas racionais maravilhosas, somos, em última instância, movidos pelas emoções – pelas paixões violentas que movem alguns, ou, como ele preferia, pelos sentimentos brandos e calmos que devem mover os que humildemente buscam a verdade sem nunca encontrá-la. Segundo ele, a natureza colocou em nós (pelo menos na maioria de nós) uma tendência a nos inclinar para o bem e para o certo… Assim, nos comportamos da maneira certa, a maior parte do tempo, mesmo que tenhamos dúvidas racionais sobre se aquele comportamento é, de fato, correto… Sabemos, por exemplo, dizia ele, que a lei empírica que afirma que “se saltarmos da janela do terceiro andar de um prédio, vamos nos esborrachar lá embaixo” pode ser falsa, porque é, em princípio, refutável e falsificável pelos fatos, não sendo, portanto, necessariamente verdadeira. Mas nossa natureza humana é feita de tal forma que ninguém salta do terceiro andar confiando apenas na refutabilidade ou falsificabilidade da lei…

    Assim, Hume é um cético que mantém a humildade dos buscadores da verdade que acreditam que nunca vão encontrá-la, daqueles que socraticamente afirmam saber que nada sabem, Mas, no fundo, ele se comporta como se houvesse coisas que ele sabe – e que ele, de alguma forma, sabe que sabe… Isso introduz uma contradição em sua obra? Creio que sim. Mas é admirável que ele a tenha admitido, tendo, conscientemente, se recusadoa se livrar dela. 

    Popper chegou a afirmar, peremptoriamente, que a verdade existe e que é possível encontrá-la – mas em seguida qualificou sua afirmação dizendo que, no entanto, nunca teremos justificação bastante para afirmar que a encontramos…

    Como Popper, Ayn Rand (1905-1982) não era humilde, como pessoa. Longe disso. Brigou com todo o mundo, excomungou discípulos que discordaram dela. Seu herdeiro intelectual só obteve o posto às custas de total servilismo intelectual e pessoal. Como Popper, suas idéias também apontam para a postura de quem busca a verdade. Mas diferentemente de Popper, ela acreditava (do ponto de vista epistemológico) ser perfeitamente possível encontrar ou alcançar a verdade. Na realidade, ela não tinha dúvida de que a havia encontrado… Sua busca da verdade, portanto, não era humilde… não era uma busca de quem sabe que não vai encontrá-la (como Hume), nem mesmo uma busca de quem temia que, se a encontrasse, não iria reconhecê-la como tal (como Popper). Epistemologicamente, ela era mais otimista do que Popper – e infinitamente mais otimista do que Hume…

    Ou seja, em Ayn Rand temos, na pessoa, o orgulho de quem encontrou a verdade – e, portanto, não a busca mais. Segundo Gide, isso nos deveria fazer duvidar dela. Na obra de Ayn Rand ela procura nos mostrar por que estaria justificada em afirmar que havia encontrado a verdade. Tendo a concordar que ela está certa em tanta coisa, mas…

    Com Popper e com Rand, e contra Hume, estou convicto de que a verdade existe e de que é possível aceder a ela. Mas, como disse, fico meio dividido entre, de um lado, a tese popperiana de que, mesmo que a verdade exista e seja encontrável, nunca poderemos ter certeza de tê-la encontrado, e, de outro lado, a tese randiana de que a verdade existe, é encontrável, e é possível ter certeza de que a encontramos (embora a justificativa dessa certeza seja extremamente complexa do ponto de visto filosófico).

    Fico dividido, humeanamente, no meio: humildemente buscando a verdade, ao mesmo tempo duvidando, intelectualmente, de todas as verdades, mas com uma tendência forte a acreditar que algumas aspirantes à verdade estão bem mais próximas dela do que outras… A questão que não consegui resolver ainda é se essa tendência é, como afirmava Hume, simplesmente uma característica não-racional de minha natureza humana, ou se ela é,racional como pretende Rand – pelo menos em parte….

    Talvez seja por isso que, mesmo quando julgo ter encontrado a verdade, procuro não ser arrogante – porque, quem sabe, eu estou errado e aquela besta arrogante ali do lado pode estar certa. 

    Se o relato da coisa ficou meio confuso, talvez seja porque a coisa seja confusa em si, não havendo como desconfundi-la sem distorcer a realidade…

    Em São Paulo, 18 de Novembro de 2009

    11/14/2009

    A tuberculose do faraó e outros bichos

    O besteirol que Antonio Cícero condena no artigo transcrito abaixo, publicado na Folha de hoje (14/11/2009), é antigo.

    Na minha modesta opinião, a onda começou com o livro The Social Construction of Reality, de Peter L. Berger e Thomas Luckmann, publicado em 1966.

    Esse pessoal quer sempre chamar a atenção: por isso dá nome um nome chamativo aos livros, ao qual, depois, acabam tendo de renunciar.

    No caso de Berger & Luckmann, o nome do livro era (em Português) A Construção Social da Realidade. A impressão que se tem, ao ler o título, é de que entidades como a Terra, a Lua, o Sol, os minerais, os vegetais, a sociedade, os próprios seres humanos – a Realidade – são todos “socialmente construídas”. Ou seja, se não houvesse os seres humanos vivendo em sociedade, não haveria a Terra, a Lua, o Sol, etc.

    Ao se ler o livro, fica-se a impressão de que os autores, embora pretendam estar falando da construção social da realidade, estão mostrando apenas, e se tanto, que a Realidade Social é construída. Mas isso acredito que ninguém conteste… A Realidade Social é dependente dos seres humanos vivendo em sociedade…

    No artigo transcrito abaixo, Antonio Cícero discute algumas teses absurdas dessa anta que é Bruno Latour – autor de Vida de Laboratório: A Construção Social dos Fatos CientíficosSubseqüentemente ele renegou o sub-título do livro. Mas as teses principais do livro, não. E as teses do livro corroboram o sub-título que ele afirma ter renegado…

    Enfim: O livro de Latour parece sugerir que não há fatos, que todos os fatos são socialmente construídos… Quando se vai ler o texto com atenção, se percebe que ele postula a construção social dos fatos científicos. Como a ciência é uma produção humana, e nós os humanos vivemos em sociedade, os fatos existiam antes, mas não como científicos… Funny. Como é que alguém se torna famoso dizendo esse besteirol???

    Deliciem-se com o artigo de Antonio Cícero.

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    http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq1411200926.htm

    Folha de S. Paulo

    Antonio Cicero

    A tuberculose do faraó


    Para o idealista Latour, natureza e realidade são o que cientistas decidem que sejam


    POR OCASIÃO da morte de Lévi-Strauss, o antropólogo francês Philippe Descola, interrogado sobre "quem seriam os gênios de hoje", citou, em primeiro lugar, Bruno Latour. Mal pude crer no que li. A primeira coisa que me vem à mente, sempre que leio ou ouço o nome de Latour, é o título do excelente livro de Alan Sokal e Jean Bricmont, "Imposturas Intelectuais".

    E, embora ele tenha merecido todo um capítulo nessa obra, esse título me vem à cabeça por outra razão: é que, anos atrás, caiu-me nas mãos um exemplar de um dos mais ridículos livros que já li: o "Jamais Fomos Modernos (Ensaio de Antropologia Simétrica)", de Latour, do qual me poupo -e ao leitor- de falar.

    Estaria Descola sendo sarcástico? Não. Ele pretendia estar sério. Isso me pareceu lamentável, tratando-se do diretor do Laboratório de Antropologia Social do Collège de France. Entretanto, lembrei-me de duas teses de Latour que, de tão grotescas, chegam até a ser engraçadas. Uma é sobre os dinossauros; a outra, sobre Ramsés 2º. O leitor talvez já as conheça, pois não são novas. Mas, na dúvida, vou contar ao menos a que fala de Ramsés 2º.

    Antes, observo que Latour é frequentemente classificado de "construtivista -ou melhor, construcionista- social". Isso não é surpreendente, já que seu livro "Vida de Laboratório", de 1979, escrito em parceria com o sociólogo inglês Steve Woolgar, tem como subtítulo "A Construção Social dos Fatos Científicos". Em 1986, porém, o subtítulo foi removido e Latour passou a recusar essa classificação.

    Contudo, sua recusa diz mais respeito ao adjetivo "social" do que ao substantivo "construção", pois ele continua acreditando que os fatos científicos são construídos. Para o idealista Latour, em última análise, a natureza e a realidade são aquilo que cientistas decidem que sejam, e não algo que preexista à investigação científica.

    Mas vamos à história. Em 1976, a múmia de Ramsés 2º, acometida por fungos e mofo, foi enviada à França para ser tratada. As fotos de sua chegada foram publicadas pela revista "Paris-Match", com a legenda: "Nossos cientistas socorrem Ramsés 2º, que adoeceu 3.000 anos após sua morte".

    Ao ler essa legenda, Latour precipitadamente pensou que ela se referia a outro fato: o de que os cientistas, tendo examinado os restos mortais do faraó, haviam anunciado a descoberta de que ele morrera de tuberculose. "Profundo filósofo", escreveu então, "aquele que redigiu essa legenda admirável". Por que "profundo filósofo"?

    Porque, ao contrário dos seres humanos que se guiam pelo bom senso, o autor dessa legenda teria "compreendido" que Ramsés 2º não poderia, no ano 1213 a.C., ter morrido de um bacilo que foi descoberto por Robert Koch somente em 1882...

    Para o bom senso "grosseiro", é claro que o bacilo já existia muitíssimo antes de Koch o descobrir. Já para o "sutil" Latour, "antes de Koch, o bacilo não tem existência real. [...] Os pesquisadores não se contentam com "des-cobrir': eles produzem, fabricam, constroem". Assim, o bacilo da tuberculose foi "construído" na época moderna.

    Mas, então, como é que ele pode ter causado a morte do faraó, em 1213 a.C.? "Afirmar, sem outras formalidades, que o faraó morreu de tuberculose", diz Latour, "significa cometer o pecado cardeal do historiador, o do anacronismo". Se fosse assim, seria anacronismo afirmar, "sem outras formalidades", que a lei da relatividade tivesse vigência antes de Einstein a demonstrar; ou que a lei da evolução das espécies vigorasse antes de ser enunciada por Darwin.

    E quais são as "outras formalidades"? Suponho que consistam em fazer a ressalva de que, para nós, que vivemos depois de 1976, o faraó morreu de tuberculose, mas não para quem viveu antes de 1976. Ora, se isso quer dizer simplesmente que antes de 1976 não sabíamos que o faraó em 1213 a.C. morreu de tuberculose, então é uma verdade: mas não passa precisamente da verdade trivial que o bom senso já conhecia, de modo que, nesse caso, Latour nada diz de novo.

    Se, por outro lado, quer dizer que, antes de 1976, o faraó, em 1213 a.C., não morrera de tuberculose, então é um disparate: é "nonsense", e é sem dúvida o que ele pensa, ao afirmar que, "antes de Koch, o bacilo não tem existência real".

    Mas devemos reconhecer ao menos um mérito ao artigo de Latour sobre Ramsés 2º: ele inadvertidamente efetua uma redução ao absurdo não só das suas próprias teses mas de todo o construcionismo contemporâneo.

    a.cicero@uol.com.br

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    Em Salto, 14 de Novembro de 2009

    10/18/2009

    Memory and Hope

    Em um grupo de discussão de que participo, sobre John Wesley, o fundador do Metodismo, alguém perguntou: "O que seria de nós metodistas sem nossa história?"

    Respondi assim, retomando algumas questões que já havia discutido neste space…

    Estou convicto de que nossa identidade é produto de nossa memória e de nossa esperança... Memória e esperança. Um professor meu no Seminário Presbiteriano de Pittsburgh (Dietrich Ritschl) escreveu, nos anos 60, um livro chamado Memory and Hope, que trata dessa questão... A questão da tradição face à modernidade, do passado face ao futuro...

    Tanto no plano institucional como no pessoal, somos, EM PARTE, o produto de nossa história, da vida que vivemos até aqui - na verdade, somos o produto de nossa memória de nossa história, de nossa memória da vida que vivemos. Isso me parece inegável. Por isso, é bom cultivar a memória de nossa história, de nossa vida, de nossas tradições -- mesmo que essa memória seja seletiva e condicionada pelo nosso presente e pela nossa visão do futuro. O Rubem Alves uma vez respondeu à pergunta: "Você ainda é protestante?" dizendo: "Claro! Sou, porque fui..."

    Mas o futuro também nos condiciona, tanto quanto, ou talvez ainda mais do que, o passado. Por isso, somos, também, EM PARTE, o produto de nossas esperanças, de nossos sonhos, de nossa visão do futuro, ou seja, aquilo que queremos ser. Não só somos o que fomos -- também somos aquilo que desejamos ser... 

    É nessa encruzilhada dialética da nossa memória (o passado) com nossa esperança (o futuro) que, no presente, construímos nossa vida e constantemente descontruímos e reconstruímos nossa identidade. Nossa liberdade (livre arbítrio) age aí: podemos decidir quanto do nosso passado vamos deixar influenciar nosso futuro - e quanto do nosso futuro vai orientar o nosso presente (e, talvez, até vai condicionar nossa memória do passado...).

    Em São Paulo, 18 de Outubro de 2009.

    10/4/2009

    Corrupção, a lei e a moralidade

    A Folha de S. Paulo lança hoje, através do seu Caderno + (Mais), um debate interessante em cima da questão da corrupção.

    O debate vai, naturalmente, além da questão da corrupção em si e de sua percepção pelos brasileiros, e envolve uma discussão interessante, não só de legislação anti-corrupção e de medidas jurídicas e políticas para impedir e punir a corrupção, mas, também, de questões morais e éticas importantes. Os textos, em seu conjunto, são um excelente livro-texto para um curso, de Ética.

    Transcrevi alguns dos artigos aqui, abaixo, numa ordem diferente da em que apareceram no jornal. Começo com os que são mais genericamente filosóficos. Deixo para o fim os textos com menor densidade filosófica, mas que discutem questões interessantes, como, por exemplo:

    • O brasileiro admite ser menos corrupto do que é na realidade?
    • Os mais ricos admitem ser mais corruptos do que os mais pobres?
    • Ou será que os mais ricos admitem mais corrupção porque a praticam mais?).

    Deixo de fora os textos que apenas mostram como tanta gente paga propina no Brasil, ou como é fácil, em São Paulo, tirar um documento totalmente falso para alguém que nunca existiu.

    Pretendo, no futuro, a essa coletânea de textos para debater alguns dos temas temas.

    Mas já levanto algumas questões:

    a) Corrupção é algo que se dá exclusivamente na esfera público-governamental? Por exemplo:

    • Parece claramente ser corrupção quando um funcionário ou agente público deixa de levar o público em conta para privilegiar o privado, em interesse próprio?
    • Será também corrupção quando uma ONG usa dinheiro recebido do governo (ou mesmo recebido em doação de pessoas físicas e jurídicas privadas) para finalidades alheias àquelas para as qual foi o dinheiro foi solicitado?
    • Será também corrupção quando uma igreja usa o dinheiro de ofertas dadas incondicionalmente para, digamos, comprar um avião que vai ajudar os líderes a fazer o seu trabalho – ou para comprar uma rede de televisão que ajuda a expandir o alcance da igreja?
    • Será também corrupção quando um executivo desfalca a empresa (privada) que representa ou dirige, ou seria este caso  apenas um roubo comum cometido por alguém que estava em posição privilegiada?
    • Será, por fim, corrupção pagar alguém para guardar lugar para a gente na fila do INSS, ou passar em sinal vermelho tarde da noite quando a rua está deserta, ou rodar pelo acostamento em congestionamento?

    b) Corrupção é um problema exclusivamente legal-jurídico-político ou é um problema também ético-moral? Certamente há muitas ações que consideramos moralmente erradas (e alguns gostariam de coibir pela lei) e outras que consideramos certas (e alguns gostariam de tornar legalmente obrigatórias), que nenhuma lei proíbe ou torna mandatórias. Mentir é uma ação geralmente considerada errada, do ponto de vista moral. Mas mentir, em condições normais, não é crime. Mentir só se torna crime naquelas situações (que envolvem o que normalmente se chama de “falsidade ideológica”) em que a lei exige que o cidadão diga a verdade. Um funcionário público que mente, com o intuito de enganar, para um jornalista está comentendo alguma sorte de corrupção? (Estou pressupondo que não haja nenhuma lei que exige que um funcionário público diga a verdade para a imprensa). É verdade que um Presidente da República que mente para o público, através da imprensa, e depois se constata que de fato mentiu, deliberadamente, pode perder a confiança do público – pelo menos de parte dele. Clinton mentiu até mesmo em juizo sobre Barbara Lewinsky. Mentira em juizo é perjúrio, e, portanto, crime. Mas se tivesse mentido apenas para os jornalistas, seria cabível considerá-lo corrupto e tentar impedi-lo de continuar no cargo?

    c) O texto de Hélio Schwartsman levanta a questão dos principais tipos de teoria ética: deontologismo (com sua ênfase no dever) e conseqüencialismo (tipo de teoria do qual o utilitarismo é o principal expoente). O debate entre esses dois tipos de teoria pode ser discutido em resposta à seguinte pergunta: Há como considerar imoral uma ação que não faz mal a ninguém, que não tem nenhuma conseqüência nociva? Há como considerar imoral uma ação que apenas faz bem? Mentir para a  Gestapo, durante a Segunda Guerra, negando ter visto judeus na vizinhança (quando se sabe até mesmo onde eles estão), é imoral? Mentir para um doente terminal, dizendo que há esperança de cura (quando se sabe que não há), é imoral, se a conseqüência é benéfica para o paciente? Para o deontologista, como Kant, mentir é sempre errado, em quaisquer circunstâncias, porque estamos vinculados a um imperativo categório que nos impõe o dever de sempre dizer a verdade, irrespectivamente das circunstâncias… Para o conseqüencialista, são as conseqüencias que determinam o que é certo ou errado. Mas, nesse caso, uma ação que não faz mal a ninguém nunca pode ser considerada imoral.

    Está posta a questão. Convido o debate.

    Eis os textos da Folha.

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    Folha de S. Paulo
    4 de Outubro de 2009

    Paradoxos morais

    Complexidade inerente às escolhas éticas ajuda a entender por que brasileiros ao mesmo tempo se dizem ciosos das leis e reconhecem praticar desvios

    HÉLIO SCHWARTSMAN
    DA EQUIPE DE ARTICULISTAS

    Setenta e quatro por cento dos brasileiros declaram sempre obedecer às leis, mesmo que isso possa custar-lhes uma boa oportunidade. Não obstante, 83% admitem já ter cometido pelo menos uma ação ilegítima, de um cardápio que traz desde sonegação de impostos até estacionar em fila dupla.

    A conclusão mais óbvia é que há gente mentindo. Outra, menos flagrante e de maior interesse, é que o comportamento ético constitui uma característica que resiste a abordagens puramente racionais -daí nossa indisfarçável ambiguidade ao lidar com escolhas morais.

    Numa simplificação grosseira da história da filosofia, existem duas matrizes de teorias éticas. A primeira, que podemos chamar de deontológica, tem como expoentes os sistemas de inspiração religiosa e Immanuel Kant (1724-1804).

    Aqui, são as ações e os princípios em que elas se fundam que importam. Regras como "não matarás" ou "não mentirás" valem incondicionalmente, seja porque estão amparadas por Deus, pelo imperativo categórico ou outra entidade abstrata.

    No polo oposto está o consequencialismo, cujos grandes defensores incluem Jeremy Bentham (1748-1832) e John Stuart Mill (1806-73). Basicamente eles dizem que não existem princípios externos que possam validar ou invalidar nossos atos. A única forma de julgá-los é por meio das consequências que produzem: são boas as ações que engendram bons resultados.
    É da condição humana flutuar entre essas duas matrizes, já que, tomadas em suas formas puras, ambas parecem incapazes de dar respostas razoáveis para nossas "necessidades sociais". A impossibilidade de mentir em qualquer caso preconizada por Kant me levaria, por exemplo, a revelar para um assassino onde sua próxima vítima se esconde.

    Já o consequencialismo me obrigaria a aceitar como moralmente válido o ato do médico que mata o sujeito saudável para, com seus órgãos, salvar a vida de cinco pacientes que necessitavam de transplantes.

    Na tentativa de estabilizar um pouco a situação, diferentes filósofos combinaram em diferentes proporções elementos deontológicos e consequencialistas. Os resultados, entretanto, sempre podem ser reduzidos a novas aporias.

    Instinto moral

    Mais recentemente, estudos éticos vêm recebendo apoio de outras ciências, como a psicologia e a biologia evolutiva. É nessa categoria que entra o trabalho de Marc Hauser consubstanciado no livro "Moral Minds" (Mentes Morais).

    A tese da obra de Hauser é que a faculdade moral é um "instinto". Não chega a ser um código penal, mas um conjunto de princípios elementares, comuns a toda a humanidade -coisas como não matar, não casar com a filha etc.-, e maleáveis o bastante para comportar variações culturais.

    Tal instinto pode ser modulado pelas emoções, como sugeria David Hume [1711-76], e pela razão, como queria Kant. Não matamos o motoboy que arranca o espelhinho de nosso carro tanto porque a maioria de nós tem repulsa ao assassinato (emoção) como também por temermos as consequências legais do gesto (razão).

    É principalmente na série de experimentos mentais conhecidos como "problema do trem" que Hauser busca apoio empírico a suas ideias.

    Vamos a dois exemplos: Denise é passageira de um trem cujo maquinista desmaiou. A locomotiva desembestada vai atropelar cinco pessoas que caminham sobre a linha. Ela tem a opção de fazer com que o comboio mude de trilhos e, assim, atinja um único passante. Ela deve acionar a alavanca?

    Cerca de 90% dos mais de 60 mil voluntários que responderam ao questionário de Hauser cederam à razão utilitária e disseram que sim. É melhor perder uma vida do que cinco.

    Hauser então coloca uma variante do problema. Frank está sobre uma ponte e avista um trem prestes a abalroar cinco alegres caminhantes. Ao lado dele está um sujeito imenso, que, lançado sobre os trilhos, teria corpo para parar a locomotiva, salvando os passantes. Frank deve atirar o gordão?

    Aqui, a maioria (90%) responde que não, embora, em termos racionais, a situação seja a mesma: sacrificar uma vida inocente em troca de cinco.

    Hauser sustenta que nosso "software" moral opera com parâmetros como tipo de ação (se pessoal ou impessoal, direta ou indireta), consequências negativas e positivas e, principalmente, a intencionalidade. No fundo, o que difere a ação de Denise da de Frank é que o sacrifício do passante solitário é uma espécie de efeito colateral (ainda que antevisto) de uma ação que visava a salvar cinco pessoas. Já atirar o gordão é um ato intencional, um homicídio, ainda que por um bem maior.

    É claro que o interesse pessoal também entra na conta. Se os cinco passantes são membros de minha família, vou hesitar menos antes de atirar o sujeito ponte abaixo. De modo análogo, serei capaz de encontrar razões "racionais" para justificar pecadilhos, por exemplo, de elisão fiscal: já dou muito dinheiro para o governo e vai tudo para a corrupção.

    Decididamente, não é fácil ser humano.

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    Do quanto somos (im)perfeitos

    Desconfiança generalizada em relação a a outras pessoas contrasta com o elevado padrão moral assumido individualmente pelos brasileiros

    RENATO LESSA
    ESPECIAL PARA A FOLHA

    Acrer em números, parece ser mais seguro emprestar seu carro a um amigo filiado ao PMDB do que a outro pertencente às hostes petistas. Com efeito, 93% dos respondentes simpáticos ao PMDB acham moralmente errado avançar um sinal de trânsito (ou furar um semáforo, o que vem a ser mais ou menos a mesma coisa). O escore petista limita-se tão somente a magros e preocupantes 71%.

    Já os apoiantes do PSDB são os mais tolerantes no que diz respeito a fornecer dados inverídicos para a Receita Federal. Isso a despeito -ou a propósito, sabe-se lá- da fúria fiscalista que o consulado de seu partido impôs ao país, no século passado.

    Para além do pitoresco -inevitável em qualquer tentativa de varredura de atitudes e opiniões em meio à população heteróclita-, há matéria para reflexão. Para já, gostaria de considerar os seguintes aspectos: a definição conceitual de corrupção, os marcadores de ética e moralidade, os perfis de admissibilidade quanto a práticas ilícitas e a distinção entre autopercepção e avaliação pública.

    O que é corrupção

    Para 43% dos respondentes, o termo refere-se a um conjunto de práticas fixadas na esfera pública. Para 21%, corrupção está associada a comportamentos individuais -levar vantagem, traição, deslealdade etc.

    Um terceiro conjunto, de 19%, associa o conceito a "roubar bens/dinheiro".

    Quando questionados a respeito de que instituições concentram com maior ênfase práticas corruptas, os respondentes elegem os poderes Executivo e Legislativo, federal e estaduais. Há, contudo, alguma estratificação nessas respostas.

    Quanto maior a escolaridade, maior a desconfiança institucional: o Poder Executivo federal é mencionado negativamente por 83% dos que possuem educação fundamental; aqueles com educação superior marcam 92%. A mesma progressão pode ser encontrada de acordo com variações da renda familiar e de classificação econômica.

    Variações à parte, é possível dizer que a desconfiança é pesada e generalizada. Os campeões da pureza, tais como a Igreja Católica, as Forças Armadas e a imprensa, são julgados como corruptos por, respectivamente, 53%, 54% e 61% do total dos entrevistados.

    Não é pouco. Ainda que algum viés de classe se manifeste na avaliação dos poderes públicos, a concentração das desconfianças gerais nesse âmbito parece reeditar o clássico juízo de Louis-Antoine-Léon Saint-Just: "Qualquer povo tem apenas um inimigo poderoso, e este é o governo".

    Marcadores de ética

    Os entrevistados foram submetidos a uma bateria de 32 ações hipotéticas condenáveis [genéricas, acrescidas de cinco ações de políticos, policiais e outros servidores] para revelar a ordem de suas aversões éticas e morais. O resultado agregado da simulação é curioso: há um padrão generalizado de repulsa às ações hipotéticas, com algumas variações significativas.

    Vejamos: os menos educados e mais pobres demonstram maior rigorismo moral em todos os quesitos. Trata-se de variação, contudo, que não agride a sensação de certa homogeneidade.

    Há, ainda, marcadores mais finos. Dois deles podem ser licenciosamente designados como "kantianos". O resultado não é de todo mau, mas um tanto desequilibrado: 74% concordam com a ideia de obediência à lei como algo superior ao interesse privado (adeptos de um imperativo categórico moral).

    Já apenas 56% concordam com o diagnóstico de que as pessoas estão dispostas a "tirar vantagens" umas das outras (ou tomá-las como meios, e não como fins). O desenho revela assimetria entre autoavaliação e avaliação dos outros como sujeitos morais. A destacar, ainda, os mais velhos e a malta da classe D/E como antropologicamente mais otimistas.

    Admissibilidade

    Os entrevistados foram convidados a revelar admissibilidade -ou não- com relação a "práticas ilegítimas". De forma mais agregada, 83% dos respondentes admitem tê-las cometido, em diferentes escalas de gravidade (leve, média e pesada).

    Trata-se de aspecto importante, pois revela forte adesão ao "ilegítimo", a despeito das respostas anteriores dotadas de maior rigorismo. Nada de errado com isso: não somos animais socráticos, para os quais o conhecimento do bem conduz necessariamente a seu cumprimento.

    No entanto, há distinções importantes: quanto maiores os níveis de educação e de renda familiar e mais elevada a classificação econômica, maior a admissibilidade. Para uma imagem mais nítida, 93% dos que possuem educação superior admitem envolvimento; o escore cai para 74% para os que têm educação fundamental.

    E mais: se tomarmos o envolvimento com práticas ilegítimas pesadas, os mais educados ganham dos menos educados por uma razão de 2,5; os de maior renda ganham dos de menor renda com uma razão de 4 e os de classe A/B ganham dos D/E por uma razão de 6,5.

    Há algo aqui, ressalvada a insinceridade dos mais pobres.

    Talvez uma pálida reedição de velha máxima de San Tiago Dantas, para horror dos demofóbicos: o povo enquanto povo é melhor do que a elite enquanto elite.

    Assimetrias do mundo

    Não ficamos de todo "mal na fita". Mas há coisas curiosas. O alto padrão de admissibilidade evapora-se quando os entrevistados são submetidos a 39 perguntas sobre diversos ilícitos. O que emerge é uma população ordeira que, no pior dos casos, admite delitos leves: contrabando, compra de produtos piratas, colar em provas etc.

    É espantoso ver que 94% dos respondentes jamais ofereceram dinheiro para agentes públicos que, para 87%, jamais o solicitaram. Assim como Nelson Rodrigues duvidava dos vídeos dos jogos, eu duvido desses números.

    Mas, como disse, não ficamos mal na fita. Há uma generalizada e consistente presença de marcadores morais e éticos. A variabilidade não elimina a evidência de que o piso é alto. Cremos saber o que é a corrupção e onde e quando se apresenta. No mais, desconfiamos dos outros.

    Com efeito, 82% das pessoas dizem não admitir mudar seu voto por dinheiro, embora 79% estejam certas de que os brasileiros em geral estão dispostos a fazê-lo. É evidente a assimetria, já antes apontada, entre autoavaliação ética e moral e expectativa do comportamento dos demais. Os "demais" -outras pessoas, o governo, os políticos etc.- parecem ser, afinal, sempre piores. Enfim, somos falíveis e desconfiados, pero no assustadores.


    RENATO LESSA é professor de teoria e filosofia política no Iuperj e na Universidade Federal Fluminense e diretor-presidente do Instituto Ciência Hoje.

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    Mais ricos assumem mais ilicitudes

    Índices dos que estudaram mais e ganham mais são maiores do que números dos que têm menor escolaridade e renda

    DA REDAÇÃO

    Os mais ricos, mais escolarizados, mais jovens e os que moram nas regiões Norte e Centro-Oeste foram os que admitiram mais fortemente ter cometido alguma prática ilegítima, de acordo com a pesquisa Datafolha.

    Dos entrevistados, 83% reconheceram ter cometido alguma irregularidade. Destes, 7% assumiram ter cometido 11 ou mais das 37 propostas na pesquisa e foram classificados como infratores graves ou pesados; 28% disseram ter cometido entre cinco e dez atos ilegítimos e são infratores médios; 49% reconheceram quatro ou menos atos desse porte e são os infratores leves.

    Entre os mais ricos, 97% reconheceram ter cometidos atos ilegítimos, sendo, desses, 17% infratores graves, 42% médios e 37% leves. Entre os mais pobres, 76% afirmaram ter praticado ilicitudes, sendo 4% graves, 19% médias e 54% leves. O reconhecimento de infrações aumenta conforme cresce o rendimento do declarante. Entre os que ganham de 2 a 5 salários mínimos, a taxa é de 87% e, entre os que ganham de 5 a 10 mínimos, é de 95%.

    Na estratificação por escolaridade, a admissão de ilicitudes chega a 93% entre os de nível superior, a 91% entre os de nível médio e a 74% entre os que têm o ensino fundamental.

    Os jovens são os que mais assumem suas infrações: 93% entre 16 e 24 anos, 91% entre 25 e 34 anos, 82% entre 35 e 44 anos, 80% entre 45 e 59 anos e 59% entre os mais velhos.

    No Norte/Centro-Oeste, a taxa é de 90%, contra 85% no Sudeste, 81% no Nordeste e 77% no Sul. Nas capitais, as taxas ficam em 87%, contra 81% no interior.

    Por religião, os espíritas são os que assumem mais erros (97%), contra 82% dos evangélicos e 81% dos católicos. Entre os que se dizem sem religião, 92% admitiram ter cometido infrações. Neste grupo, estão os que mais assumiram faltas pesadas, com taxa de 12%.

    Na divisão por sexo, 86% dos homens admitiram faltas, contra 80% das mulheres; 11% deles assumem faltas graves, contra 3% delas.

    A taxa dos que admitem ilicitudes entre os que estão empregados ou trabalham é de 87%, 12 pontos acima dos 75% que estão desempregados ou não trabalham.

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    A Escandinávia é aqui

    Capacidade de discernimento e alta "consciência ética" reveladas pela pesquisa não dão ao brasileiro o benefício da dúvida, "apenas o peso da responsabilidade", diz antropóloga

    LÍVIA BARBOSA
    ESPECIAL PARA A FOLHA

    Corrupção não é apenas tema de política, de polícia e de Justiça. É, também, um tema de cultura no sentido antropológico do termo. Diz respeito aos limites e às fronteiras classificatórias que as diferentes sociedades estabelecem entre as ações humanas e suas respectivas avaliações sobre estas. Isso nos leva diretamente a questões de moral e ética, pois ambas implicam teorizações e julgamentos sobre formas de se comportar.

    A pesquisa Datafolha apresenta um vasto panorama do que nós, brasileiros, pensamos sobre corrupção e comportamentos éticos e moralmente corretos, além do que afirmamos fazer em diferentes situações.

    O que de imediato nos salta à vista, a partir das respostas dadas, é a clareza que os brasileiros possuem sobre o que é ético e moralmente correto e sobre o que vem a ser corrupção. Apesar das profundas desigualdades econômicas e sociais que transpassam nossa sociedade, os brasileiros de diferentes faixas etárias, de gênero e de renda, níveis de escolaridade e filiações partidárias pensam igual e "corretamente" a respeito desses temas. Em um total de 37 perguntas, que variam entre pagar para obter uma carteira de motorista até oferecer uma caixinha por fora, passando por falsificação de documentos, 18 alcançaram taxas de pelo menos 90% de respostas iguais entre todos os grupos, algumas atingindo a marca de 97%; 13 ficaram entre 80% e 89% de concordância e 6 tiveram respostas que variaram entre 63% e 79%.

    Deve-se ressaltar que essas taxas correspondem a respostas "absolutamente certas" do ponto de vista ético e moral no contexto cultural das sociedades contemporâneas e estabelecem uma clara distinção entre o público e o privado, classificando como "errada" a transgressão destas fronteiras.

    As perguntas que obtiveram as porcentagens mais baixas tratam de "infrações" que podem ser consideradas "leves", tais como comprar ingresso de cambistas e baixar música da internet, sinalizando para uma hierarquia moral entre os diferentes tipos de comportamento.

    Quando os entrevistados são instados a responder sobre o próprio comportamento, em 39 questões, o quadro não se altera. Por exemplo, 94% dos respondentes afirmam que nunca falsificaram carteira de estudante para pagar meia-entrada, 70% nunca avançaram o sinal vermelho e 83% nunca pararam o carro em fila dupla.

    Respostas "absolutamente certas", proclamaria entusiasticamente qualquer apresentador de programa de TV de perguntas e respostas.

    Contradição

    Os dados sugerem a seguinte conclusão: ou vivemos na Escandinávia e não sabíamos e, portanto, devemos comemorar; ou o que fazemos na prática corresponde pouco ao que dizemos que fazemos e pensamos que deveria ser feito.

    Consideremos os seguintes dados, entre outros que poderiam ser apresentados: a sonegação pode chegar a até R$ 200 bilhões anuais, segundo o Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário; por causa da pirataria, 2 milhões de empregos formais deixam de ser criados, segundo a Frente Parlamentar contra a Pirataria; o Brasil está no 72º lugar entre 180 países em termos de corrupção, de acordo com a Transparência Internacional; ocorreram nada menos do que 225 escândalos políticos desde a década de 1980, todos devidamente esquecidos e arquivados no nosso imaginário e talvez na Justiça. Evidentemente, portanto, não estamos na Escandinávia.

    Sobra-nos, assim, a espinhosa opção de admitirmos que nosso comportamento concreto conflita com as representações que fazemos de nós mesmos. Como, segundo as respostas dadas, sabemos discernir com clareza o que é ou não corrupção, o que é ética e moralmente correto independentemente do nosso grau de escolaridade, renda, de gênero e partido político, não temos sequer o benefício da dúvida, apenas o peso da responsabilidade.

    Responsabilidade sobre o que fazemos e quem escolhemos para nos representar, que só aumenta quando imaginamos que políticos, servidores públicos e policiais -as figuras que mais povoam o imaginário da corrupção- não nasceram de chocadeira, não caíram de paraquedas em suas funções nem são de outro planeta.

    Ao contrário, representam uma parte do que somos e provavelmente como muitos de nós se comportariam caso estivessem naquela posição, relativizando o próprio comportamento, transformando corrupção em favor, neutralizando a impessoalidade no trato da coisa pública e a meritocracia em favor do nepotismo.

    Para quem pensa que corrupção e falta de ética são preocupações menores, não custa lembrar que elas matam como arma de fogo. É verdade que o sangue não escorre nas filas do INSS como no asfalto das grandes cidades.

    As vidas se apagam silenciosamente e o branco do colarinho não traz as marcas do crime cometido. Mesmo liberados, por nossas autoridades máximas, a nos comportar como aqueles pegos com dólares na cueca e com caixa dois, com a justificativa de que "todos fazem", isso em nada diminui nossas contradições nem nossa responsabilidade.


    LÍVIA BARBOSA é antropóloga, diretora de pesquisa da ESPM e autora de "O Jeitinho Brasileiro" (ed. Campus).

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    Corrupção é epidemia global

    Levantamentos indicam percepção de ilícitos semelhante em outros países e sensação de que políticas públicas fracassam no combate à prática, que pode ser minimizada, mas não abolida

    MARCOS FERNANDES
    GONÇALVES DA SILVA
    ESPECIAL PARA A FOLHA

    É comum, no Brasil, as pessoas acharem que o país está entre os mais corruptos do mundo ou até mesmo, no nível do puro senso comum, que o Brasil "é o país mais corrupto do mundo". Há também uma sensação disseminada de que nossas instituições são corruptas. A falta de informação sobre o tema, combinada com certa dose de ceticismo, baseado este, infelizmente, em ocorrências reais e lamentáveis na história recente, levam o brasileiro a acreditar em tais mitos.

    Todavia, temos que lidar com fatos, com dados empíricos para trabalhar qualquer questão social e política. O que os dados e pesquisas, então, indicam sobre a corrupção, sua percepção e seus aparentes danos sobre as instituições em outros países? Mostram que neste quesito não estamos sós e a verdade está lá fora, qual seja, a corrupção é uma epidemia social.

    Existem várias fontes de dados confiáveis para fazer uma avaliação de corrupção comparada entre países.

    Duas delas são o "Barômetro da Corrupção Global" (GCB), desenvolvido anualmente pela Transparência Internacional (TI, ONG transnacional de combate à corrupção), e o Banco Mundial, com o banco de dados de governança e ações anticorrupção.

    A primeira fonte de dados é desenvolvida com base em amostras estatisticamente robustas, confiáveis, de pessoas comuns, que relataram suas percepções e experiências com corrupção numa amostra atual de 73.132 indivíduos, envolvendo 69 países diversos em termos de nível de desenvolvimento, por exemplo Rússia, Dinamarca, Estados Unidos, Turquia, Islândia, Croácia, Líbano, Uganda, Argentina e Paquistão.

    A segunda está calcada em pesquisas mais aprofundadas que relacionam reforma do Estado, governo eletrônico, estruturas de governança e impactos da corrupção.

    Observa-se que a cobrança de propinas, especialmente associadas à "pequena corrupção" (suborno de servidores como policial, contínuo e fiscal, com quantias pequenas), é endêmica nos países estudados. Há dados que indicam um aumento da cobrança de propinas pequenas em 10% com relação a pesquisas passadas.

    Há ainda uma percepção generalizada de que as políticas de combate à corrupção realmente não funcionam.

    Esse ponto é importante, pois relata indiretamente uma descrença na lei, nas instituições formais do Estado e nos aparelhos de controle e fiscalização (e de investigação e punição).

    Descrédito

    É significativo a este respeito o caso da Coreia do Sul, onde 81% da amostra da população não acredita nas políticas de combate à corrupção em todos os níveis, da pequena corrupção à "grande corrupção", aquela ligada ao financiamento de campanhas, partidos políticos e ao poder político de fato. O caso argentino é semelhante: 81% não acreditam que se farão políticas de combate à corrupção. Em Israel, 87% não acreditam nas ações de governo para o combate à corrupção.

    Esses dados possuem um viés, é claro. Nesses países, recentes escândalos de corrupção podem ter moldado a percepção e as crenças das pessoas.

    Mas os dados são consistentes ao longo dos anos.

    Em segundo lugar, a crise de 2008 aparentemente aumentou a desconfiança nas corporações. De fato, desde a fraude da [companhia norte-americana] Enron, prenúncio de uma crise moral do capitalismo, a confiança das pessoas, em vários países, nas corporações (as principais instituições do capitalismo) despencou.

    Há um dado novo revelado pelo GCB 2009: os indivíduos entrevistados declaram em massa que, como consumidores, dariam um "prêmio" para empresas de boa conduta. Aparentemente, a tendência de o consumidor rastrear a cadeia de produção considerando aspectos sociais e de sustentabilidade chega, digamos, à "sustentabilidade moral".

    Em terceiro lugar, as percepções sobre as instituições formais (partidos, Estado, polícia etc.) continuam negativas e isso é devidamente quantificado. Aqui a questão é interessante, pois o Brasil não é tão diferente de outros países, sejam mais ricos ou pobres, desenvolvidos ou subdesenvolvidos ou emergentes de grande porte (Índia e Rússia -não há dados para a China).

    Na Índia, por exemplo, 58% da população considera os políticos entre os agentes públicos mais corruptos.

    As pesquisas do Banco Mundial apontam para o mesmo problema: a corrupção mina a crença nas instituições formais. As pesquisas e estudos de caso mostram soluções para o problema. Mas as soluções devem se basear em premissas básicas sobre o comportamento humano.

    Pesquisas em neuroeconomia, neuroética, ética experimental e psicologia moral indicam que, infelizmente, na média, as pessoas corroboram o ditado: "Todo mundo tem seu preço".

    O desenho prático de qualquer política de combate à corrupção deve levar em conta o que as ciências comportamentais têm a dizer sobre nós mesmos e como as regras devem ser construídas para que o jogo social se desen-role de forma a minimizar algo que sempre existiu: a corrupção.


    MARCOS FERNANDES GONÇALVES DA SILVA é economista e coordenador do Centro de Estudos dos Processos de Decisão da Fundação Getulio Vargas.

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    Em Salto, 4 de Outubro de 2009

    O que faz de um objeto uma obra de arte?

    Interessante a resposta de Jorge Coli na Folha de hoje (04/10/2009):

    “Quem decide que uma pintura, uma escultura, um copo d'água é arte?

    O artista, se tem algum reconhecimento, ou seja, se alguém acreditar que ele possui esse poder transformador.

    O crítico, que celebra e convence, ou que despreza e condena (a fórmula negativa mais forte, a única que de fato anula o feitiço, se alguém acreditar nela, está claro, é: "Isso não é arte". Muito usada, em escritos e em conversas, de preferência num tom de superioridade, por críticos seguros de si, contentes de vestirem a casaca e a cartola do mágico).

    As galerias, os museus, que aceitam tal ou qual obra e recusam outras.

    O mercado, que gradua seus valores segundo a intensidade das crenças.”

    http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs0410200912.htm 

    Pretendo voltar ao tema…

    Mas me lembro desde já de algo relevante. Ayn Rand, que tinha idéias muito bem definidas sobre arte, não poupava a suposta arte que habita nossos museus de (assim chamada) arte moderna. Criou em uma de suas newsletters uma seção de horrores. Numa das edições contou que havia desaparecido de um museu uma famosa peça. Ninguém imaginava o que pudesse ter acontecido, pois as portas não estavam arrombadas, nem havia qualquer outro indício de roubo. Desesperada, a Polícia perguntou ao janitor que limpava o museu à noite se ele não havia visto a peça desaparecida. “Vi, sim”, disse ele… “E joguei fora. Pensei que era lixo…”

    Isso sugere que o fato de uma objeto estar numa galeria ou num museu não garante que é obra de arte… Tampouco o garante o fato de algum louco estar disposto a pagar milhões de dólares pelo objeto. Sobrariam, como critérios sugeridos pelo Jorge Coli, o próprio artista e o crítico. 

    Eu me pergunto: e a coisa em si, o objeto que se pretende seja arte? Sua natureza ou suas características não têm nada que ver com essa questão???

    Tudo isso me faz lembrar também de uma famosa controvérsia de meu querido Monteiro Lobato com… quem mesmo??? :-) Tem gente que fica arrepiada só de eu mencionar Lobato nesse contexto…

    Em Salto, 4 de Outubro de 2009.

    8/11/2009

    A vida (ou um protesto contra os deuses falsificados)

    Fazia semanas que não escrevia nada aqui, até que algumas notícias sobre o Vice-Presidente José de Alencar me fizeram quebrar o silêncio.

    O silêncio não era só decorrente de falta de inspiração. No último mês, às vezes até tive inspiração. Tenho uns dois posts na seção Drafts/Rascunhos para provar...

    O que me aborrece é a encheção de saco depois que eu escrevo algo. Sinto-me como se vivesse no campus de uma universidade americana politicamente correta – PC de A a Z. Qualquer coisa que eu escrevo aborrece ou irrita a alguém, que se julga visado, atingido, provocado, ultrajado. Por isso, concordei em deixar os frutos de minhas inspiração na seção Drafts/Rascunhos, esperando por dias menos hostis…

    Não que eu, no passado, tenha dado bola para reclamações e encheções de saco. Não. Nunca dei. O problema é que agora estou envolvido em um processo prolongado e irritante de separação e tudo que eu escrevo pode ser usado contra mim na Justiça… “Eis, Meritíssimo, como o autor (ou réu) é insensível, egoísta, …”.

    Confesso: enche o saco. Quando não é a ex, são os filhos, tentando preservar a ex… Quando não é nem a ex nem os filhos, são os ex-colegas da UNICAMP (que Deus se  apiade deles – tenho certeza de que não sabem conjugar o verbo “apiedar-se”, por isso o uso aqui). 

    A vida por vezes é complicada… Não queria ter ex-nada. Queria poder escrever quando me vem a inspiração…

    Arre!!!

    Mas achei algo que me interessa e que, acredito (posso estar errado), não vai ofender ninguém.

    Acabei de ler na VEJA de 12 de Agosto (amanhã!), nas fls. 148-151, algo interessante sobre o acaso. É isso mesmo, sobre o acaso, a chance, o aleatório, o não determinado, o imprevisível.

    Diz o artigo ali disponibilizado (termo horrível, mas vá lá) que a Apple, fabricante do invencível iPod, teve de fazer um ajuste no seu popular produto. Como todos sabem, o iPod, da mesma forma que qualquer outro tocador de músicas em formato mp3, dá ao usuário a opção de ouvir suas músicas em ordem (?) aleatória. Ordem aleatória, convenhamos, é desordem – é nenhuma ordem. É a seqüência, bem… a seqüência que vier…

    Acontece que, quando você ouve suas músicas em (des)ordem aleatória, pode muito bem dar-se o caso de você, não importa quantas músicas tenha no seu aparelhinho, ouvir a mesma música duas vezes quase em seguida – ou até mesmo exatamente em seguida.

    Ora, os usuários do iPod protestaram. Se eu ouço a mesma – notem bem: A MESMA – música duas vezes em seguida, ou quase em seguida, essa porcaria não pode estar tocando as músicas aleatoriamente… Afinal de contas, eu tenho quatro mil mp3s nessa porcaria, não é possível que eu ouça, no modo aleatório, a mesma música duas vezes em seguida, – ou quase.

    (Confesso que minha tendência seria me referir ao iPod como essa b… – mas dessa vez seria a minha mulher a protestar contra o meu uso de profanidade (vale dizer, palavrão – no caso, palavrinho) – e, convenhamos, as considerações da mulher da gente têm muito peso…)

    Enfim… Diante dos protestos, a Apple decidiu mudar o algoritmo, de modo a evitar que, num processo aleatório, a mesma música fosse tocada duas vezes em seguida, ou quase em seguida, antes que todas as outras fossem tocadas…

    Como diz o artigo da VEJA: “A Apple … reprogramou os aparelhos [iPods] para evitar repetições”.

    Que vergonha, Steve Jobs!!! Se você tivesse sempre sucumbido à pressão popular a gente não teria hoje Macs, iPods, iTouchs, iPhones.

    Como você mesmo reconheceu, os iPods e iTouchs agora operam, no modo aleatório, de forma menos aleatória do que deveria ser o caso, apenas para que possam parecer mais aleatórios… Ou seja: você permitiu que seus brinquedos abandonassem a verdadeira aleatoridade apenas para que pudessem parecer (falsamente) mais aleatórios.

    Ou seja: você abandonou a realidade pela aparência – e assim, no meu livro, se tornou um fake.

    Contra isso, o meu protesto, ainda que solitário. E olhe que eu até gostava de você…

    Convenhamos… A vida é muito menos aleatória do que imaginamos. Isso não quer dizer que há mais ordem nas coisas do que nós imaginamos. Quer dizer, isto sim, que há menos desordem (caos) nas coisas do que nós imaginamos.

    Azar dos que propõem teorias da complexidade e do caos. A ordem é mais natural do que parece…

    Mas a turba não se conforma com isso… Pressiona os deuses terrenos (a saber, os Steve Jobs da vida) para que tornem a vida menos aleatória do que o não terreno a fez… E os deuses terrenos, talvez por vaidade, sucumbem à pressão, e tentam se fazer mais deuses do que o próprio. E assim se mostram apenas deuses falsificados…

    Em São Paulo, 11 de Agosto de 2009.

    5/20/2009

    Problemas e transdisciplinaridade

    A divisão entre filosofia e ciência, bem como a divisão da filosofia em áreas especializadas, ou da ciência em várias ciências específicas (ou do conhecimento em várias disciplinas), não reflete, necessariamente, distinções existentes na realidade.

    Os problemas que confrontamos não se encaixam naturalmente como filosóficos ou científicos, ou, ainda que possam ser chamados de, digamos, científicos, não vêm rotulados como físicos, ou químicos, ou biológicos, ou humanos.

    Nós os dividimos nessas várias categorias por conveniência.

    Houve tempo (na época de Aristóteles, por exemplo) em que o filósofo tratava do que hoje chamamos de filosofia, ciência, etc. Mesmo no século XVIII a ciência ainda era chamada de filosofia natural – e o que chamamos hoje de filosofia era chamada de filosofia moral.

    Logo, a maior parte dos problemas que nos confrontam são, para usar as categorias de hoje, transdisciplinares. É só aplicando a eles categorias artificiais que os “disciplinamos”. Não me parece necessário conhecer toda a filosofia ou toda a ciência, ou todas as disciplinas, para reconhecer um problema como trandisciplinar.

    Em São Paulo, 20 de Maio de 2009

    4/18/2009

    Suicídio e eutanásia a pedido vs eutanásia não solicitada, infanticídio e aborto

    Refletindo sobre o último post que publiquei, decidi, além de colocar a questão em discussão, “colocar a minha cara para bater”, como em geral se diz, me posicionando – ou, pelo menos, procurando me posicionar.

    É desnecessário dizer que a questão é sem dúvida complicada. Para tentar resolvê-la, precisamos procurar ou criar princípios gerais defensáveis que norteiem a nossa convicção e, se for o caso, a nossa decisão.

    o O o

    Eis alguns comentários iniciais que a colocação da questão em discussão provocou em sites ou áreas de sites sob o meu controle:

    Minha amiga Jurema Sampaio disse no Facebook:

    “Essas questões de cultura X direitos humanitários são tão delicadas, né? Eu realmente não saberia defender nem um, nem outro lado da questão com consistência... Particularmente e por motivos totalmente pessoais eu sou a favor da vida!”

    Eva Alves, comentou aqui neste space:

    “Muito complexa tal questão. Eu votaria pelo o amor. Liberdade!!! Que utopia...”

    Alguém que assina Fabiana, escrevendo sob o username de Gustavo Lopes Cardoso, comentou aqui neste space:

    “Para mim, que tenho um filho com hidrocefalia de 9 anos, e que no período de 24 de Janeiro de 2008 a Janeiro de 2009 passou por 12 (doze) cirurgias no cérebro, essa reação de tirar a criança do hospital é inaceitável. Eles querem que todos nasçam perfeitos. É perfeição tirar a vida de uma criança? O que é entendido sobre perfeição?”

    o O o

    PRIMEIRO PRINCÍPIO

    Bem, concordando com a Jurema, eu também sou, em princípio, a favor da vida. Só que meu posicionamento a favor da vida não é absoluto e radical: ele vem com qualificações, que vou procurar esclarecer ao longo deste post. Essas qualificações são necessárias porque sou radicalmente a favor da liberdade pessoal, discordando, portanto, da Eva Alves de que a liberdade seja uma utopia (embora reconhecendo que seja muito difícil ser radicalmente livre). E, discordando um pouco da Fabiana, eu gostaria que todos nascessem perfeitos – entendendo “perfeitos” como “perfeitamente normais”. Mais sobre isso adiante.

    Estou convicto de que deva haver, no caso de seres humanos, uma presunção em favor da vida. (Essa presunção a meu ver não deve existir, a meu ver, no caso de animais criados para serem abatidos e servir de alimentação para os seres humanos e no caso de animais que podem nos fazer mal ou incomodar bastante, como cobras, escorpiões, ratos, baratas, mosquitos e pernilongos. Para mim o ser humano está numa categoria à parte).

    Mas essa presunção pela vida é algo semelhante à presunção pela inocência em alguém acusado de um crime. Até que julgado, mesmo alguém preso em flagrante ou “com a boca na botija” deve ser presumido inocente. Mas depois do julgamento, essa presunção pode ser derrotada. No caso da vida, acho que há circunstâncias em que a presunção, depois de exame cuidadoso, pode ser derrotada, e que concluamos que, naquele caso, a morte é preferível. Esse eu designaria como o meu primeiro princípio: ele afirma o direito de o ser humano, dentro de sua liberdade, optar por encerrar a sua vida. 

    SEGUNDO PRINCÍPIO

    Meu segundo princípio elabora sobre o anterior, considerando que questões como essa – envolvidas em casos de suicídio e eutanásia – são questões extrememente pessoais, a serem enfrentadas e decididas pelos indivíduos que são sujeitos da questão, com base em seus princípios, seus valores e seus critérios de decisão. Isso quer dizer que essas questões não devem ser resolvidas por terceiros, isto é, pela família, pelo grupo social, etc. com apelo a valores culturais compartilhados. É o indivíduo que decide se vai se matar. A eutanásia é uma forma de suicídio assistido, que tem lugar quando a pessoa que quer se suicidar não tem condições de fazê-lo sozinha.

    A BUSCA POR UM TERCEIRO PRINCÍPIO

    Meu terceiro princípio vai além e tem de ser buscado no contexto em que os sujeitos da questão não têm condições de analisar a questão e tomar uma decisão. Isto se dá quando se trata de pessoas que estão em coma profundo (em geral há muito tempo e sem perspectiva de voltarem a viver normalmente), bem como no caso de doentes mentais graves que se tornaram incapazes de decidir, no caso de crianças, e, naturalmente, no caso de fetos humanos, que são seres vivos que ainda ainda nem nasceram. (A questão do momento em que o óvulo fecundado se torna um ser humano é parte do problema a ser resolvido nessa questão).

    O caso da indiazinha relatado pelo UOL, em reportagem transcrita em meu post anterior, parece-me ser desse tipo.  A reportagem e os entrevistados falam em infanticídio. Mas creio que se trata, na realidade, de uma eutanásia não solicitada, que, se realizada, resultará, naturalmente, na morte intencional da criança, e, portanto, de alguma forma, em infanticídio. Mas distingo claramente esse caso, em que, parece-me, se trata de uma eutanásia praticada em alguém que não tem condições de decidir e que, pelo que tudo indica, não tem condições de sobreviver normalmente, de casos como os que acontecem na China em que crianças absolutamente normais são colocadas à morte, ou abandonadas para que morram, apenas porque são, digamos, do sexo errado, isto é, do sexo geralmente não desejado pelos pais naquela cultura, que é o feminino. (Não uso o termo “gênero” para me referir a pessoas: para mim, pessoas têm sexo; quem tem gênero são palavras).

    Que princípio invocar aqui nesse caso ou em casos como esse? Qual seria meu terceiro princípio? Confesso que encontro dificuldades aqui que não encontro no caso dos outros dois princípios já enunciados. Mas não vou, por causa disso, deixar de procurar um princípio…

    Primeira Observação

    Em primeiro lugar, estou convicto de que devemos fazer uma distinção entre:

    (a) casos de pessoas, adultos ou crianças, portadores de problemas (“imperfeições” de fabricação ou adquiridas), em geral físicos, mas admitindo a possibilidade de que também sejam mentais, em relação às quais (pessoas) a melhor opinião do dia nos garante que elas não têm condições de viver (ou voltar a viver) uma “vida normal”; e

    (b) casos (a regra em abortos, mas que se aplica também a infanticídio) em que fetos e crianças absolutamente normais são condenados à morte ou impedidos de viver apenas porque não são desejados.

    Esta primeira observação apenas enfatiza a necessidade de fazer essa distinção e de lidar com cada caso [(a) e (b)] separadamente.

    Antes de ir adiante e lidar, separadamente, com (a) e com (b), quero fazer dois comentários sobre a terminologia que usei nessa primeira observação que acabei de fazer:

    Primeiro. Coloquei o termo “imperfeições” entre aspas para tentar me safar das críticas. Havia usado inicialmente o termo “defeitos”, mas, depois de comentário da Silvana, optei por usar “imperfeições”, para discutir a questão da “perfeição”.  Estou perfeitamente consciente de que as aspas e a troca de “defeitos” por “imperfeições” talvez não sejam suficientes e as críticas venham de qualquer jeito. Solicito, porém, que procuremos discutir a questões desarmados e, se possível, desapaixonados, embora reconheça que isso seja difícil.

    Segundo. Também coloquei a expressão “vida normal” entre aspas por causa da notória dificuldade de definir o que seja uma vida normal. A nossa vida neste planeta teria sido muito mais pobre se algumas pessoas (em geral artistas) que estavam muito longe do padrão de normalidade tivessem tido suas vidas ceifadas por estarem fora da curva da normalidade (em especial na área mental).

    Segunda Observação

    Em segundo lugar, vou tratar, aqui nesta Segunda Obseervação, de apenas parte daquilo que foi previsto sob (a), na Primeira Observação. Nas demais observações tratarei do restante. Aqui nesta Segunda Observação elaborarei um esboço do que poderia ser o Terceiro Princípio.

    Estou disposto a admitir que, no caso de pessoas (adultos ou crianças, bem como de fetos, não prejulgando se são pessoas) portadoras de problemas de natureza física que afetam a sua consciência, em relação às quais a melhor opinião do dia nos garante que não têm condições de viver uma vida normal e consciente, terceiros por elas responsáveis tenham o direito de decidir que devam ser objeto de eutanásia (não solicitada, evidentemente) ou aborto.

    Estou me referindo aqui a casos de pessoas que estão em coma profundo considerado, pela melhor opinião do dia, irreversível, ou de crianças anencéfalas, ou de fetos com problemas congênitos que inviabilizem uma vida normal e consciente.

    Talvez o caso da indiazinha coberto na reportagem do UOL se encaixe aqui. Não sei suficiente sobre ele. Se se encaixar, eu estaria disposto a admitir que os pais da menina tomem essa difícil decisão – e que a lei os proteja de acusações de ação criminosa.

    Terceira Observação

    Em terceiro lugar, reluto em admitir o princípio esboçado na Segunda Observação a casos de fetos com problemas físicos sérios, detectados antes do nascimento, mas que não impeçam a sua vida consciente depois do nascimento (como muitos dos casos das vítimas de Talidomida), e a casos de fetos com problemas mentais (incluindo a Síndrome de Down), também detectados antes do nascimento, que podem prejudicar a vida consciente normal depois do nascimento mas não impedi-la de todo.

    Apenas para esclarecer, nestes casos a opção a discutir seria o aborto, não a eutanásia.

    Quarta Observação

    Não admito, de forma alguma, a aplicação do princípio esboçado na Segunda Observação a pessoas que perderam, ou nunca tiveram, alguns de seus membros ou alguns dos seus órgãos do sentidos.

    Por mais lamentáveis que sejam essas situações elas são claramente distintas.

    Apenas para esclarecer, nestes casos a opção a discutir seria tanto a eutanásia como o aborto, dependendo do caso.

    Quinta Observação

    Em quinto lugar, reluto (ainda mais do que no caso da Terceira Observação) em aplicar o princípio esboçado na Segunda Observação a casos de gravidezes não desejadas em que o feto não apresenta nenhum problema.

    (A opção a discutir aqui seria o aborto, não a eutanásia.)

    Sexta Observação

    Em sexto lugar, recuso-me totalmente a aplicar o princípio esboçado na Terceira Observação a casos como os que acontecem na China em que uma criança perfeitamente normal e já nascida é abandonada para morrer ou mesmo ativamente assassinada simplesmente porque é, digamos, do sexo considerado errado. Para mim, aqui se passou do limite do discutível.

    Sétima Observação

    Em sétimo lugar, e por fim, nos casos em que afirmei relutar em admitir a aplicação do princípio esboçado na Terceira Observação (mas não nos casos em que afirmei me recusar a admitir a aplicação desse princípio), eu me recusaria a condenar as pessoas encarregadas de tomar a decisão, respeitando plenamente uma decisão diferente da minha. Na realidade, apesar de dizer que reluto em admitir a aplicação do princípio esboçado nesses casos, declarei essa relutância em teoria, sem estar confrontado com um caso real e concreto em que a decisão caberia a mim, e, por isso, devo respeitar a dificuldade daqueles que têm de tomar essa decisão.

    o O o

    Acho que, por enquanto, é isso…

    Em São Paulo, 18 de Abril de 2009

    4/3/2009

    Dogmatismo e doutrinação

    Embora esteja perfeitamente ciente das dificuldades envolvidas no empreendimento, não hesito em defender a tese de que a pessoa dogmática (no sentido em que venho usando a expressão neste Space) em geral foi doutrinada em algum momento de seu desenvolvimento – e não conseguiu, posteriormente, se livrar dos efeitos perniciosos da doutrinação.

    Uma das dificuldades na defesa dessa tese está nos próprios conceitos envolvidos: dogmatismo e doutrinação. Nos últimos posts (e em diversos outros, anteriores) venho discutindo o conceito de dogmatismo – relacionando-o com os conceitos de verdade, orgulho e intolerância. Agora vou discutir um pouco o conceito de doutrinação, usando, para isso, material que elaborei a partir de 1975, quando comecei a pesquisar a questão da Educação vs Doutrinação na UNICAMP. Essa foi minha primeira área de pesquisa na UNICAMP, o que mostra, pelo menos, a persistência de alguns interesses meus…

    Tem havido muita controvérsia, nos últimos tempos, em relação ao conceito de doutrinação. Não vou, aqui, tentar solucionar todas as disputas e divergências: vou apenas me situar dentro da controvérsia, apresentando e defendendo um conceito de doutrinação e mostrando como o conceito de doutrinação aqui caracterizado se relaciona com o meu conceito de educação.

    Não tenho nenhuma dúvida, hoje, de que a educação é um processo amplo de desenvolvimento humano que abrange não só a dimensão cognitiva das pessoas mas também sua dimensão física ou psico-motora, ativa ou empreendedora, afetiva ou emocional, social ou interpessoal, moral ou ética, e, até mesmo, sua espiritual. Pode ter até faltado alguma dimensão aqui, mas, se faltou, a sua ausência dificilmente afetará o curso da argumentação.

    Quando se trata de educação, dentro dessa visão, mesmo que nos restrinjamos à dimensão estritamente cognitiva do processo, o foco está no desenvolvimento de competências e habilidades de natureza cognitiva (pensar, raciocinar, argumentar, imaginar, etc.), não na tentativa de incutir ou inculcar na pessoa pontos de vista específicos, com o objetivo de que se tornem crenças suas.

    Quando falo em doutrinação, porém, o escopo é bem mais restrito. Aqui não se trata do desenvolvimento do ser humano em suas múltiplas dimensões, nem mesmo de seu desenvolvimento na dimensão cognitiva: trata-se, simplesmente, de um processo que visa conseguir que a pessoa venha a adotar determinados pontos de vista, isto é, que venha a acreditar neles – mais (e pior) ainda: que venha a acreditar neles de forma inabalável, não importa que evidências e argumentos possam existir ou vir a aparecer…

    O principal objeto da doutrinação são, portanto, pontos de vista, ideologias, visões políticas ou religiosas do mundo, etc. – ou seja, aquilo que se convencionou chamar de doutrinas. Explicarei adiante por que digo “principal objeto da doutrinação”: faço-o porque estou convicto de que até mesmo teorias científicas podem ser objeto de doutrinação. 

    Atitudes, hábitos, sentimentos, etc., por outro lado, claramente não podem ser objetos de doutrinação. Parece-me absurdo dizer que alguém foi doutrinado a adotar uma atitude passiva diante da violência, por exemplo, ou a tomar banho diariamente, ou a assumir um sentimento de solidariedade com os desvalidos, ou qualquer coisa desse tipo. Alguém pode ter sido condicionado a adotar uma atitude passiva diante da violência, ou a banhar-se diariamente, ou a sentir-se solidário, mas condicionamento e doutrinação não são a mesma coisa. Condicionamento tem que haver com comportamento, atitudes, hábitos, sentimentos. Doutrinação tem que haver com pontos de vista, ideologias, visões políticas ou religiosas do mundo, etc. (ou, excepcionalmente, com teorias – até mesmo científicas).

    Alguém pode, portanto, ser doutrinado no ponto de vista de que se deva tomar uma atitude passiva diante da violência - mas isto já é outra coisa: estamos lidando, agora, com um ponto de vista e não com uma atitude (embora a atitude possa vir a decorrer do ponto de vista). Não há, por exemplo, garantia de que quem acredite que se deva tomar uma atitude passiva diante da violência venha a assumir esta atitude quando confrontado com a violência: há sempre a possibilidade de que haja incoerência entre o pensamento e comportamento de uma pessoa, e já os gregos nos alertavam acerca da "akrasia", ou fraqueza da vontade.

    Parece haver pouca dúvida, portanto, de que o objeto da doutrinação são pontos de vista, ideologias, visões políticas ou religiosas do mundo, etc., excluindo-se da esfera da doutrinação até mesmo competências e habilidades cognitivas ou intelectuais.

    Uma segunda consideração geral que devo fazer acerca do conceito de doutrinação é a de que, muito embora a educação possa ocorrer de modo não-intencional, a doutrinação parece ser sempre intencional. Além disso, a educação pode ocorrer, e freqüentemente ocorre, em situações que não envolvem ensino: seu vínculo é com a aprendizagem, não necessariamente com o ensino, e não há dúvida de que pode haver, e freqüentemente há, aprendizagens que não são decorrentes do ensino. A doutrinação, porém, parece sempre ocorrer em situações, mesmo fora da escola, que podem ser caracterizada como de ensino: alguém supostamente sabe alguma coisa (acredita em alguma coisa) e quer transmitir esse suposto saber a outra pessoa, para que esta também o adote.

    Na mesma linha, parece-me fazer bastante sentido dizer que alguém educou-se, isto é, aprendeu determinadas coisas, ou desenvolver determinadas competências e habilidades, não me parece fazer o menor sentido afirmar que alguém doutrinou-se: sempre optamos por dizer que alguém foi doutrinado.

    Feitas essas colocações preliminares, estou em condições de conceituar, mais precisamente, a doutrinação: doutrinação é o processo através do qual uma pessoa ensina a outra determinados pontos de vista, ideologias, visões políticas e religiosas de mundo, etc., com a intenção de que esses pontos de vista (etc.) se tornem crenças, isto é, sejam aceitos pela pessoa que é objeto do processo doutrinatório – até mesmo não obstante evidências e argumentos que possam existir ou vir a aparecer. (No caso da doutrinação, a “vítima” é sempre objeto, nunca sujeito, do processo).

    Isso posto, passo a discutir rapidamente os três critérios de doutrinação que têm sido sugeridos na literatura pedagógica: conteúdos, métodos, intenções e conseqüências.

    Desde que, como acabei de observar, doutrinação tem que haver apenas com pontos de vista, ideologias, visões de mundo, etc., a tese de que o critério que permite demarcar a doutrinação da educação é o conteúdo, isto é, o objeto específico do processo, faz  certo sentido.

    Por outro lado, também faz sentido a tese de que a educação faz uso de métodos abertos e liberais, em que se propõem, analisam e discutem livremente idéias e abordagens alternativas e se faz um exame crítico e rigoroso dos fundamentos epistemológicos das idéias e abordagens em questão, com a expectativa de que a escolha cabe a quem está se educando, enquanto a doutrinação, posto que tem por objetivo conseguir que a pessoa aceite (acredite em) determinados pontos de vista, ideologias, visões de mundo, etc., faz uso de métodos fechados e iliberais, em que, freqüentemente, se omitem abordagens e alternativas que podem conflitar com esse objetivo (ou, se elas são mencionadas, o são já com as “respostas” a elas previamente elaboradas e empacotadas…)

    Mas, a meu ver, o que realmente distingue a educação da doutrinação é basicamente a intenção das pessoas que conduzem o processo.

    Essa tese tem implicações importantes:

    Primeiro, não são apenas pontos de vista, ideologias e visões de mundo que podem ser objeto de doutrinação: até mesmo teorias científicas podem sê-lo, se são ensinadas com a intenção de que sejam aceitas (cridas) como a verdade final, irrespectivamente de evidências e argumentos.

    Segundo, até mesmo ideologias e visões políticas e religiosas do mundo podem fazer parte de um processo educativo, se a intenção é discuti-las, com o objetivo de compreendê-las, com base nas evidências e argumentos que levaram determinadas pessoas a propô-las um dia – e não simplesmente conseguir que sejam aceitas (cridas).

    Isto quer dizer que não há conteúdos que estejam inevitavelmente fadados a serem objeto de doutrinação, como sugerem alguns, embora alguns conteúdos sejam, talvez, mais preferidos por doutrinadores do que outros. Com esta tomada de posição me contraponho àqueles que afirmam que em áreas coimo religião, moralidade, e política não há como evitar a doutrinação e que em áreas como a física e a astronomia não faz sentido falar-se em doutrinação, pois os que assim afirmam privilegiam o conteúdo como critério básico e fundamental de diferenciação entre educação e doutrinação. Dada minha conceituação de educação e doutrinação, tanto podem a religião, a moralidade e a política fazer parte de um processo verdadeiramente educacional, como podem a física e a astronomia fazer parte de um processo tipicamente doutrinacional, como bem mostram algumas pesquisas recentes na área da história e sociologia da ciência, notadamente o trabalho de Thomas S. Kuhn.

    Por fim, é evidente que seja de esperar que as conseqüências do processo educacional e doutrinacional sejam diferentes. Em condições normais, é de esperar que a educação, se bem sucedida, resulte numa mente e numa atitude aberta, enquanto a doutrinação resulte numa mente e numa atitude fechada, visto que seu objetivo é a pura e simples aceitação de pontos de vista, ideologias, visão de mundo, teorias, etc.

    É de esperar, conseqüentemente, que, em decorrência da educação, as crianças (ou as pessoas, em geral, porque adultos também continuam permanente a se educar) venham a ter uma mente e uma atitude mais aberta e flexível, que se preocupe com a análise e o exame das evidências e dos argumentos, condicionando sua aceitação ou não de determinados pontos de vista, ideologias, visões de mundo, ou mesmo teorias científicas, a esse exame das evidências e dos argumentot. Também é de esperar que, em decorrência da doutrinação, as crianças (ou as pessoas em geral, porque adulto também pode ser doutrinado, como os partidos políticos e as igrejas muito bem sabem) venham a ter uma mente mais fechada, uma atitude mais dogmática e menos crítica, um apego mais emocional do que evidencial às suas convicções, pois lhe foi ensinado preocupar-se mais com certas doutrinas ou teorias do que com a análise crítica, isenta de preconceitos, das evidências e dos argumentos que podem dar, ou não, sustentação a essas doutrinas e teorias.

    É de esperar que a pessoa doutrinada acabe por assumir a seguinte atitude: "É nisto que acredito: vamos ver agora se encontro alguma evidência ou argumento para fundamentar minhas crenças". Com essa atitude, é possível que suas razões para aceitar suas crenças não passem de racionalizações.

    Concluo, portanto, chamando a atenção para o fato de que a educação é um processo que tem por objetivo a expansão de capacidades, a ampliação de horizontes, a abertura da mente, o incentivo à livre opção dos alunos, após análise e exame críticos das evidências e dos argumentos, enquanto a doutrinação é um processo que tem por objetivo a transmissão e mera aceitação de pontos de vista, ideologias, visões de mundo, teorias, etc., a redução de horizontes, a limitação de opções (freqüentemente a uma só), o fechamento da mente, o "desprivilegiamento" das evidências e dos argumentos em favor da crença, o foco na persuasão e não no livre exame.

    Assim, na educação busca-se, humildemente, a busca da verdade, através do estudo e do exame das evidências e dos argumentos, enquanto na doutrinação quem ensina coloca-se na posição do orgulhoso possuidor da verdade – e espera que o doutrinado venha a adotar uma postura semelhante...

    Desde que, na busca da verdade, não se pode negligenciar nenhum aspecto da evidência ou do argumento que possa ser relevante, a educação é tolerante, pois mesmo as críticas e a evidência negativa – diria mesmo que principalmente essas – podem contribuir para que nos aproximemos da verdade. Na medida, porém, em que a verdade já é considerada uma possessão, não há mais por que buscá-la, por que tolerar pontos de vista alternativos e conflitantes, pois na medida em que esses divergem da "verdade" só podem ser errôneos ou falsos, e quem os propõe só pode ser ignorante ou mal-itencionado.

    Daí a conexão, já mostrada nos posts anteriores, entre a crença na posse da verdade e a intolerância, mesmo a repressão, de pontos de vista divergentes, que ocorre quando há doutrinação.

    Invertendo um pouco o foto, poderia dizer, num espírito popperiano, que a educação se preocupa muito mais em dar ao indivíduo condições de não ser facilemente persuadido, de evitar o erro, a falsidade, e, assim, aproximar-se, cada vez mais, da verdade, enquanto a doutrinação se preocupa muito mais com a persuasão, com a transmissão de crenças que se supõem verdadeiras (ou, mesmo, em alguns casos piores de doutrinação, crenças em que o próprio doutrinador não acredita, mas que, por algum motivo, deseja incutir nos outros – vide a triste figura do Grande Inquisidor em Irmãos Karamazov).

    Diante do que foi dito fica claro por que a doutrinação é indesejável e moralmente censurável. Quem doutrina não respeita a liberdade de pensamento e de escolha de seus alunos, procurando incutir crenças em suas mentes e não lhes dando condições de livremente analisar e examinar as evidências e os argumentos, decidindo, então, por si próprios; quem doutrina desrespeita os cânones de racionalidade e objetividade, tratando questões abertas como se fossem fechadas, questões incertas como se fossem certas, enunciados falsos ou não demonstrados como verdadeiros como se fossem verdades acima de qualquer suspeita.

    É verdade que esta tomada de posição contra à doutrinação já implica, ao mesmo tempo, um comprometimento com certos valores e ideais básicos, como o da liberdade de pensamento e de escolha dos alunos (e de qualquer pessoa), o da racionalidade, etc. É importante que se reconheça isto para que não se incorra no erro de pensar que a adoção desses valores e ideais não precisa ser defensável, e, mais que isto, defendida, através da argumentação. Argumentos contra a adoção desses valores e ideais precisam ser cuidadosamente analisados para que, ao propor a tese da indesejabilidade e falta de apoio moral da doutrinação, não o façamos de modo a imitar os doutrinadores, isto é, tratando como fechada uma questão que é realmente aberta.

    Em São Paulo, 3 de Abril de 2009

    4/2/2009

    Verdade, dogmatismo e intolerância (mais uma vez)

    Nos últimos posts (e em alguns outros anteriores) tratei da questão da verdade: da sua busca (em geral humilde) e da crença (em geral orgulhosa) em sua posse.

    A busca da verdade é em geral humilde porque só busca quem não possui – e não possuir algo tão importante quanto a verdade só pode produzir no despossuidor um sentimento de humildade.

    A convicção de que se está de posse da verdade, entretanto, implica que a busca da verdade terminou, posto que ela foi encontrada. Se encontramos a verdade e estamos de posse dela, não há por que continuar a buscá-la.

    Por isso, a crença na posse da verdade em geral gera o dogmatismo: se estou de posse da verdade, eu sei o que é a verdade. Assim, em vez de procurá-la, basta que eu a anuncie, repita, pregue…

    O dogmatismo, por sua vez, acaba por engendrar o orgulho, em geral presunçoso: tanta gente procura a verdade e não a acha, e aqui estou eu de posse dela! Eu devo estar fazendo algo certo para merecê-la! A posse da verdade se dá, no entender do seu presumido possuidor, de uma de duas maneiras: ou porque ele, estando a procurar a verdade, encontrou-a, por seus próprios méritos, ou porque, sem que ele a procurasse, a verdade lhe foi por alguma razão revelada! Ambas as maneiras geram orgulho e presunção.

    Se estou de posse da verdade, por que pretender humildade, por que não me orgulhar disso, por que não declarar aos quatro ventos que eu tenho a verdade e os outros, que de mim discordam, simplesmente estão errados (ou por ignorância, ou por ma fé, ou por teimosia)?

    Por fim, o dogmatismo e o orgulho geram, o mais das vezes a intolerância: se estou de posse da verdade, por que perder tempo discutindo questões que já considero resolvidas? Por que, na verdade, tolerar o erro dos que discordam de mim? Se eu tiver como obrigar os outros a concordar comigo, que possuo a verdade, seja pelo uso da força, seja pelo uso da manipulação dissimulada, eu devo fazê-lo – é assim que raciocinam os dogmáticos.

    Quando se está buscando a verdade, o erro até se justifica, porque, errando, podemos eventualmente chegar mais próximos da verdade (vide Popper, mencionado a este respeito no penúltimo post). Mas quando se acredita estar de posse da verdade, o erro deixa de ter papel importante: por que, então, tolerá-lo?

    Assim, a crença na posse da verdade leva ao dogmatismo, ao orgulho, e, finalmente, à intolerância.

    o O o

    Ludwig Wittgenstein, em seu famoso livro de aforismos, Philosophical Investigations, sugeriu que os diferentes universos de discurso em que vivemos são incomensuráveis – i.e., não podem ser comparados e cotejados com outros. Isso porque, segundo ele, cada universo de discurso é, como se fosse, um “language game”, um jogo de linguagem com suas próprias regras. Dentro do jogo, é sempre possível discutir se uma regra foi violada ou não. Mas não é possível, de dentro de um jogo, avaliar as regras do outro – nem ficar fora de todo jogo e comparar um jogo com outro.

    Assim, da mesma forma que não posso criticar o jogo de xadrez a partir do jogo de damas, muito menos a partir do jogo de ping pong, não posso criticar o jogo da religião a partir do jogo da ciência ou do jogo da filosofia… Cada jogo tem suas próprias regras, e cada um de nós pode jogar diferentes jogos em diferentes momentos – mas só pode jogar um jogo de cada vez. Quando estamos jogando um determinado jogo, ficamos presos – encasulados, engaiolados – dentro dele.

    Discordo dessa visão de Wittsgenstein, porque estou convicto de que não só é possível criticar um universo de discurso a partir de outro, como também é possível alcançar um certo ponto neutro e objetivo a partir do qual posso comparar os méritos e deméritos relativos de dois ou mais universos de discurso. Abrir mão dessa convicção é abrir mão da possibilidade de a razão interferir em nossos juizos.

    Creio que Wittgenstein, ao chamar os diferentes universos de discurso de jogos pré-julgou o relacionamento que eles têm, ou podem ter, uns com os outros. Além disso, jogos são atividades que são definidas arbitrariamente. Não têm uma relação com a realidade física ou social que possa ser analisada pela razão. Os universos de discurso têm – ou pretendem ter.

    o O o

    O que eu acho curioso, mas totalmente injustificado, no discurso dos dogmáticos é o fato de que, a partir de seu universo de discurso, sentem-se totalmente em liberdade para criticar outros universos de discurso. Um cristão evangélico, digamos da igreja Assembléia de Deus, não tem o menor problema em criticar diversas doutrinas da Igreja Católica que ele rejeita. Em geral tem argumentos prontos para criticar, por exemplo, as doutrinas da infalibilidade papal, da mediação de Maria e dos santos, etc. No entanto, em regra não tem o menor interesse em sequer conhecer quais as críticas que os católicos fazem a algumas doutrinas favoritas suas, como, por exemplo, a do batismo do Espírito Santo e a da glossolalia (falar em línguas estranhas). O católico, em geral, comporta-se de maneira semelhante em relação às outras variantes do Cristianismo.

    Ou seja, para os dogmáticos, Wittgenstein está errado na medida em que é possível criticar um universo de linguagem (os das demais pessoas) a partir do próprio (o meu)… No entanto, os dogmáticos raramente se interessam em conhecer as críticas que os demais universos de linguagem fazem ao seu… Defendem, assim, uma análise crítica de uma mão só… – não uma discussão crítica de duas mãos!

    o O o

    Em Inglês há uma expressão interessante  “to think out of the box”: pensar fora da caixa – a caixa sendo as gaiolinhas que presentam os universos de discurso em que transitamos. A vida racional pressupõe e exige que sejamos capazes de fazer isso. Wittgenstein afirmou que isso é impossível – e, conseqüentemente, negou a possibilidade da operação da razão na avaliação de nossos universos de discurso. Para ele, a razão só opera dentro de um universo de discurso, ou language game – não entre eles.

    A maior parte dos dogmáticos religiosos é wittgensteiniana nesse sentido… Dadas suas premissas, conseguem argumentar até de forma bastante racional. Mas são incapazes de analisar e avaliar racionalmente suas premissas. Se a premissa é a de que a Bíblia é a palavra inerrante de Deus e a única regra de fé e prática, raciocinam bem dentro da premissa, tentando compatibilizar textos bíblicos que parecem incompatíveis uns com os outros, tentando mostrar que são verdadeiros mesmo textos que claramente parecem falsos, tentando justificar a aceitação de textos que claramente parecem ter conotação ou conseqüências imorais… Mas não conseguem colocar suas premissas em cheque – muitas vezes recusando-se até mesmo a ler textos ou autores que poderiam levá-los a fazer isso… 

    Por ora, é isso. Continuo depois.

    Em São Paulo, 2 de Abrild de 2009

    3/30/2009

    Verdades absolutas e conhecimento relativo: uma réplica

    Wanderley Navarro, que, como eu, é fascinado por esse assunto, escreveu o seguinte comentário ao meu post “Verdades absolutas e conhecimento relativo”.

    “Se a verdade para Popper é a consonância entre o enunciado e a realidade e, ao mesmo tempo, afirma que nunca podemos estar certos desta consonância então como concluir que a verdade absoluta existe? Entendo que Popper ’acredita’ na verdade absoluta, apenas acredita. Existe alguma verdade que não é absoluta? Existe, por oposição, a verdade provisória? Parece-me que o enunciado e a realidade que ele pretende expressar são de naturezas diferentes. Por mais que sejam gêmeos continuarão sendo duas realidades. Mas, acima disso tudo, será que isso que chamamos de realidade existe independente de mim, ou seja, do sujeito que intermedia essa relação. Popper, parece, acredita que sim. Acredita.”

    Vou tecer algumas considerações sobre essa réplica do Navarro.

    1) Sem dúvida Popper é um realista filosófico. Para ele a tese de que a realidade existe independente de mim, ou de minha apreensão dela através da percepção, é uma conjetura filosófica que, embora submetida a uma bateria incomparável de críticas (tentativas de refutação) por parte dos empiristas ingleses, do próprio Kant, e, mais recentemente, dos chamados fenomenalistas e de muitos outros, tem sobrevivido galhardamente a essas críticas.

    2) Para Popper, os méritos epistêmicos dessa tese são algo objetivo que independe do fato de ele, Popper, ou de qualquer outra pessoa, acreditar na tese (que é algo subjetivo). Os méritos epistêmicos de uma tese são avaliados mediante uma análise e avaliação objetiva e rigorosa de possíveis contra-exemplos a ela, análise e avaliação essas que independem de haver alguém que acredite nessa tese.

    3) Sem dúvida Popper também entende a verdade, apud Alfred Tarski, como a correspondência (ou consonância, como prefere o Navarro) entre um determinado enunciado, ou conjunto de enunciados, e a realidade. Assim, ele considera que a tese de que nossos enunciados podem descrever ou explicar verdadeiramente a realidade também é uma conjetura filosófica que, embora submetida a uma bateria incomparável de críticas (de idealistas e pragmatistas, entre outros), tem sobrevivido a essas críticas.

    4) O mesmo que se disse em “2” sobre “1” pode-se dizer aqui, agora, sobre “3”.

    5) Dado o seu entendimento de verdade, e sua avaliação da tese descrita em “3”, Popper considera verdadeiro, no meu entendimento, o enunciado condicional “Se p (onde p é um enunciado) é verdadeiro, então p é verdadeiro de forma absoluta”. (Esse enunciado se aplica inclusive a si próprio). Isso quer dizer que, para Popper, não há verdades que não sejam absolutas.

    6) Evidentemente, um enunciado e a realidade que ele pretende descrever ou explicar são de naturezas diferentes. Popper exprime isso dizendo que a realidade é parte do Mundo 1 e o enunciado é parte do Mundo 3 – mundos esses que são relacionados ou intermediados pelos objetos constantes do Mundo 2: a nossa mente.

    Acho que é isso que me ocorre no momento, Navarro… Volte à carga.

    Em São Paulo, 30 de Março de 2009

    3/29/2009

    Pensar muitas vezes dói…

    Meu último post aqui neste Space, no dia 20/3, teve o título de “Verdades absolutas e conhecimento relativo”. Terminei-o me referindo a Popper e afirmando:

    “A busca da verdade se dá, segundo Popper, no exame sério, rigoroso e imparcial de pontos de vista que conflitam com os nossos. É neles que vamos eventualmente ser capazes de identificar pontos fracos em nossas formulações, em nossos argumentos, em nossas evidências – e, assim, conseguir avançar um pouco mais na direção da verdade. Quando a gente rejeita o que antes considerava verdadeiro, faz um progresso significativo na direção da verdade.”

    Hoje, domingo, 29/3, encontro na Folha de S. Paulo, o interessante artigo, transcrito abaixo, de Nicholas D. Kristof, sobre a leitura de notícias e opiniões (que caracterizam os jornais) pela Internet. O artigo foi originalmente publicado em The New York Times.

    Vale a pena ler – embora não concorde com o principal ponto dele, a saber, a tese de que a leitura de notícias e artigos de opinião pela Internet está restringindo a pluralidade de pontos de vista que era representada pelos jornais – porque na Internet, supostamente, cada um vai e seleciona apenas as notícias que lhe interessam e os pontos de vista com os quais concorda.

    Discordo de Kristof por uma solitária razão que passo a resumir. 

    Mesmo antes da Internet, quando as pessoas buscavam notícias e opiniões em jornais, e não na Internet, cada um (com exceção de alguns leitores profissionais) tinha o seu jornal favorito. Em São Paulo, por exemplo, os mais conservadores liam o Estadão, os mais – como direi? – metidos a progressistas liam a Folha. No Rio, o Globo e o JB desempenhavam função semelhante. 

    A tendência de buscar alimento intelectual ou munição para discussões em pessoas que pensam mais ou menos como a gente é uma tendência natural – independentemente da Internet. É por isso que precisa ser combatida – e Popper é o antídoto por excelência a ela.

    A Internet, na verdade, nos oferece mais diversidade do que um jornal como o Estadão ou a Folha jamais o fez. Basta estarmos interessados em buscá-la. O problema não é a Internet: é a falta de interesse da maioria das pessoas em analisar com cuidado possíveis falhas em suas idéias favoritas – quanto mais em procurar opiniões de pessoas  que discordem delas.

    É essa mesma atitude que explica a relutância da maior parte das pessoas que têm religião de assistir a serviços religiosos em igrejas (sinagogas, mesquitas) diferentes da sua. Em seus próprios locais de culto elas se sentem confortáveis sabendo que o que vão ouvir tenderá a reforçar aquilo em que já acreditam. Num serviço religioso diferente seriam provavelmente obrigadas a pensar (e numa roda de ateus, então, nem se diga) – e pensar muitas vezes dói…

    Foi por isso que Bertrand Russell uma vez disse que a maioria das pessoas prefere morrer a pensar (e muitas dessas de fato morrem sem ter jamais realmente pensado um pensamento divergente daqueles que lhes foram incutidos na infância pelos aparelhos de formação de opinião que existem na sociedade).

    Em São Paulo, 29 de Março de 2009

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    Do New York Times
    Transcrito na Folha de S. Paulo
    29 de Março de 2009

    ARTIGO

    O meu jornal diário

    Ao contrário do jornal, internet nos leva a buscar ideias afins às nossas e vai nos isolar ainda mais em nossas câmaras políticas hermeticamente fechadas

    NICHOLAS D. KRISTOF
    DO "NEW YORK TIMES"

    Alguns dos obituários mais recentes não estão saindo nos jornais, mas são dos jornais. O "Seattle Post-Intelligencer" é o mais recente a desaparecer, excetuando um resquício de que vai existir só no ciberespaço, e o público está cada vez mais buscando as notícias que consome não nas grandes redes de televisão ou em fontes impressas em tinta sobre árvores mortas, mas em suas incursões on-line.

    Quando navegamos on-line, cada um de nós é seu próprio editor, o guardião de sua própria entrada. Selecionamos o tipo de notícias e opiniões de que mais gostamos.

    Nicholas Negroponte, do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts), chamou a esse produto noticioso emergente "O Meu Jornal Diário". E, se isso for uma tendência, que Deus nos salve de nós mesmos.

    Isso porque existem provas bastante convincentes de que, em geral, não desejamos realmente informações confiáveis, e sim as que confirmem nossas ideias preconcebidas. Podemos acreditar intelectualmente no valor do choque de opiniões, mas na prática gostamos de nos encerrar no útero tranquilizador de uma câmara de ecos. Um estudo clássico enviou despachos a republicanos e democratas, oferecendo-lhes vários tipos de pesquisas políticas, ostensivamente de uma fonte neutra. Os dois grupos mostraram mais interesse em receber argumentos inteligentes que corroborassem suas ideias preexistentes.

    Também houve interesse mediano em receber argumentos tolos em favor das posições do outro partido (nós nos sentimos bem quando podemos caricaturar os outros). Mas houve pouco interesse em estudar argumentos sólidos que pudessem enfraquecer as posições anteriores de cada um. Essa constatação geral foi repetida muitas vezes, como observou o autor e ensaísta Farhad Manjoo em 2008 em seu ótimo livro "True Enough: Learning to Live in a Post-Fact Society" [Verdade Suficiente: aprendendo a viver numa sociedade pós-fatos].

    Permita que deixe uma coisa clara: eu mesmo às vezes sou culpado de buscar verdades na web de maneira seletiva. O blog no qual busco análises sobre notícias do Oriente Médio frequentemente é o do professor Juan Cole, porque ele é inteligente, bem informado e sensato -em outras palavras, frequentemente concordo com ele. É menos provável que leia o blog de Daniel Pipes, especialista em Oriente Médio que é inteligente e bem informado -mas que me parece menos sensato, em parte porque frequentemente discordo dele.

    Segregação

    O efeito do "Meu Jornal" seria nos isolar ainda mais em nossas câmaras políticas hermeticamente fechadas. Um dos livros mais fascinantes de 2008 foi "The Big Sort: Why the Clustering of Like-Minded America is Tearing Us Apart" [A grande classificação: porque a divisão da América em agrupamentos de ideias iguais nos está dividindo], de Bill Bishop.

    Ele argumenta que os americanos vêm se segregando em comunidades, clubes e igrejas onde são cercados por pessoas que pensam como eles.

    Hoje, diz Bishop, quase metade dos americanos vive em condados que votam por maioria avassaladora em candidatos democratas ou republicanos.

    Nos anos 60 e 70, em eleições nacionais igualmente disputadas, só cerca de um terço dos eleitores vivia em condados que apresentavam maiorias avassaladoras nas eleições.

    "O país está ficando mais politicamente segregado -e o benefício que deveria advir da presença de uma diversidade de opiniões se perde para o sentimento de estar com a razão que é próprio dos grupos homogêneos", escreve Bishop.

    Um estudo que abrangeu 12 países concluiu que os americanos são os que demonstram menos tendência a discutir política com pessoas de visões diferentes, e isso se aplica especialmente aos mais bem instruídos. Pessoas que não concluíram o ensino médio tinham o grupo mais diversificado de pessoas com quem discutiam ideias. Já as que tinham concluído a faculdade conseguiam colocar-se ao abrigo de ideias que lhes eram incômodas.

    O resultado disso é a polarização e a intolerância. Cass Sunstein, professor de direito em Harvard que agora trabalha para o presidente Obama, fez uma pesquisa que mostrou que, quando progressistas ou conservadores discutem questões como ação afirmativa ou mudanças climáticas com pessoas que pensam como eles, suas ideias rapidamente se tornam mais homogêneas e mais extremas que antes da discussão.

    Em um estudo, alguns progressistas inicialmente temiam que as ações para enfrentar as mudanças climáticas pudessem prejudicar os pobres, enquanto alguns conservadores inicialmente se mostravam a favor da ação afirmativa. Mas, depois de discutir a questão durante 15 minutos com pessoas que pensavam como eles, os progressistas se tornavam mais progressistas, e os conservadores, mais conservadores. O declínio da mídia noticiosa tradicional vai acelerar a ascensão do "Meu Jornal"; vamos nos irritar menos com o que lemos e veremos nossas ideias preconcebidas confirmadas com mais frequência. O perigo é que esse "noticiário" autosselecionado aja como entorpecente, mergulhando-nos num estupor autoconfiante por meio do qual enxergaremos as coisas em preto e branco, sendo que os fatos normalmente se desenrolam em tons de cinza.

    Qual seria a solução? Incentivos fiscais para progressistas que assistam a Bill O'Reilly [comentarista do canal conservador Fox News] ou conservadores que vejam Keith Olbermann [âncora do canal progressista MSNBC]? Não -enquanto o presidente Obama não nos dá o atendimento médico universal, não podemos correr o risco de um aumento grande no número de infartos.

    Então talvez a única maneira de avançar seja que cada um se esforce por conta própria para fazer uma malhação intelectual, enfrentando parceiros de discussão cujas opiniões deploramos. Pense nisso como uma sessão diária de exercícios mentais análoga a uma ida à academia: se você não se exercitou até transpirar, não valeu. Agora, com licença. Vou ler a página de editoriais do "Wall Street Journal".

    Tradução de CLARA ALLAIN

    3/21/2009

    Verdades absolutas e conhecimento relativo

    Já comentei várias vezes aqui que Karl Popper acredita na existência de verdades absolutas.

    Segundo o meu entendimento de Popper, isso significa que, se um enunciado é verdadeiro, então é verdadeiro independentemente de considerações de tempo e espaço: sempre foi verdadeiro, é verdadeiro agora e será verdadeiro para sempre – aqui ou em qualquer outro lugar. Ou seja, a verdade, no caso, será absoluta, não relativa.

    Para que essa posição seja plausível é necessário que os enunciados sejam totalmente determinados, sem pronomes ou termos contextuais. Ou seja: o que poderia eventualmente relativizar o enunciado precisa se tornar parte do próprio enunciado.

    Por exemplo.

    O enunciado “Chove agora” sofre de mais de um problema de indeterminação. Quando é agora? Não se diz. E onde chove agora? Não se diz. Ainda se pode questionar se o sentido de “chove” é claro: chover é apenas chover forte ou uma garoinha conta como chuva? Conseqüentemente, esse enunciado nunca vai poder ser uma verdade absoluta.

    Por outro lado, o enunciado “Chove fortemente no dia 20 de março de 2009, às 14h, hora local, em frente ao edifício situado na Av. Paulista 2000, em São Paulo, Brasil” é completamente determinado. Se esse enunciado é verdadeiro, ele é verdadeiro agora e será verdadeiro para sempre – em qualquer lugar do planeta. E, se alguém o tivesse formulado dois mil anos atrás na Grécia, ele teria sido verdadeiro então, também. (Algo improvável, porque São Paulo nem existia então – fazendo com que fosse difícil fazer afirmações acerca da cidade).

    O que chamamos de verdade, para Popper, é uma relação de correspondência entre um enunciado e um fato da realidade. O enunciado x é verdadeiro se, e somente se, aquilo que x descreve for o caso. Em outras palavras, e particularizando, o enunciado “a neve é branca” é verdadeiro se, e somente se, a neve for branca.

    Elementar, mas de profundo significado.

    Para Popper, dado esse entendimento de verdade, é inquestionável que nós, cedo ou tarde, formularemos enunciados verdadeiros acerca da realidade – e esses enunciados, desde que devidamente determinados, serão verdades absolutas, não relativas a tempo e espaço.

    Paralelamente à sua confiança na existência de verdades aboslutas, porém, há, em Popper, uma profunda desconfiança de nossa capacidade de saber se um determinado enunciado é de fato verdadeiro. A verdade existe, para ele, no plano da ontologia – o conhecimento, no plano da epistemologia. E aqui somos profundamente falíveis.

    Assim sendo, Popper acredita na existência de verdades absolutas mas desconfia da pretensão de qualquer enunciado que aspire a essa condição – até mesmo, em princípio, daqueles formulados por ele próprio.

    Aí está a base do liberalismo de Popper: ele questiona qualquer ideário (ideologia, doutrina religiosa ou política ou mesmo teoria científica) que se pretenda verdadeiro. Nossos enunciados acerca do mundo ou de qualquer outra coisa são, para ele, nada mais do que conjeturas, que podem ser refutadas a qualquer momento por fatos ou argumentos (a maoria deles é, cedo ou tarde).

    Quem tem um ponto de vista assim não pode, em princípio, ser absolutista no plano do conhecimento – ou dogmático. O dogmático é aquele que se acredita de posse da verdade. E o dogmático é inevitavelmente intolerante. Se o que (por exemplo) a Bíblia diz é verdadeiro, por que tolerar a evidente falsidade de quem questiona ou contesta o que a Bíblia diz, ou diverge do que ali está escrito? Fogueira para ele. Popper, por outro lado, se vê como alguém que está constantemente em busca da verdade – sem, contudo, jamais poder ter certeza de que a encontrou… Assim ele, ou alguém que siga seu ponto de vista, nunca pode ser dogmática e intolerante.

    O não-dogmatismo e a tolerância vêm juntos: eles decorrem de um mesmo fator: o fato de que eu posso estar errado e de que aquele de quem eu discordo ou a quem critico pode estar certo…

    Quando me sinto tentado a atribuir o caráter de verdades absolutas às minhas próprias convicções e a ser intolerante das convicções dos outros, eu devo sempre me lembrar: e se os outros estiverem certos, e eu errado? Eu gostaria que eles fossem dogmáticos e intolerantes com meus pontos de vista?

    A busca da verdade se dá, segundo Popper, no exame sério, rigoroso e imparcial de pontos de vista que conflitam com os nossos. É neles que vamos eventualmente ser capazes de identificar pontos fracos em nossas formulações, em nossos argumentos, em nossas evidências – e, assim, conseguir avançar um pouco mais na direção da verdade. Quando a gente rejeita o que antes considerava verdadeiro, faz um progresso significativo na direção da verdade.

    Em São Paulo, 20 de março de 2009

    2/17/2009

    Dois fatos importantes sobre o ser humano

    Os antigos já sabiam duas coisas importantes sobre o ser humano. A primeira é que somos mortais (Eis o silogismo clássico: “Todo homem é mortal; Sócrates é homem; logo, Sócrates é mortal”; a segunda, que somos falíveis (“errare humanum est”).

    Esses dois fatos estão correlacionados…

    Já escrevi aqui defendendo a tese de que é a morte – isto é, o fato de que somos mortais, e, portanto, teremos um fim – que dá sentido à vida. Se fôssemos imortais, nossas escolhas não seriam tão importantes. Por quê? Porque, quando errássemos, o que fatalmente aconteceria se somos também falíveis, teríamos toda a eternidade para voltar atrás, nos corrigir, e até errar de novo… Ou seja: nossa falibilidade não seria tão importante, se não fôssemos mortais…

    Talvez porque sejamos mortais, e possamos, por conseguinte, até morrer em decorrência de um erro nosso (no volante, por exemplo), a nossa falibilidade se tornou um problema sério. Como não temos jeito de nos tornar infalíveis, procuramos encontrar infalibilidades em outros lugares: em Deus, nas Escrituras, nos pronunciamentos papais…

    Mas há um problema sério aí. Quem decide que o Papa é infalível quando faz pronunciamentos ex cathedra sobre fé e prática? Somos nós, seres humanos, falíveis… Quem decide que a Bíblia é a palavra inerrante de Deus? Somos nós, seres humanos, falíveis… Quem decide que Deus existe e é infalível? Somos nós, seres humanos, falíveis. Ou seja: as decisões sobre quem ou o que é infalível não são infalíveis… Os protestantes acham que aqueles que decidiram que os pronunciamentos papais são infalíveis estavam simplesmente errados… Os católicos, por sua vez, acham que os protestantes, que acreditam que a Bíblia deve ser entendida literalmente como a Palavra de Deus, negligenciando o “sensus plenior” e a necessidade de interpretação do texto, e que a Bíblia, na interpretação literal, é inerrante, estão simplesmente errados... E assim vai…

    Como é que seres humanos, reconhecidamente falíveis, podem ter tanta certeza de que encontraram a infalibilidade ou a inerrância em algum lugar? Como é que não admitem que, por serem admitidamente falíveis, podem estar errados na crença de que encontraram a infalibidade ou a inerrância em alguma pessoa ou em algum texto?

    Por sermos mortais, desejamos a imortalidade; por sermos falíveis, desejamos a infalibilidade… Mas sendo falíveis, como é que podemos ter certeza de que somos imortais e identificamos corretamente fontes infalíveis de verdades?

    Em São Paulo, 17 de Fevereiro de 2009

    10/21/2008

    Idéias, pássaros e gaiolas

    [No que segue, tomarei por empréstimo de Rubem Alves uma importante metáfora – que ele apresentou, inicialmente, no livrinho A Menina e o Pássaro Encantado e que, mais recentemente, reiterou na Apresentação de seu livro (esse um “livrão”) Religião e Repressão (que é uma re-edição do livro Protestantismo e Repressão). Aqui fica o crédito, Rubem – e o agradecimento… Transcrevo, no final deste post, a Apresentação que o próprio Rubem faz de Protestantismo e Repressão.]

    Pássaros têm asas para que possam voar livremente – não para que fiquem presos em gaiolas.

    Seres humanos têm mentes para que possam pensar livremente – não para que fiquem presos em gaiolas de idéias.

    O dogmatismo, sobre o qual já escrevi quatro posts aqui neste space recentemente (vide referências adiante), é uma tentativa de engaiolar o pensamento humano, de prender-lhe entre grades que ele não deve transpor, e, assim, de limitar-lhe ou mesmo de totalmente cercear-lhe o vôo.

    Pássaros em gaiolas voam – mas seu vôo é limitado pelas grades das gaiolas em que vivem. Pássaros que nascem em gaiolas (vale dizer, em cativeiro) podem até imaginar (se é que pássaros imaginam) que são realmente livres para voar. Mas não são. A pior prisão é aquela em que nascemos e em que sempre vivemos, porque não nos damos conta de que estamos aprisionados.

    Os dogmáticos pensam – mas seu pensamento é limitado pelas premissas que definem as grades das gaiolas de idéias que os mantêm cativos.

    Pássaros em cativeiros têm pouca chance de escapar das gaiolas em que se encontram. Às vezes se acostumam tanto às suas gaiolas que, se forem libertos, voam um pouco e, depois, retornam para serem engaiolados de novo…

    Seres humanos têm capacidade de abrir as portas de suas gaiolas mentais e delas sair. Mas não é fácil exercer essa capacidade. Muitos, se abrem as portas de suas gaiolas mentais e decidem sair, muitas vezes dão apenas vôos rasteiros pelas cercanias das gaiolas, e para elas retornam, não ousando realmente alçar vôo para mais longe, para terras desconhecidas... São como os pássaros que se desacostumaram de voar livremente.

    E isso é triste. Porque é um desperdício da maior capacidade que o ser humano possui: a capacidade de pensar.

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    Eis o que disse Rubem Alves na Apresentação do seu livro Religião e Repressão:

    “Deus — não importa quem ele ou ela seja — nos criou pássaros. Perdidas as nossas asas, o desejo do vôo permanece na alma como sentimento puro, nostalgia, sobre a qual somente os poetas podem falar — porque eles têm a graça de falar sem aprisionar.

    A essa nostalgia do vôo, a esse espanto perante o mistério da vida, a essa capacidade de se comover diante da beleza dou o nome de sentimento religioso. O poeta William Blake, um místico sem religião, o descreveu como Ver um Mundo num Grão de Areia e um Céu numa Flor Silvestre, Ter o Infinito na palma da sua mão e a Eternidade numa hora.... E esse sentimento pode acontecer mesmo naqueles que não acreditam em Deus. Pois o que é acreditar em Deus? É ter idéias sobre Deus em nossa cabeça.

    Mas os textos sagrados desprezam o acreditar em Deus. O apóstolo Tiago observa: Tu crês que há um só Deus. Fazes bem. Também os demônios acreditam e estremecem ao ouvir o seu nome.... O sentimento religioso é a cigarra que arrebenta a sua casca dura e voa para o amor.

    É como o vento — nós o sentimos quando ele vem, mas não é possível possuí-lo. Quem o tem vive a dolorosa experiência de não possuir o vôo. Eu me sinto profundamente religioso e tenho os místicos e os poetas como meus mestres. As religiões, ao contrário, nascem do desejo humano de possuir o vôo dos pássaros.

    Para isso constroem gaiolas. Gaiolas feitas com palavras. E é dessa pretensão que surge a intolerância, a arrogância, o dogmatismo, as perseguições e os mais sinistros tipos de fanatismo. As religiões são as cascas vazias que as cigarras deixam sobre as árvores.

    Este livro não é sobre o sentimento religioso, os pássaros em vôo. Sobre o sentimento religioso já escrevi muito, em outros livros. É sobre as gaiolas. Na sua versão original o seu nome era Protestantismo e Repressão — não a repressão policial, mas a repressão sutil das grades de idéias que aprisionam o pássaro. Agora, ao prepará-lo para uma nova edição, resolvi mudar o título para Religião e Repressão porque aquilo que disse sobre o protestantismo, creio, vale para todas as religiões que constroem gaiolas para aprisionar o vôo dos pássaros.“

    Transcrito de http://www.erdos.com.br/detalhe_pro2.php?id=3615

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    Vide, sobre esse assunto, os seguintes posts meus aqui neste space:

    “A verdade: contra o ceticismo, o relativismo, e o dogmatismo – 2”, de 20/10/2008

    “A verdade: contra o ceticismo, o relativismo, e o dogmatismo – 1, de 11/10/2008

    “O livre pensar”, de 25/08/2008

    “A posse e a busca da verdade”, de 24/08/2008.

    Em São Paulo, 21 de Outubro de 2008

    10/20/2008

    A verdade: contra o ceticismo, o relativismo, e o dogmatismo – 2

    Wanderley Navarro (http://wynavarro.spaces.live.com/) mais uma vez me deixou um comentário – desafio em que me pede que dê continuidade ao artigo que escrevi recentemente sobre a verdade. O comentário – desafio requer uma resposta.

    Disse ele: 

    “A verdade (realidade), no plano ôntico, é portanto, um processo antes que um produto, um dado que cabe nas palavras?  Em que você não concorda com Popper? Gostaria muito que este artigo continuasse. Você, eu, Pilatos e mais alguns continuamos, aqui, de plantão, nos perguntando o que é a verdade.”

    Fiz uma distinção, no artigo original, entre o “plano ôntico” e o “plano epistêmico” (que havia chamado de “plano epistemológico”, mas agora corrijo para “plano epistêmico”, por isonomia – não havia falado em “plano ontológico”...).

    O “plano ôntico” se refere à realidade, às coisas em si, às coisas como elas são, independentemente de nosso conhecimento delas.

    O “plano epistêmico” se refere ao nosso conhecimento da realidade, às coisas como conhecidas por nós.

    Essa distinção é essencial para entender Popper.  Vou procurar mostrar por quê.

    A filosofia pré-moderna – o período anterior, digamos, a Descartes e que abrange a filosofia antiga e a medieval –compartilhava, em linhas gerais, uma visão do mundo, no plano ôntico e no plano epistêmico (apesar das evidentes e consideráveis diferenças não só entre a filosofia antiga e a medieval, como também entre as diversas correntes que constituíram uma e outra).

    No plano ôntico, eram estas as principais características da visão pré-moderna:

    1) Existe aquilo que na filosofia moderna se convencionou chamar de "mundo exterior", ou seja, uma realidade externa à nossa mente. A existência desse mundo é tida como evidente e, portanto, não é problemática para a filosofia pré-moderna. Ela, assim, não gasta tempo e energia tentando provar que existe algo que, para ela, é pacífico: uma realidade fora de nossa mente. Para ela, parte dessa realidade existe independentemente de nós – o chamado “mundo natural” – e parte dessa realidade é criada pelo ser humano – o chamado “mundo social” ou “mundo cultural”. (Evidentemente, a filosofia pré-moderna também pressupunha, e não considerava problemática, a existência de umä realidade dentro de nossa mente, o “mundo interior” de cada um).

    2) No “mundo exterior natural”, ou seja, na realidade externa cuja existência independe do ser humano, há, simplificando, objetos e fatos. Ainda simplificando, objetos são coisas e fatos são estados de coisas. Objetos e fatos existem na realidade externa natural: eles não são, por assim dizer, constituídos pelo ser humano, que pode apenas os descobrir. É verdade que o ser humano pode agir sobre esses objetos e fatos, alterando-os ou até mesmo, com eles, criando novos objetos e fatos. Mas os objetos e fatos alterados e/ou criados pelo ser humano passam a partencer ao “mundo exterior social”, ao mundo da cultura. (Por exemplo: no mundo exterior natural pode haver uma pedra com uma extremidade cortante, um galho de árvore roliço e algumas fibras maleáveis, que existem independentemente da ação do ser humano. Mas o ser humano, um dia, amarrou a pedra no galho de árvore usando as fibras, e criou um machado, com funções específicas, que passou a ser um objeto do mundo social ou cultural).

    No plano epistêmico, eram estas as principais características da visão pré-moderna:

    1) O ser humano é capaz de conhecer o mundo exterior – tanto o natural (que sempre existiu, na visão clássica, ou que é criação de Deus, na visão medieval) como o social (que é sua própria criação). (Na verdade, o ser humano é também capaz de conhecer o seu próprio mundo interior – cada um, em princípio, conhece o seu próprio mundo interior, mas, se outras pessoas nô-los revelarem, podemos até mesmo conhecer os mundos interiores dos outros).

    2) Dizer que o ser humano é capaz de conhecer o mundo equivale a dizer que o ser humano é capaz de, usando símbolos lingüísticos de sua própria criação, e, portanto, pertencentes ao mundo social ou cultural, fazer enunciados verdadeiros sobre a realidade.

    3) Um enunciado (ou juízo) é verdadeiro quando ele corretamente descreve a realidade, ou seja, quando ele “corresponde” à realidade. Assim, o enunciado “A neve é branca” é verdadeiro se, e somente se, a neve for branca; ou, o enunciado “Deus existe” é verdadeiro se, e somente se, Deus existir (isto é, se houver na realidade uma entidade que corresponde a um conceito de Deus devidamente explicitado). A verdade, portanto, é uma relação de correspondência ou adequação entre os enunciados (ou os juízos) de um ser humano e os fatos e estados de coisas que são objeto desses enunciados (ou juízos). A realidade, em si, não é nem verdadeira nem falsa: ela simplesmente é. São nossos enunciados (ou juízos) acerca da realidade que podem ser verdadeiros ou falsos.

    4) Para a filosofia pré-moderna, temos evidência da verdade ou não de nossos juízos acerca da realidade externa através principalmente dos nossos sentidos, ou seja, através da percepção sensorial. E aquilo que nos é dado na percepção é nada mais nada menos do que a realidade, propriamente dita, os objetos e os fatos que compõem o mundo externo a nós. Embora seja notório que às vezes nos enganemos em nossa percepção, a essa constatação não se dá importância muito grande na filosofia pré-moderna, porque somos capazes de descobrir nossos enganos.

    5) Para a filosofia pré-moderna, por fim, o conhecimento é o conjunto de juízos verdadeiros e evidenciados que compõem a realidade. Para que haja conhecimento é necessário que haja um sujeito, que conhece, um objeto, que é conhecido, e um enunciado verdadeiro e evidenciado que o primeiro faz sobre o segundo.

    A filosofia moderna veio a questionar toda essa visão de mundo. Descartes é adequadamente descrito como o pai da filosofia moderna porque ele levantou dúvidas acerca de nossa capacidade de conhecer o mundo exterior a nós. Ele se propôs duvidar, sistematicamente, de que conhecesse qualquer coisa. Como duvidar envolve pensar, porém, ele concluiu que não poderia duvidar de que pensava – e, como imaginou que para que pensasse ele tinha de existir, ele concluiu que, ele, Descartes, existia. Cogito, ergo sum. Mas o Descartes que ele assim imaginou provar que existia era apenas a mente de Descartes, o mundo interior de Descartes. O mundo exterior que ele parecia perceber – e incluía até mesmo o seu corpo – continuavam a ter uma existência ou realidade questionável, e, portanto, não poderia ser, sem mais argumentos, objeto do conhecimento. É esse o problema do conhecimento do mundo exterior que preocupou virtualmente todos os filósofos posteriores a Descartes.

    Partindo do pressuposto (que ele acreditava ter provado) de que ele só era capaz de conhecer o mundo interior de sua própria mente, Descartes criou a base do ceticismo moderno – e, na realidade, do solipsismo (a tese de que só tenho condições de conhecer o que eu próprio penso). O objeto de suas percepções (ele acreditava) não era algo no mundo exterior, mas, sim, sensações puramente mentais que, assim, tinham existência apenas dentro de sua mente. E lhe parecia impossível (sem recorrer a Deus) estabelecer uma ponte entre o que havia em sua mente e seja lá o que for que pudesse existir fora dela.

    Com essa “virada”, a filosofia moderna acabou se tornando mentalista (não racionalista, como pretendem alguns): nela, a verdade passa a ser apenas coerência entre as sensações e idéias existentes dentro da mente – e o conhecimento algo puramente subjetivo, que carece de um “objeto” no mundo exterior.

    É esse o contexto em que Popper filosofou. Em certo sentido, Popper é um filósofo pré-moderno: no essencial, ele nunca duvidou das teses pré-modernas, seja no plano ôntico, seja no plano epistêmico. Ele sempre acreditou que é evidente e pacífico que a realidade externa à nossa mente existe, que ela é cognoscível através dos sentidos e da reflexão, que a verdade, como correspondência entre o pensamento e a realidade extramental, em princípio existe e é alcançável… Em tudo isso Popper é mais pré-moderno do que moderno. Sua única concessão à modernidade foi sua admissão de que, mesmo que tenhamos alcançado a verdade, ou que (mais provável) tenhamos tropeçado nela, nunca poderemos ter a certeza de que a encontramos, e, por isso, precisamos continuar sempre a buscá-la…

    Wanderley Navarro me pergunta no que eu discordo de Popper. Minha resposta é: em quase nada… Minha única discordância é pequena (e, talvez, se confrontado com ela Popper nem a consideraria uma discordância) e me foi sugerida por Hume (que é um dos filósofos favoritos de Popper). Na prática, no dia-a-dia, temos de agir como se tivéssemos várias certezas. Quando entramos no mundo da reflexão, porém, é sempre possível encontrar boas razões para duvidar de nossas certezas e, portanto, para questionar aquilo que, em outro contexto, nos parecia evidente e pacífico. É por isso que o dogmatismo é tão nocivo: ele fecha uma discussão que deveria ser aberta e permanente, ele encerra uma busca que deveria ser contínua e incessante.

    Em São Paulo, 20 de outubro de 2008

    10/19/2008

    “Você acredita em Deus?”

    Transcrevo, a seguir , uma matéria de autoria de Paulo Ghiraldelli Jr, com o título acima, que recebi pela lista de discussão 4pilares. A transcrição é feita com autorização do autor.

    Você acredita em Deus?

    Paulo Ghiraldelli Jr.

    Nenhum dos mandamentos bíblicos diz que você deve "acreditar em Deus". E isso não é pelo fato de que eles já pressupõem do leitor ou ouvinte que este já seja um crente na existência de Deus. O que há é a pressuposição da concorrência. O Deus da "tábua de leis" de Moisés diz logo de início que não se deve ter outra divindade em desafio a ele. Assim, a idéia que está ali é a popularmente conhecida como a idéia do "Deus ciumento". A partir disto, todos os outros mandamentos são, de fato, *mandamentos*: regras de conduta.

    A partir do quarto mandamento, inclusive este, essas regras de conduta passam a ser regras exclusivamente ético-políticas. Ou seja, elas dizem o que se deve fazer em comunidade, na vida social, uma vida que é necessariamente uma vida urbana ou tendente a isso. Assim, entre dez regras, seis delas são dirigidas ao que os homens e mulheres devem fazer no âmbito da vida na comunidade, ou mesmo na vida na cidade.

    É claro que o peso maior é antes ético-moral que político. Pois as regras não relacionam diretamente o homem e a mulher com o poder – e isto caracterizaria o campo político. No entanto, é difícil admitir que os mandamentos sobre roubo, morte, falso testemunho e cobiça não tenham seu componente político, uma vez que são facilmente regras que vingariam em qualquer cidade, como atos de legislação do poder em relação aos habitantes.

    Quando olhamos a religião judaico-cristã por esse prisma, percebemos que ela nasce segundo o mesmo clima das religiões orientais. Ou seja, trata-se de um conjunto de preceitos para que a vida social possa se realizar. Não há aí nenhuma teologia envolvida. Não há aí nenhum requerimento que peça para que se investiguem questões atinentes à divindade. Não há aí nenhum "estudo de Deus".

    A teologia é algo posterior. Ela é uma forma de trabalho intelectual dos cristãos, já dispostos como Igreja, no sentido de dar conta de um passado intelectual poderoso, ou seja, as filosofias pagãs. É nesse contexto que nasce a idéia de "provas da existência de Deus" e, então, a legitimidade da pergunta "você acredita em Deus?" Fora desse específico contexto, essa pergunta não ajuda ninguém, ao contrário, ela afasta as pessoas, distancia as pessoas umas das outras. E não afasta as pessoas por revelar conceitos, mas por fomentar preconceitos. A resposta a uma pergunta desse tipo, fora do campo teológico-filosófico, impessoal, apenas gera falsas conclusões.

    No âmbito teológico filosófico, "Deus existe?" e "eu acredito em Deus ou não?" são questões que, impessoalmente, pertencem ao campo de investigação do raciocínio puro. Os letrados da Igreja se envolveram com isso. Mas, quando alguém usa de uma pergunta dessas no âmbito da doutrina, da prática religiosa e do convívio com os outros, essa pergunta serve apenas para, a partir da resposta "sim" ou "não", termos a geração de inúmeros preconceitos a respeito de quem respondeu. Nada sabemos de uma pessoa que responde a tal pergunta com um "sim" ou com um "não". Mas achamos que sabemos tudo. E começamos a achar que até sabemos o que tal pessoa irá fazer!

    Há uma idéia errada de que ao se dizer "sim" ou "não", todo o comportamento de quem respondeu pode ser mapeado e antecipado por quem escuta a resposta.

    E mesmo os que sabem que essa conclusão é um erro, ainda assim, se guiam por ela. Ou seja, estão já seguindo preconceitos. E assim fazem porque o preconceito é mais forte que o conceito.

    Caso sejam religiosos e crentes, a resposta "sim" lhes daria a condição de imputar o caráter "bom" para quem respondeu. Caso sejam não crentes os ouvintes, a resposta "não" é que daria a quem respondeu o adjetivo de "bom".

    É então, baseado nisso, que é o preconceito, que passamos a olhar para a tal pessoa que deu a resposta. Eis aí que nada sabemos dela de concreto, e nada sabemos do que poderá ou não fazer, mas achamos que sabemos tudo. Daí para diante podemos começar a imaginar coisas a respeito de tal pessoa que são falsas – certamente serão falsas. Daí por diante estamos com um guia errado na mão para lidarmos com aquela pessoa, embora estejamos convencidos que temos o guia certo. Isso é tudo que precisamos para criar um mundo ruim à nossa volta.

    Se a filosofia pode ajudar o religioso, talvez esteja nisso sua tarefa principal: fazer distinções e criar um discernimento inteligente é o que a filosofia pede para que se realize sobre o assunto. Então, que se tenha claro: temos de distinguir a que serve a pergunta "você acredita em Deus?" e ao que ela não serve. Para mapear condutas ela não serve. Para a melhora do convívio social ela não serve. Ela serve para que nos tornemos "polícias religiosas", iguais às polícias políticas do mundo todo, como foi a KGB ou a SS.

    Paulo Ghiraldelli Jr.
    Filósofo
    www.ghiraldelli.pro.br

    Veja o vídeo sobre o assunto em:

    http://www.dailymotion.com/pgjr23/video/x748nv_voce-acredita-em-deus_creation 

    Transcrito em Ubatuba, em 19 de outubro de 2008

    10/11/2008

    A verdade: contra o ceticismo, o relativismo, e o dogmatismo – 1

    Talvez a maior contribuição que Sir Karl Raymund Popper tenha feito ao debate filosófico do século XX tenha sido sua discussão da questão da verdade no âmbito da filosofia, da ciência, e do senso comum.

    De um lado, Popper defendeu a verdade contra o ceticismo – que afirma que nada é verdade, que a verdade não existe, que existem apenas opiniões, pontos de vista, etc. – e o relativismo – que afirma que tudo é verdade, que cada um tem a sua verdade, que a opinião ou o ponto de vista de cada um é a (sua) verdade…

    Contra essas duas tendências, Popper argumentou que a verdade existe e que é absoluta – e que não há verdades pessoais e relativas. Se um enunciado, devidamente determinado em suas referências espaço-temporais, é verdadeiro, ele é verdadeiro hoje, foi verdadeiro ontem e será verdadeiro para sempre. A verdade de um enunciado devidamente determinado não varia com o espaço e o tempo, com o contexto e a época – é isso que ele quer dizer com a tese de que a verdade é absoluta.

    Essa tese de Popper é uma tese no plano da realidade – naquilo que poderíamos chamar de “plano ôntico”, o plano do ser. Para ele, é assim que as coisas são.

    Tendo a concordar com ele nessa tese.

    De outro lado, Popper defendeu a verdade contra o dogmatismo – que é a arrogante pretensão de que encontramos a verdade e que todos os outros que a buscam, ou que pretendem ter encontrado uma verdade diferente da nossa, estão simplesmente errados – ou, pior, se recusam a ver a verdade manifesta daquilo em que acreditamos.

    Contra o dogmatismo, Popper defendeu a tese do falibilismo: no “plano epistêmico”, o plano do conhecer, somos sempre falíveis. Mesmo que estejamos convencidos (como ele estava) de que a verdade existe e é absoluta, nunca poderemos ter certeza de que a alcançamos e, portanto, de que estamos de posse dela. Sabemos que a verdade existe, devemos buscá-la, podemos até mesmo aspirar a encontrá-la, mas nunca poderemos estar certos de que a encontramos e, por conseguinte, de que estamos de posse dela.

    Há uma diferença muito grande e essencial, diz Popper, entre aquele que humildemente busca ou persegue a verdade e aquele que orgulhosa e arrogantemente se julga possuidor dela – aquele que, na fala comum, se crê o “dono da verdade”. E aquele provavelmente está mais próximo da verdade do que este…

    Também aqui tendo a concordar com Popper.

    Essa tese dupla de Popper é importante, porque se torna um poderoso libelo contra o ceticismo, o relativismo e o dogmatismo. Não creio que nenhum outro filósofo tenha tido tanta clareza sobre a questão.

    Ao refletir sobre essa questão ontem à noite, lembrei-me da parábola do fariseu e do publicano relatada pelo evangelista Lucas no Novo Testamento… e senti algo que não sentia há tempo: simpatia por alguns elementos importantes dos ensinamentos de Jesus – elementos que eu utilizei em um artiguete de jornal acadêmico em 1966 – mais de quarenta e dois anos atrás.

    “Propôs Jesus também esta parábola a alguns que confiavam em si mesmos por se considerarem justos, e desprezavam os outros” (Lucas 18:9).

    A história diz respeito a dois homens que foram ao templo orar: um fariseu e um publicano. O fariseu era um líder religioso na sociedade judaica. Julgava-se próximo da perfeição teológica e moral. O publicano era um réprobo: era tido como exemplo de heresia e imoralidade.

    O fariseu orou: “Graças te dou, ó Deus, porque não sou como os demais homens, roubadores, injustos e adúlteros – nem ainda como este publicano”.

    O publicano orou: “Ó Deus, tem misericórdia de mim, pecador”.

    Jesus concluiu que o publicano, não o fariseu, retornou para sua casa justificado.

    Em suma: aquela criatura de tão excelentes qualidades, o fariseu da parábola de Jesus, não foi o que desceu para casa justificado, mas sim aquele que era visto como roubador, injusto e adúltero, aquele que era um verdadeiro pária moral na sociedade de sua época.

    Ensinamento profundo.

    O fariseu orgulhosamente se acreditava possuidor da verdade religiosa e moral. O publicano a buscava – e se a buscava era porque sabia que não a possuía. Este, não aquele, teve sua atitude recomendada por Jesus. O fariseu, não o publicano, teve a sua atitude condenada por Jesus.

    Se não tivesse morrido em 5 de março de 1991 meu pai estaria completando hoje 96 anos. Ele foi pastor presbiteriano durante quase 50 anos de sua vida (tivesse vivido mais um ano e teria completado o Jubileu de Ouro de seu ministério). Ele era um crente convicto de que a verdade existia – e de que ele a havia encontrado de uma vez por todas. Por isso, embora humilde e tolerante no plano pessoal, ele era, no plano doutrinário e moral, um tanto quanto orgulhoso, arrogante, dogmático  e intolerante. Quem dele ousasse discordar, como eu, estava não só simplesmente errado, mas tinha o “coração empedernido” por se recusar a ver uma verdade que para ele era manifesta, inquestionável, indiscutível. Quando, em 1966, fui expulso do Seminário Presbiteriano de Campinas, me disse que preferia que eu tivesse nascido morto a me ver esposando heresias e imoralidades. Eu havia, dias antes, escrito, no jornalzinho do Centro Acadêmico do Seminário, uma paráfrase da parábola do fariseu e do publicano que especialmente o ofendeu…

    Talvez mais do que qualquer outra coisa, essa atitude do meu pai me colocou no caminho que, alguns anos mais tarde, me afastou da religião e da crença em Deus, e, mais tarde, da moralidade altruística e sacrificial do Cristianismo. Foi, provavelmente, essa atitude que me fez ver nas teses de Popper sobre a verdade um “hálito de vento fresco” (“breadth of fresh air”, como se diz em Inglês).

    Presto a meu pai, aqui, e de forma admitidamente um pouco atravessada, o meu reconhecimento pelo papel importante que ele teve em minha formação – ainda que de modo, muitas vezes, negativo.

    Em São Paulo, 11 de outubro de 2008

    9/2/2008

    Filosofia

    Há gente que pensa que filosofia é uma disciplina acadêmica e que filósofos são os especialistas que se dedicam a ela. Muitas vezes essa visão da filosofia e dos filósofos vem acompanhada da suposição de que o objeto próprio da filosofia é algo profundo, complicado, de difícil entendimento, talvez até mesmo um pouco esotérico, que apenas pessoas muito inteligentes, próximas de gênios, conseguem decifrar, discutir e, no extremo, produzir. (Em muitas livrarias menos sofisticadas já encontrei livros de filosofia misturados com outros tipos de livro, numa seção em geral intitulada assim: "Filosofia, Religião e Ocultismo"...

    Não resta a menor dúvida de que há até mesmo filósofos que pensam nessa linha: que a filosofia tem um objeto específico e que seu conteúdo é tão complexo que só mesmos gênios como eles próprios conseguem navegar por ele -- e se acham o máximo por (como crêem) conseguir fazê-lo. Muitos filósofos (especialmente os alemães) escrevem num estilo tão convoluto que ninguém consegue ter certeza de que os entendeu. E isso é confundido com profundidade até mesmo pelos próprios.

    Tradicionalmente, quando ainda eram cartesianos, os filósofos (e teólogos) franceses tinham fama de serem extremamente claros e distintos (seguindo a máxima de mestre Cartesius de que devemos buscar idéias claras e distintas). Quando eu estava no seminário, contava-se a piada de que Karl Barth, talvez o mais famóso teólogo do século XX, suíco, que escrevia em alemão, e que produziu uma monumental e incomparável obra, chamada Dogmática da Igreja (Kirchliche Dogmatik), em dez grossos volumes, com estilo extremamente -- como direi? -- denso, recebeu, um dia, uma cópia da tradução para o francês dessa gigantesca obra. Ao lê-la, sentiu-se forçado a escrever para o tradutor para agradecer-lhe o trabalho cuidadoso, acrescentando que, ao ler a tradução, havia conseguido entender um monte de coisas que não tinha entendido quando escreveu o original... Bom... hoje em dia os filósofos franceses, com uma honrosa exceção aqui e ali, não são mais cartesianos, e sua prosa se afastou totalmente dos ditames de Descartes.

    Lembro-me de que, assim que cheguei à UNICAMP, em 1974, fui convidado para ser membro (felizmente suplente) da  banca de Doutorado de um professor do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas. Como recém-chegado na Universidade, e um dos poucos membros do corpo docente de então com Ph.D. em Filosofia, não tive como recusar -- mas me arrependi profundamente ao pegar a tese. A começar pelo título: "A Voz do Intervalo". Que diabo é a voz do intervalo, perguntei-me... (A tese, vim descobrir depois, versava sobre o silêncio, que é o que existe nos intervalos da comunicação). O principal autor discutido no trabalho era Merleau Ponty, famoso filósofo francês, da estirpe acadêmica. Quando passei do título para o corpo da tese, a coisa ficou pior. Não entendi quase nada. Apelei para o Rubem Alves, que era membro (titular) da banca. Perguntei a ele se ele havia entendido a tese. Também não havia. Ganhei algum consolo do fato, porque pelo menos o problema não estava apenas comigo. Mas pensei que, talvez, a dificuldade no entendimento da tese se devesse ao fato de que tanto eu como o Rubem havíamos estudado nos Estados Unidos, não na Europa... Ou que nós dois fôssemos de origem presbiteriana... Ou, então, que nós dois havíamos vindo para a filosofia a partir da teologia... Algo assim. À defesa compareceram todos os membros titulares da banca, de modo que fui poupado do constrangimento de argüir alguém sobre um trabalho que eu não havia entendido. Mas o que realmente me consolou, na defesa, foi algo que disse o Michel Debrun, estrela filosófica do departamento, não só de formação francesa, mas francês ele próprio, com um terrível (no sentido de forte, não de feio) sotaque que nunca perdeu (talvez porque o achasse charmoso). O Michel observou que a gente normalmente lê trabalhos acadêmicos (como teses) sobre grandes filósofos para conseguir entendê-los melhor, mas que, no caso, ele tinha tido de voltar a ler Merleau Ponty para fazer se conseguia entender a tese...

    Os filósofos que eu realmente admiro -- Sócrates, Hume, Russell, Popper, Ayn Rand, todos  mortos, infelizmente -- não foram desse tipo. Com exceção de Russel e Popper, os outros três não foram acadêmicos: nunca trabalharam numa universidade (ou equivalente). E todos eles compartilharam algumas características importantes.

    Primeiro, para esses filósofos, a filosofia não tem um objeto específico próprio: o filósofo reflete sobre qualquer coisa que lhe pareça interessante, complicada, digna de esclarecimento. Reflete, enfim, sobre o mundo, a vida, a cultura, em qualquer uma de suas múltiplas manifestações, altas ou baixas, nobres ou comezinhas. Filósofos são tipicamente generalistas. Em geral interessam-se por tudo: o universo, a vida, o humano, e, dentro do humano, pela ciência, pela religião, pelo mito, pela arte, pela política, pelo senso comum, pela superstição, pelas crendices populares... Os Ensaios Morais, Políticos, e Literários de Hume tratam de tudo... Popper chegou dizer que a especialização talvez seja um pecado apenas venial no cientista, mas, no filósofo, é um pecado claramente mortal...

    Segundo, eles sempre tinham, como interlocutores, pessoas comuns, não outros filósofos. Sócrates nem escrever escreveu: ele conversava -- na praça -- com qualquer um que viesse a ele com alguma pergunta, dúvida, problema, ou perplexidade... Às vezes era um jovem, ainda molecote, outras vezes um escravo... Hume, muito cedo em sua vida, tentou escrever para outros filósofos: foi um fracasso. Desistiu e passou a escrever para as pessoas comuns. Tornou-se o maior filósofo da língua inglesa, ever. Russell seguiu trajetória semelhante. Sendo, porém, acadêmico, escreveu mais para outros filósofos do que Hume o fez. Mas seus grandes escritos são populares -- ou, então, "impopulares", como ele próprio os descreveu em um livro chamado Unpopular Essays, porque tratava de temas considerados tabus e de um jeito que parecia meio irreverente. Por causa de sua ironia e irreverência, Russell é chamado de Hume do Século XX. Ayn Rand escreveu filosofia principalmente em romances destinados ao mais amplo público: livros que já venderam literalmente milhões de cópias.

    Terceiro, sua linguagem era simples, clara, precisa -- sem ambigüidades, obscuridades, vaguezas... Quasem nunca usavam termos técnicos ou jargões. Qualquer um conseguia entendê-los -- algo importante quando o seu interlocutor é a pessoa comum...

    Quarto, para eles, a filosofia consiste, não em conteúdo específico, que seria o seu objeto próprio, mas em fazer perguntas de um certo tipo sobre qualquer coisa ou assunto. O povo de atenas provavelmente achava que Sócrates, sendo um filósofo, era uma pessoa a quem deviam se dirigir quando tinham perguntas, dúvidas, problemas, perplexidades que queriam ver respondidas, sanadas, resolvidos, esclarecidas. Provavelmente tinham um choque ao conversar com ele: ele não só não respondia a nenhuma pergunta, não sanava nenhuma dúvida, não resolvia nenhum problema, não esclarecia nenhuma perplexidade, como, em geral, fazia perguntas ao interlocutor, tornava as suas perplexidades ainda mais profundas, ampliava a dimensão dos problemas que tinham...

    [Se você tem dúvida acerca do que é uma perplexidade, considere a seguinte. Se eu chegar para você e lhe disser: "Preste atenção: o que eu estou lhe dizendo agora é mentira", o que eu disse é verdadeiro ou falso? Se for verdadeiro, é falso, porque o que eu disse foi que o que eu estava dizendo era falso; se for falso, é verdadeiro, porque eu disse, falsamente, que o que estava dizendo era falso -- logo, é verdadeiro. E daí? Como saímos dessa???]

    Quinto, que tipo de pergunta faziam esses filósofos? Essas perguntas eram todas epistêmicas (se vocês me permitem usar esse jargãozinho filosófico aqui). Episteme é conhecimento, em grego. Perguntas epistêmicas são perguntas deste tipo:

    • Por que você acha isso?
    • Em que evidências ou argumentos você se baseia para afirmar isso?
    • Será que o que você está dizendo é verdade?
    • Existem verdades absolutas ou toda verdade é relativa?
    • Mas o que significa chamar uma afirmação de verdadeira?
    • Há diferença entre conhecimento e opinião? Se há, no que consiste?
    • O que você entende por x? (onde x é um conceito qualquer usado pelo interlocutor).
    • Mas, nesse caso, como se explica isso?

    E por aí ia a conversa... Interminável.

    Muitas pessoas criticam a filosofia porque, segundo acham, nela não há progresso, como aparentemente existe na ciência. Na ciência o progresso se mede pelos problemas resolvidos, pelas previsões acertadas, pelas conquistas alcançadas sobre o mundo natural. A ciência evolui rapidamente. Na área científica, procura-se sempre ler os trabalhos mais recentes. Um livro escrito há 50 anos ninguém mais lê, porque certamente está ultrapassado. Mas na filosofia, lemos hoje Platão e Aristóteles, que escreveram há mais de dois mil anos, Agostinho e Aquino, que escreveram na Idade Média, Descartes e Locke, que escreveram no início da era moderna, Hume e Kant, que escreveram durante o Iluminismo -- e lemos todos eles como se fossem nossos contemporâneos. Aprendemos muito ainda com eles, sentimos o mesmo prazer ao lê-los -- ou, talvez, prazer ainda maior -- que sentiam os seus contemporâneos. A razão possivelmente está neste fato: sua maior contribuição não está nas respostas que deram, mas nas perguntas que levantaram; não nos problemas que resolveram, mas naqueles que propuseram; não nas perplexidades que elucidaram, mas naquelas que nos legaram e que nos desafiam até hoje...

    A maior parte das questões que a gente encontra na obra desses grandes filósofos talvez seja, num sentido duro do termo, insolucionável, porque são multifacetados, nuanceadas, cheias de consideração de valor...

    Todos filosofamos -- e o fazemos o tempo todo. Não só os chamados filósofos acadêmicos, profissionais.

    Filosofamos quando ficamos agoniados tentando escolher um curso de conduta dentre dois ou mais possíveis -- e nenhum deles é claramente certo ou errado... Ficamos pesando considerações de um lado e de outro. Às vezes queremos fazer algo -- mas o que queremos fazer traz conseqüências que não gostaríamos de gerar. Queremos o antecedente, mas não o conseqüente... Mas isso muitas vezes é como tentar fazer um omelete sem quebrar os ovos..

    Filosofamos quando somos assaltados por dúvidas acerca de crenças que consideramos importantes... Será que Deus existe mesmo? Se existe, porque também há tanto sofrimento causado por desastres naturais? Será que somos realmente livres, ou será que somos determinados pela nossa carga genética e pelos condicionantes do ambiente?

    Filosofamos quando nos perguntamos qual a base de nossos julgamentos morais... Quando dizemos que uma ação é imoral, ou exigiu coragem moral, o que exatamente estamos dizendo? E com base em quê? Considerações de fato, valores, sentimentos???

    Filosofamos quando nos perguntamos se a beleza existe nas coisas ou "no olho de quem vê"... Quando especulamos sobre o que é a arte, quando concluímos que muita coisa que passa por obra de arte não passa de lixo.

    E aí vai...

    Mas estudar filosofia ou aprender filosofia não é aprender o que pensaram esses e outros filósofos: é aprender a pensar como eles, a fazer perguntas, a propor problemas, a levantar perplexidades. E, como tudo, a gente aprende a filosofar, filosofando... lidando com problemas, desafios, dilemas... Aprender filosofia é, acima de tudo, aprender a filosofar.

    Estudar filosofia como um conjunto de idéias mortas, de interesse apenas histórico, sem aprender a filosofar, sem aprender a dialogar com os filósofos da história como se eles estivessem vivos ao nosso lado, quem sabe na "agora" de Atenas, é uma grande chatice.

    Em Bellevue, 2 de Setembro de 2008

    8/30/2008

    O sentido da vida

    Fazia tempo que estava procurando duas passagens de Popper que tratam da questão que dá título a este post. Custei a achar. Mas hoje, finalmente, as acheis.

    A primeira é uma passagem do ensaio "Emancipation through Knowledge", publicado no livro In Search of a Better World. (Routledge, London, 1992). O ensaio trata, entre outras coisas, das expressões "O sentido da Vida" e "O Sentido da História". Diz Popper (tradução minha do Inglês):

    "O termo 'sentido' sofre de uma importante ambigüidade, em ambas as expressões. A expressão 'sentido da vida' é algumas vezes usada para sugerir que a vida humana tem um sentido, freqüentemente obscuro, ou mesmo oculto, certamente profundo, que nos caberia descobrir. Mas a expressão pode também ser entendida de forma diferente. Neste entendimento, o sentido da vida não é algo profundo, abaixo da superfície, obscuro ou oculto, e que nos cabe descobrir, mas, isto sim, um sentido com o qual nós mesmos dotamos a nossa vida. Podemos dotar a nossa vida de significad através de nosso trabalho, de nossa conduta, do nosso jeito de encarar e viver a vida, das atitudes que adotamos em relação aos nossos amigos, aos que nos estão próximos, ao mundo inteiro. . . . Assim, a busca pelo sentido da vida não é uma busca por algo que está lá, independente de nós, mas, sim, uma busca por uma forma de vida que seja capaz de dotar a nossa vida de sentido e significado." (pp.138-139). 

    A segunda, e mais imporante, é uma passagem do ensaio "How I See Philosophy", publicado no mesmo livro In Search of a Better World. O ensaio tem o curioso sub-título de "Stolen from Fritz Waismann and from one of the first men to land on the moon" -- "Roubado de Fritz Waismann e de um dos primeiros homens a aterrisar na lua".

    Eis a parte final do ensaio de Popper, traduzida do Inglês por mim:

    "Talvez os leitores permitam que eu termine este ensaio com algumas considerações filosóficas de teor claramente não-acadêmico.

    Atribui-se a um dos astronautas envolvidos na primeira visita à Lua a afirmação, simples e sábia, que eu cito de memória: 'Vi alguns planetas durante a minha vida, mas fico com Terra, qualquer que seja a alternativa'.

    Acredito que essa afirmação reflita não só profunda sabedoria, mas sabedoria profundamente filosófica.

    Não sabemos como é que viemos parar e viver neste lindo pequeno planeta. Nem por que é que existe aqui algo como a vida, que permite que esse planeja seja considerado tão lindo. Mas aqui estamos. E temos motivo de sobra para nos perguntar por quê -- mas também para sermos gratos pelo fato de que, qualquer que seja a razão, estamos aqui.

    O fato de estarmos aqui e de sermos capazes de fazer essas perguntas talvez seja a coisa mais próxima de um milagre a que jamais cheguemos.

    Pois tudo o que a ciência nos pode dizer é que o universo é quase vazio de matéria. E que, onde há matéria, ela está, em sua maior parte, em um estado caótico, turbulento, inabitável, invivível. Pode ser que haja outros planetas em que a vida floresça. Contudo, se pegarmos aleatoriamente um lugar qualquer no universo, a probabilidade (calculada com base na nosso dúbio conhecimento atual da cosmologia) é zero, ou muito próxima de zero, de que encontremos ali alguma forma de vida.

    A vida, portanto, tem valor por ser algo extremamente raro. Esse valor se torna incrivelmente precioso quando nos damos conta de que a vida não só é rara no universo, mas também é altamente precária: podemos perder essa coisa rara e preciosa a qualquer momento.

    Em geral nos esquecemos disso, e tratamos a vida, até mesmo a nossa, como algo extremamente comum e barato -- talvez porque nunca pensemos sobre o assunto. Ou, talvez, porque nesta linda terra em que nos foi dado habitar exista vida em demasia...

    Todos os seres humanos são filósofos, porque, de uma forma ou de outra, cada um de nós assume uma atitude particular para com a vida e a morte. Há aqueles que pensam que a vida não tem valor porque, afinal, ela tem fim... Não percebem que um argumento semelhante pode ser construído com o sinal oposto: se fôssemos imortais, se a vida não tivesse fim, ela não teria valor... É, em grande medida, o fato de que nós, a qualquer momento, podemos perdê-la, e de que certamente a perderemos, definitivamente, um dia, que nos faz perceber quão valiosa a vida é."

    Seria terrível presunção acrescentar qualquer coisa a essa segunda passagem. Talvez seja uma das passagens filosóficas mais belas que eu ja li.

    Mas juntando as duas passagens, concluo o seguinte. Cabe a cada um de nós dotar a sua vida de sentido e significado. Ninguém fará isso por nós. É importante fazer isso porque nossa vida é preciosa e rara -- e extremamente precária. Cada um dia que passa é um dia menos que temos para viver. Ou damos sentido à nossa vida,  -- ou ela é um grande desperdício de um recurso precioso, raro, e, por isso, tão valioso.

    Em Campinas, 30 de Agosto de 2008