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2009/10/27 Filmes antigos de que eu gosto…Meu sobrinho me pediu para fazer uma lista de meus filmes antigos favoritos… Escolhi 1989 como a linha divisória – afinal, filmes lançados em 1989 já têm vinte anos e, por conseguinte, contam como antigos,,, :-) Aqui vão eles, começando com os mais antigos: Gone with the Wind (1939) Em São Paulo, 26 de Outubro de 2009 2009/2/25 O Leitor / The Reader: Uma Resenha[NOTA: Este post é um estraga-prazeres para aqueles que gostam de assistir filmes sem saber o que vai acontecer. Se você é um desses, não leia.] Assisti ontem à tarde O Leitor / The Reader – filme dirigido por Stephen Daldry e baseado em livro, com o mesmo título, de Bernhard Schlink. O filme concorreu ao Oscar na categoria de Melhor Filme e merecidamente trouxe para Kate Winslet, na categoria de Melhor Atriz, o seu primeiro Oscar. Minha primeira sensação, ao sair do cinema, foi de que esperava mais do filme do que ele trouxe... Mas, depois, com conversa, leitura de resenhas e fóruns (no site http://imdb.com) e reflexão, minha opinião sobre o filme foi melhorando... Pode ser que melhore ainda mais. Apesar de ser descrito como um filme sobre o Holocausto, O Leitor se desenrola por inteiro na Alemanha do pós-guerra. A primeira data referência, em que a história começa a se desenvolver, é 1995. O local, Berlin. Michael Berg, um advogado que aparenta ter uns 45 anos (muito bem conservados – vamos ver depois que nasceu em 1943), representado por Ralph Fiennes, com um olhar distante, triste, melancólico mesmo, reflete sobre a sua vida. (Poucos atores conseguem ser tão convincentemente melancólicos como Ralph Fiennes: vide Fim de Caso, O Paciente Inglês, Jardineiro Fiel...). O objeto de sua reflexão é seu relacionamento com Hanna Schmitz, uma mulher que, à época, tinha mais do dobro da idade dele (representada magnificamente por Kate Winslet, no papel que lhe valeu o primeiro Oscar em seis indicações)... Mas já se revela que Michael foi casado (não com Hanna) e que tem uma filha jovem. O cenário se altera. O tempo volta para 1958, mas o local ainda é Berlin. Michael Berg tem 15 anos (e é agora representado por David Kross, num magnífico desempenho) – o que significa que nasceu durante a guerra, em 1943 (o mesmo ano em que eu nasci...). Hanna Schmitz nasceu em 1922 – o que significa que, em 1958, tinha 36 anos – mais do dobro da idade de Michael. Ele começa a passar mal na rua, entra no pré-vestíbulo de um prédio, vomita – e é socorrido por Hanna, que age de forma aparentemente grosseira, lavando a calçada, ordenando que ele levante os pés para que ela possa jogar água... Ele volta para casa e é diagnosticado com escarlatina. Fica isolado por três meses, mas, quando liberado, compra flores e vai agradecer Hanna. Na seqüência, ele a visita mais vezes. Numa dessas, ela lhe pede que traga, do porão, dois baldes de carvão. Ele volta imundo. Ela lhe ordena que tire a roupa (que ela lava) e tome um banho. Depois do banho, ela, já nua, o abraça – e, na seqüência, transa com ele. A frase é correta: foi ela que tomou a iniciativa. Não se pode nem dizer que ela o tenha seduzido. Ela virtualmente o atacou (embora com delicadeza e com a sensibilidade de uma mulher experiente que sabe estar lidando com um iniciante). Eles têm um caso intenso e bonito – embora ela nada revele a ele sobre si própria, além do nome. O relacionamento entre os dois não é apenas físico. Ela pergunta a ele sobre a escola, e ele lhe fala sobre os textos que tem de ler: A Odisséia, As Aventuras de Huckleberry Finn, A Mulher e o Cachorrinho, peças de Tchekov... Ela lhe pede que leia para ela – e ele o faz. Ela elogia a leitura dele – que não achava que fosse bom naquilo... O fato de estar tendo um caso com uma mulher mais velha e bonita, e o elogio que ela lhe faz, fazem com que Michael ganhe a auto-confiança necessária para melhorar sensivelmente até o seu desempenho nos jogos de basquetebol... Tudo influência dela... Na seqüência, ele descobre que Hanna é cobradora de bonde... A história mostra que ela está para ser promovida. Mas, um dia, ela desaparece misteriosamente, deixando Michael perto do desespero. Nova mudança no cenário... Oito anos se passam. O ano agora é 1966, a cidade, ainda Berlin. Michael, agora com 23 anos, é estudante de Direito e, como tal, vai com seus colegas e um de seus professores (Professor Rohl, interpretado por Bruno Ganz), assistir a um julgamento de seis mulheres que trabalharam no Serviço Secreto nazista durante a Segunda Guerra, como guardas de campos de concentração – e são acusadas da morte de centenas de mulheres judias. Uma acusação é a de que regularmente cada guarda tinha de selecionar dez mulheres para morrer. Mas a principal acusação é que essas guardas deixaram, uma vez, 300 prisioneiras morrer em uma capela que pegava fogo, sem abrir a porta para que escapassem... Entre as guardas, para a surpresa de Michael, estava Hanna – agora com 44 anos. Cinco das acusadas estão unidas, negando a acusação, e afirmando que a responsável é Hanna. Interrogada, Hanna responde com simplicidade e uma sinceridade quase irrespondível... Ela não nega que indicava, regularmente, dez prisioneiras para morrer... Por que fazia isso? Ora, o campo de concentração tinha lotação limitada e constantemente novas prisioneiras chegavam... A solução encontrada era enviar um certo número das prisioneiras mais antigas para a morte para que houvesse lugar para as novas... “O que o senhor faria, em meu lugar?”, pergunta Hanna ao juiz... Nos testemunhos ficou evidente que Hanna protegia algumas prisioneiras, as mais fracas e doentes, em troca de um favor: que elas lessem para ela... Quanto à capela, Hanna, argüida pelo juiz sobre por que não abriu a porta da capela quando o incêndio começou, redargüiu com lógica impecável: “Como eu poderia soltá-las, se o meu emprego era mantê-las presas???” Apenas uma mulher se salvou (não se explica como) – e a filha dessa mulher (de nome, no filme, Ilana Mather, subseqüentemente escreveu um livro sobre o episódio. Mãe e filha depõem no julgamento. (A mãe, no julgamento, e a filha, depois, são representadas pela grande Lena Olin, infelizmente em dois papéis pequenos). Ao final, as demais acusadas afirmam que um relatório altamente incriminador, havia sido redigido por Hanna apenas. O juiz quer confrontar a letra do relatório com a letra de Hanna Spitz, e ordena que ela escreva algo em um bloco de papel... Tensão na acusada, que finalmente se recusa a escrever e admite ter sido ela a autora do relatório. Nesse ponto, Michael, na audiência, tem certeza de que ela é analfabeta! Um dia havia pedido que ela lesse um dos livros, e ela se recusou, dizendo que preferia ouvir a leitura dele... Ele se lembra de que, um dia, quando fez uma excursão de bicicleta pelo campo com ela, e pararam para comer algo, ela olhou o menu e o colocou de lado, dizendo a ele que iria comer a mesma coisa que ele escolhesse... Pelo testemunho ouvido no julgamento, Hanna, no seu serviço como guarda, protegia prisioneiras que liam para ela... Conclusão: agora, para não sofrer o vexame de se ver revelada analfabeta, Hanna prefere mentir e admitir que foi ela a autora do relatório... Dilema para Michael, que tem informação que pode, em princípio, inocentar Hanna. Ele conversa com seu professor – que não o ajuda muito. Tenta racionalizar, para si próprio, a decisão de ficar quieto, alegando que ela mesma havia optado por não revelar a verdade – por que iria ele, agora, agir diferentemente? Ela havia tomado uma decisão para não passar pelo vexame de se revelar analfabeta – que direito tinha ele de fazê-la passar por esse vexame, ainda que fosse para salvá-la de uma sentença mais dura? O final é previsível. As outras cinco acusadas são condenadas, mas recebem penas leves. Hanna é condenada à prisão perpétua. O tempo entre o cenário de 1958 e o cenário de 1966 não é preenchido no filme. Mas o tempo entre o cenário de 1966 e o de 1995 é preenchido como pequenos “flashes”. Michael, depois de casado e separado, redescobre o caderninho em que ele anotava os livros que tinha de ler na escola, resolve começar a gravar em cassete os livros que um dia havia lido para ela, e envia as fitas para ela na prisão: dezenas e dezenas de fitas. Ela, na prisão, começa a retirar da biblioteca os livros que ele gravou, e, pouco a pouco, vai aprendendo a ler, comparando o que está escrito no livro com aquilo que ela ouve na fita... Manda pequenos bilhetes para ele, pedindo que grave este ou aquele livro... Um dia, por volta de 1986, a responsável pelo presídio entra em contato com Michael, para dizer-lhe que Hanna vai ser libertada por ter cumprido vinte anos da pena – e que ele é o único contato que ela tem fora do presídio. Outro dilema, embora agora menor. Ele arruma um emprego e um apartamento, ambos simples, para ela, e comunica a ela o fato em um único contato face-a-face – em que ela tenta segurar a mão dele e ele, visivelmente embaraçado, a remove, depois de poucos segundos. No dia em que ela deveria ser libertada, ele vai buscá-la – mas ela havia se suicidado no dia anterior. Aparentemente usou uma pilha de livros em cima da mesa para conseguir se enforcar. Não havia arrumado suas coisas para sair da cela, fato que indicava que não pretendia sair de lá viva... Numa carta testamento, Hanna deixa para Ilana Mather, a filha da sobrevivente do incêndio na capela, uma latinha de chá com o dinheiro vivo que possuía, mais uma some de cerca de sete mil marcos que tinha no banco, com instruções para que Michael entregasse o dinheiro à destinatária. Ele, durante uma viagem a New York, tenta entregar o dinheiro, mas Ilana se recusa a recebê-lo, ficando apenas com a latinha, que parecia uma que ela tinha tido durante o tempo em que ficara no campo de concentração, mas perdera. Ele pede sugestões sobre organizações filantrópicas judias às quais ele pudesse doar o dinheiro. Ela diz que organizações judias não precisariam desse dinheiro. Por fim ele sugere que o dinheiro seja doado a instituições voltadas para a alfabetização de adultos, e ela não vê por que não, mas deixa que ele decida e escolha... O filme termina com Michael, já de volta em 1995, levando sua filha, da qual havia se afastado, depois do divórcio, para conhecer o túmulo de Hanna – local em que ele começa a lhe revelar a sua história. o O o Como disse, eu, depois de ver o filme, fiquei com a sensação frustrante de que esperava mais dele. Mas essa sensação vem diminuindo, por razões que passo a expor. O filme trata – dentro das limitações do “médium” – de alguns dilemas morais importantes. O principal deles trata das conseqüências de erros morais que cometemos, muitas vezes no que, no momento, parece ser o exercício do dever, e o sentimento de culpa, de revolta, de necessidade de fazer justiça que esses erros suscitam nos indivíduos (tanto vítimas como perpetradores e bystanders) e na sociedade em que aconteceram. O filme levanta ainda a questão interessante. Tenho eu o direito ou o dever de revelar algo sobre uma outra pessoa, que pode reduzir sua pena ou até mesmo salvar sua vida, quando essa pessoa se recusa a fazê-lo ela mesma, por considerar o objeto da revelação vexatório? Tenho eu o direito ou o dever de agir no que presumo ser o melhor interesse da pessoa, quando ela própria acha que seu melhor interesse é preservar o segredo e a privacidade de uma condição que considera vergonhosa? Crimes, como os descritos, podem vir a ser expiados ou perdoados e produzir redenção ou reconciliação? Ou é tarefa das vítimas, e seus herdeiros, garantir que até o último culpado recebe sua justa punição? Mais uma questão interessante. Numa aula, o professor de direito de Michael, um sobrevivente do Holocausto, representado por ... , afirma “as sociedades gostam de imaginar que operam com base em princípios morais, mas isso não é verdade: elas operam com base na lei”... Agora, se a lei prescreve comportamentos que são considerados imorais, o que faz a pessoa simples, que quer apenas desempenhar bem o seu trabalho, que não é intelectual, que não filosofa??? Hanna Schmitz, mesmo em seu julgamento, em 1966, ainda está perfeitamente convencida de que seu trabalho era guardar as prisioneiras, evitar que fugissem... – como poderia ela abrir a porta da capela para deixá-las escapar do fogo, sim, mas também da custódia em que se encontravam??? Ela participou dos crimes nazistas porque “that was my job”, e ela acreditava ser seu dever fazer o seu trabalho bem feito, porque seus chefes estavam no poder legalmente, tinham a autoridade de lhe dizer o que deveria fazer e tinham o direito de esperar que ela fizesse o que lhe era ordenado... A lei, a despeito da necessidade de interpretação, e do relativo subjetivismo do processo hermenêutico, tem por base um texto, que é algo objetivo. Mas a moralidade, ancora-se em quê? Se vamos julgar a lei por critérios morais, que moralidade vamos usar? Vamos usar a moralidade católica para impedir que o divórcio, ou o aborto, se tornem legais? Vamos usar a moralidade protestante puritana para impedir que a lei faculte que as pessoas andem seminuas nas praias, que as mulheres façam topless onde quiserem, que os assim chamados naturistas pratiquem o seu nudismo em praias reservadas para essa prática? Vamos usar essa mesma moralidade para proibir, com a força da lei, a edição e circulação de revistas que exibem pessoas nuas, filmes de sexo explícito, livros considerados pornográficos? Por outro lado, parece que, ao separarmos a lei da moralidade, e afirmarmos que, no mundo sócio-político, vale a lei, não a moralidade, nos curvamos ao cinismo daqueles que afirmam, ao ser flagrados em falcatruas de todo tipo, que seu comportamento ficou dentro dos limites da lei. E não é só de falcatruas financeiras que se trata: afinal de contas, Hanna Schmitz agiu dentro dos ditames da lei – e, por causa disso, trezentas mulheres inocentes morreram. Hanna, apesar de ser descrita por suas vítimas, ou por aqueles que as representam, como um monstro, não é uma pessoa má... Ela é uma pessoa simples, que acha que tem de cumprir com o seu dever e fazer, da melhor forma possível, o que os seus chefes lhe ordenam e esperam dela... Quanta gente não pensa do mesmo jeito, e só não comete crimes, pequenos ou horrendos, porque seus chefes nunca lhes pediram que fizesse algo moralmente errado? A pessoa comum tem a obrigação de entender as questões mais intricadas da ética filosófica e da filosofia política? O que fazer daqueles que, dentro de igrejas e partidos políticos, aceitam uma ética de segunda mão, sobre a qual nunca refletem? Os católicos que se opõem ao aborto, ou ao controle da natalidade, ou ao divórcio, porque é isso que a Igreja Católica Romana ensina que é certo, e eles não têm ou a vontade ou a capacidade de destrinchar essas questões morais complicadas, essas pessoas não estão, porventura, sem perceber, correndo o risco de agir erroneamente, ou até mesmo de cometer crimes contra determinadas pessoas, porque agem segundo uma moralidade recebida por autoridade, sobre a qual não refletem, ou porque não querem, ou porque não podem, ou porque não acham que é preciso? A questão do analfabetismo de uma pessoa adulta, mesmo numa sociedade desenvolvida como a Alemanha da época da Segunda Guerra, embora central para a trama, parece ocupar um lugar claramente secundário diante dessas outras grandes questões. Kate Winslet representa na tela uma personagem que muitas pessoas considerariam um monstro. Mas ela consegue fazer com que o mostro, sem deixar de ser monstro, tenha cara humana, sofra, goste de ouvir a melhor literatura, ria, faça amor, traga prazer e confiança para um menino (que ela chamava de “kid”)... Um grande feito. Poucas atrizes conseguiriam fazer isso. Sem dúvida o melhor papel dela até hoje. Com seus 33 anos, ela promete muito mais. Consegue ser convincente até quando, com a ajuda da maquiagem, evidentemente, representa uma mulher de quase sessenta e cinco anos. Quando, em seu último encontro, Michael pergunta a Hanna se ela tem pensado muito sobre o passado, ela lhe pergunta: sobre o nosso passado? Ele diz que não: sobre o passado em geral. Ela lhe responde: "Não importa o que eu penso. Não importa o que eu sinto. Os mortos continuam mortos”. Isso é verdade: os mortos continuam mortos. Mas o resto não é verdade: o que pensamos e o que sentimos importa. E vendo filmes como esse, somos forçados a pensar e a sentir. E se pensarmos e sentirmos, provavelmente corremos menor risco de cometer erros morais e mesmo crimes por estarmos vivendo e agindo em piloto automático. Em São Paulo, 25 de Fevereiro de 2009 2009/2/24 O multiculturalismo do OscarPor incrível que pareça estou encontrando uma série de matérias que sou capaz de endossar na Folha Ilustrada de hoje (24/2/2009)… Aqui está uma terceira, de Sérgio Rizzo. Não é meu feitio transcrever tanta matéria assim num dia só, mas esta também vale a pena. Assim vou pautando minhas próprias matérias para o futuro… A notinha sobre High School Musical no finalzinho é pertinente. Que os brasileiros, que tanto tentam ganhar um Oscarzinho, atentem a ela. ===================== Folha de S. Paulo Análise Afagos a outros países, que duram minutos na festa, têm alto valor de mercado SÉRGIO RIZZO Multiculturalismo, para a Academia, é distribuir prêmios para profissionais de diferentes etnias, saudar a possibilidade de rodar filmes de apelo comercial em lugares ermos e com orçamentos menores do que a média, e reconhecer que pode haver vida inteligente no cinema fora de Hollywood. De acordo com essa ideia prosaica que empresta ao termo um significado oportunista, o Oscar viveu no domingo outra noite multicultural, na linha da que consagrou, em 1988, "O Último Imperador", de Bernardo Bertolucci, com nove Oscar -quase nas mesmas categorias em que triunfou "Quem Quer Ser um Milionário?". Esse aceno generoso a outras culturas tem um sentido de inclusão, como os novos tempos nos EUA sugerem, mas segundo a lógica comercial. Um afago a um país (ou a uma comunidade irmanada pelo mesmo idioma) na noite de premiação dura poucos minutos e, simbolicamente, realimenta simpatias de valor de mercado incalculável. Um Oscar para Penélope Cruz, por exemplo, pautará por muito tempo toda a mídia da Espanha e associará para sempre o prêmio ao nome da atriz. Seu discurso de agradecimento em espanhol, no entanto, alcança todos os países hispânicos, despertando o sentimento de que "um de nós chegou lá". Vários de "nós" chegaram lá na cerimônia de domingo, a começar pelos australianos (o apresentador Hugh Jackman, a família de Heath Ledger), pelos indianos de "Quem Quer Ser Um Milionário?" e pelos japoneses que, vencedores nas categorias de filme estrangeiro e de curta-metragem, alegremente disseram "zankiu". Sem falar em italianos (Sophia Loren ao vivo, mais imagens de Roberto Benigni) e até poloneses (com o diretor de fotografia Janusz Kaminski pagando mico em um quadro). A transmissão da própria cerimônia é fonte de receita e, com a audiência global em queda, a escolha de apresentadores se tornou ainda mais estratégica. Não por acaso, também deram as caras ídolos do público jovem, como os atores de "High School Musical" e de "Crepúsculo". Se a Academia quis simbolicamente dizer a alguém que aquele enorme brinquedo um dia será seu, foi para essa nova geração de astros nada multiculturais, e não para os alegres indianos de "Quem Quer Ser um Milionário?". Escrito e transcrito em São Paulo, 24 de Fevereiro de 2009 Kate WinsletDepois de escrever o post anterior, achei esta preciosidade sobre Kate Winslet na Folha de hoje, 24/2/2009. Genial. A menina de 33 anos cresceu no meu conceito… (Ela nasceu em 5 de Outubro de 1975, em Reading, na Inglaterra). A tirada sobre Susan Sarandon é impagável… Valeria o preço de muitas entradas ver Susan Sarandon, a musa da esquerda cor-de-rosa americana, fazendo as cenas de nudez que Mme. Winslet faz em O Leitor… No site IMBD (http://www.imdb.com/name/nm0000701/bio - vide "Personal Quotes") há referência ao fato de que Kate Winslet teria dito, depois de sua quinta indicação para o Oscar, sem ganhá-lo, que, para ganhar, seria necessário fazer um filme sobre o Holocausto... Well: fez e levou. Realismo e determinação. Admirável. Visão, Motivação, Competência (vide meu site http://vmc.vc). ====================== Folha de S. Paulo Winslet foge do padrão de Hollywood DO ENVIADO A LOS ANGELES Quando fez uma participação no hilariante seriado "Extras", interpretando ela mesmo, Kate Winslet dizia ironicamente que "se você faz um filme sobre o Holocausto, seu Oscar é garantido". Ela fez um filme sobre o Holocausto -como uma segurança da SS- e levou a estatueta, após cinco derrotas. Anteontem, à imprensa, avisou ao jornal de sua cidade-natal que outra Winslet estamparia a primeira página: é que em dezembro sua mãe ganhou o concurso local de confecção de picles de cebola. Irônica, franca e sem travas: assim é a detentora do prêmio de melhor atriz. É uma saudável exceção no mundo pasteurizado de Hollywood. Indagada sobre a crítica da imprensa britânica ao excesso de emoção demonstrado por ela em premiações anteriores, disse: "É triste que meu país não consiga ter prazer no sucesso de uma das suas". Sobre declaração de que não faria mais cenas de nudez e instada por um jornalista a passar "o bastão das cenas tórridas", escolheu "Susan Sarandon". (SD) Escrito e transcrito em São Paulo, 24 de Fevereiro de 2009 Ainda o Oscar 2009Transcrevo abaixo uma matéria de João Pereira Coutinho, publicada na folha de hoje, 24/2/2009. Dos filmes que concorreram na categoria de melhor filme, só vi O Curioso Caso de Benjamin Button e Quem Quer Ser um Milionário. Em relação a eles, concordo, em grande parte, com a análise do autor. Devo acrescentar que, na minha opinião, Benjamin Button mereceu ganhar alguns Oscars técnicos e o tema da história, como ressalta Coutinho, lida com uma questão que fascina o ser humano. Mas a execução do filme, o desenrolar da história, deixa muito a desejar. Falta enredo, falta trama -- o filme se arrasta. Talvez seja um pouco exagerado chamá-lo de não-filme, mas tiro o chapéu para esta frase de Coutinho: "Benjamin não é apenas desprovido de propósito; todo o filme, em sua autocomplacência visual, parece acompanhar o vazio da personagem. Não se trata de um mau filme. Trata-se de um não-filme." Quanto a Quem Quer Ser um Milionário? vi-o aqui em casa, ontem à tardinha/noitinha, na tela do computador, em formato .avi. Coutinho mais uma vez chega perto da perfeição ao dizer que o filme escolhido como o melhor é (dentre os cinco indicados) "provavelmente o pior de todos: uma história ridiculamente sentimental sobre um indiano das favelas que, em gesto de amor, vai a concurso televisivo para ganhar fortuna redentora". Vai além: Afirma que a "histeria visual de Danny Boyle", o diretor, "é indistinguível de um videoclipe". Não vi os outros três filmes ainda. Creio que nem vá ver Milk. Suspeitava que o filme "não consegu[isse] se distanciar do panfleto gay e de seus clichês ideológicos", como afirma Coutinho. E decididamente não gosto de Sean Penn como ator. Não o conheço como pessoa, mas suspeito que não gostaria dele em pessoa também. A adoração que a esquerda cor-de-rosa lhe devota o torna ainda mais indeglutível. E o cor-de-rosa aqui nada tem que ver com os gays: tem que ver com o espectro político. "Esquerda cor-de-rosa", para mim, é a esquerda tipo Martha Suplicy, feita de intelectuais e ricos com dor de consciência... Provavelmente vá ver O Leitor. A história é interessante e Kate Winslet está linda... Perdeu aquele ar de menina gordinha que tinha em Titanic. Isso compensa outras falhas. A propósito, Cate Blanchett também está linda em Benjamin. Ela redime algumas falhas do filme (que oculta a melhor coisa que Brad Pitt tem como ator: um visual incomparável)... Duas mulheres lindas com nome que soa do mesmo jeito -- mas é grafado de forma diferente, com K e com C. Kate e Cate. ========================= Folha de S. Paulo JOÃO PEREIRA COUTINHO Hollywood: uma autópsia ---------------------------------------------------------------------------- Os indicados ao Oscar são prova da estagnação que Hollywood vem denunciando há anos ---------------------------------------------------------------------------- OSCAR: VOCÊS conhecem o jogo. Um filme vence, quatro filmes perdem. Aconteceu neste ano: "Quem Quer Ser um Milionário?" levou a estatueta dourada. Mas houve uma derrota suplementar: a derrota do cinema como arte revolucionária e vital, e não falo apenas do filme de Danny Boyle. Segundo dizem, os cinco indicados ao Oscar de melhor filme representam a excelência que a indústria produziu em 2008. Eu assisti aos cinco, em cinco dias seguidos, para escrever texto crítico a respeito. Puro desperdício. Se o melhor do cinema anglo-americano está em "O Curioso Caso de Benjamin Button", "Milk - A Voz da Igualdade", "Frost/ Nixon", "Quem Quer Ser um Milionário?" e "O Leitor", por favor, preparem a tumba. Exagero? Antes fosse. Primeiro que tudo, digo em minha defesa: nunca embarquei no desprezo tipicamente terceiro-mundista de olhar para Hollywood com escárnio. Longe disso: o cinema nasceu na Europa mas foi nos Estados Unidos que ele se ergueu como arte distinta, muitas vezes servida por diretores europeus. E quando me falam nas "teorias de autor", que alegadamente se opõem ao reles comercialismo americano, lembro sempre que o conceito de "autor" é indissociável de Hollywood: de nomes como John Ford ou Howard Hawks, que os intelectuais de Paris teorizaram e, ironia das ironias, importaram de volta para os Estados Unidos. Scorsese não existiria sem a influência da nouvelle vague. Mas a nouvelle vague não existiria sem o patrimônio fílmico que Hollywood produziu na primeira metade do século 20 e que se ofereceu à geração dos "Cahiers du Cinéma" como laboratório de estudo e subversão. Tudo isso me parece agora distante e até deslocado. Os cinco filmes indicados ao Oscar são prova do cansaço e da estagnação que Hollywood vem denunciando há vários anos. Claro que nem todos os filmes são comparáveis. "Quem Quer Ser um Milionário?", apesar da vitória, é provavelmente o pior de todos: uma história ridiculamente sentimental sobre um indiano das favelas que, em gesto de amor, vai a concurso televisivo para ganhar fortuna redentora. O problema não está na natureza fantasiosa da história: se assim fosse, seria preciso desqualificar uma parte importante do patrimônio cinematográfico, de Georges Méliès a Tim Burton. O problema está na histeria visual de Danny Boyle, que constrói uma narrativa sem uma única ideia de cinema a servi-la. O caso não é novo: "Trainspotting - Sem Limites" já anunciava ao mundo que, para Danny Boyle, o cinema é indistinguível de um videoclipe. Exatamente o contrário do que sucede com "O Curioso Caso de Benjamin Button". O filme, inspirado vagamente em conto prodigioso de Scott Fitzgerald, pretende oferecer-se como meditação sobre a irreversibilidade do tempo. Mas o que existia de excesso em Danny Boyle é agora ruminação sem sentido em Fincher: o seu Benjamin não é apenas desprovido de propósito; todo o filme, em sua autocomplacência visual, parece acompanhar o vazio da personagem. Não se trata de um mau filme. Trata-se de um não-filme. Mas a verdadeira desgraça de Hollywood talvez não esteja em "Quem Quer Ser um Milionário?" ou "O Curioso Caso de Benjamin Button": obras falhadas fazem parte de qualquer atividade artística, certo? A desgraça maior talvez esteja em "Milk - A Voz da Igualdade", "Frost/ Nixon" e "O Leitor", três filmes medianos, e medianos por seu academismo vulgar. "Milk" começa por surpreender exatamente por isso: Gus van Sant tem obras estimáveis no início da carreira, como "Drugstore Cowboy". Em "Milk", biopic sobre o primeiro político assumidamente homossexual a ser eleito para cargo público, Gus van Sant não consegue se distanciar do panfleto gay e de seus clichês ideológicos. Essa preguiça programática é ainda amplificada pelo convencionalismo formal que Gus van Sant imprime a "Milk". Restam "Frost/Nixon" e "O Leitor", que talvez se salvassem do dilúvio se Ron Howard ou Stephen Daldry fossem, no verdadeiro sentido da palavra, "autores". Não são. "Frost/Nixon" denuncia as suas origens teatrais, e denuncia da pior forma possível: ao tornar desnecessariamente caricatural o que apenas os palcos eram capazes de suportar. A composição de Frank Langella como Nixon prova-o de forma clara e, para mim, dolorosa. "O Leitor" apenas prolonga a trivialidade de "Frost/Nixon": o poderoso livro de Bernhard Schlink sobre a relação amorosa entre uma antiga guarda nazista e um jovem estudante na Alemanha do pós-guerra não passa de uma composição desinspirada e televisiva. Disse "televisiva"? Corrijo. O Oscar deste ano confirma, pelo contrário, que a moderna ficção televisiva substituiu há muito, em inventividade e desafio, o papel visual e narrativo que o cinema teve durante um século. Escrito e transcrito em São Paulo, 24 de Fevereiro de 2009 2009/2/22 O Oscar 2009Como faço todo ano, segue, abaixo, a lista dos vinte e quatro indicados para o Oscar de hoje à noite, com as categorias e os nomes dos filmes em Português e em Inglês. Os vencedores estão indicados por um asterisco. Ando tão desligado da televisão ultimamente que só agora há pouco, durante o Fantástico (curto por causa do Carnaval), fiquei sabendo que a entrega do Oscar era hoje… Felizmente a entrega do prêmio é no Domingo de Carnaval. Assim dá para dormir mais amanhã cedo (que é um daqueles feriados que não são feriados)… É esta a lista completa dos indicados, em Português: 1. Melhor filme O Curioso Caso de Benjamin Button 2. Melhor diretor * Danny Boyle (Quem Quer Ser um Milionário? - Slumdog Millionaire) 3. Melhor ator Richard Jenkis (The Visitor) 4. Melhor atriz Anne Hathaway (O Casamento de Rachel) 5. Melhor ator coadjuvante Robert Downey Jr. (Trovão Tropical) 6. Melhor atriz coadjuvante Amy Adams (Dúvida) 7. Melhor roteiro original Frozen River 8. Melhor roteiro adaptado O Curioso Caso de Benjamin Button 9. Melhor trilha sonora original Alexandre Desplat (O Curioso Caso de Benjamin Button) 10. Melhor canção original Down to Earth (Wall-E) 11. Melhor filme estrangeiro Der Baader Meinhof Komplex, de Uli Edel (Alemanha) 12. Melhor animação Bolt - Supercão 13. Melhor curta de animação * La Maison en Petits Cubes, de Kunio Kato 14. Melhor documentário The Betrayal (Nerakhoon), de Ellen Kuras e Thavisouk Phrasavath 15. Melhor documentário em curta-metragem The Conscience of Nhem En 16. Melhor curta-metragem Auf der Strecke (On the Line) 17. Melhor direção de arte A Troca 18. Melhor fotografia A Troca (Tom Stern) 19. Melhor edição O Curioso Caso de Benjamin Button (Kirk Baxter e Angus Wall) 20. Melhor mixagem de som O Curioso Caso de Benjamin Button (David Parker, Michael Semanick, Ren Klyce e Mark Weingarten) 21. Melhor edição de som * Batman - O Cavaleiro das Trevas (Richard King) 22. Melhores efeitos especiais * O Curioso Caso de Benjamin Button (Eric Barba, Steve Preeg, Burt Dalton e Craig Barron) 23. Melhor maquiagem * O Curioso Caso de Benjamin Button (Greg Cannom) 24. Melhor figurino Austrália (Catherine Martin)
1. Best motion picture of the year “The Curious Case of Benjamin Button” (Paramount and Warner Bros.), A Kennedy/Marshall Production, Kathleen Kennedy, Frank Marshall and Ceán Chaffin, Producers 2. Achievement in directing “The Curious Case of Benjamin Button” (Paramount and Warner Bros.), David Fincher 3. Performance by an actor in a leading role Richard Jenkins in “The Visitor” (Overture Films) 4. Performance by an actress in a leading role Anne Hathaway in “Rachel Getting Married” (Sony Pictures Classics) 5. Performance by an actor in a supporting role Josh Brolin in “Milk” (Focus Features) 6. Performance by an actress in a supporting role Amy Adams in “Doubt” (Miramax) 7. Original screenplay “Frozen River” (Sony Pictures Classics), Written by Courtney Hunt 8. Adapted screenplay “The Curious Case of Benjamin Button” (Paramount and Warner Bros.), Screenplay by Eric Roth, Screen story by Eric Roth and Robin Swicord 9. Achievement in music written for motion pictures (Original score) “The Curious Case of Benjamin Button” (Paramount and Warner Bros.), Alexandre Desplat 10. Achievement in music written for motion pictures (Original song) “Down to Earth” from “WALL-E” (Walt Disney), Music by Peter Gabriel and Thomas Newman, Lyric by Peter Gabriel 11. Best foreign language film of the year “The Baader Meinhof Complex” A Constantin Film Production, Germany 12. Best animated feature film of the year “Bolt” (Walt Disney), Chris Williams and Byron Howard 13. Best animated short film “La Maison en Petits Cubes” A Robot Communications Production, Kunio Kato 14. Best documentary feature “The Betrayal (Nerakhoon)” (Cinema Guild), A Pandinlao Films Production, Ellen Kuras and Thavisouk Phrasavath 15. Best documentary short subject “The Conscience of Nhem En” A Farallon Films Production, Steven Okazaki 16. Best live action short film “Auf der Strecke (On the Line)” (Hamburg Shortfilmagency), An Academy of Media Arts Cologne Production, Reto Caffi 17. Achievement in art direction “Changeling” (Universal), Art Direction: James J. Murakami, Set Decoration: Gary Fettis 18. Achievement in cinematography “Changeling” (Universal), Tom Stern 19. Achievement in film editing “The Curious Case of Benjamin Button” (Paramount and Warner Bros.), Kirk Baxter and Angus Wall 20. Achievement in sound mixing “The Curious Case of Benjamin Button” (Paramount and Warner Bros.), David Parker, Michael Semanick, Ren Klyce and Mark Weingarten 21. Achievement in sound editing “The Dark Knight” (Warner Bros.), Richard King 22. Achievement in visual effects “The Curious Case of Benjamin Button” (Paramount and Warner Bros.), Eric Barba, Steve Preeg, Burt Dalton and Craig Barron 23. Achievement in makeup “The Curious Case of Benjamin Button” (Paramount and Warner Bros.), Greg Cannom 24. Achievement in costume design “Australia” (20th Century Fox), Catherine Martin o O o Como se pode ver, Quem Quer Ser um Milionário? (Slumdog Millionaire), indicado para dez Oscars, acabou ganhando a competição contra O Curioso Caso de Benjamin Button (The Curious Case of Benjamin Button), indicado para treze Oscars: ganhou mais Oscars e Oscars mais importantes (inclusive Melhor Filme e Melhor Diretor). Minha preferência, porém, era por Benjamin Button. Mas é bom ver a participação bem sucedida da Índia num filme de primeira linha. Fiquei muito contente com dois Oscars. Primeiro, o de Penelope Cruz na categoria Melhor Atriz Coadjuvante. Ela está magnífica em Vicky Cristina Barcelona: ofuscou minha “ídola” Scarlett Johansson. Segundo, o de Kate Winslet, na categoria Melhor Atriz, pelo filme O Leitor (The Reader). Ela é sempre excelente. Apesar de ter gostado do Oscar de Kate Winslet, eu também teria adorado se Meryl Streep tivesse ganho o Oscar de Melhor Atriz. Indicada pela décima quinta vez (um record), Meryl Streep merece qualquer Oscar que ainda vier para ela (apesar de já ter ganho dois). Fiquei triste de Brad Pitt não ter ganho na categoria Melhor Ator, pelo filme O Curioso Caso de Benjamin Button (The Curious Case of Benjamin Button). São Paulo, em 22 de Fevereiro de 2009 2008/11/26 Vicky Cristina BarcelonaAssisti ontem à noitinha (no Shopping que fica em frente ao Conjunto Nacional, onde fica a Livraria Nobel de meu amigo Nivaldo Cordeiro) ao último filme dirigido por Woody Allen (com o título acima): a história de duas amigas americanas (Vicky – representada por Rebecca Hall, virtualmente desconhecida, e Cristina – representada por Scarlett Johansson, a nova musa de Woody Allen). Contracenam com as duas Chris Messina e Penelope Cruz – ambos muito bem em seus papéis. Recomendo. A história é bem bolada – Woody Allen além de diretor é o roteirista, e, sendo a história original, é, na verdade, o autor de uma história bastante interessante. Os diálogos são “sharp”, os personagens bem desenhados e representados. O contraste entre Vicky e Cristina é traçado em linhas fortes, mas não escapa da realidade: a primeira é a certinha, a outra a ousada… Os personagens representados por Messina e Cruz às vezes beiram o exagero, mas sem cair nele: ele o amante latino irresistível (especialmente para turistas americanas…), ela a amante latina adorável mas terrivelmente temperamental. E o cenário é lindo: Barcelona e Oviedo. Woody Allen, na minha opinião, fica cada vez melhor à medida que envelhece. Já havia gostado muito de Match Point (de 2005) e, agora, gosto muito deste último filme (de 2008) – ambos com Scarlett Johansson. Entre os dois ela fez, também com Woody Allen, Scoop (de 2006), que eu ainda não vi – além de vários outros filmes com outros diretores. Repito: vale a pena ver. Em São Paulo, 26 de Novembro de 2008 2008/10/9 Nights in Rodanthe (2008, Noites de Tormenta)“Nunca é tarde para uma nova chance” – é este o slogan (“tagline”) do filme na International Movie Data Base (IMDB). Bastante apto. O filme trata de um recomeço para dois e a dois – um recomeço que que se tornou possível por causa do acaso. Ou, para quem não acredita em acaso e tem pendores calvinistas, por graça e obra de uma providentia divina specialissima, que opera de forma oculta e misteriosa, detrás dos bastidores, dirigindo nossos afazeres, determinando nossas decisões, condicionando nossas escolhas… A história é bonita – e é interpretada quase à perfeição. Ela se baseia em um livro de Nicholas Sparks, com o mesmo título do filme. Já assisti a três outros filmes baseados em livros dele: The Notebook (2004, Diário de uma Paixão, em Português), A Walk to Remember (2002, Um Amor para Recordar, em Português), e Message in a Bottle (1999, Uma Carta de Amor, em Português). Todos muito bons. Nicholas Sparks é hoje famoso por suas histórias de amor simples, não raro tristes, mas muito bem contadas. É possível que nunca seja um sucesso de crítica nem ganhe um Nobel de Literatura. Mas será sempre um bestseller – e um campeão de bilheterias, quando suas histórias são transformadas em filmes, como várias já foram. Noites de Tormenta, lançado este ano, traz Richard Gere e Diane Lane – o mesmo par de Unfaithful (2002, Infidelidade, em Português) e The Cotton Club (1984, Cotton Club, em Português). Ambos estão perfeitos em seus papéis. Gere, do alto de seus 59 anos, está melhor do que nunca, e Lane está perfeita. Esse terceiro filme deles mostra que os diretores afinal descobriram que os dois juntos fazem uma parceria que é sucesso garantido. A história é sobre um casal que se encontra (por acaso?) em uma pousada, à beira do mar, em Rodanthe, no litoral da Carolina do Norte. Ela (Adrienne Willis) foi para lá para tomar conta da pousada para a proprietária, sua amiga. Ele (Paul Flanner) é o único hóspede durante a baixa temporada – na verdade, na temporada das tormentas e dos furacões. Adrienne está separada do marido, que quer que ela volte para ele. Em seu pleito, o ex-marido tem o apoio dos filhos, um casal. Adrienne hesita. Pensa nela, que não quer voltar. Pensa nos filhos, que querem que ela volte. A temporada na pousada lhe dará tempo para pensar. Paul é um médico, em cujas mãos morreu uma paciente já idosa, da qual ele retirava um cisto no rosto. A família da mulher morta o processou. No entanto, o viúvo, que mora perto da pousada, lhe envia uma carta convidando-o para uma conversa. É por isso que ele se dirige para a pousada, onde ficará conhecendo Adrienne. Um encontro que tem lugar por obra do acaso? Ou será que há forças ocultas que, mesmo quando não planejamos, ou até mesmo quando estamos inconscientes dos motivos de nossas ações, nos colocam no lugar certo, na hora certa? A primeira conversa entre Paul e o viúvo mostra um Paul defensivo, dizendo que não teve culpa na morte da mulher, e sem sensibilidade para com a dor do outro. Adrienne observa a conversa. E decide intervir – sem saber aonde a intervenção vai levar. Desde o primeiro encontro dos dois protagonistas se percebe que há uma química especial que os aproxima um do outro. Aos poucos ela vai se abrindo e lhe contando sua história. Ele, meio a contragosto, vai revelando a dele a ela – o resto ela vai descobrindo. Embora os dois tenham problemas, um vai procurando ajudar o outro – e o amor aparece sem ter sido convidado: os dois se apaixonam. Cenas lindas dos dois andando abraçados pelas praias de Rodanthe. Ela o estimula a procurar o viúvo mais uma vez e a mostrar-lhe solidaridade e sentimento. Ele o faz – e a conversa franca e dura com o homem lhe alivia um pouco a alma. Ela o estimula, de igual forma, a procurar o filho, também médico, que, depois do acidente, abandonou o hospital em que ambos trabalhavam e foi prestar serviços médicos a populações carentes no Equador. A história caminha e os dias de sua permanência juntos na pousada chegam ao fim. Ela volta para casa, ele parte ao encontro do filho. Planejam o dia em que se reunirão. Em casa ela comunica aos filhos e ao ex-marido que não quer refazer o casamento. A filha adolescente se revolta. O menino mais novo, embora triste, tem um comportamento mais receptivo, e abraça a mãe. O tempo passa. A filha dela, distante. O amor entre os dois, cultivado apenas por cartas apaixonadas. No Equador, ele se reconcilia com filho, ao entrar de cabeça no trabalho social. Fica um tempo relativamente longo lá – depois do qual anuncia para ela que estará retornando em breve. Marca o dia, informa o vôo. E não chega… Ela fica agarrada ao telefone a noite inteira. Liga para a companhia aérea e ele não estava no vôo. Pouco tempo depois toca a campainha e é o filho dele – com uma caixa de cartas e objetos pessoais na mão. O desfecho é evidente: Paul Flanner morreu. Numa tempestade a casa em que o filho trabalhava e morava no Equador desabou sobre ele – quando ele corajosamente entrou nela para tentar salvar os medicamentos que lá estavam. O final do filme é lindo e triste. Ela cai em crise de depressão por uns dias. A filha finalmente se aproxima da mãe e a ajuda material e emocionalmente. O sofrimento visível da mãe comove e muda a filha. A cena em que Adrienne examina os objetos da caixa trazida pelo filho dele é memorável… A dor e a angústia se estampam no rosto dela a cada objeto tocado, a cada carta aberta -- inclusive uma última, dele para ela, não enviada. Filme sensível, que faz pensar e faz chorar (como Diário de uma Paixão e Uma Carta de Amor). Uma linda história de amor – apesar de triste. Em Brasília, 8 de Outubro de 2008 2008/7/26 Juliette Binoche e Olivier MartinezAcabei de ver meu segundo filme hoje -- este em DVD, um lindo filme Francês, com os atores cujos nomes estão no título deste post. O título do filme é longo, em Português: O Cavaleiro do Telhado e a Dama das Sombras. O título original é Le Hussard sur le Toit (literalmente, O Cavaleiro no Telhado), de 1995. Trata-se de um filme de época, passado em Provence, no sul da França, em 1832 -- momento em que acontecia uma terrível epidemia de cólera que dizimou a população local. Os artistas são de primeira grandeza - ambos franceses. Ela, Juliette Binoche, premiada na França e nos Estados Unidos, é famosa no Brasil por razões certas e por razões erradas. Começando com estas, ela foi atriz do famoso Je Vous Salue, Marie, de 1985, que o Presidente José Sarney, apesar de terminada a ditadura e abolida a censura, resolveu proibir que fosse exibido no Brasil a pedido do lobby católico. (Hoje a gente compra o filme em DVD por 9.99 reais nas Lojas Americanas). O filme não é grande coisa e só ficou famoso aqui pela censura sarneyana. Entra as boas razões de sua fama estão The Unbearable Lightness of Being (A Insustentável Leveza do Ser), de 1988, na minha opinião o seu melhor trabalho falando Inglês: história forte e com um grau de erotismo elevadíssimo nas cenas em que ela contracenou com Daniel Day-Lewis. Em 1992 participou de Wuthering Heights (O Morro dos Ventos Uivantes), mas sua boa atuação não chamou tanto a atenção, e de Damage (Perdas e Danos), onde representou cenas lindas de amor quentíssimo com Jeremy Irons -- bem mais velho do que ela e o pai de seu namorado no filme. O filme aqui comentado foi feito em 1995 e sua atuação foi excelente. Mas a consagração em nível mundial veio em 1996 com The English Patient (O Paciente Inglês), que lhe trouxe o Oscar de Melhor Atriz em Papel Principal, e em 2000 com Chocolat (Chocolate), filme que lhe trouxe nova indicação para o Oscar de Melhor Atriz em Papel Principal. Duas indicações e uma vitória nessa prestigiosa categoria do Oscar em menos de cinco anos é algo notável, em especial em se tratando de atriz que não fez carreira nos Estados Unidos e cuja língua principal não é o Inglês - mas, no caso, inteiramente merecido. Eu uma vez disse que Juliette Binoche (como Julianne Moore) não é uma atriz tipicamente bonita pelos padrões de beleza de Hollywood - mas quando interpreta se torna lindíssima. Continuo a achar isso. Olivier Martinez é menos conhecido do que ela, mas ficou famoso com o filme Unfaithful (Infidelidade), de 2002, em que tem um caso bastante quente com Diane Lane, mulher de Richard Gere na história. Não é conhecido fora da França por nenhum outro filme. Mas teve papel destacado no filme aqui comentado. Bonito, é conhecido com o Brad Pitt Francês. Juliette Binoche viveram juntos de 1995 a 1998 -- ou seja, durante três anos, logo depois do filme. Mas volto ao filme mencionado no início - que é uma linda história de amor. Como as mais lindas histórias de amor, é uma história que não dá certo. Dar certo, no caso, significaria que os dois protagonistas terminassem o filme juntos. Ficam separados. O amor surge e cresce entre eles enquanto ela procura o marido, que havia sumido no início da epidemia de cólera e ele a ajuda e protege. Mas o marido reaparece no final do filme e eles não conseguem consumar o amor que havia surgido entre eles. Amores não consumados são sempre tristes e frustrantes. E a história termina nesse tom de desapontamento. Mas o filme vai além da história e filme termina com uma mensagem desesperança na tela dizendo que o marido percebeu, antes dela, que o amor que ela vivera com o amante (amante que foi, sem nunca ter sido) era algo que ela nunca iria esquecer -- e dizendo que, por isso, o marido, generoso e compreensivo, não a impediria de sair um dia ao encontro do amado, se ela assim o desejasse. A audiência, tenho certeza, teria seria sido unânime em aplaudir a decisão, se ela acontecesse. Juliette Binoche não tomou essa decisão dentro dos 135 minutos do filme. Fê-lo, entretanto, na vida real. Durante o caso de três anos dos dois, correram freqüentemente na imprensa sérios boatos de que ela havia ficado grávida dele. Os boatos, evidentemente, não se confirmaram. Mas se tivessem tido um filho, a criança provavelmente teria sido linda, inteligente, forte de personalidade, e talentosa, como ambos são. Um menino, eu diria... Em Salto, 26 de Julho de 2008 Gabrielle AnwarNão sou daqueles que se apaixonam por uma atriz de cinema e se tornam seus devotos incondicionais. Ingrid Bergman e Marilyn Monroe chegaram perto de ser exceções. Mas me apaixono com freqüência por combinações de atriz-papel. Há atrizes lindas e cativantes em um determinado papel -- e horríveis e detestáveis em outros. Quando uma combinação dá certo, é imbatível. Meg Ryan em Sintonia de Amor (Sleepless in Seattle), por exemplo; ou Claire Forlani em Encontro Marcado (Meet Joe Black); ou, então, Rachel Adams, em Diário de Uma Paixão (The Notebook), por exemplo. Sou irremediavelmente apaixonado por essas combinações de atriz-papel. Um outro caso, que quero comentar aqui agora, envolve Gabrielle Anwar. Ela é a atriz que dança o tango Por una Cabeza com Al Pacino em Perfume de Mulher (Scent of a Woman), de 1992. A música -- de Carlos Gardel -- é maravilhosa (é tema musical deste Space quase desde o início) e a cena inesquecível. A maior parte do que torna a cena inesquecível é, naturalmente, o desempenho de Al Pacino. Mas Gabrielle Anwar, convenhamos, é uma coadjuvante perfeita. Linda, doce, com um riso natural cativante, e com um sorriso de desmontar as mais deliberadas resistências, ela ajuda tornar a cena perfeita. A duração da cena é pequena -- logo o babaca do namorado dela vem buscá-la, e nem percebe que ela acaba de viver (como Al Pacino disse ser possível) uma vida inteira num minuto. (Interessante que essas experiências de viver como se fosse uma vida inteira num minuto são vividas, às vezes, na frente de um monte de pessoas que nem percebem que uma incrível intimidade aconteceu diante de seus olhos -- sem que eles vissem. Infelizmente, essas experiências raramente acontecem entre namorados, noivos ou cônjuges. Parece que um toque de ilegitimidade, talvez até mesmo de perigo iminente, seja indispensável para que esses momentos de experiência ou vivência altamente compactada possam acontecer.) Tenho certeza de que adoro a música Por una Cabeza porque me apaixonei por Gabrielle Anwar naqueles cinco minutos (se tanto) de cena. E a vida, através do blog, continua a servir de tema musical para a minha vida. Hoje (26/7/2008) estava com a TV ligada sem finalidade alguma -- só para que ela me fizesse companhia, por assim dizer -- quando começou (às 16h35) um filme: Mergulho numa Paixão (Wild Hearts Can't be Broken), de 1991 -- um ano antes do outro filme. É uma história real -- e também muito linda e triste. E Gabrielle Anwar é a protagonista. Linda e doce novamente. Magnífica atriz. Dulcíssima em seu papel. Diabéticos deveriam ser proibidos de vê-la em cena. A história, em si, é bonita (e, como disse, triste). Mas é uma história de quem define ou escolhe um sonho e um projeto de vida e não mede esforços para torná-lo realidade -- nem quando a sorte parece conspirar contra. O título do filme no original corresponde melhor à natureza da história: Corações Selvagens não Podem ser Domados (a história envolve cavalos -- donde a referência à domesticação -- mas o coração, bem humano, é o dela). Recomendo. Gabrielle Anwar e o filme. Ainda estou com os olhos cheios de lágrima que correram quando da cena final de vitória sobre a adversidade. História real. Vejam os dados técnicos sobre o filme em http://www.imdb.com/title/tt0103262/. Em Salto, 26 de Julho de 2008 2008/4/5 L'amantEis a sinopse do filme com esse nome que fornece a International Movie Data Base (IMDB - http://www.imdb.com): "It is French Colonial Vietnam in 1929. A young French girl from a family that is having some monetary difficulties is returning to boarding school. She is alone on public transportation when she catches the eye of a wealthy Chinese businessman. He offers her a ride into town in the back of his chauffeured sedan, and sparks fly. Can the torrid affair that ensues between them overcome the class restrictions and social mores of that time? Based on the semi-autobiographical novel by Marguerite Duras". Uma outra sinopse, essa em Português (de Portugal), afirma: "Baseado no romance homónimo de Marguerite Duras, que vendeu mais de um milhão de cópias em mais de 43 línguas, esta sofisticada adaptação das suas 'memórias de juventude' transborda de paixão. Com uma interpretação primorosa e uma fotografia admirável, 'O amante' capta de forma brilhante a essência do despertar sexual e do desejo proibido, como nenhum filme o fez até hoje. Jane March é fascinante no papel de uma pobre adolescente francesa que na década de 1920 conhece um importante e abastado diplomata chinês (Tony Leung) durante uma travesia do rio Mekong. Fascinada pela riqueza e elegância dele, a jovem deixa-se levar pela vertigem do amor e os dois envolvem-se numa relação clandestina e tórrida. Mas se os amantes conseguem ultrapassar as diferenças de idade, raça e classe, a sociedade colonial francesa da Indochina jamais permitirá que se ultrapassem as diferenças culturais." (Vide http://www.dvdpt.com/o/o_amante.php). Mais um filme sobre a Indochina -- i.e., Vietnam. Não havia me esquecido dele. Na verdade, quando escrevi sobre Indochine, lembrei-me dele -- mas não tinha certeza de que a história era passada na Indochina. Foi. Tinha a impressão de que a menina estava indo para Shanghai. Não sei de onde saiu isso... L'amant não tem a classe de Catherine Deneuve, mas tem a incrível beleza e total sensualidade de Jane March -- fazendo o papel de uma adolescente -- quando ela msmo, como pessoa e atriz, não era muito mais do que isso. Há quem jure que as cenas de sexo que ela faz com Tony Leung no filme foram reais -- certamente parecem. E o filme, baseado no livro de Marguerite Duras, se não é totalmente autobiográfico, contém inúmeros elementos autobiográficos -- o que o torna mais interessante ainda. Na verdade, se é mesmo autobiografia, e se a gente pode confiar em autobiografias, o enredo da história é a vida da autora. Dois anos depois desse filme, Jane March, talvez alicerçada na reputação de sensualidade que L'amant lhe deu, fez outro papel "quente", desta vez ao lado de Bruce Willis, em Color of night (1994). Em Hanoi, 5 de Abril de 2008 2008/3/30 Que bicho complicado é o ser humano... - 2[A seguir, uma troca de mensagens entre mim e Antonio Morales, na lista LivreMente. A mensagem dele é transcrita na íntegra com sua autorização.] Caro Morales: No mercado, tudo está a venda que os seus proprietários estejam dispostos a vender. A noção de que eu posso vender o meu corpo reafirma a minha propriedade sobre ele. Não fosse ele minha propriedade, não poderia vendê-lo (na realidade, o termo "vender" aqui é inadequado: o certo seria "alugar", porque o/a prostituto/a que "vende" o corpo na realidade apenas o aluga momentaneamente, tão somente cede o direito de uso por alguns instantes). Como liberal, defendo a liberdade de as pessoas se prostituirem porque afirmo o direito de o ser humano dispor do que é seu como melhor lhe aprouver. Reconheço-lhe até mesmo o direito de pôr fim à própria vida. Por que não iria lhe reconhecer o direito de prostituir-se? Quando a gente tem um direito, cabe a cada um de nós decidir se o vai exercer o não. Com o direito, que sustenta a liberdade, vem a responsabilidade. É aí que entra a moralidade. Ela não existe sem responsabilidade que, por sua vez, não existe sem liberdade. Só se vende quem é livre para fazê-lo. Mas, também, só se vende quem, depois de analisar as condições propostas, decide que elas são aceitáveis. Não vejo, Morales, em que o dinheiro atropele a resistência moral. O problema é que a capacidade de as pessoas resistirem, com base em considerações morais, a propostas financeiras como à do filme, é muito pequena. E essa capacidade é pequena porque nossa formação geral, inclusive moral, é fraca, quase ao ponto da nulidade. Você parece preferir, à sociedade liberal, uma em que as pessoas não tenham a liberdade de se vender, de comercializar o próprio corpo. Tudo bem, numa sociedade assim talvez menos pessoas o vendessem -- mas seria por mérito moral maior ou simplesmente por falta de oportunidade? No filme, o dinheiro no fim não ficou com nenhum dos dois -- ambos abriram mão dele. O problema não estava no dinheiro: estava na dificuldade de tomar decisões livres e responsáveis e conviver com elas. Qualquer indivíduo pode, voluntariamente, vender-se ou até mesmo dar-se como escravo, temporária ou permanentemente. Corpo ou alma. Uma passagem do Evangelho me vem à mente: "Não temais aqueles que matam o corpo mas não podem matar a alma", algo assim. De certo modo concordo com o Evangelho: acho a prostituição da alma (embora um direito, como a do corpo) mais moralmente condenável do que a prostituição do corpo. Conheço várias pessoas que voluntariamente venderam sua mente ao Partido Comunista, ou a Marx, ou à Internacional Socialita, ou à Igreja, à TFP, ou seja lá a que outra organização. É um direito seu. Posso lastimar seu julgamento, mas não questiono seu direito. Escravizam-se, voluntariamente, não só os que vendem o seu corpo, mas, também, os que entregam sua alma a terceiros, com ou sem pagamento... Os que deixam a igreja, o partido, ou o equivalente, determinar o que pensam, o que desejam, aquilo pelo que lutam, perdem a própria alma. E a sujeira da alma não se limpa com um simples banho bem tomado. Uns, de mente e moral fraca, não têm a menor dificuldade de vir a pensar, desejar e agir da forma que a igreja, o partido, ou o equivalente determinam. Outros, de mente mais forte, mas de moral fraca, prostituem sua mente ao defender a linha oficial da igreja, do partido, ou do equivalente, SEM ACREDITAR NELA... Outros, de mente e de moral fortes, simplesmente se recusam a prostituir a própria mente: não a vendem, nem mesmo a alugam -- nem, muito menos, dão de graça aquilo que é seu. From: livremente@yahoogrupos.com.br - On Behalf Of Antonio Morales Assisti todos os filmes que relacionou. A temática é interessante. Seu comentário sobre Proposta Indecente é ótimo. Só gostaria de acrescentar um aspecto que foi desprezado por você mas que considero ter bastante relevância. Resguardado o aspecto de que os seres humanos são complexos, o fato é que eles são transformados em mercadoria numa sociedade em que tudo nisso se torna. A resistência moral é atropelada pelo dinheiro e transformada em pó perante ele. Mas, claro, isso não impede que essa miséria moral destrua as pessoas e o relaciomento entre elas. Tanto homens como mulheres podem ses vítimas desse processo, que, claro, os atinge de diferentes maneiras. O que quero dizer que a questão moral é irrelevante para o mundo das mercadorias e suas imposições. Esse é o inferno que é criado todos os dias, com grandes ou pequenos dramas e que nos envolve impiedosamente. antonio morales Em Campinas, 30 de Março de 2008 Que bicho complicado é o ser humano... - 1Apenas ontem à noite (na verdade, hoje de madrugada) assisti ao filme Indecent Proposal (Uma Proposta Indecente), com Demi Moore e Robert Redford. Lançado em 1993, o filme está fazendo quinze anos este ano. Não sei nem por que não havia visto o filme ainda. Talvez até o tenha na minha coleção de DVDs, que tem dezenas e dezenas de filmes não vistos mas em que eu achei que valia a pena investir. De qualquer forma, o filme valeu a pena. Antes de começar a escrever, entrei na minha base de dados favorita: The International Movie Data Base (http://www.imdb.com) para ver detalhes sobre o filme e ler resenhas e comentários. O primeiro comentário que li tem como título “Repugnante” – e a tese é de que o filme é repugnante, por uma série de razões até bem elaboradas. O diretor do filme, Adrian Lyne, também foi diretor de Infidelidade (com Diane Lane e Richard Gere), Lolita (com Swain e Jeremy Irons), feitos depois de Uma Proposta Indecente, e Atração Fatal (com Glenn Close e Michael Douglas) e 9 ½ Semanas de Amor (com Kim Bassinger e Mickey Rourke), feitos antes. Também é o diretor de Flashdance. Com exceção deste, os demais compartilham uma certa fascinação com os aspectos mais complicados da sexualidade humana – em especial com a questão da traição. Vi todos esses filmes – por isso é que não me conformo com não ter visto Uma Proposta Indecente antes. O tema básico da história é a referida proposta, que se considera indecente, feita por um bilionário, representado por Robert Redford, para um casal simples (cuja mulher é representada por Demi Moore – o marido é representado por Woody Harrelson, que é daqueles atores que a gente já viu em vários filmes mas cujo desempenho nunca marcou o suficiente para a gente se lembrar de quais...). O enredo leva os principais envolvidos a uma situação em que Moore diz que nem tudo pode ser comprado. Redford pergunta o que é que não pode, e Moore retruca que as pessoas, por exemplo, não podem ser compradas: seu afeto, seus sentimentos, etc. O cenário está posto para a proposta dita indecente, que primeiro é formulada condicionalmente: “O que vocês diriam se alguém lhes oferecesse um milhão de dólares para poder passar a noite com Diana?” (Diana é a personagem representada por Moore). Ela imediatamente responde: “Eu o mandaria para o inferno”. Redford insiste que não ouviu a resposta do marido ainda. Este diz a mesma coisa. Redford força a barra, afirmando que é fácil dar essa resposta diante de uma proposta hipotética, mas que as coisas podem ser diferentes diante de uma proposta real – e faz a proposta concreta. Ambos insistem que a resposta seria a mesma. Mas ele lhes dá tempo para pensar. (O filme habilmente sugere que Redford não está tão interessado em Moore quanto em refutar a tese de que há coisas que é impossível comprar. Na realidade, está interessado nas duas). À noite, na cama, nenhum dos dois consegue dormir. E resolvem conversar sobre a proposta. Argumentos vão e vêm entre os dois. É uma noite só, que, terminada, se encerra ali, não implica outros compromissos. Não se exige, por exemplo, envolvimento da mente nem do coração – só do corpo... E o corpo se lava depois e fica pronto para outra. O milhão de dólares, por outro lado, fica, e pode mudar suas vidas para sempre. Ele pergunta a ela se ela está interessada em aceitar a proposta. Ela responde que não está interessada, mas que a aceitaria – por ele, não por ela... Com o dinheiro eles poderiam comprar a casa que queriam, ele poderia se dedicar a fazer aquilo que realmente gosta de fazer (arquitetura), etc. A conversa progride. Concordam que, se a proposta for aceita, o acontecimento deve ser varrido da memória para sempre: nunca deverá ser mencionado, muito menos discutido. Terá de ser algo sobre o qual se passa uma borracha por inteiro. Conclusão da noite insone: a proposta foi aceita. Não há maiores detalhes sobre a noite dos dois. O filme sabiamente passa por cima dos pequenos detalhes que poderiam parecer irresistíveis a um diretor menos competente. Moore é levada de helicóptero para um iate lindíssimo. Há breves diálogos. Ela está série, distante – e ele lhe assegura de que ela não deve ter medo, pois ele não a obrigará fazer nada que não queira... Na cena seguinte ela está sendo “devolvida” para o marido. Quem quebra primeiro é ele, o marido, não ela. Ele começa a se torturar. Será que ela está pensando nele? O que será que realmente fizeram, como andaram as coisas? Será que foi bom? Ah, o ser humano, que bicho complicado somos. Em teoria, antes do fait accompli, tudo parecia simples: seria só uma noite de sexo, envolvendo apenas o corpo, sem que a mente e o coração participassem... Depois, apagar-se-ia tudo da memória, esquecer-se-ia tudo. Só ficaria o milhão de dólares. Mas quem diz que esquecer é fácil, que se trata simplesmente de decidir esquecer e, pronto, está tudo esquecido? Se assim fosse, o perdão não seria necessário – porque para o esquecido não é necessário perdão: este é necessário para aquilo que, sem se esquecer, resolveu-se relevar, em função, quem sabe, de um bem supostamente maior. Ao chegar em casa e constatar que a mulher está desligando o telefone, o marido imediatamente suspeita que ele estivesse falando com o bilionário, que continue mantendo contato com ele... O que antes não passava pela cabeça do marido – vasculhar a bolsa da mulher – agora é uma tentação. Da suspeita se passa para a desconfiança. E, no fundo, a insegurança alimenta tudo. Será que foi bom para ela, será que ela não gostaria de repetir a dose, agora sem milhão de dólares, sem nada? Será que não está repetindo neste exato momento? Inferno, inferno puro. Parecia tudo tão simples, mas tudo se tornou tão complicado... A mente humana, disse alguém, é o órgão sexual mais importante que temos... Para o homem, em especial. Uma mulher, imagina-se, pode dar um razoável prazer ao homem mesmo sem a participação de sua mente. Mas o homem, sem a efetiva participação de sua mente, nem funciona sexualmente, torna-se incapaz de dar prazer à mulher – ou de senti-lo, ele próprio. Mais do que isso: o sexo é, na realidade, uma atividade que, tanto para o homem como para a mulher, nunca é simplesmente corporal, algo puramente animal, que se pode ter, e depois esquecer, com a mesma naturalidade que se come um sanduíche e, saciada a fome, se esquece do que se comeu. Mas quando pretendemos não sê-lo, somos mais do que meros animais. Somos seres que se lembram, que imaginam coisas que não aconteceram mas poderiam ter acontecido, que se encucam não só com o real mas também com o imaginado, para quem, às vezes, o imaginado se torna mais importante do que o real – porque a realidade que a mente constrói não se deixa facilmente desmentir pelos fatos, visto que os fatos nunca são apenas fatos: eles são fatos em contexto, no bojo de um complexo de idéias... o ser humano é um bicho complicado exatamente por não ser (apenas) bicho... Volto à perspectiva masculina, que é a privilegiada no filme. Na realidade, o leitor (ou será a leitora?) que considerou o filme repugnante sugere que o diretor parece achar que a traição pela mulher é fácil, visto que, no filme, Moore aparentemente não fica angustiada: é o marido que desaba, ele que não fez nada, a não ser consentir... “O diretor parece sugerir que é mais fácil ser quem tem o corpo vendido do que ser aquele que agencia” – é o comentário. O problema é que a perspectiva masculina aqui é essencial. Para a mulher, a proposta é uma evidência cabal de que ela é desejada e, portanto, valorizada. Aceitá-la, em si, não parece tão complicado. Para o homem, porém, a aceitação da proposta implica não só a idéia de que ele acabou de vender a mulher por uma soma de dinheiro, mas, também, a dúvida de que ela pode ter gostado, pode ter sentido prazer, pode ter achado o outro melhor do que ele próprio... Se a proposta valoriza a mulher, ela desvaloriza o marido, especialmente em seus próprios olhos. Na verdade, ela o destrói. Tudo isso muito interessante. A temática, como é óbvio, me atrai. No livro The Fountainhead, de Ayn Rand (A Nascente, em Português), Dominique Francon, num dado momento casada com Peter Keating, que ela drespreza, decide vender seu corpo a Gail Wynand, também um milionário, em troca de um contrato para o marido que ele despreza. A decisão de Dominique, no livro, representa uma tentativa (de resto fútil) de acabar com a própria auto-estima. Mas o marido tem de concordar – e, como no filme, concorda. Também, como no filme, o negócio destrói o marido, não ela (nem aquele a quem ela se vendeu). Vale a pena comparar o tratamento dado ao problema por Ayn Rand. Em Campinas, 31 de março de 2008 2008/2/26 Os oitenta anos do OscarAbaixo, os oitenta melhores filmes, os melhores atores e as melhores atrizes, desde 1928. Oitenta filmes -- e mais de oitenta atores e atrizes, porque nestes dois casos houve empates. Quanto aos melhores filmes, gostaria de destacar meus quatro "all time favorites" (tenho outros "all time favorites", mas não ganharam o Oscar): 1939: Gone with the Wind (E o Vento Levou) Quanto aos atores e atrizes, houve mais atrizes que ganharam mais de um prêmio -- com Katharine Hepburn ganhando o absurdo de quatro! Houve ocasiões em que um ator ganhou o prêmio "back to back" -- dois anos seguidos. Spencer Tracy e Tom Hanks, por exemplo, entre os melhores atores, e Katharine Hepburn, entre as melhores atrizes. Houve prêmios recusados: George C. Scott e Marlon Brando (neste caso, o segundo dele). Desde 1968 venho acompanhando os Oscars regularmente. Em Agosto do ano anterior fui estudar nos Estados Unidos e, no início do ano seguinte, assisti ao meu primeiro Oscar na televisão. Faz quarenta anos este ano. Como o Oscar comemora oitenta, eu tive o privilégio de assistir à metade deles. Em 1968 o melhor filme foi In the Heat of the Night, com Sidney Poitier e Rod Steiger. O filme aparece abaixo com a data de 1967 porque foi lançado nesse ano. Mas o prêmio foi entregue no início de 1968. Rod Steiger foi premiado como o Melhor Ator por esse filme e Katharine Hepburn foi premiada como Melhor Atriz pelo filme "Guess Who's Coming to Dinner", também com Sidney Poitier. Lembro-me das imagens daquele dia como se fosse hoje. Aqui estão os premiados nesses últimos oitenta anos:
1928 (1st) 1929 (2nd) 1930 (3rd) 1931 (4th) 1932 (5th) 1933 (6th) 1934 (7th) 1935 (8th) 1936 (9th) 1937 (10th) 1938 (11th) 1939 (12th) 1940 (13th) 1941 (14th) 1942 (15th) 1943 (16th) 1944 (17th) 1945 (18th) 1946 (19th) 1947 (20th) 1948 (21st) 1949 (22nd) 1950 (23rd) 1951 (24th) 1952 (25th) 1953 (26th) 1954 (27th) 1955 (28th) 1956 (29th) 1957 (30th) 1958 (31st) 1959 (32nd) 1960 (33rd) 1961 (34th) 1962 (35th) 1963 (36th) 1964 (37th) 1965 (38th) 1966 (39th) 1967 (40th) 1968 (41st) 1969 (42nd) 1970 (43rd) 1971 (44th) 1972 (45th) 1973 (46th) 1974 (47th) 1975 (48th) 1976 (49th) 1977 (50th) 1978 (51st) 1979 (52nd) 1980 (53rd) 1981 (54th) 1982 (55th) 1983 (56th) 1984 (57th) 1985 (58th) 1986 (59th) 1987 (60th) 1988 (61st) 1989 (62nd) 1990 (63rd) 1991 (64th) 1992 (65th) 1993 (66th) 1994 (67th) 1995 (68th) 1996 (69th) 1997 (70th) 1998 (71st) 1999 (72nd) 2000 (73rd) 2001 (74th) 2002 (75th) 2003 (76th) 2004 (77th) 2005 (78th) 2006 (79th) 2007 (80th)
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1928 (1st) 1929 (2nd) 1930 (3rd) 1931 (4th) 1932 (5th) 1933 (6th) 1934 (7th) 1935 (8th) 1936 (9th) 1937 (10th) 1938 (11th) 1939 (12th) 1940 (13th) 1941 (14th) 1942 (15th) 1943 (16th) 1944 (17th) 1945 (18th) 1946 (19th) 1947 (20th) 1948 (21st) 1949 (22nd) 1950 (23rd) 1951 (24th) 1952 (25th) 1953 (26th) 1954 (27th) 1955 (28th) 1956 (29th) 1957 (30th) 1958 (31st) 1959 (32nd) 1960 (33rd) 1961 (34th) 1962 (35th) 1963 (36th) 1964 (37th) 1965 (38th) 1966 (39th) 1967 (40th) 1968 (41st) (Empate) 1969 (42nd) 1970 (43rd) 1971 (44th) 1972 (45th) 1973 (46th) 1974 (47th) 1975 (48th) 1976 (49th) 1977 (50th) 1978 (51st) 1979 (52nd) 1980 (53rd) 1981 (54th) 1982 (55th) 1983 (56th) 1984 (57th) 1985 (58th) 1986 (59th) 1987 (60th) 1988 (61st) 1989 (62nd) 1990 (63rd) 1991 (64th) 1992 (65th) 1993 (66th) 1994 (67th) 1995 (68th) 1996 (69th) 1997 (70th) 1998 (71st) 1999 (72nd) 2000 (73rd) 2001 (74th) 2002 (75th) 2003 (76th) 2004 (77th) 2005 (78th) 2006 (79th) 2007 (80th) Dados retirados do banco de dados encontrado em http://awardsdatabase.oscars.org/ampas_awards/DisplayMain.jsp?curTime=1203990866445 Em Campinas, 26 de Fevereiro de 2008 2008/2/25 Oscar NightHoje, 24 de Fevereiro, é Dia do Oscar -- Oscar Night, para ser mais preciso. Estou aqui postado diante da televisão com minha lista de indicados, por categoria. A encheção de lingüiça que precede a cerimônia é quase insuportável. Não agüento ver a cerimônia com uma tradutora impedindo a gente de ouvir o som original. Por isso estou sozinho aqui na Sala de TV, onde coloco o SAP a funcionar e ouço o som original. Mas a encheção de lingüiça é a mesma. A cerimônia terá início às 22h30, horário aqui de Campinas, 20h30, horário de New York, 17h30, horário de Los Angeles, onde a coisa acontece. Ou seja: daqui a um pouco mais de cinco minutos. Vou ficar com o notebook ligado, para fazer comentários aqui e ali. Para maiores informações: http://www.oscar.com Estou torcendo para Atonement / Desejo e Reparação, para melhor filme, Jason Reitman, para melhor diretor (Juno / Juno), Daniel Day-Lewis, para melhor ator, por seu desempenho em There Will be Blood / Sangue Negro, Marion Cotillard, para melhor atriz, por seu magnífico papel em La Vie en Rose / Piaf - Um Hino ao Amor, Tom Wilkinson, para melhor ator coadjuvante, em Michael Clayton / Conduta de Risco, Saoirse Ronan, para melhor atriz coadjuvante (Atonement / Desejo e Reparação). Vamos ver se acerto alguma coisa. Gostei de La Vie en Rose / Piaf - Um Hino ao Amor ter ganho o Oscar de Maquiagem. O que eles fizeram com o rosto de Marion Cotillard para fazê-la parecida com Piaf foi fantástico. Errei o Melhor Ator Coadjuvante. Deu Javier Bardem, pelo seu papel em No Country for Old Man / Onde os Fracos não Têm Vez. Errei de novo, agora a Melhor Atriz Coadjuvante. A escolhida foi Tilda Swinton, por seu trabalho em Michael Clayton / Conduta de Risco. Finalmente acertei um: Marion Cotillard, por sua representação de Edith Piaf em La Vie en Rose / Piaf - Um Hino ao Amor. Beleza pura. Não acertei mais nada. Joel Coen e Ethan Coen ganharam o prêmio de melhor direção por No Country for Old Man / Onde os Fracos não Têm Vez e este filme também ganhou como melhor filme, tornando-se o grande ganhador da noite, com quatro prêmios. Infelizmente, Atonement / Desejo e Reparação só ganhou um Oscar, pela trilha sonora. Em Campinas, já 25 de Fevereiro de 2008. 2008/1/22 Os indicados para o Oscar 2008Desejo e Reparação (Atonement) foi indicado para sete Oscars: Melhor filme Senti que Keira Knightley e Vanessa Redgrave não tenham sido indicadas para Melhor atriz e Melhor atriz coadjuvante, respectivamente, também. Mereciam. A participação de Vanessa Redgrave, embora pequena, foi magistral. Mas a menina adolescente representa bem o filme como atriz coadjuvante, embora seja um personagem antipático. Dois filmes receberam mais indicações (oito) do que Desejo e Reparação (Atonement): Onde os Fracos não Têm Vez (No Country for Old Men) e Sangue Negro (There will be no Blood). O filme brasileiro indicado (O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias) ficou de fora. Abaixo a lista completa dos indicados, em Português e em Inglês. Vejamos no que dá. http://cinema.uol.com.br/ultnot/2008/01/22/ult4332u621.jhtm Filme "Desejo e Reparação" Diretor Julian Schnabel, "O Escafandro e a Borboleta" Ator George Clooney, "Conduta de Risco" Atriz Cate Blanchett, "Elizabeth: A Era de Ouro" Ator coadjuvante Casey Affleck, "O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford" Atriz coadjuvante Cate Blanchett, "Não Estou Lá" Filme estrangeiro "Beaufort" (Israel) Filme de animação "Persépolis" Roteiro original Diablo Cody, "Juno" Roteiro adaptado Christopher Hampton, "Desejo e Reparação" Fotografia "O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford" Montagem "O Ultimato Bourne" Direção de arte "O Gângster" Figurino "Across the Universe" Maquiagem "Piaf - Um Hino ao Amor" Edição de som "O Ultimato Bourne" Efeitos sonoros "O Ultimato Bourne" Efeitos visuais "A Bússola de Ouro" Documentário "No End in Sight" Documentário de curta-metragem "Freeheld" Trilha sonora original "Desejo e Reparação" Canção original "Falling Slowly" ("Once") Curta-metragem "At Night" Curta-metragem de animação "I Met the Walrus"
http://a.oscar.abc.com/media/2008/html/printer.html Performance by an actor in a leading role Performance by an actor in a supporting role Performance by an actress in a leading role Performance by an actress in a supporting role Best animated feature film of the year Achievement in art direction Achievement in cinematography Achievement in costume design Achievement in directing Best documentary feature Best documentary short subject Achievement in film editing Best foreign language film of the year Achievement in makeup Achievement in music written for motion pictures (Original score) Achievement in music written for motion pictures (Original song) Best motion picture of the year Best animated short film Best live action short film Achievement in sound editing Achievement in sound mixing Achievement in visual effects Adapted screenplay Original screenplay Em Seoul, 23 de Janeiro de 2008 2007/7/26 The Man in the MoonThe Man in the Moon (1991) é um filme lindo. É dirigido por Robert Mulligan, que também dirigiu, vinte anos antes, o também lindo Summer of 42 (1971), com a maravilhosa Jennifer O'Neill como Dorothy. Talvez The Man in the Moon fique conhecido por ter sido o primeiro filme de Rheese Witherspoon, que em 2006 ganhou o Oscar de Melhor Atriz pelo seu papel em Walking the Line, a biografia de Johnny Cash e June Carter. Em The Man in the Moon Rheese, então com 14 anos, faz o papel de Dani, uma adolescente linda e apaixonada, primeiro pelo amor, depois pelo rapazinho que aparece nas vizinhanças do sítio em que ela morava. Antes e depois de conhecer Court, Dani ficava horas e horas ouvindo Loving You, com Elvis Presley -- talvez a balada mais linda que o grande cantor jamais gravou (e olhem que ele gravou várias, inclusive Love me Tender). Não vou contar a história toda. É uma história dolorida sobre o processo de crescimento. Para mim, esse filme sempre foi especial. Mas achava que os críticos poderiam achá-lo meio piegas, adocicado, meloso. Fiquei surpreso, portanto, ao encontrar a resenha que transcrevo abaixo, de Roger Ebert, publicada logo depois do lançamento do filme. Ele conseguiu colocar em palavras um monte de coisas que eu sentia mas não havia conseguido descrever. Em Campinas, 26 de Julho de 2007 ---------------------- The Man in the Moon BY ROGER EBERT / October 4, 1991 When this movie was over, I sat quietly for a moment so that I could feel the arc of its story being completed in my mind. They had done it: They had found a way all the way from the beginning to the end of this material, which is so fraught with peril, and never stepped wrong, not even at the end, when everything could have come tumbling down. "The Man in the Moon" is a wonderful movie, but it is more than that, it is a victory of tone and mood. It is like a poem. The film takes place on a farm outside a small country town, in the 1950s. Two teenage girls are being raised by parents who are strict, but who are also loving and good. One of the girls, Dani, is 14 years old and has just passed uncertainly into young womanhood. Her sister, Maureen, is about 17. On hot summer nights they sleep on the screened-in porch and have girl talks, and Dani laments that she will never be as beautiful and popular as her sister. Of course all kid sisters feel that way. A widow moves onto the farm next door with her son, Court, who is about 17. One day he happens upon Dani down at the swimming hole. They fight at first, but then they make up and become friends. Dani of course develops an enormous crush on this boy, and for a day or two he seems to feel the same emotions she does. Dani asks Maureen how to kiss, and Maureen gives her lessons. She "practices" on her hand. Then Court kisses her, and she confesses it was the first time she has ever been kissed by a boy. "How was it?" he asks. "Perfect," she says. The moment is perfect, too, but there is an even better one, when she tells him, "I want to know what your hopes are." This isn't just a movie about teenage romance, it's a movie about idealism - about how we idealize what and who we love - and a movie about the meaning of life. Yes, the Meaning of Life, which is a topic teenagers discuss a good deal as their insides churn with hope and doubt, and which adults discuss less and less, the more they could benefit from it. The way the scenes between Dani and Court are handled is typical of the entire movie, which takes material we may have seen many times before, and makes it true and fresh. Maybe it is because of the acting - Reese Witherspoon as Dani, here, and Jason London as Court, do justice to the slightest nuance of the scene. Maybe it is the direction, by Robert Mulligan, whose long career includes another fine movie about a young girl, "To Kill a Mockingbird." Or maybe it is because everyone involved with the film knew that the script, by Jenny Wingfield, was not going to sell out at the end, was not going to contrive an artificial ending, or go for false sentiment, or do anything other that exactly what the material cries out for. There are some complications surrounding that "perfect" kiss. One of them is that the girls' mother (Tess Harper) is in the last weeks of pregnancy. Another is that the older sister has just has a particularly nasty date with a crude local boy. Another is that their father (Sam Waterston) is fairly strict - not because he is mean, but because he loves them. Another, inevitably and painfully, is that when Court sees the older girl, he forgets about the kid sister with whom he shared the perfect kiss. Life is so direct sometimes in the way it hurts us - and the younger we are, the more universal the hurt. Now something happens in the story that I cannot tell. It must catch you unprepared. And then the magnificent concluding passages of this film are about how deeply one can be hurt, how hard it is to forgive, how impossible it is to share the deepest feelings. "The Man in the Moon" is like a great short story, one of those masterpieces of language and mood where not one word is wrong, or unnecessary. It flows so smoothly from start to finish that it hardly even seems like an ordinary film. Usually I am aware of the screenwriter putting in obligatory scenes. I can hear the machinery grinding. Not this time. Although, in retrospect, I can see how carefully the plot was put together, how meticulously each event was prepared for, as I watched the film I was only aware of life passing by. Of the performances, it is enough to say that each one creates a character that could not be improved on. Tess Harper and Sam Waterston are convincing parents here; they aren't simply stick figures in a plot, used only to move events along, but people we believe could really have raised these girls. There is a moment when Waterson hugs his youngest girl, and the way it arrives and the way it plays are heartbreakingly touching. There is a moment when Harper intuits something about her older girl, and the way she acts on her intuition is so tactful we feel she is giving the girl a lesson on how to be a mother. And Gail Strickland, as the boy's mother, creates moments that are as difficult as they are true. Robert Mulligan is a director whose titles range from "Inside Daisy Clover" to "Blood Brothers" to "The Other." He made "Summer of '42," also the story of the intensity of young love, and his "Same Time, Next Year" and "Clara's Heart" were also, in a way, about how time and age affect romance. Although his work is uneven, he has always been a serious and sincere artist - both in the early days of the partnership with Alan J. Pakula that produced "Mockingbird," and since. Nothing else he has done, however, approaches the purity and perfection of "The Man in the Moon." As the film approached its conclusion without having stepped wrong once, I wondered whether he could do it - whether he could maintain the poetic, bittersweet tone, and avoid the sentimentalism and cheap emotion that could have destroyed this story. Would he maintain the integrity of this material? He would, and he does. http://rogerebert.suntimes.com/apps/pbcs.dll/article?AID=/19911004/REVIEWS/110040304/1023 ------------------------------ 2007/2/21 Meet Joe Black -- ou Komm, süsser TodDavid Hume, filósofo escocês do século XVIII, sobre o qual escrevi minha tese de doutoramento, escreveu uma vez um ensaio sobre milagres, em que (entre outras coisas) estabeleceu uma distinção entre eventos miraculosos (miracula) e eventos maravilhosos (mirabilia). Estes são eventos que raramente acontecem - mas que encontram, em nossa experiência pessoal, alguns exemplos. Se alguém que estava seriamente doente de repente sara, isso é, segundo Hume, um evento maravilhoso. Embora não com freqüência, a maior parte de nós já viu isso acontecer. Se, entretanto, alguém que estava morto e enterrado há três dias volta à nossa convivência, isso seria, segundo Hume, um milagre. Nenhum de nós (garante ele) jamais viu isso acontecer. Assim sendo, o evento, se acontecesse, contrariaria toda a nossa experiência pessoal - o que comprovaria o seu caráter miraculoso. A questão principal a que se dedica o ensaio de Hume é se relatos de eventos miraculosos -- o fato de serem relatos pressupõe que nós mesmos não os presenciamos -- são críveis ou devem ser sumariamente desconsiderados. A resposta dele é que devem ser sumariamente desconsiderados. A única hipótese em que ele se dispõe a acreditar que um milagre relatado de fato aconteceu é se a possibilidade de que quem relatou estivesse enganado ou tentando enganar fosse ainda mais miraculosa do que o fato relatado. Mas não vou entrar nessa questão. Fiz esse preâmbulo todo para dizer que geralmente não gosto de livros ou filmes que tratam de eventos miraculosos ou mesmo maravilhosos (na acepção Humeana). A exceção é Encontro Marcado (Meet Joe Black - 1998, direção impecável de Martin Brest), com Brad Pitt (no papel de Joe Black, a Morte), o incomparável Anthony Hopkins (no papel do empresário Bill Parrish) e uma das figuras femininas mais doces da tela: Claire Forlani (no papel de Susan Parrish). O restante dos atores está bem lançado mas tem papel claramente subsidiário. O filme começa com duas momentos bem construídos. No primeiro, Brad Pitt encontra Claire Forlani numa lanchonete. Parece um caso daqueles em que, num primeiro encontro, um raio fulmina os dois e os deixa fascinados um pelo outro. Mas eles se separam e, sem que ela saiba, ele é atropelado ao virar para trás no meio da rua para verificar se ela está olhando para ele. Atropelado e morto. No segundo, Anthony Hopkins tem um infarto e é confrontado pela Morte - já encarnada em (no corpo de) Brad Pitt. Desejoso de aprender um pouco mais sobre a vida, a Morte tinha de assumir um corpo humano, e por isso assumiu o corpo do rapaz que havia morrido atropelado mais cedo no dia. Como seu guia e mentor, a Morte escolheu o infartante Anthony Hopkins e lhe propôs um acordo: postergaria a sua morte enquanto ela, Morte, conseguisse aprender e se divertir como ser humano - tarefas de que Anthony Hopkins, que havia vivido uma vida boa e bem sucedida (iria completar 65 anos em poucos dias), teria de se desincumbir. Quando decidisse que era a hora de levar Anthony Hopkins, não haveria discussão. Anthony Hopkins fechou o acordo - a alternativa seria morrer incontinenti. Brad Pitt recebe o codinome de Joe Black a partir daquele momento e segue Anthony Hopkins para casa, onde é apresentado à família. O romance de Brad Pitt com a deslumbrante Claire Forlani, iniciado na lanchonete, quando o dono do corpo agora ocupado pela Morte ainda estava vivo, é inevitável. Mas toda a platéia, e, certamente, os dois protagonistas masculinos, sabem que o romance não tem futuro. Claire Forlani, naturalmente, não o sabe. É essa a história. Como se vê, é uma história que envolve componentes no mínimo maravilhosos, na conceituação de Hume. Mas eu não me canso de ver o filme. Procurei fazer um pouco de auto-análise para entender por quê, e cheguei a duas principais razões: Primeiro, porque assisti ao filme pela primeira vez logo depois de eu próprio ter tido um infarto. Há, portanto, um paralelo importante e vital (mortal?) entre a figura representada por Anthony Hopkins e eu: ambos estamos vivendo em tempo discricionariamente concedido (não me perguntem por quem) - uma prorrogação da duração normal do jogo, que já devia ter-se encerrado. Faz uma diferença enorme viver, digamos, de pleno direito, dentro dos noventa minutos, e viver em um tempo prorrogado, que pode durar mais ou menos, dependendo do arbítrio de um juiz que, na vida real, diferentemente do filme, a gente não encontra... Segundo, Anthony Hopkins tem um relacionamento especial com a filha mais nova. É paixão de pai para filha - paixão correspondida. A preferência paterna pela caçula é impossível de esconder ou disfarçar - e ele não consegue nega-la para a filha mais velha, quando esta o confronta e lhe diz que o ama, mesmo sabendo de sua preferência pela outra filha. "Não faço questão de ser sua favorita", diz ela ao pai, "porque o importante para mim é que você é o meu favorito"... Os olhos dele se enchem de lágrimas (como os meus, aqui, relatando...) mas ele corajosamente não contesta a afirmação. Qualquer homem mais fraco sucumbiria à tentação de afirmar o igualitarismo naquela situação - não o personagem de Anthony Hopkins. Gosto de vivenciar (ainda que vicariamente) essas questões em que as pessoas não mascaram a realidade em nome de supostos ideais, mas a enfrentam, corajosamente, cara-a-cara, sustentando aquilo que pensam, que sentem, que são, por mais politicamente incorreto que isso possa parecer. Por essas duas razões, e por uma série de outros detalhes, gosto muito do filme, a despeito de seu fundo maravilhoso ou até meio miraculoso. A prova de que o filme é bem feito está no fato de que eu me identifico com a paixão que Anthony Hopkins tem pela filha - não com o amor que Brad Pitt sente por Claire Forlani, amor esse que, ao final, quando Joe Black deixa de existir, virando novamente a Morte, agora não tão sinistra, mas até doce, faz a Morte ressuscitar o rapaz do qual havia roubado o corpo no início -- e isso para não deixar a sua amada sozinha... A morte de Bill Parrish no filme foi doce. Faz lembrar uma ária de Bach: "Komm, süsser Tod"... Em Campinas, 21 de fevereiro de 2007 2006/8/28 Emoção e razão na arteCláudio Minetto, meu amigo e irmão, levanta a questão do papel da emoção e da razão em nossa avaliação de obras de arte, especialmente romances e filmes. O que é que nos faz gostar de uma obra de arte: é seu apelo às nossas emoções ou à nossa razão. Essa é, nesse caso, uma falsa dicotomia. Eu defendo uma teoria meio racionalista das emoções. Emoções não são reaçoes, positivas ou negativas, de alguma faculdade autônoma que temos e que nos faz sentir uma coisa ou outra, de uma forma arbitrária. Nossas emoções são sentimentos que temos diante de determinadas coisas ou de determinados acontecimentos, mas esses sentimentos não são arbitrários: eles decorrem de nosso sentido da vida ("sense of life"), de nossos valores, de nosso sentido do que é próprio e certo. E nada disso é independente de nossa razão -- pelo contrário.
Assim, quando nos sentimos emocionados (de forma positiva) ao assistir a Scent of a Woman ou The Bridges of Madison County, o que está acontecendo é a nossa emoção respondendo ao nosso sentido de que é assim que as coisas deveriam ser -- embora infelizmente raramente o sejam. E essa percepção, na qual se baseia o nosso sentimento, é racional, não arbitrária.
Ayn Rand e Mário Vargas Llosa compartilham, até certo ponto, uma visão da arte, segundo a qual (parafraseando Rand) a arte é a nossa tentativa de recriar a realidade (i.e., inventar uma realidade) segundo nosso "sense of life", nosso sentido de realidade, nossos valores mais básicos. Falando especificamente da literatura, Vargas Llosa diz que ela consiste de mentiras que inventamos para dizer verdades que, no mundo em que vivemos, não têm correspondência com a realidade.
Em Campinas, 28 de agosto de 2006 A questão da arte "engagée" e "partisanne"Em resposta a alguns dos comentários, vou tentar esclarecer um pouco o que estava na minha cabeça ao fazer a observação que o Antonio Morales cita, a saber: "Discordo dos críticos que afirmam que o cinema e a literatura desengajados politicamente, 'inorgânicos', alienam, quando eles assumem que essa alienação é ruim. Eu acho que sem ela a vida seria muito mais pobre e muito mais difícil de viver". Note-se que eu disse: "Discordo dos críticos que afirmam que o cinema e a literatura desengajados politicamente, alienam" Esse enunciado citado claramente não é um enunciado artístico (literário) -- enunciado, digamos, de primeira ordem lógica. Nem é um enunciado metaliterário, como os que fazem os críticos de arte, isto é, um enunciado, de segunda ordem lógica, sobre obras de arte, em geral, e a literatura, em particular. O enunciado é de terceira ordem lógica. Seu objeto não é a obra de arte, mas, sim, o que dizem os críticos de arte sobre as obras de arte. Essa terceira ordem lógica é o domínio da filosofia: no caso, da filosofia da arte -- um ramo da filosofia que alguns chamam de estética. Não tenho maiores problemas com quem faz arte "engagée", "partisanne", etc. Pelo contrário. Adoro os romances de Ayn Rand , que, no meu julgamento, estão entre as melhores obras de ficção jamais produzidos pela literatura universal. No entanto, dificilmente vai haver uma literatura mais "engagée" e "partisanne" do que a dela (engajada e tomando partido em favor da liberdade individual e do liberalismo mais radical do século XX). Também não tenho maiores problemas com críticos literários que avaliam esse tipo de arte, quer eles a elogiem, quer eles a critiquem, por qualquer razão que hajam por bem invocar. Tenho sérios problemas, entretanto, com quem defende uma filosofia da arte que afirma, por razões puramente ideológicas, que a literatura (ou a arte) não "engagée" e "partisanne" -- leia-se: não engajada e partidária em geralmente em favor do comunismo ou do socialismo, ou da revolução social, ou do igualitarismo, etc. -- é "alienante". Esses filósofos da arte, se confrontados com uma literatura como a de Ayn Rand, que certamente é "engagée" e "partisanne", questionariam o engajamento e a tomada de posição dela, afirmando que engajamento e tomada de posição "do lado errado" não contam... -- assim mostrando que o que criticam não é a falta de engajamento e de tomada de posição, mas a ausência de um engajamento e de uma tomada de posição que eles favorecem e privilegiam. Ao mesmo tempo em que gosto de uma literatura como a de Ayn Rand, engajada e compromissada com a causa liberal, nunca defendi a tese de que toda literatura, ou toda arte, deva necessariamente ser engajada e comprometida para ser boa. De modo algum. Muita arte "engagée" e "partisanne" eu acho um lixo. E, por outro lado, há arte, como a manifestada nos filmes Scent of a Woman e The Bridges of Madison County, que não é "engagée" e "partisanne" em nenhum sentido válido desses dois termos. Esses filmes lidam com problemas humanos, com problemas da condição humana, como diria André Malraux, sem dúvida alguma -- mas são, em grande medida, problemas pessoais, individuais, não algo que se pudesse qualificar de problema social, quanto mais político. Há, num e noutro filme, leves pinceladas de crítica social, ou melhor, crítica dos costumes (quando, por exemplo, em Scent of a Woman, se ridiculariza as escolas privadas americanas que tentam imitar as britânicas, ou, em The Bridges of Madison County, se ridiculariza a bibilhotagem e a fofoquice da sociedade rural de Iowa). Mas isso não permite qualificar os filmes como exemplos de engajamento e comprometimento com causas políticas. No entanto, apesar dessa sua natureza totalmente a-política, os dois filmes são geniais, enquanto arte. Espero que isso esclareça o que eu penso. Em Campinas, já em 28 de agosto de 2006 |
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